Globo com caixas de exportação

No último texto sobre o tema de aumento dos combustíveis, falamos sobre como os preços de produtos internacionais (no caso, o petróleo) podem influenciar questões da economia de um país. As políticas comerciais do governo, os custos das empresas que trabalham com bens e serviços do exterior e o custo de vida da própria população podem ser afetados diretamente pela dinâmica do comércio internacional.

Hoje vamos falar mais sobre como o comércio internacional pode afetar de forma direta a qualidade de vida das pessoas, tomando como exemplo algumas medidas de redução de tarifas de produtos importados que o governo pretende adotar, em breve, em alguns setores da economia brasileira.

Antes de entrarmos nessa análise, vamos falar de forma simples e resumida sobre alguns conceitos, para entendermos as variáveis em jogo que afetam nossa qualidade de vida quando interagimos com outros países por meio do comércio. Após essa introdução, estaremos em condições de entender de forma mais clara as reações de setores da economia contemplados pelas políticas de governo. 

Vamos imaginar, por exemplo, o mercado de um produto consumido por todos: o arroz. Para simplificar, imagine que o mercado interno de arroz é composto por muitos produtores e consumidores. A interação entre todos eles cria um mercado de compra e venda de arroz, e é o resultado dessa interação que estabelece o preço desse produto – chamado preço de mercado. Em resumo, o preço do arroz que vemos nas prateleiras do supermercado é o resultado da interação entre milhares de compradores e vendedores de arroz. E é esse preço que determinará quem poderá participar do mercado de compra e venda de arroz. Ou seja, somente o consumidor que tiver dinheiro para comprar o arroz ao preço estabelecido e somente o produtor que puder vender o produto a esse mesmo preço participarão desse mercado, respectivamente, como demandantes e ofertantes desse produto.

Desse modo, podemos representar um modelo dessa interação, por meio da curva de demanda(todos os consumidores) e de oferta(todos os produtores), que estabelecem o preço e a quantidade de equilíbrio para todos no mercado de arroz:

Gráfico sobre preço de equilíbrio do arroz

Nesse exemplo, o equilíbrio no mercado de arroz se dá ao preço de 12 reais à quantidade de 5 toneladas de arroz. A curva de demanda(consumidores) é inclinada para baixo, pois quanto menor o preço, maior o consumo; a curva de oferta(produtores) é inclinada para cima, pois quanto maior o preço, maior o incentivo para vender.

Esse é o mercado interno de arroz. Agora vamos imaginar que o governo resolva abrir o mercado de arroz para a concorrência internacional. Com a abertura do mercado, ocorrem duas coisas:

1-o Brasil pode virar importador ou exportador de arroz. O que determinará isso será a comparação entre os preços no momento da abertura.

Se o preço interno for menor que o internacional, seremos exportadores de arroz, pois seremos competitivos podendo vender a mesma quantidade a preços menores. Já se o preço interno for maior que o preço internacional, vamos ser importadores desse produto, pois os produtores internacionais venderão arroz a preços menores para nós, fazendo com que os consumidores optem por comprar o arroz vindo de fora.

2-a interação com o mercado internacional e com a concorrência estrangeira faz com que o preço interno do arroz passe a ser o mesmo do mercado internacional.

Analisemos o caso de sermos importadores do produto. Vimos que, para esse caso ocorrer, o preço interno deve ser maior que o internacional. Vamos supor que o preço internacional é de 9 reais à quantidade de 5 toneladas(o interno é 12 reais). Com a concorrência estrangeira, os preços internos vão baixando até que fiquem iguais ao internacional. Com isso, alguns produtores não conseguem competir e saem do mercado. Ao mesmo tempo, novos compradores passam a poder comprar o produto, visto que está sendo vendido mais barato. Esse novo equilíbrio causa uma diferença entre demanda e oferta, que deve ser suprida por importações, no caso, 2 toneladas de diferença:

gráfico com novo preço de equilíbrio de mercado

Porém, o governo pode interferir nesse mercado para diminuir o impacto da concorrência estrangeira sobre os produtores internos. O mecanismo mais comum são as tarifas. O governo pode introduzir uma tarifa de importação para o arroz, fazendo com que o preço interno fique acima de 9 reais, estimulando a produção interna e diminuindo as importações. Com isso, pode ajudar produtores internos a permanecerem no mercado, mas deixar de fora consumidores que poderiam comprar o produto a 9 reais.

Esse é o objetivo das tarifas, podem servir para proteger o mercado interno, além de ser uma fonte de receita para o governo.

Nos dias atuais, visto que a globalização impossibilita que os países se isolem economicamente, o comércio internacional de bens e serviços está presente em praticamente todos os ramos da economia. Resta ao governo decidir se adota ou não tarifas para proteger determinado setor da concorrência estrangeira. Essa escolha é complexa e envolve uma série de variáveis que fogem ao nosso objetivo aqui nesse texto. Porém, conforme vimos, podemos dizer que tal escolha traz benefícios ou para produtores, ou para consumidores.

Por um lado, ao se aumentar tarifas de importação, protegem-se as empresas nacionais, o que preserva empregos e renda, mas pode deixar o consumidor em desvantagem ao limitar suas escolhas e “puni-lo” com preços mais altos. Por outro lado, ao não se adotar tarifas, algumas empresas fecham as portas e outras acabam tendo de reduzir custos e serem mais competitivas para sobreviverem no mercado, mas os consumidores podem ter mais escolhas e se depararem com preços mais baixos.       

No final de 2019, o governo brasileiro anunciou que pretendia implantar um plano de abertura da economia, por meio da redução de tarifas de importação em vários setores.

Inicialmente, o plano de abertura previa um corte das alíquotas de importação sobre produtos industriais de 13,6% para 6,4%, na média, em quatro anos.

Conforme os efeitos que analisamos anteriormente, entidades de diversas categorias apresentaram questionamentos e reticências ao plano.

Para José Velloso, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o corte de 14% para 4% na tarifa do setor, em quatro anos, trará impactos fortes na indústria. Ele defende um período de ao menos oito anos. O executivo da Abimaq diz que o setor é formado por 51 mil empresas, as quais respondem por 5% do PIB do país e 3% das exportações. “Com uma abertura unilateral, com esse corte e no prazo de quatro anos, vão desaparecer 20% das empresas e 100 mil empregos, no mínimo”, afirma Velloso.

Já a redução proposta para o setor têxtil seria de 35% a 12%. “O impacto seria desastroso”, diz Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). “Quando essas ameaças são colocadas, sem que a agenda de competitividade esteja bem definida e andando par e passo com a abertura, os investimentos são reduzidos, o que diminui a geração de empregos”, afirma.

Para a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), empresas que já enfrentam a forte concorrência de importados poderão não resistir. De janeiro a setembro, o déficit na balança comercial do setor chegou a US$ 23,8 bilhões, alta de 10,3%. Em 12 meses, o resultado negativo ficou em US$ 31,8 bilhões. “No caso de haver uma abertura unilateral, do Brasil ou do Mercosul, seria preciso uma contrapartida por parte do Estado”, diz a diretora de Assuntos de Comércio Exterior da entidade, Denise Naranjo, referindo-se às reformas estruturais, que contribuirão para a redução do custo Brasil.

Segundo Luiz Carlos Moraes, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a entidade é a favor da abertura do país, mas feita de maneira gradual, de modo a permitir o planejamento do setor e de seus fornecedores. “Nossas empresas são globais, elas sempre procuram o lugar mais competitivo”, diz. “Estamos fazendo investimentos, acreditando no país, mas acreditando também que o país vai tomar medidas para reduzir o custo Brasil.”

O presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, avalia que uma abertura unilateral seria particularmente prejudicial ao setor, pois há no mundo uma onda protecionista em razão do excesso de capacidade na produção mundial de aço, principalmente na China.“Sofremos ainda com a guerra comercial entre Estados Unidos e China e a América Latina é a única região que não tem medidas para proteger a indústria siderúrgica local”, diz o dirigente. “Não podemos colocar as usinas brasileiras para competir no mundo deslealmente. A abertura comercial pode ser benéfica, desde que se resolvam as assimetrias que tiram a competitividade.”

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) diz seguir confiante na estratégia do governo. “Na sexta-feira, tivemos um encontro com o ministro [da Casa Civil] Onyx Lorenzoni em Novo Hamburgo e foi reforçado por ele que a abertura será feita gradativamente, no mesmo compasso da redução do custo Brasil”, diz Haroldo Ferreira, presidente da entidade.

Além dos pontos que abordamos hoje, o que vimos nessas declarações é a preocupação com a redução do chamado “custo Brasil”, a necessidade de “resolução de assimetrias”, e a adoção de uma “agenda de competitividade”. Veremos esses pontos no próximo texto sobre o custo Brasil

Fontes:

Mankiw, Gregory. Introdução à economia: Princípios de Micro e Macroeconomia

Pinho, Diva B. Manual de Economia, Equipe de Professores da USP

Valor Econômico – Abertura unilateral atingiria em cheio produção e emprego, diz setor industrial 24/10/19