Eric Hobsbawm e o livro Era das revoluções

Eric Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do século XX, que escreveu os já clássicos “A Era das Revoluções 1789–1848 “, “A Era do Capital 1848-1875“, “A Era dos Impérios 1975-1914” e “Era dos Extremos 1914-1991“.

Em A Era das Revoluções 1789–1848, Hobsbawm trata dos principais desenvolvimentos históricos desse período, construindo a imagem de uma sociedade produzida pelas “revoluções” e abordando o surgimento de termos que empregamos até hoje, como industrial, classe média, nacionalismo, etc.

O conteúdo dessas obras é denso, por isso estamos disponibilizando para vocês um fichamento delas. Nesta postagem, está o fichamento da “Parte 1” da obra. A “Parte 2” está no post seguinte. Bons estudos.

A ERA DAS REVOLUÇÕES

1789-1848

Parte I

EVOLUÇÃO

  1. O Mundo na década de 1780
  2. A Revolução Industrial
  3. A Revolução Francesa
  4. A Guerra
  5. A Paz
  6. As Revoluções
  7. O Nacionalismo

Parte II

RESULTADOS

  1. A Terra
  2. Rumo a um Mundo Industrial
  3. A Carreira Aberta ao Talento
  4. Os Trabalhadores Pobres
  5. A Ideologia Religiosa
  6. A Ideologia Secular
  7. As Artes
  8. A Ciência
  9. Conclusão: Rumo a 1848

Parte I

EVOLUÇÃO

Capítulo 1

O MUNDO NA DÉCADA DE 1780

I

Conforme o próprio Hobsbawm, “o mundo na década de 1780…era ao mesmo tempo menor e muito maior que o nosso.” Menor, por um lado, no que diz respeito ao mundo conhecido, ao tamanho da população e até à própria estatura do europeu daquela época. Por outro, maior ao considerar-se a velocidade das comunicações, dos transportes e da divulgação de notícias.

Mesmo os ocidentais mais viajados, durante o período de expansão européia, como Humboldt, conheciam apenas partes do mundo habitado. Havia ainda muitas regiões inexploradas. Com exceção dos oceanos, que já tinham sua superfície mapeada de modo muito próximo ao que se configura atualmente, neste capítulo, o autor alega que a Europa por volta de 1780 era conhecida com alguma precisão, a América Latina muito grosseiramente e a Ásia e África quase que totalmente desconhecidas.

No quesito demográfico, o mundo, apesar da imprecisão das estimativas, tinha apenas um terço da população em relação ao período em que este livro foi publicado (1977). A Ásia tinha a maior concentração, com 2 habitantes em cada 3, em seguida vinha a Europa, com 1 em cada 5, a África, com 1 em cada 10, e a América e Oceania com 1 em cada 33. Além deste fato, deve-se considerar que a população estava mais esparsamente distribuída e que o povoamento de determinadas áreas vinculava-se ao clima, que limitaria a colonização extensas regiões em virtude de fatores como o frio intenso ou a proliferação de doenças em áreas muito úmidas.

Hobsbawm considera que a humanidade também era menor ao referir-se ao peso e à altura –  não mais que 1,5 metro – da maioria dos europeus daquele período. Sua constituição física seria, nas palavras do autor, muito pobre, porém tão resistente quanto o homem atual.

Quanto aos meios de comunicação, o mundo nestes tempos parecia maior. Apesar dos avanços em relação à Idade Média, com relativo aumento da velocidade e da regularidade na interligação entre dois pontos distantes, em virtude da melhoria de estradas e da utilização de diligências postais, o transporte de passageiros e mercadorias por terra ainda era vagaroso e caro. A exceção seria o transporte marítimo que possibilitava ligar capitais distantes mais rapidamente do que estas e o campo.

As notícias eram também escassas. Havia poucos jornais, a maioria da população não sabia ler, logo, as informações vinham por meio de viajantes ou canais oficiais como o Estado e a Igreja.

II

“O mundo em 1789 era essencialmente rural e é impossível entendê-lo sem assimilar este fato fundamental”, alega Hobsbawm. De 70% a 97% da população européia no período é rural. Havia poucas cidades grandes como Londres e Paris, em que existia concentração demográfica considerável. A população urbana estava espalhada numa multidão de cidades pequenas de província.

Nestas cidades, seus habitantes diferenciavam-se física e culturalmente daqueles que viviam no campo. Eram geralmente mais altos, vestiam-se de modo diferenciado, tinham maior grau de instrução e geralmente desprezavam seus conterrâneos do campo. Esta classe urbana – sem considerar aqueles que eram explorados nas fábricas ou dentro de casa – constituía-se, em sua maioria, de proprietários de terra, negociantes de produtos agrícolas, usurários, burocratas do governo, nobres, eclesiásticos, que viviam em função da produção do campo, monopolizando o mercado local e comportando-se de modo provinciano em relação ao resto do mundo que os cercava.

III

Em 1789, a questão agrária e a relação entre aqueles que cultivavam a terra e aqueles que enriqueciam com o seu cultivo era o problema fundamental. Havia duas partes, aqueles que produziam a riqueza e aqueles que a acumulavam. No complexo econômico cujo centro ficava na Europa Ocidental tais relações podem ser divididas em três partes.

Nas colônias além-mar do oeste, onde o trabalho ou era forçado para o indígena ou utilizava-se o escravo africano – com rara exceção no norte dos EUA. O cultivador típico não tinha, portanto, liberdade, a propriedade era extensa e pertencente a um senhor em um regime quase feudal com sua produção voltada para a Europa. Neste período distingue-se a ascensão do algodão – que fornecia matéria prima para nascente indústria inglesa – e a decadência da produção açucareira.

A leste da Europa Ocidental, área que se situa ao longo do rio Elba até a cidade de Trieste, e inclui nesta análise o sul da Itália e sul da Espanha, havia ainda, de um modo geral, a servidão como forma de produção agrária. O senhor típico destas regiões era o nobre proprietário de vastas propriedades, explorador de enormes fazendas produtoras de alimentos e matérias primas para o ocidente. Esta também pode ser considerada uma região de “economia dependente” de forma análoga às colônias além-mar.

Abaixo dos grandes senhores havia ainda uma classe de cavalheiros rurais de tamanhos e recursos variados que da mesma forma também exploravam os camponeses.

IV

No resto da Europa, a estrutura agrária era socialmente parecida com os dois casos anteriores, porém muito da condição de servo havia se esvaído neste período, fazendo que a produção se realizasse por meio de alugueis e outros rendimentos monetários.

Na maioria dos países, a ordem feudal implícita estava ainda muito arraigada, embora obsoleta em termos econômicos. Sua superação fazia com que muitos nobres perdessem parte de seus rendimentos devido ao constante aumento de preços. Procuravam dessa forma compensar perdas, ocupando os rendosos cargos públicos que antes eram, em grande parte, ocupados por plebeus.

A produção, por outro lado, continuava ineficiente e vinculada aos itens tradicionais, apesar de terem existindo exceções na Inglaterra e algumas regiões da Itália e Holanda, onde já se vislumbravam tendências à agricultura capitalista. Existia o incentivo à produção rural, já que a população e, conseqüentemente, a demanda haviam aumentado. O progresso técnico, entretanto, demorava a ocorrer.

V

Enquanto a agricultura não avançava, o mundo do comércio, das manufaturas e das ciências se expandia. Os comerciantes enriqueciam à medida que as trocas se avolumavam e no setor fabril a divisão e a especialização do trabalho davam seus primeiros passos rumo ao modo de produção industrial. A Grã-bretanha, nesse período, foi a primeira a beneficiar-se do progresso econômico promovido pelas manufaturas.

Nesta mesma época, o “iluminismo” florescia e, voltado não só para as questões político sociais, alimentava por meio de seus pensadores a convicção no progresso do conhecimento humano, na racionalidade, na riqueza e no controle sobre a natureza. A ciência, neste sentido, contribuía para a solução dos problemas produtivos. As classes sociais que avançaram economicamente eram desse modo as mais progressistas e estavam evidentemente envolvidas nesta maneira de ver o mundo. Um individualismo secular, racionalista e progressista dominava o pensamento “esclarecido”. Acreditava-se mais na capacidade do homem como indutor de seu próprio destino do que nos antigos e irracionais privilégios de nascimento que eram o sustentáculo do Antigo Regime.

As idéias do iluminismo e as novas forças econômicas e sociais implicavam a abolição da ordem política e social vigente na maior parte da Europa, no entanto, seria demais esperar que as velhas monarquias se extinguissem voluntariamente. Até por que muitas delas ainda tinham o apoio dos iluministas mais moderados.

VI

Com exceção da Grã-Bretanha, as monarquias absolutas reinavam em todos os Estados europeus. Os monarcas comandavam hierarquias de nobres proprietários apoiados pela organização tradicional e a ortodoxia das igrejas.

Com as rivalidades internacionais, as tendências anárquicas de muitos nobres e o crescente aumento do poderio inglês, a maioria dos monarcas tentou uma modernização iluminista. As reformas, porém, resultavam mais numa nova busca pela melhora da condição de poder e riqueza do soberano do que em modificações sociais relevantes. Aquelas que tinham um caráter mais sério acabaram fracassando em grande parte devido a irredutibilidade daqueles que usufruíam os privilégios da nobreza.

A classe média burguesa esperava que o monarca fosse capaz de quebrar a resistência ao progresso, contudo, o rei não conseguia desatrelar-se da hierarquia dos nobres proprietários, à qual, afinal de contas, pertencia, representava e incorporava.

O que de fato viria a abolir as relações agrárias feudais que ainda persistiam seria a Revolução Francesa, e o que tornou o Velho Regime mais vulnerável a ela foram os movimentos autônomos das colônias ou províncias mais remotas, a dura resistência dos nobres privilegiados e a constante pressão dos inimigos externos.

VII

O completo domínio político e militar do mundo pela Europa viria a ser produto da era da dupla revolução, a social francesa e a industrial inglesa. Assim, a rápida e crescente expansão do empreendimento capitalista europeu já, na década de 1780, minava a ordem social de outras civilizações: a chinesa e outras do Extremo Oriente, as islâmicas, a indiana e as da África. A dupla revolução que estava para acontecer estava a ponto de tornar irresistível a expansão européia que dominaria todo o cenário internacional no século seguinte.

Capítulo 2

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

I

As repercussões da revolução industrial não se fizeram sentir de uma maneira tão óbvia até pelo menos 1830. Isto é o que se observa dentro dos movimentos literários que se manifestavam até então. E é somente a partir da década de 1840 que o proletariado recém constituído e o comunismo conseguiram abrir caminho pelo continente. O que significa a frase “a revolução industrial explodiu?” Significa que a certa altura da década de 1780 as sociedades humanas tornaram-se capazes de multiplicar homens, mercadorias e serviços de uma forma rápida, constante e, até o momento presente, ilimitada. Os economistas a denominam de “partida para o crescimento auto-sustentável”. Na Grã-bretanha a “partida” iniciou-se a partir de 1780 e pode se dizer com certa acuidade que terminou com a construção das ferrovias e da indústria pesada na década de 1840.

A revolução industrial foi provavelmente o acontecimento mais importante na história do mundo desde a invenção da agricultura. Ela não aconteceu na Grã-bretanha em virtude de uma superioridade técnica ou intelectual por parte dos britânicos, mas devido às condições adequadas visivelmente presentes neste país, onde mais de um século se passara desde que o primeiro rei tinha sido julgado formalmente e executado pelo povo e desde que o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental. Além disso, a solução para a questão agrária – motivo ainda de muitos conflitos no continente europeu – já tinha sido encontrada através do cultivo por arrendatários e pelos Decretos das Cercas (Enclosures Acts). A agricultura, portanto, cumpria a função de fornecer excedentes produtivos para alimentar a população expulsa para as cidades, fornecer mão de obra para as indústrias e, por fim, promover o acúmulo de capital a ser utilizado nos setores mais modernos da economia.

Politicamente, o Estado também estava engatado no lucro. Tudo que os industriais precisavam para serem aceitos entre os governantes era bastante dinheiro. Uma frota mercante, facilidades portuárias e a melhoria de estradas e vias navegáveis eram então construídas.

Por outro lado, a revolução industrial pioneira não se desenvolveu de modo a produzir a custos tão baixos que criassem sua própria demanda. Nesta época os homens de negócios ainda vinculavam-se ao paradigma comercial que esperava um mercado consumidor monopolizado por uma única nação produtora. A indústria buscava então mercados já existentes para posteriormente investirem na sua expansão.

O sucesso britânico levou outros países a imitarem seu modelo e aderirem à industrialização, importando mesmo máquinas, técnicos e capital britânicos. No entanto permanecia a Grã-bretanha sob condições capitalistas em uma conjuntura econômica que permitia conquistar mercados de seus competidores, lançando-se à indústria algodoeira e à expansão colonial.

II

A indústria algodoeira desenvolveu-se com o comércio ultramarino. Aquela foi aos poucos substituindo o produto importado das Índias Orientais, e posteriormente, expandindo-se para o mercado ultramar. Entre 1750 e 1769, a exportação britânica de tecidos aumentou mais de dez vezes. Com o apoio do governo nacional, esta indústria consolidou monopólios de comércio, como na Índia e na América Latina, que poderiam descrever a revolução industrial como uma vitória do mercado exportador sobre o doméstico.

A expansão era facilitada pela introdução de inovações tecnológicas relativamente baratas e que podia ser facilmente financiada através dos lucros correntes, pois a combinação de vastas conquistas de mercado com uma inflação dos preços produzia lucros fantásticos. Além disso, o fornecimento de algodão que vinha do exterior podia ser expandido nas plantações escravagistas, desatadas da lenta agricultura européia vinculada aos interesses agrários há muito estabelecidos.

A tecelagem durante o desenvolvimento da indústria de tecidos foi sendo progressivamente mecanizada.

III

Até a década de 1830, o algodão era a única indústria em que predominava a fábrica. A produção de outros ramos têxteis teve desenvolvimento lento até antes de 1840, e em outras manufaturas este foi desprezível. Em princípios de 1840, ocorreu a primeira crise geral do capitalismo com sérias conseqüências sociais. A miséria e o descontentamento da nova economia estimularam os movimentos cartistas, ludistas, produzindo também as revoluções de 1848 no continente. Tais movimentos tinham ainda a simpatia de fazendeiros e da pequena burguesia.

A crise econômica ocorria devido a três falhas: o ciclo comercial de boom e depressão, a tendência de queda nas taxas de lucro e a escassez de oportunidades de investimento. A primeira não era considerada séria. Não se acreditava que ela refletisse quaisquer dificuldades fundamentais do sistema. A segunda era provocada pela competição acirrada entre os produtores de tecido que baixava o preço de seus produtos, mas não de seus custos. Neste caso, chegaram os empresários até a formar oposição às Leis do Trigo que protegia os agricultores locais das importações do cereal. Esperavam diminuir o custo de vida para que os salários pudessem ser reduzidos. Pressionados por custos e necessidades de maior produtividade para compensar a perda de margem com vendas maiores que mantivessem o lucro total os industriais investiram na mecanização, obtendo sucesso variável. A solução para a terceira falha – a necessidade de rentabilidade para o investimento de capital – seria a construção da indústria básica de bens de produção.

IV

Nenhuma economia industrial pode desenvolver-se além de um certo ponto se não possui uma adequada capacidade para produção de bens de capital. A princípio, para investir neste tipo de negócio eram necessários pesados investimentos com retorno a prazos muito longos. Somente com a introdução das estradas de ferro – no inicio nas minas de carvão – é que tais inversões tornar-se-iam justificáveis. O imenso apetite das ferrovias, largamente difundidas pelo mundo, por ferro, aço, carvão, maquinaria pesada, mão-de-obra e investimentos de capital propiciava justamente a demanda maciça necessária para o desenvolvimento da grande indústria de bens de capital.

Nesta época (1830-50) a produção de ferro e carvão na Grã-bretanha triplicou. Em 1830 havia apenas algumas dezenas de quilômetros de ferrovias em todo mundo. Em 1840 havia 7 mil quilômetros e em 1850 mais de 37 mil.

A expansão das ferrovias não se revelou um investimento rentável; no entanto, atraiu o excesso de capital acumulado pela primeira fase industrial algodoeira, deixando para um segundo plano outros tipos de aplicação como os empréstimos externos (também pouco rentáveis ou mesmo inseguros).

V

A revolução industrial, durante o seu curso, conformou uma série de adaptações na economia e sociedade inglesas. Houve nesse período um brusco declínio da população rural e um conseqüente aumento da concentração urbana. Para que isto pudesse ocorrer, houve obviamente uma melhora na produção agrícola doméstica que, com um ganho de produtividade, possibilitou o fornecimento de alimentos nas cidades agora mais populosas. Esta transformação se deu com a liquidação do cultivo comunal da Idade Média em campo aberto – Decreto da Cercas – transformando a área rural em grandes propriedades com um número moderado de arrendatários e trabalhadores contratados.

O inchaço das cidades, por outro lado, era desejado pela economia industrial, já que fornecia mão-de-obra abundante para o trabalho nas fábricas. O capital para que estas funcionassem não era escasso na Grã-bretanha, mas demandava dos primeiros industriais um esforço maior para sua acumulação gradual, considerando que aqueles que poderiam investir – mercadores, armadores, financistas, etc – relutavam em aplicar seus recursos nas novas indústrias. Não havia neste período dificuldades quanto à técnica comercial e financeira pública ou privada, assim como, por volta do século XVIII, a política governamental estava comprometida com a supremacia dos negócios.

Deste modo bastante empírico, não planejado e acidental construiu-se a primeira economia industrial de vulto.

Capítulo 3

A REVOLUÇÃO FRANCESA

I

Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal, radical-democrática e nacionalista para a maior parte do mundo. Suas conseqüências foram profundas: ela se deu no mais populoso, poderoso e tradicional Estado absolutista europeu (com exceção da Rússia); foi uma revolução social de massa; e sua influência ecumênica espalhou-se por diversas partes do mundo, tendo sido incorporada posteriormente pelo socialismo e comunismo contemporâneos.

O final do século XVIII foi uma época de crise para os velhos regimes da Europa, em que ocorreram revoltas e movimentos de emancipação nas colônias. Na França, não era diferente. Internamente as novas forças ascendentes já conflitavam com os interesses da velha aristocracia. Reformas políticas e econômicas que reacomodassem as forças internas não surtiram efeito ante a “reação feudal”: nobres que não admitiam modificações com relação aos antigos privilégios da hierarquia aristocrática. Além de tudo o Estado francês passava por dificuldades financeiras que o tornavam ainda mais fragilizado.

Os nobres usufruíam de privilégios fiscais, recebiam apoio financeiro do Estado e ainda, em muitos casos invadiam os postos oficiais da coroa, anteriormente ocupados pela classe média. O campesinato, também neste período, era pressionado. A nobreza, ao perder muito de sua renda em meio aos aumentos sucessivos de preço e impossibilitada de trabalhar pelo costume monárquico, explorava com mais afinco direitos feudais que eram requeridos aos camponeses como taxas, tributos e serviços. Tanto a classe média como o campesinato viam-se insatisfeitos na situação em que se encontravam.

O apoio dado aos americanos na guerra de independência contra a Grã-bretanha levou o Estado francês a bancarrota final. Convocada a Assembléia dos Estados Gerais, a aristocracia não tinha intenção de pagar a conta e, com esta oportunidade, estava decidida a conseguir maior poder dentro do Estado. Subestimaram, no entanto, a profunda crise sócio-política em que se encontrava o país, assim como as intenções do Terceiro Estado (representantes daqueles que não eram da nem da nobreza nem do clero – este o “Primeiro Estado”). Estes representantes que se constituíam na sua maioria de uma burguesia de ideais iluministas tinham a intenção de estabelecer um constitucionalismo, em um Estado secular com liberdades civis e garantias para a empresa privada em um governo de contribuintes e proprietários, onde a fonte de toda soberania residiria no povo e não no direito divino.

A revolução eclodiu quando foi convocada pelo Terceiro Estado a Assembléia Nacional que tinha por objetivo estabelecer uma Constituição para a França. O Terceiro Estado teve sucesso contra a resistência unificadora do rei e das ordens privilegiadas, pois representava não somente uma minoria instruída, mas também o campesinato e os trabalhadores pobres da cidade.

O que transformou a agitação reformista em uma revolução foi a profunda crise socioeconômica que se instaurara na França. Uma má safra em 1788 e 89, seguida de um inverno rigoroso provocou o empobrecimento e o aumento de preços. Com a queda no poder de compra a produção industrial também diminuía aumentando o desemprego nas cidades. As novas perspectivas políticas emanadas da convocação dos Estados Gerais e da posterior Assembléia Nacional renovava as esperanças da população em desespero.

O movimento de contra-revolução mobilizou contra si as massas de Paris, causando convulsão no campo e nas cidades provincianas. Em pouco tempo toda estrutura do Estado monárquico ruíra. Os privilégios feudais foram abolidos e foi promulgada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Repetidas vezes veremos moderados reformadores da classe média mobilizando as massas contra a resistência à revolução e em outros momentos as massas indo além daquilo que estes desejavam, isto é longe dos objetivos e comodidades burgueses. No decorrer desta e de outras revoluções burguesas subsequentes o que se verá é uma classe média burguesa indo em direção ao conservadorismo, ou seja, rumo a um acordo com o rei e a aristocracia, em virtude do medo do radicalismo inconsequente ao estilo jacobino.

O movimento dos sansculottes, trabalhadores pobres, pequenos artesãos, lojistas, artífices, pequenos empresários etc, era organizado, mas também não ofereceu uma alternativa real ao radicalismo. Seu ideal, um passado dourado de aldeões e pequenos artesãos ou um futuro dourado de pequenos fazendeiros e artífices não perturbados por banqueiros e milionários, era irrealizável.

II

Entre 1789 e 1791, a burguesia moderada tomava na agora chamada Assembléia Constituinte as providências para a reforma da França. A maioria dos empreendimentos institucionais duradouros da revolução data deste período. Entretanto, sua política em relação aos camponeses era o cerco das terras comuns e o incentivo aos empresários rurais; para a classe trabalhadora, a interdição dos sindicatos; para os pequenos artesãos, a abolição dos grêmios e corporações.

A constituição de 1791 rechaçou a democracia excessiva através de uma monarquia constitucional baseada num direito de voto censitário dos “cidadãos ativos”, reconhecidamente bastante amplo. Por outro lado, a corte ainda conspirava contra a revolução, a tentativa de estabelecer uma Constituição Civil do Clero colocou o povo e os religiosos na oposição ao governo e a incontrolada economia de livre empresa acentuou as flutuações nos preços dos alimentos e colocou novamente os pobres em polvorosa. Todos estes fatores somados à tentativa de fuga do rei e a eclosão da guerra contra a revolução – esta movida por outras monarquias absolutas temerosas das conseqüências que ela teria em seus respectivos territórios – ocasionaram uma nova revolução.

A guerra foi declarada em abril de 1792 e em agosto-setembro, a monarquia foi derrubada, a República estabelecida e uma nova era da história humana proclamada com a instituição do Ano I do calendário revolucionário. Em seguida foram convocadas as eleições para a Convenção Nacional, o rei foi preso e a população foi conclamada para a resistência aos invasores.

A expansão da guerra, principalmente quando ela ia mal, só fortaleceu a esquerda, já que eram os girondinos que a tinham incentivado em virtude de interesses políticos e econômicos. A Gironda, levada a ataques mal calculados contra a esquerda que logo se transformaria em uma revolta Provinciana que a enfraqueceria, permitiu que os sansculottes a derrubassem em um rápido golpe em junho de 1793. Tinha chegado a República Jacobina.

III

A República do Ano II enfrentou com sucesso as investidas dos invasores e restabeleceu certa tranqüilidade na questão econômica. O regime era uma aliança entre a classe média e as massas trabalhadoras. Para esses homens como de fato para a maioria da Convenção Nacional que no fundo deteve o controle durante todo este período, a escolha era simples: ou o Terror, ou a destruição da revolução, a desintegração do Estado nacional e provavelmente o desaparecimento do país.

O centro do governo se refletiu no reconstruído Comitê de Salvação Pública, que rapidamente se transformou no efetivo ministério da guerra, que perdeu Danton e ganhou Robespierre. Este tinha o apoio dos moderados por eliminar a corrupção, o que se apresentava afinal de contas no interesse do esforço de guerra.

No período jacobino,uma nova constituição foi proclamada. Dava ao povo o sufrágio universal, direito de insurreição, trabalho ou subsistência e declarava que a felicidade de todos era o objetivo do governo. Os jacobinos aboliram todos os direitos feudais sem indenização e aboliram a escravidão nas colônias. A transformação capitalista da agricultura foi desestimulada, o que atrasou o avanço capitalista na França.

As necessidades econômicas da guerra afastaram o apoio popular dos jacobinos. Por volta de 1794, tanto a direita quanto a esquerda tinham ido para a guilhotina, e os seguidores de Robespierre estavam isolados. Somente a crise da guerra os mantinha no poder. Quando esta parecia não oferecer mais ameaças ao país a Convenção derrubou Robespierre e este e seus colaboradores foram executados.

IV

O Diretório, que se estabeleceu após a República Jacobina, era fraco e tinha grandes dificuldades para alcançar a estabilidade política e o avanço econômico nas bases do programa liberal de 1789-91. Sua grande fraqueza era a de que eles não desfrutavam de nenhum apoio político. Cada vez mais tinham que depender do apoio do exército para dispersar a oposição, que articulava conspirações e golpes. O exército revolucionário, como o mais formidável rebento da República Jacobina daria novo impulso às necessidades de desenvolvimento da França.

Seu líder supremo, Napoleão Bonaparte, após bem sucedida carreira militar, chegaria ao poder em 1799. Tornou-se posteriomente primeiro cônsul, depois cônsul vitalício e Imperador. Em poucos anos a França tinha um Código Civil, uma concordata com a Igreja e um Banco Nacional. A hierarquia dos funcionários públicos, das cortes, das universidades e escolas, assim como as grandes carreiras do exército, da educação e do direito também foram obras suas.

Sua ascensão pessoal, que se inicia no baixo escalão do exército francês até o comando de um continente, deu à ambição um nome pessoal no momento em que a dupla revolução tinha aberto o mundo aos homens de vontade.

Ele trouxe estabilidade e prosperidade para todos e destruíra apenas uma coisa: a Revolução Jacobina, o sonho de igualdade, liberdade e fraternidade, do povo se erguendo na sua grandiosidade para derrubar a opressão. Este foi um mito mais poderoso do que o dele, pois, após a sua queda, foi isto e não a sua memória que inspirou as revoluções do século XIX.

Capítulo 4

A GUERRA

I

 De 1792 a 1815 houve guerra quase que ininterrupta na Europa, em combinação ou simultaneamente com outras guerras fora do continente: nas Índias Ocidentais e nos Estados Unidos. Em conseqüência de vitórias ou derrotas dessas guerras, transforma-se o mapa do mundo. Quais foram as conseqüências do processo bélico efetivo, da mobilização e das operações militares, das medidas políticas e econômicas que resultam delas?

Durante aqueles 20 anos entravam em confronto os poderes e os sistemas, consideremos a França como Estado e a França como Revolução. Ao final do reinado de Napoleão, o elemento conquista e exploração imperial prevalecia sobre o elemento libertação, sempre que as tropas francesas derrotavam, ocupavam ou anexavam algum país, e assim a guerra internacional ficava muito menos mesclada com a guerra civil internacional.

Socialmente falando, os beligerantes estavam desigualmente divididos. Excetuando a própria França, apenas os EUA (de origens e simpatias revolucionárias para com a Declaração dos Direitos do Homem) inclinavam-se ideologicamente para o lado francês, fazendo uma guerra (1812-14) contra um inimigo comum, os britânicos. Entretanto, os EUA permaneceram na maioria das vezes neutros e seu conflito com os britânicos não exige qualquer explicação ideológica. No resto, os aliados ideológicos da França eram partidos e correntes de opinião dentro de outros Estados e não poderes estatais.

De maneira bastante ampla, praticamente todas as pessoas instruídas, intelectuais e de talento simpatizavam com a Revolução, mas faltava apoio político ou militar.

Na Grã-Bretanha, o jacobinismo teria sido, indubitavelmente, um fenômeno de importância política maior, até mesmo depois do Terror, se não tivesse se chocado com o preconceito antifrancês do nacionalismo popular inglês, com o desprezo pelos famintos continentais (as charges da época retratavam franceses magros como palitos de fósforos) e com a hostilidade inglesa. O jacobinismo britânico foi o único por ser primordialmente um fenômeno de artesãos ou da classe operária. Na Península Ibérica, nos domínios de Habsburgo, na Alemanha Central e Oriental, na Escandinávia, nos Bálcans e na Rússia, o filo-jacobinismo era uma força insignificante. Atraía alguns jovens ardentes, alguns intelectuais iluministas e mais uns poucos, mas a ausência de qualquer apoio de vulto para suas opiniões entre as classes média e alta e seu isolamento do fanático campesinato analfabeto fez com que o jacobinismo fosse facilmente suprimível.

 A França fornecia um modelo do único tipo de profunda reforma interna, o que influencia bastante a constituição da Reforma da Polônia, em 1791. Na Irlanda, o descontentamento agrário e nacional deu ao “jacobinismo” uma força política muito além da ideologia maçônica e livre-pensadora dos líderes dos “Irlandeses Unidos”. Os irlandeses estavam preparados para saudar a invasão de seu país eminentemente católico, não porque simpatizavam com Robespierre, mas porque odiavam os ingleses e buscavam aliados contra eles. Na Suíça, o elemento esquerdista e a atração da França foram sempre fortes. Na Alemanha Ocidental e na Itália isso não aconteceu.

Mas se os franceses contavam com o apoio das forças revolucionárias do exterior, os antifranceses também o desfrutavam, pelos movimentos de resistência popular contra a conquista francesa, como movimento sócio-revolucionário, ainda que esses camponeses o expressassem em termos de um militante conservadorismo baseado na Igreja e no Rei. É significativo que a tática militar que em nosso século se tornou identificada com a guerra revolucionária, a guerrilha, fosse entre 1792 e 1815 um recurso quase exclusivo do lado antifrancês.

O conflito fundamental que dominara as relações internacionais europeias durante quase um século era entre a França e a Grã-Bretanha. Do ponto de vista britânico era um conflito quase que totalmente econômico, pois desejavam eliminar seu principal competidor para alcançar o predomínio comercial nos mercados europeus e o controle total dos mercados ultramarinos. Na Europa, esse objetivo não implicava em ambições territoriais. Em relação aos outros continentes, isso implicava na total destruição dos impérios coloniais de outros povos e consideráveis anexações para os britânicos. Ou seja, todos os Estados coloniais, comerciais e marítimos eram vistos pela França como aliados em potencial. De maneira mais ambiciosa, a burguesia francesa esperava compensar a superioridade econômica britânica somente através de seus próprios recursos políticos e militares.

Em todo o sistema permanente de Estados em tensão e rivalidade uns contra os outros, a inimizade de A implica a simpatia dos anti-A. Levando em conta as divisões do lado antifrancês e o potencial de aliados que os franceses poderiam atrair, no papel as coalizões antifrancesas eram muito mais fortes (pelo menos no início). Contudo, a história militar das guerras é uma história de quase ininterrupta e sufocante vitória francesa, em razão da Revolução Francesa. No que tange à organização improvisada, mobilidade, flexibilidade e coragem ofensiva e moral de luta, os franceses não tinham rivais.

II

A relativa monotonia do sucesso francês torna desnecessário discutir as operações militares de guerra terrestre com grandes detalhes.

A Áustria foi derrotada na batalha de Austerlitz, em 1805, e a paz lhe foi imposta. A Rússia, embora derrotada em Austerlitz, espancada em Eylau (1807) e derrotada novamente em Friedland (1807) permaneceu intacta como potência militar. O Tratado de Tilsit (1807) tratava-a com justificável respeito, embora estabelecendo a hegemonia francesa sobre o resto do continente, à exceção da Escandinávia e dos Bálcans turcos.

Napoleão cria o Sistema Continental (1806), que implicava em um bloqueio econômico à Grã-Bretanha, mas tem dificuldades de impo-lo à Rússia, abalando o Tratado de Tilsit, que leva ao rompimento com a Rússia, sendo invadida e Moscou tomada. O método do exército francês fracassou totalmente nos amplos, pobres e vazios espaços da Polônia e da Rússia. A falta do suprimento adequado ao exército foi o principal responsável por esse fracasso. De 610 mil homens, apenas 100 mil retornaram. Um novo exército francês (imaturo) foi derrotado em Leipzig, em 1813, e os aliados avançaram sobre a França. Paris foi ocupada e o Imperador renunciou em 6 de abril de 1814, tentando restaurar seu poder em 1815, mas é liquidado (em junho de 1815) na batalha de Waterloo.

III

No decorrer dessas décadas de guerra, as fronteiras políticas da Europa foram redesenhadas várias vezes.

A Revolução Francesa pôs fim à Idade Média. Sobreviventes formais de uma era anterior, tais como o Sagrado Império Romano e a maioria das cidades-Estados e cidades-impérios, desapareceram. O império morreu em 1806. Somente os Estados papais da Itália central sobreviveram até 1870. A revolução social era possível, as nações existiam independentemente dos Estados, os povos independentemente de seus governantes e até mesmo os pobres existiam independentemente das classes governantes. Os 234 territórios do Sagrado Império Romano reduziram-se a 40. Visto que a maioria dessas mudanças beneficiou Estados monárquicos, a derrota de Napoleão simplesmente as perpetuou.

Mas as mudanças de fronteiras, leis e instituições governamentais não foram nada comparadas com um terceiro efeito destas décadas de guerra revolucionária: a profunda transformação da atmosfera política.

IV

Em relação às perdas humanas resultantes desse período, foram relativamente baixas: um milhão de mortos nas guerras de todo período, um índice favorável se comparado às perdas isoladas de qualquer um dos principais países beligerantes nos quatro anos e meio da Primeira Guerra Mundial ou mesmo aos aproximadamente 600 mil mortos na Guerra Civil Americana de 1861-5. Ainda em 1865, na Espanha, uma epidemia de cólera, segundo estimativas, fez 236.744 vítimas. Entre 1800-15, Napoleão recrutou 7% da população francesa, contra 21% durante o período bem mais curto da Primeira Guerra. Ainda assim, em números absolutos, a quantidade era considerada grande. As exigências econômicas da guerra e a guerra econômica tinham conseqüências muito maiores.

As guerras revolucionárias e napoleônicas eram excessivamente caras. Para se pagar esses custos, o método tradicional era uma combinação de inflação monetária, empréstimos e um mínimo de tributações especial. As extraordinárias exigências e condições financeiras das guerras transformaram tudo: familiarizaram o mundo com o papel-moeda não conversível. Cada crise financeira sucessiva fazia com que fossem impressas em maior quantidade e se desvalorizassem mais vertiginosamente, ajudadas pela crescente falta de confiança do público.

Entre 1794 e 1804 a Grã-Bretanha emprestou 80 milhões de libras com a finalidade de dar subsídio aos aliados militares. Os principais beneficiários diretos eram as casas financeiras internacionais – britânicas ou estrangeiras, que operavam cada vez mais através de Londres, que se tornou o centro internacional das finanças – como a Casa dos Rothschild e dos Baring, intermediárias dessas transações. A indústria de guerra, embora a curto prazo desviando homens e materiais do mercado civil, pode a longo prazo estimular desenvolvimentos que em período de paz teriam negligenciado. Entre as inovações tecnológicas criadas desta forma pelas guerras napoleônicas e revolucionárias estavam a indústria do açúcar de beterraba e de enlatados.

O fardo francês foi devido não tanto à guerra, pois estava planejada para se pagar a si mesma e ainda saqueava e confiscava territórios estrangeiros, recrutando homens, dinheiro e material. Sua quebra econômica deveu-se à década da revolução, da guerra civil e do caos.

O fardo britânico deveu-se ao custo de suportar não só o próprio esforço de guerra do país, mas também de outros Estados (através dos subsídios aos aliados continentais). Em termos monetários, os britânicos carregaram o fardo mais pesado durante a guerra: três ou quatro vezes mais do que o fardo francês.

Seu “custo” em quebra de negócios e desvio de recursos etc., era medido comparativamente a seu “lucro”, expresso na posição relativa dos competidores beligerantes após a guerra. Por esses padrões, é óbvio que as guerras entre 1793-1815 se pagaram.

Capítulo 5

A PAZ

I

Após mais de vinte anos de guerras e revoluções quase ininterruptas, os reis e os estadistas não eram mais sábios nem pacíficos que antes, mas estavam mais assustados. Exceto pela guerra da Criméia não houve nenhuma guerra que envolvesse mais do que duas grandes potências entre 1815 e 1914. Mas a cena internacional estava longe de ser tranqüila, havendo muitas ocasiões para conflitos. Os movimentos revolucionários destruíram repetidas vezes a estabilidade internacional na década de 1820 (aqui houve a tardia Revolução de Portugal, a favor do liberalismo, e movimentos revolucionários no sul da Europa, Bálcans e América Latina), 1830 (Europa Ocidental, especialmente Bélgica) e nas vésperas da Revolução de 1848.

O apaziguamento da Europa após as Guerras Napoleônicas não foi mais justo nem moral do que qualquer outro, mas dado o propósito antiliberal e antinacional de seus organizadores, foi realista e sensato. Não sendo feita qualquer tentativa para se tirar partido da vitória total sobre os franceses, que não deviam ser provocados para não sofrerem um novo ataque de jacobinismo. E, por volta de 1818, a França era readmitida no “Concerto Europeu”. Os Bourbons (Luís XVIII) foram reconduzidos ao poder, fazendo certas concessões, como aceitar a Constituição. O mapa da Europa foi redelineado:

Grã-Bretanha: reteve Malta, as Ilhas Jônicas e a Heligolândia, manteve a Sicília sob cuidadosa vigilância e transferiu a Noruega do domínio dinamarquês para o sueco.

Rússia (exercia uma hegemonia “remota” sobre todos os principados absolutos a leste da França): teve aquisição da Finlândia (às custas da Suécia), da Bessarábia (às custas da Turquia) e da maior parte da Polônia – o resto da Polônia foi distribuído entre a Prússia e a Áustria, que não eram grandes potências, mas tinham boa atuação como estabilizadores europeus.

Estadistas de 1815 trataram de elaborar um mecanismo para manutenção da paz, por meio de congressos regulares (só foram mantidos de 1818-22). Esse sistema de congressos ruiu, pois não sobreviveu à fome de 1816-17 e depressões nos negócios, nos anos imediatamente posteriores às guerras napoleônicas.

Após a volta da estabilidade, em 1820, percebia-se as divergências entre os interesses das potências. Logo, de 1820-22 voltam os ataques de intranqüilidade e insurreição. Apenas a Áustria continuava diplomática e pregava pela ordem social. As três monarquias da “Sagrada Aliança” e a França entraram em acordo a respeito da Alemanha, da Itália e da Espanha.

A França exercia a função de “policial internacional” na Espanha (1823) e queria aumentar o campo de suas atividades militares e diplomáticas, particularmente na Espanha, Bélgica e Itália, onde tinha grandes investimentos estrangeiros.

A Grã-Bretanha fica de fora dos conflitos, pois Canning era mais flexível que o rígido Castlereagh e percebeu que os britânicos não simpatizavam mais pelo absolutismo (as reformas na Europa teriam caráter absolutista). Além disso, sentiu que a França, principalmente, se dirigia à América Latina, então os ingleses apóiam a independência dos Estados latino-americanos (como fizeram com os Estados Unidos na Doutrina Monroe, em 1823).

A Grécia consegue sua independência em 1829 com ajuda da Rússia e Grã-Bretanha. O dano internacional foi minimizado com a transformação do país em reino, pois não seria um mero satélite russo, sob comando de um dos muitos pequenos príncipes disponíveis.

Entretanto, as revoluções de 1830 destruíram-nos completamente, pois afetaram os pequenos Estados e a França. Enquanto isso, a “Questão Oriental” (o problema do que fazer em relação à desintegração da Turquia) transformou os Bálcans e o Oriente em um campo de batalha das potências, principalmente a Rússia e a Grã-Bretanha. A “Questão Oriental” perturbou o equilíbrio das forças porque tudo conspirava para fortalecer os russos, cujo principal objetivo diplomático era conquistar o controle dos estreitos entre a Europa e a Ásia Menor, que condicionavam seu acesso ao Mediterrâneo.

Para a Índia, a política óbvia era escorar a Turquia a todo custo contra a expansão russa (ainda beneficiaria seu comércio no Oriente), mas precisaria do apoio direto, diplomático e militar da Grã-Bretanha, para evitar o firme aumento da influência russa e o colapso da Turquia, sujeita a seus muitos problemas. Isto fez da “Questão Oriental” o mais explosivo problema em assuntos internacionais após as guerras napoleônicas, capaz de levar a uma guerra generalizada em 1854-6. Os fatos que favoreciam à Rússia a levaram à acomodação. Mas para o czar, Constantinopla não valia o esforço de uma grande guerra, assim na década de 1820, a guerra grega encaixava-se na política de divisão e de ocupação.

A Rússia negociou um tratado extraordinariamente favorável em 1833, com uma Turquia pressionada, que estava ciente da necessidade de um protetor poderoso. A Grã-Bretanha sentiu-se insultada e os anos da década de 1830 viram a gênese de uma russofobia em massa, que criou a imagem da Rússia como espécie de inimigo hereditário da Grã-Bretanha (essa relação só começou a se deteriorar após as guerras napoleônicas). Em face da pressão britânica, os russos bateram em retirada e na década de 1840 voltaram a propor a partilha da Turquia. Exceto pelo episódio da Criméia, não houve guerra pela Turquia em todo o século XIX.

Assim fica claro que neste período o material inflamável das relações internacionais não era explosivo o bastante para deflagrar uma guerra de grandes proporções. Só a França era uma potência “insatisfeita” e tinha capacidade de romper a estável ordem social. Mas as implicações de um tamanho salto em direção a uma guerra revolucionária assustava os governos franceses liberais-moderados tanto quanto a Metternich. Nenhum governo francês entre 1815 e 1848, colocaria em jogo a paz geral em função de seus próprios interesses estatais.

O ponto de vista inglês era de que um mundo aberto ao comércio britânico e a uma proteção pela marinha britânica contra intrusos mal recebidos era explorado de forma mais barata e sem os custos administrativos de uma ocupação. A exceção seria a Índia, que tinha que ser mantida a qualquer custo, pois seu mercado era de importância crescente. Ela foi a chave para a abertura do Extremo Oriente, para o tráfico de drogas e outras atividades lucrativas.

A China foi aberta na Guerra do Ópio de 1839-42. Consequentemente, entre 1814 e 1849, o tamanho do império britânico na Índia cresceu muito, como resultado de uma série de guerras contra os maratas, os nepaleses, os birmaneses, os rajputs, os afeganes, os sindis e os sikhs, e a rede de influência britânica foi estendida mais para perto do Oriente Médio.

Enquanto isso, os EUA conquistaram todo seu lado oeste ao sul da fronteira de Oregon (através da insurreição e da guerra contra os mexicanos). Já os franceses precisaram se limitar à Argélia, que invadiram em 1830 e em 1847 tinham conseguido liquidar sua resistência.

Em 1834 os ingleses aboliram a escravidão em suas colônias, pois a economia não girava mais em torno do comércio de homens e de açúcar, mas de algodão. Importaram, então, trabalhadores da Ásia.

Capítulo 6

AS REVOLUÇÕES

I

Houve três ondas revolucionárias principais no mundo ocidental entre 1815 e 1848. A primeira ocorreu em 1820-4, na Europa, basicamente no Mediterrâneo, na Espanha (1820), Nápoles (1820) e a Grécia (1821). Fora a grega, todas essas insurreições foram sufocadas.

A Revolução Espanhola reviveu o movimento de libertação da América Latina, que tinha sido derrotado após um esforço inicial, ocasionado pela conquista da Espanha por Napoleão em 1808. Os três grandes libertadores da América espanhola, Simon Bolívar (estabeleceu a independência da “Grande Colômbia”, que incluía as atuais repúblicas da Colômbia, da Venezuela e do Equador), San Martin (independência da Argentina exceto pelas áreas interioranas que hoje constituem o Paraguai e a Bolívia) e Bernardo O’Higgins (independência do Chile). San Martin ainda libertou o vice-reino do Peru. Por volta de 1822, a América espanhola estava livre.

Enquanto isso, o general espanhol, Iturbide, enviado para lutar contra as guerrilhas camponesas que ainda resistiam no México, tomou partido dos guerrilheiros sob impacto da Revolução Espanhola e, em 1821, estabeleceu definitivamente a independência mexicana.

Em 1822, o Brasil separou-se pacificamente de Portugal sob o comando do regente deixado pela família real portuguesa em seu retorno à Europa, após o exílio napoleônico.

A segunda onda revolucionária ocorreu em 1829-34, afetando toda a Europa a oeste da Rússia e o continente norte-americano. Na Europa, a derrubada dos Bourbon, na França, estimulou várias outras insurreições. Até mesmo a Grã-Bretanha foi afetada, graças a Irlanda que garantiu a Emancipação Católica em 1829 e o reinício da agitação reformista. O Ato de Reforma de 1832 corresponde à Revolução de Julho de 1830 na França (Carlos X, sucessor de Luís XVIII foi obrigado a abdicar do poder). Este período é provavelmente o único na história moderna em que acontecimentos políticos na Grã-Bretanha correram paralelamente aos do continente europeu. A restrição dos partidos Tory (conservador) e Whig (liberal) impede o desenvolvimento de uma situação revolucionária em 1831-2.

A onda revolucionária de 1830 foi, portanto, muito mais séria que a de 1820, pois marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental. A classe governante nos próximos 50 anos seria a “grande burguesia” (banqueiros, grandes industriais e alguns altos funcionários civis). Surge, na França e Grã-Bretanha, a classe operária como força política autoconsciente e independente. Seu sistema político (na Grã-Bretanha, França e Bélgica) era fundamentalmente o mesmo: instituições liberais protegidas contra a democracia por qualificações educacionais ou de propriedade para os eleitores sob uma monarquia constitucional. Nos EUA, entretanto, a democracia jacksoniana (Andrew Jackson) vai além, com a derrota dos proprietários oligarcas antidemocratas (que correspondia ao que triunfava na Europa Ocidental) pela ilimitada democracia política colocada no poder por votos dos homens das fronteiras, dos pequenos fazendeiros e dos pobres das cidades (exceto os escravos do sul)

1830 é um ano de importância política, ideológica, econômica, artística, social e de migrações por conta da industrialização e urbanização. E na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental em geral, este ano determina o início daquelas décadas de crise no desenvolvimento da nova sociedade, que se concluem com a derrota das revoluções de 1848 e com o gigantesco salto econômico depois de 1851.

A terceira onda revolucionária é a maior de todas, a de 1848. Quase que simultaneamente a revolução explode (e vence temporariamente) na França, na Itália, nos Estados alemães, na maior parte do império dos Habsburgo e na Suíça (1847). O que em 1789 fora o levante de uma só nação era agora, “a primavera dos povos” de todo um continente.

II

As revoluções do período pós-napoleônico foram intencionais e planejadas, pois os sistemas políticos novamente impostos à Europa eram profundamente e cada vez mais inadequados. Os modelos políticos criados pela Revolução de 1789 serviram para dar um objetivo específico ao descontentamento, transformando a intranqüilidade em subversão. Esses modelos correspondiam a três principais tendências da oposição depois de 1815:

  • Liberal moderado (classe média superior e aristocracia liberal), inspirado na Revolução de 1789-91, o ideal político era de monarquia constitucional semibritânica com um sistema parlamentar oligárquico de qualificação por propriedade que a Constituição de 1791 introduziu;
  • Democrata radical (classe média inferior, novos industriais, intelectuais e pequena nobreza descontente), inspirou-se na Revolução de 1792-3, sendo seu ideal político uma república democrática inclinada para o bem-estar social e alguma animosidade em relação aos ricos, correspondendo à constituição jacobina ideal de 1793;
  • Socialista (“trabalhadores pobres” e novas classes operárias industriais), a inspiração foi a revolução do Ano II e as insurreições pós-termidorianas, sobretudo a Conspiração dos Iguais de Babeuf, significativo levante de jacobinos extremados e de primeiros comunistas, que marca o nascimento da moderna tradição comunista na política. Era o filho do sansculotismo (herdando principalmente o violento ódio pelas classes médias e ricos) e da ala esquerda do robespierrismo. Politicamente, o modelo revolucionário babovista seguia a tradição de Robespierre e Saint-Just.

Os grupos sociais que lutaram a favor da democracia radical eram um conjunto variado e confuso, difícil de ser rotulado. Elementos do que em 1792-3 teriam sido chamados de girondismo, jacobinismo e até mesmo sansculotismo achavam-se nele combinados. Embora, talvez, o jacobinismo da Constituição de 1793 o representasse melhor.

Do ponto de vista dos governantes absolutistas, todos esses movimentos eram igualmente subvertores da estabilidade e da boa ordem. Mas na verdade, os movimentos de oposição tinham pouco em comum, além do seu ódio pelos regimes de 1815 e a tradicional frente comum de que todos se opunham, por qualquer razão, à monarquia absolutista, à Igreja e à aristocracia. A história do período que vai de 1815 a 1848 é a história da desintegração dessa frente unida.

III

Durante o período da Restauração (1815-30), ainda não havia na política socialistas ou revolucionários conscientes da classe operária (exceto na Grã-Bretanha, onde uma tendência proletária independente na política e na ideologia surgiu sob a égide do “cooperativismo” de Robert Owen, por volta de 1830. O programa clássico que buscava a classe trabalhadora britânica era o de uma simples reforma parlamentar conforme expressa nos “Seis Pontos”, da Carta do Povo: 1) sufrágio masculino; 2) votação secreta; 3) distritos eleitorais iguais; 4) pagamento dos membros do Parlamento; 5) Parlamentos anuais; 6) abolição da condição de proprietário para os candidatos.

Na Grã-Bretanha e nos EUA já estava estabelecida uma forma regular de política de massa. No resto da Europa as perspectivas políticas pareciam muito semelhantes, a frente unida do absolutismo praticamente eliminava a possibilidade de uma reforma pacífica. Todos tendiam a adotar o mesmo tipo de organização revolucionária ou até a mesma organização: a secreta irmandade insurrecional (derivadas ou copiadas do modelo maçônico) que florescem no final do período napoleônico. Exs: carbonari (italiana), dezembristas (russa).

As insurreições obtiveram sucesso completo, mas temporariamente, em alguns estados italianos e especialmente na Espanha, onde a insurreição “pura” descobriu sua fórmula mais eficiente, o pronunciamento militar. As sociedades secretas atraíam muito fortemente os militares.

As revoluções de 1830 mudaram a situação inteiramente, gerando dois principais resultados:

1°) A política de massa e a revolução de massa (com base no modelo de 1789) mais uma vez tornaram-se possíveis e a dependência exclusiva das irmandades secretas, menos necessárias. Os Bourbon foram derrubados em Paris pela combinação da crise da política da monarquia Restaurada e da intranqüilidade popular devido à depressão econômica;

2°) “O povo” e os “trabalhadores pobres” podiam ser cada vez mais identificados com o novo proletariado industrial como “a classe operária”. Portanto, passa a existir um movimento revolucionário proletário-socialista.

Além disso, as revoluções separaram os moderados dos radicais e criaram uma nova situação internacional, dividindo a Europa em duas grandes regiões: a oeste de Reno, o liberalismo moderado triunfou na França, na Grã-Bretanha e na Bélgica (os liberal-moderados saíram da oposição à Restauração para assumirem o governo e logo que assumiram, por esforços dos radicais, imediatamente os traíram) e a leste do Reno as revoluções sociais foram reprimidas. Todavia, os problemas da revolução eram semelhantes a leste e a oeste, embora não do mesmo tipo, provocando grande tensão entre os moderados e os radicais.

Na Grã-Bretanha, os radicais, os republicanos e os novos movimentos proletários saíram, portanto, da aliança com os liberais. Os moderados (proprietários liberais e outros membros da classe média) depositavam suas esperanças no reformismo de governos influenciáveis (raros) e no apoio diplomático das novas potências liberais.

O desapontamento dos radicais com o fracasso francês em serem libertadores internacionais, junto com o crescente nacionalismo na década de 1830 e a nova consciência das diferenças nos aspectos revolucionários de cada país, despedaçou o internacionalismo unificado, dando espaço para uma reação nacionalista.

IV

Em 1830, os EUA começaram a ser o país dos sonhos do europeu pobre, que se justificava dizendo que “lá não havia um rei”.

Na Grã-Bretanha, o fracasso do movimento socialista em desenvolver uma estratégia política e uma liderança eficazes, associado às ofensivas dos empregadores e do governo, reduziu os socialistas a grupos educacionais e propagandísticos ou a pioneiros de algo mais modesto: a cooperação de consumidores, sob a forma de cooperativa de compras (iniciada em Rochdale, Lancashire, em 1844).

Enquanto isso, na França, não existe qualquer movimento de massa dos trabalhadores pobres que se comparasse. Por outro lado, possuía a poderosa tradição do jacobinismo e do babovismo da esquerda, altamente desenvolvido politicamente e que em grande parte se tornaria comunista depois de 1830. Seu líder mais notável foi Auguste Blanqui (1805-1881), discípulo de Buonarroti. O blanquismo era como o carbonarismo, o movimento de uma elite que planejava suas insurreições de certa forma do vazio e que portanto, frequentemente fracassava, como na tentativa de levante de 1839. Pouco oferecia ao socialismo, mas insuflou no moderno movimento revolucionário socialista a convicção de que seu objetivo tinha que ser a tomada do poder político, seguido da “ditadura do proletariado” (termo blanquista).

V

No resto da Europa revolucionária (eslavos e romenos na Hungria, ucranianos na Polônia Oriental e eslavos em partes da Áustria), as massas eram o campesinato. Enquanto o grosso do campesinato continuasse afundado na ignorância e na passividade política, seu apoio às revoluções era menos imediato do que poderia ser, mas não menos explosivo. (Ex.: a insurreição dos sérvios na Galícia, em 1846, a maior revolta camponesa desde a Revolução Francesa).

Logo, os radicais precisavam atrair os camponeses para seu lado ou os reacionários o fariam (os reis legítimos, os imperadores e as igrejas tinham a vantagem tática de que os camponeses tradicionalistas confiavam mais neles do que nos senhores de terra; os monarcas estavam dispostos a jogar os camponeses contra a pequena nobreza). Então, nesses países, os radicais se dividiram em dois grupos:

  • democratas, que acreditavam na coexistência pacífica entre a nobreza e o campesinato nacional;
  • extrema esquerda, que acreditavam na luta revolucionária de massas contra os governantes estrangeiros e os exploradores domésticos.

VI

Embora divididos por diferenças das condições locais, nacionalidades e classes, os movimentos revolucionários de 1830-48 continuaram tendo muito em comum: organizações minoritárias de conspiradores da classe média e intelectuais e mantiveram um padrão comum de procedimento político, de idéias estratégicas e táticas. As organizações ilegais são naturalmente menores que as legais e sua composição social não é representativa.

Chegaria o momento em que os antigos aliados contra o rei, a aristocracia e o privilégio se voltariam uns contra os outros e o conflito fundamental seria entre os burgueses e os trabalhadores. Na Grã-Bretanha, esse momento chegou com o cartismo.

Mais do que um panorama comum, a esquerda européia partilhava de uma visão comum sobre como seria a revolução baseada em 1789, com retoques de 1830. De um modo geral, pode-se dizer também que quanto mais de esquerda fosse o político, mais provável seria que defenderia o princípio (jacobino) de centralização de um executivo forte contra os princípios (girondinos) do federalismo, descentralização ou divisão dos poderes.

A causa de todas as nações era a mesma. Os preconceitos nacionais desapareceriam em um mundo de fraternidade (“Democratas Fraternos”). As tentativas de se organizar associações revolucionárias internacionais nunca cessaram, desde a Jovem Europa de Mazzini até a Associação Democrática para a Unificação de Todos os Países (1847). Entre os movimentos sócio-revolucionários, que aceitavam cada vez mais a orientação proletária, o internacionalismo aumentou sua força (A Internacional).

Nos centros de refúgio, os emigrantes se organizavam, debatiam, discutiam, freqüentavam-se e denunciavam-se uns aos outros e planejavam a libertação de seus e de outros países. Principalmente os poloneses, que tornaram-se corpos internacionais de militância revolucionária. Um nome importante foi o de Harro Harring (segundo ele da Dinamarca), que lutou como membro da Jovem Alemanha, da Jovem Itália e da Jovem Escandinávia. Nem sempre se admiravam ou se aprovavam mutuamente, mas se conheciam e sabiam que seu destino era o mesmo. Juntos, preparam-se e esperaram a revolução européia que veio (e fracassou) em 1848.

Capítulo 7

O NACIONALISMO

I

Após 1830, movimentos em favor da revolução, influenciados pela Revolução Francesa, se dividem por toda Europa e são caracterizados por movimentos nacionalistas conscientes: movimentos “jovens” (Jovem Alemanha, Jovem Itália, Jovem Suíça…).

Esses movimentos pretendiam a fraternidade de todos e justificavam suas preocupações primordiais com suas nações; os povos sofridos seriam conduzidos à liberdade.

Forças poderosas, resultado da Revolução Dupla, deram características ao nacionalismo, como:

  • Descontentamento dos proprietários menores ou a pequena nobreza inferior;
  • Surgimento de uma classe média inferior com grande parte de intelectuais profissionais;
  • Oposição ao absolutismo, à dominação estrangeira e aspiração a mais empregos.

Classes empresariais deste período foram menos nacionalistas, pois preferiam os grandes mercados abertos a pequenos mercados de uma futura nação independente. Em alguns casos como na Bélgica, os interesses empresariais eram fortes, pois a pioneira comunidade industrial era desafortunada sob domínio de uma poderosa comunidade mercantil holandesa.

O grande proponente do nacionalismo de classe média, neste estágio, foi a categoria de profissionais intelectuais, ou seja, as classes educadas. (Os empresariais também faziam parte dessa classe). Fez-se a guerra do nacionalismo ao longo da linha que demarcava o progresso educacional em áreas ocupadas por uma pequena elite. Um progresso surpreendente, pois embora houvesse poucas pessoas “instruídas”, o número de pessoas com acesso à escolaridade e à universidade aumentava conforme os anos, dando-lhes nova consciência de si mesmos como grupo social.

Embora pequenas elites possam se comunicar em línguas estrangeiras, a língua nacional se impõe uma vez que o número de pessoas com acesso à educação se torna elevado. Livros didáticos e jornais são impressos pela 1ª vez na língua nacional, que também é usada para fins oficiais dando um marco forte à evolução nacional.

Lembramos aqui que, com a exceção dos alemães, holandeses, escandinavos, suíços e norte-americanos, não se pode dizer que outros povos fossem alfabetizados em 1840. Até mesmo Grã-Bretanha, França e Bélgica tinham por volta de 40% a 50% de analfabetismo. E o analfabetismo também não correspondia um obstáculo à consciência política, porém não há provas que o nacionalismo tenha sido uma poderosa força de massa com exceção a esses últimos países citados que já foram transformados pela revolução dupla.

Para as massas em geral, o teste de nacionalidade ainda era a religião (espanhóis católicos, russos ortodoxos…). Mesmo com alguns confrontos, para essa massa ainda era raro o sentimento de nacionalidade. Eles mesmos não falavam a língua literária nacional e sim dialetos incompreensíveis.

Foi o desenraizamento dos povos que destruiria o profundo e antigo tradicionalismo local. Migrações e emigrações eram incomuns e em sua maioria aconteciam por obrigações militares ou pela fome, mas a partir da década de 1820 esse processo de deslocamento aumenta notavelmente e o índice mais conveniente seria a migração para os EUA. Fora as Ilhas Britânicas, a única nação migratória era a Alemanha que enviava seus filhos como colonos rurais para Europa Oriental ou como artesãos para toda Europa.

II

Fora do mundo burguês houve movimentos de revolta popular contra o domínio estrangeiro (o domínio de uma religião diferente ao invés de uma nacionalidade diferente), o que antecipa os movimentos nacionais. Líderes ou governantes estrangeiros também eram recebidos com resistência pelo povo, embora não haja relação alguma com movimentos nacionalistas posteriores. Exemplificando essas revoltas populares podemos citar os indianos contra a influência britânica e as derrotas dos sérvios em Kosovo contra os turcos (contra uma administração do império turco).

Foi somente na luta grega pela independência (1821-30) que se fundiram as idéias do nacionalismo e da Revolução Francesa e não foi à toa que a Grécia se tornou o mito inspirador para os nacionalistas e liberais de todo o mundo. Foi somente na Grécia que todo um povo se rebelou contra um opressor e pôde ser identificada com a causa da esquerda européia, e que essa foi uma considerável ajuda para a independência grega.

Fora da Europa é difícil falar de nacionalismo. Nada que se pareça com nacionalismo pode ser descoberto em outras regiões, pois não havia condições sociais para isto. As forcas que viriam mais tarde produzir o nacionalismo estavam nesse estagio em oposição à aliança da tradição, da religião e da pobreza das massas que produziu a mais poderosa resistência ao abuso dos conquistadores e exploradores ocidentais. Por exemplo, na Ásia os elementos de uma burguesia se formavam à sombra dos exploradores estrangeiros. Portanto o nacionalismo asiático foi produto da influência e conquista ocidental.

Já as muitas repúblicas latino-americanas substituíram velhos impérios espanhóis e portugueses. O Brasil se tornou uma monarquia independente. Suas fronteiras refletiam a distribuição das propriedades dos nobres que apoiavam rebeliões locais e começavam a adquirir interesses políticos estáveis e aspirações territoriais. As revoluções latino-americanas(países de língua espanhola) foram obra de pequenos grupos de aristocratas, soldados e elites afrancesadas “evoluídas”.