Eric Hobsbawm e o livro Era das revoluções

Eric Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do século XX, que escreveu os já clássicos “A Era das Revoluções 1789–1848 “, “A Era do Capital 1848-1875“, “A Era dos Impérios 1975-1914” e “Era dos Extremos 1914-1991“.

Em A Era das Revoluções 1789–1848, Hobsbawm trata dos principais desenvolvimentos históricos desse período, construindo a imagem de uma sociedade produzida pelas “revoluções” e abordando o surgimento de termos que empregamos até hoje, como industrial, classe média, nacionalismo, etc.

O conteúdo dessas obras é denso, por isso estamos disponibilizando para vocês um fichamento delas. Nesta postagem, está o fichamento da “Parte 2” da obra. A “Parte 1” está no post anterior. Bons estudos.

A ERA DAS REVOLUÇÕES

1789-1848

Parte I

EVOLUÇÃO

  1. O Mundo na década de 1780
  2. A Revolução Industrial
  3. A Revolução Francesa
  4. A Guerra
  5. A Paz
  6. As Revoluções
  7. O Nacionalismo

Parte II

RESULTADOS

  1. A Terra
  2. Rumo a um Mundo Industrial
  3. A Carreira Aberta ao Talento
  4. Os Trabalhadores Pobres
  5. A Ideologia Religiosa
  6. A Ideologia Secular
  7. As Artes
  8. A Ciência
  9. Conclusão: Rumo a 1848

Parte II

RESULTADOS

Capítulo 8

A TERRA

I

Dentre 1789-1848 o que acontecia com a terra influenciava a vida dos seres humanos. Com a revolução dupla o impacto sobre o aluguel da terra e a agricultura foi o mais catastrófico fenômeno da época. A terra era considerada a única fonte de riqueza e após a revolução seria a conseqüência necessária da sociedade burguesa e do desenvolvimento econômico. A terra tinha, a qualquer custo, de estar em condições adequadas para que o solo pudesse ser arado por forças de empresas privadas em busca de lucro. Para isso:

1 – A terra tinha que ser privada, transformada em mercadoria e livremente negociada por seus proprietários.

2 – Seus proprietários deveriam desenvolver seus recursos produtivos para o mercado estimulados por seus interesses e lucros.

3 – A grande massa da população rural deveria ser transformada em trabalhadores assalariados com liberdade de movimento, para o setor não agrícola da economia.

É importante ressaltar que alguns economistas mais radicais estariam conscientes de uma quarta difícil mudança. Acreditavam que diante da mobilidade dos fatores de produção, a terra, “um monopólio natural”, não se encaixava muito bem, pois o tamanho da terra era limitado e com diferenças na fertilidade e acesso, fazendo com que proprietários de partes mais férteis se privilegiassem. Uma maneira de combater essa situação seria uma tributação por meio de leis contra a concentração de terra ou sua nacionalização.

Esses, então, eram os problemas de terra em uma sociedade burguesa em processo de instauração. Para seu funcionamento havia também dois outros obstáculos: Os proprietários de terra pré-capitalistas e o campesinato tradicional. Ambos exigiam de uma combinação nas ações políticas e econômicas.

Visto que o primeiro objetivo da terra era transformá-la em mercadoria, o proprietário com incompetência econômica poderia sofrer penalidade e permitir que compradores mais competentes assumissem a situação. Em países com terras eclesiásticas teria que ser aberto ao mercado e à exploração racional. Não poderia haver dúvidas de que os compradores das terras divididas, os novos proprietários, seriam empresários fortes e sóbrios; e assim seria atingido o segundo objetivo da revolução agrária. E por último, para uma completa mudança, as forças de trabalho “livre”, constituídas daqueles que não conseguiram se tornar burgueses.

II

Na França a abolição do feudalismo foi obra da Revolução. A pressão camponesa e os jacobinos levaram a reforma agrária muito além do que os capitalistas desenvolvimentistas teriam desejado. A França não se tornou nem um país de senhores de terra e trabalhadores agrícolas e nem de fazendeiros comerciais, mas em grande parte de proprietários camponeses que se tornaram principal amparo dos regimes políticos que não ameaçaram tomar suas terras.

Já na maior parte da Europa latina, Países Baixos, Suíça e Alemanha Ocidental a abolição do feudalismo foi obra do exército francês ou liberal que proclamavam, em nome da nação, a abolição dos dízimos e direitos senhoriais. Com a volta dos Bourbon depois de abortada revolução napolitana em 1798-9, as reformas não se completaram, mas continuaram com a revolução legal em áreas como Alemanha Oriental, Croácia, Eslovênia e só voltaram sob administração francesa em 1805.

Entretanto, a Revolução Francesa não foi a única força que impulsionava por uma revolução agrária. O puro argumento econômico em favor de utilização racional da terra já impressionava os servidores civis assim como a ganância da nobreza, que transformava a emancipação da terra em um instrumento de expropriação camponesa. Os passos legais, então, para o sistema burguês de propriedades de terra aconteceram entre 1789 e 1812. Cada avanço da teoria liberalista daria mais um passo para a prática.

III

O antigo sistema tradicional, embora opressor e ineficaz, era um sistema de certeza social e uma determinada segurança econômica. A revolução para o camponês não lhe deu nada exceto direitos legais. Para o camponês pobre pareceu uma troca desfavorável. Foram retirados recursos que eles acreditavam ter direito.

Com o mercado livre de terras significaria que eles provavelmente teriam que vender sua terra, e uma classe rural de proprietários os explorariam no lugar dos senhores. A introdução do liberalismo na terra destruiu, então, a estrutura social em que sempre habitaram.

Nada mais natural que o camponês pobre lutasse pelo que pudesse e assim lutou em nome de um velho ideal consuetudinário de uma sociedade mais justa e estável, isto é, em nome da Igreja e do rei legítimo.

IV

Em grandes partes da Europa a revolução legal veio como algo imposto de fora como um terremoto artificial. Isto se tornou ainda mais óbvio em lugares onde ela foi imposta a uma economia totalmente não burguesa como na África e na Ásia (domínio inglês na Índia, por exemplo).

Na América Latina foi feita a tentativa de aplicação da lei liberal sobre a terra. Os governos independentes, entretanto, procederam à liberalização nos moldes da Revolução Francesa e doutrina de Bentham (bem estar do indivíduo), que os inspiravam.

A libertação das terras dos nobres pode ter levado a alguma redistribuição e dispersão das propriedades, embora o grande fundo continuasse sendo a unidade dominante da propriedade de terra na maioria das repúblicas. Os ataques contra as propriedades comunais continuaram ineficientes. A liberalização da economia continuou artificial. Os parlamentos, eleições e leis territoriais pouco mudaram o continente.

V

A revolução da propriedade de terras foi o aspecto político do rompimento da tradicional sociedade agrária. Uma invasão para uma nova economia rural e pelo mercado mundial. Uma transformação imperfeita medida pela modesta taxa de emigração. A agricultura local era fortemente protegida da competição internacional ou interprovincial.

O novo método agrícola, fora das áreas de agricultura capitalista bem-sucedida, era lento, por isso não faziam efeitos na competição industrial sobre aldeias ou ofícios domésticos, embora o açúcar de beterraba, o milho e a batata já faziam grandes avanços na Inglaterra.

Era necessária, então, uma conjuntura econômica com a proximidade imediata de uma economia industrial e a inibição do desenvolvimento normal para um verdadeiro cataclismo em uma sociedade agrária por meio puramente econômicos.

Capítulo 9

 RUMO A UM MUNDO INDUSTRIAL

I

Em 1848 somente a economia inglesa estava efetivamente industrializada. Boa parte de países da Europa Ocidental, Oriental e dos Estados Unidos já haviam se encontrado na “soleira” da revolução industrial. Excluindo a Grã-Bretanha e algumas outras partes, o mundo social e econômico de 1840 pode ser visto similarmente a 1788. A maioria das pessoas em todo mundo não britânico era em grande maioria de camponeses e controlados pelo ritmo de boas ou más colheitas que influenciavam, gerando também variações nos ritmos do setor industrial e não industrial.

A crise econômica que atingiu grande parte da Europa em 1846-48 foi uma depressão totalmente agrária. Não atingiu a Grã-Bretanha, que em 1848 estava sofrendo a primeira depressão cíclica da grande era de expansão vitoriana. Uma revolução continental não seria possível sem um correspondente movimento britânico.  A disparidade entre o desenvolvimento britânico e o continental tornaria inevitável que o continente se insurgisse sozinho. Mudanças fundamentais estavam acontecendo:

  • A população mundial começa a se multiplicar e resultado desse aumento demográfico um estimulo a economia.
  • Nas comunicações. Aumentam as ferrovias (que já eram usadas na Grã-Bretanha, EUA, Bélgica, Alemanha e França), multiplicava o número de estradas, melhorando o serviço das carruagens e postais. As pontes que se curvam sobre os rios e seus veleiros.
  • O volume do comércio e emigrações. O comércio internacional no mundo ocidental triplicou.

II

Com exceção dos EUA, o período de Revolução Francesa trouxe pouco avanço imediato. Foi após 1830 que se presenciou então uma grande e acelerada mudança social e econômica. A situação mudou rápida e drasticamente com o novo proletariado e os horrores da incontrolável urbanização. Em países mais industrializados (Bélgica, França) duplicavam e triplicavam seus maquinários. Os anos que vão de 1830-48 marcam o nascimento de áreas industriais e revolução nas técnicas de investimentos. (Através de Banqueiros mais ricos poderia haver empréstimos para fins capitalistas)

A industrialização continental e até mesmo americana diferencia-se da inglesa. Nessas a empresa privada foi menos favorável. Na Grã-Bretanha não houve escassez nos fatores de produção e nenhum obstáculo institucional para o desenvolvimento capitalista. O governo dos países continentais tinha um controle maior sobre a indústria que por sua vez dependiam muito mais de aparatos financeiros e de uma moderna legislação bancaria, comercial e de negócios. E da Revolução Francesa adotou-se os códigos legais de Napoleão (com ênfase na liberdade contratual garantida legalmente, reconhecimento das letras de cambio e outros papéis comerciais e sua disposição em prol das empresas de capital social).

III

O desenvolvimento econômico deste período contém um gigantesco paradoxo: a França. Teoricamente, nenhum outro país deveria ter avançado mais rapidamente. Ela possuía instituições ajustadas de forma ideal ao desenvolvimento capitalista. Paris era um centro internacional que seguia Londres bem de perto. Ainda assim, basicamente, o desenvolvimento econômico francês era mais lento que em outros países. Sua população crescia silenciosamente, porém sem dar grandes saltos.

A explicação para isso é a própria Revolução Francesa. Como visto no capítulo anterior, parte capitalista da economia francesa era à base do campesinato e da pequena burguesia. Os trabalhadores livres destituídos das terras vinham pouco a pouco para a cidade. Economizava muito capital. Eram produzidas mercadorias de luxo e não mercadorias de consumo de massa. A França, em si, fertilizou o crescimento econômico em outros países.

Já nos EUA sofria-se uma escassez de capital, mas estavam prontos para importa-lo da Grã-Bretanha. Sofria de mão-de-obra, mas as Ilhas Britânicas e a Alemanha estavam também prontas a exportá-la. Somente um único obstáculo atrapalhava a conversão dos EUA para a potência mundial que logo tornaria: o conflito entre o norte agrícola e industrial, que se beneficiava do capital e mão-de-obra, contra o sul semi-colonial e dependente da Grã-Bretanha.

Uma projeção de um outro futuro gigante no mundo econômico era a Rússia, pois já previam que, com seu vasto território, população e recursos, mais cedo ou mais tarde, viria a se projetar mundialmente.

De todas as conseqüências econômicas da época da Revolução Dupla, podemos dizer que gerou, então, uma divisão entre os países “adiantados” e os “subdesenvolvidos”, e que esta provou ser profunda e duradoura. Por volta de 1848 estava claro, que os países deveriam seguir o exemplo da Europa Ocidental (exceto a Península Ibérica), Estados Unidos e países colônias de língua inglesa.

Mas não podemos deixar de comentar aqui que o resto do mundo estava muito atrasado ou ainda se transformando – sob pressões formais das exportações e importações – em dependências econômicas.

Capítulo 10

A CARREIRA ABERTA AO TALENTO

I

A revolução francesa acabou com a sociedade aristocrata, mas não com o status social desta camada. A nova classe em ascensão estabeleceu como símbolo de sua riqueza e poder aquilo que os antigos grupos superiores tinham estabelecido. Deste modo, as características da cultura aristocrática francesa foram assimiladas pela burguesia.

A sociedade da França pós-revolucionária era a burguesia em estrutura e valores que incorporava a idéia do self-made-man. Este domínio burguês não era peculiar à França (EUA, Grã-Bretanha), mas onde era mais visível seu predomínio:

  1. Jornal (La presse–1836) lucro com a publicação de anúncios, fofocas, novelas…
  2. Moda
  3. Teatro

A revolução industrial na estrutura da sociedade burguesa foi menos dramática, apenas destacou uma elite que não se considerava mais um “escalão mediano”, mas formava agora uma classe (o termo classe média apareceu pela primeira vez por volta de 1812).  Esta nova classe detinha uma autoconfiança feroz e o desenvolvimento da economia política deu-lhes uma certeza intelectual.  Ressalta-se uma elevada visão utilitarista da burguesia em relação a ideias elaboradas pelos escritores, intelectuais, inventores, não se excluindo a própria religião.

II

A realização crucial das duas revoluções foi o fato de que elas abriram parcialmente as carreiras para o talento ou, pelo menos, para a energia, sagacidade, trabalho duro e ganância. Os cargos superiores – com a exceção dos EUA – ainda permaneciam restritos a uma parcela da população. Nas sociedades pré-capitalistas, os filhos herdavam as profissões dos pais, contudo após a dupla revolução havia 4 maneiras de ascensão social:

  1. Os negócios
  2. A educação que levavam a mais 3 opções : O funcionalismo público, a política e as profissões liberais.
  3. As artes: Reconhecimento público e status social mais freqüente.
  4. As guerras: Encontrava-se em declínio em decorrência da relativa “paz” após as guerras napoleônicas.

Os negócios e a educação eram opções que apresentavam alguns percalços, pois ambos necessitavam de um capital inicial. Havia, contudo obstáculos maiores para aqueles que optassem pela educação, a despeito de alguns países fornecerem de um sistema público de ensino que era precarizado por razões políticas.

Mesmo exigindo maiores esforços, a educação era a opção mais procurada e mais valorizada socialmente que os negócios. Estes tinham claramente uma mentalidade anti-social, pois contribuía com a exploração dos homens, enquanto as profissões liberais ajudavam a diminuir a miséria da população. 

Ambas opções (negócios e educação) estavam abertas as competições individuais e o triunfo baseado no mérito. Nos serviços públicos a seleção por méritos substituiu as origens aristocráticas e se tornaram uma alternativa para a ascensão das classes médias.

No período pós-napoleônico, observou-se um aumento dos gastos públicos em quase todos os países da Europa e EUA em virtude não só dos gastos com as forças armadas, mas também com o desenvolvimento de velhas e novas funções dos Estados. Nota-se uma aparente contradição entre a acepção liberal de Estado (Estado mínimo) e os aumentos dos gastos observados. O liberalismo não é hostil à burocracia, mas sim a burocracia ineficaz. O Estado destituído de gastos ineficazes torna-se mais forte: investimento em polícias nacionais (França 1798, Inglaterra 1828); investimento em sistema público de ensino, em serviços públicos de ferrovias. O próprio crescimento da população aumentou a demanda por um sistema judicial, exigiu uma administração urbana mais capilarizada e maior eficiência na arrecadação de impostos.

Entretanto a maioria dos postos burocráticos eram professores, carteiros, coletores de impostos e oficiais de justiça. Estas carreiras de classe média não garantiam nada além de uma vida modesta e “confortável”, em melhores condições que trabalhadores pobres.

As profissões liberais (médicos, advogados, professores) não estavam ao alcance de todos, pois exigiam longos anos de estudos, talento e oportunidade. Em uma economia que se expandia rapidamente, os negócios eram a carreira mais aberta ao talento.

III

A abertura das carreiras ao talento entusiasmou, sobretudo, a comunidade judia da Europa ocidental – antes enclausurada em suas comunidades fechadas em virtude das opressões sociais a que eram submetidas. Antes limitados ao comercio, finanças ou interpretação da sagrada lei, os judeus passaram a trabalhar em diversas profissões com destaque nas artes, ciências e profissões liberais. Havia uma maior assimilação dos judeus na sociedade burguesa, embora o anti-semitismo fosse endêmico nas massas exploradas (os burgueses e judeus eram agora identificados como algozes da exploração).

Entretanto, para a grande massa dos povos, o ajustamento a essa nova realidade era difícil, seja porque não tinham condições ou porque não entendiam o que se esperava deles. Segundo os novos valores impostos pela dupla revolução, o homem que não tivesse demonstrado habilidade em chegar a proprietário não era um homem completo e, portanto, um cidadão completo. Estabeleceu-se, pois, um sentimento de superioridade – aqueles que não conseguiam ingressar na classe média demonstravam uma falta de inteligência pessoal, força moral ou energia – que determinavam eternamente sua posição social.  Era este sentimento que justificavam, na opinião da classe média, a aparente incompatibilidade entre o princípio da igualdade de todos perante a lei e os códigos trabalhistas discriminatórios. A sociedade hierárquica foi, assim, reconstruída sobre os princípios da igualdade formal.

Capítulo 11

OS TRABALHADORES POBRES

I

Eram 3 as oportunidades abertas aos pobres que se encontravam à margem da sociedade burguesa:

  1. Lutar para se tornarem burgueses
  2. Submissão
  3. Revolução

A primeira opção era tecnicamente difícil para aqueles que careciam de bens e instrução, como era também profundamente desagradável. O liberalismo da sociedade burguesa era considerado desumano. Esta visão também passou a ser compartilhada por negociantes e fazendeiros de menor que não conseguiam competir com a exploração e a técnica dos grandes capitalistas. As novas maquinarias tornaram-se alvos de operários e pequenos proprietários.

No entanto, havia trabalhadores que se esforçavam para se unir a classe média. Eram influenciados por uma literatura moral e didática da classe média radical e os esforços protestantes que disseminavam os preceitos da poupança, auto-ajuda e automelhoria. Estes representavam a minoria, enquanto do outro lado a grande parcela da população não conseguia compreender o processo e permaneciam à margem da sociedade. Neste cenário de miséria e cataclismo econômico-social, a embriaguez, o infanticídio, prostituição e a demência disseminaram-se por toda a Europa e tornaram-se companheiras da industrialização e da urbanização. Observou-se concomitantemente o aumento da criminalidade e violência.

O crescimento econômico não era acompanhado pela expansão da infra-estrutura urbana (limpeza das ruas, fornecimento de água, serviços sanitários e habitação para a classe trabalhadora). A conseqüência desta deterioração urbana era a disseminação de doenças, principalmente aquelas transmitidas pela água. As classes médias e altas não sentiram estes efeitos, pois o desenvolvimento urbano promoveu uma segregação de classes. Apenas quando as epidemias atingiram a classe dos poderosos iniciou-se o aperfeiçoamento da rede urbana.

II

Outra alternativa dos trabalhadores pobres era a rebelião. Observa-se ao longo do século XIX o aparecimento de revoltas trabalhistas e socialistas que culminaram com a revolução de 1848.

A pauperização da classe trabalhadora passou a ser relatada por inúmeros observadores, sendo pior no campo, entre os trabalhadores assalariados não proprietários, trabalhadores rurais domésticos e camponeses pobres. Malthus ao observar esta situação propôs que o crescimento da população superaria inevitavelmente o crescimento dos meios de subsistência. Más colheitas, como as de 1789, 1795, 1817, 1832 e 1847 traziam a fome. Somada a estes eventos havia também a diminuição da renda dos trabalhadores.

A industrialização e a urbanização também levaram a mudança e a rigidez na alimentação tradicional dos trabalhadores. Esta se tornou pior e associada às condições de vida nos centros urbanos levava a uma evidente diferença na aptidão física entre as populações agrícolas e industriais – em alguns centros urbanos, a expectativa de vida dos trabalhadores chegava a ser a metade quando comparados às populações rurais.

Era freqüente o deslocamento de grupos de trabalhadores em decorrência das crises repetitivas do capitalismo industrial. Ademais havia a transformação de setores ocupados por artesãos que passavam a ser ocupados por máquinas. Observa-se também que apesar de uma aparente melhora material, os trabalhadores de certa forma perdiam sua liberdade: disciplina rígida imposta pelo patrão; ocupavam as casas fornecidas por eles; recebiam como pagamento mercadorias…

III

O movimento operário trata-se de uma resposta a essa situação intolerável de sofrimento. Durante o século XIX, esta mobilização tomou consciência e ambição de classe, não se caracterizando mais como uma disputa entre “pobres” e “ricos”. Assim, a luta da classe trabalhadora desenvolveu uma nova metodologia que se caracterizava pela vigilância permanente, organização e atividade – sindicatos, sociedade coorporativas, instituições trabalhistas, jornais e agitação.

A consciência de classe ainda não existia na França revolucionária. Tornou-se presente entre 1815 – 1848, apenas nos países da revolução dupla – praticamente inexistia fora dos dois países. Na Grã-Bretanha os sindicatos gerais foram fundados em 1818 e promoviam uma tática sistemática de greve geral. Assim por volta da década de 1830 já existia uma consciência de classe proletária que eram mais débeis e menos efetivas do que as classes patronais.

Esta consciência de classe era reforçada pelos ideais jacobinos – conjunto de aspirações, experiências, métodos e atitudes morais – da Revolução Francesa e Americana que davam confiança aos pobres. Porém, fracassaram as tentativas de 1829 e 1834 de usar um modelo puramente unionista ou mutualista em busca de melhores salários objetivando a mudança da sociedade existente.  Estes grandes sindicatos se mostraram de difícil controle. A agitação de orientação jacobina era flexível e eficaz e ganhou solidez e continuidade, porém fracassaram quando tinham objetivos muito ambiciosos. Havia, contudo, antes do jacobinismo a tradição do motim ou protesto público ocasional que expressava a fome e os sentimentos dos homens esgotados.

IV

O movimento proletário era heterogêneo em sua composição, pois abrangia todos os trabalhadores pobres, principalmente os urbanos. A liderança destes movimentos era composta de artífices qualificados, artesãos independentes, empregados domésticos, que passaram a trabalhar sob pressão maior após a revolução industrial. Tratam-se assim de um movimento de autodefesa, protesto e revolução

V

Por fim, havia pouca liderança ou coordenação – com a exceção de sua manifestação política mais sólida que era o cartismo – e a tentativa de transformar o movimento em organização “o sindicato geral” de 1834-5 fracassou. Havia uma solidariedade espontânea da classe trabalhadora local, que se mantinham unidos em resposta a fome, a miséria, ao ódio e a esperança. Apesar de aterrorizarem os ricos com o “espectro do comunismo”, tratava-se apenas de um movimento, e não de uma organização.

Capítulo 12

A IDEOLOGIA RELIGIOSA

I

A religião que antes se fazia presente em quase toda a Europa – ao ponto do termo cristão ter se tornado sinônimo de homem em alguns países – foi perdendo paulatinamente sua influência na sociedade, principalmente nos países centros das duas revoluções (este fenômeno já era visível mesmo antes de 1848). A secularização da sociedade era mais evidenciada entre eruditos, escritores e cavaleiros que ditavam as modas intelectuais do final do século XVIII. As mulheres e os camponeses ainda permaneciam devotos a ideologia cristã.

Entre a classe média, apesar da ideologia iluminista, antitradicional, progressista e racionalista se encaixar melhor no esquema desta classe, na prática esta permanecia ainda receosa de abandonar a moralidade e a “sanção sobrenatural” do velho tipo de religião. Assim a burguesia permanecia dividida entre livres pensadores mais dinâmicos e efetivos (minoria) e maioria de católicos, protestantes e judeus devotos. Observa-se que a própria revolução americana e francesa – que secularizaram as transformações políticas e sociais – são as maiores demonstrações da vitória da ideologia secular sobre a religiosa.

O triunfo burguês na Revolução Francesa inseriu a moral-secular ou agnóstica do iluminismo do século XVIII na linguagem geral de todos os movimentos sociais e revolucionários subseqüentes (socialistas e trabalhistas). O novo proletariado influenciado pelos movimentos socialistas e trabalhistas seculares adquiriu aos poucos certa indiferença religiosa. Contribuíram para este fenômeno a incapacidade das igrejas estabelecidas em lidar com as aglomerações – grandes cidades – e com as classes sociais – proletariado – e com seus novos costumes e experiências. “os problemas do pregador de uma aldeia agrícola não serviam como guia para a cura das almas em uma cidade industrial ou um cortiço urbano”. As novas comunidades e classes eram negligenciadas pelas igrejas estabelecidas e ficavam a mercê dos novos movimentos trabalhistas. No final do século estas comunidades inglesas foram “capturadas” novamente principalmente pelas seitas protestantes.

A tendência geral do período de 1789 – 1848 era secularização. Houve influência da ciência que muitas vezes questionava os dizeres da Bíblia. Novum Testamentum (1842-1852) de Lachman negava que os Evangelhos fossem relatos de testemunhas oculares. A vida de Jesus (1835) de David Strauss eliminava o elemento sobrenatural do seu biografado. Havia o ataque direto de numerosos regimes políticos contra as propriedades e privilégios das igrejas estabelecidas. 

II

Durante o período avaliado pelo autor, observa-se uma possibilidade para a expansão de algumas religiões, principalmente o islamismo e as seitas protestantes – decorrente da expansão da população. Este aumento das atividades missionárias – sobretudo fora da Europa – estava respaldado pela força econômica, política e militar européia. Observa-se uma vinculação entre a história religiosa, política e econômica para a expansão das religiões na Europa e Américas. O catolicismo encontrava-se estagnado e só iniciou sua expansão bem mais tarde.

Ao mesmo tempo o islamismo continuava sua expansão de maneira silenciosa, gradativa e irreversível – sem o esforço missionário organizado ou a conversão forçada – para o Oriente (Indonésia e noroeste da China), para o Ocidente (Sudão e Senegal) e em menor proporção nas costas do oceano Indico e interior do continente. Observa-se influência dos comerciantes mulçumanos no interior do continente africano que ajudavam a chamar a atenção dos povos para sua religião assim como a escravidão – arruinadora da vida comunitária – que encontrava na reintegração das estruturas sociais promovidas pelo islamismo o seu alento

No sudeste asiático, o islamismo era tido como um elemento de resistência aos brancos (não observado no islamismo africano) devido a reiteradas colonização desta região por potências estrangeiras (Portugal, Holanda). Observa-se também o declínio dos cultos locais como o hinduísmo.  Grande parcela do seu poder de expansão deve-se aos movimentos reformistas e de renovação que surgiram como um reflexo do impacto da expansão européia, da crise das antigas sociedades maometanas e também da crescente crise do império chinês.

No período estudado pelo autor, a expansão do islamismo é mais bem descrita como o renascimento do islamismo mundial, o que não foi equiparado por nenhuma outra religião não cristã. O movimento protestante se difere do islamita devido à restrição do primeiro aos países de civilização capitalista desenvolvida (Grã Bretanha, EUA). Dentro destes, os limites sociais e geográficos do sectarismo protestante em países de influência católica devia-se ao fato que estes não aceitavam o estabelecimento público de seitas. Nos países protestantes o impacto da sociedade individualista e comercial era mais forte (Grã-Bretanha, EUA) e a tradição sectarista já estava estabelecida. Sua exclusividade e insistência na comunicação individual entre o homem e Deus, bem como sua austeridade moral tornavam-na atraente para os empresários e pequenos comerciantes. Sua teologia baseada na salvação pessoal tornava-a atraente também para os homens que levavam vidas difíceis (homens das fronteiras, pescadores, pequenos cultivadores, mineiros e artesãos). Por sua vez a concepção do salvacionismo pessoal também levava a uma tendência inicialmente irracionalista, apolítica ou conservadora. Posteriormente as seitas evoluíram para uma orientação em direção ao radicalismo jeffersoniano ou jacobino ou em direção a um liberalismo moderado de classe média.

III

Em termos religiosos, o período foi uma crescente secularização e indiferença religiosa (na Europa), combatida com o despertar da religião em suas formas mais intransigentes, irracionais e emocionalmente compulsiva.  Para as massas era principalmente um método de luta contra a sociedade cada vez mais fria, desumana e tirânica do liberalismo da classe média. Representava uma tentativa de criar instituições políticas, sociais e educacionais em um ambiente que não proporcionava nada disso. No entanto, para as classes médias, a religião servia de amparo moral, justificando sua existência social contra o desprezo e o ódio da sociedade tradicional, além de um mecanismo de expansão.

A religião fornecia estabilidade social para as monarquias e aristocracias. Encorajavam o sentimento religioso dos analfabetos e devotos em favor da defesa de seu governante e da sua igreja. Trata-se de uma tentativa de preservar a velha sociedade contra a corrosão da razão e do liberalismo. Na Igreja romana, o principal campo de ação era a França onde adquiriu mais tendências liberais. A maioria das seitas protestantes estava mais próxima do liberalismo, sobretudo em termos políticos. As igrejas estatais protestantes, no entanto, eram politicamente mais conservadoras. Os judeus estavam mais expostos a força das correntes liberais visto que adquiriram sua emancipação política e social graças a elas.

Capítulo 13

A IDEOLOGIA SECULAR

I

Neste capítulo Hobbsbawm fará uma análise do que ele considera ideologia leiga ou secular, surgida a partir da revolução dupla. Para ele, apesar da ideologia religiosa ser predominante nessa época, verifica-se um crescimento constante de pensamentos relacionados com a natureza da sociedade e com a direção para a qual ela estava se encaminhando.  Pensando sobre isso havia dois tipos básicos de opinião, uma que era a favor da idéia de progresso, e outra que não.

Até 1789, a formação mais poderosa e adiantada dessa ideologia de progresso tinha sido o clássico liberalismo burguês. Era uma filosofia estreita, lúcida e cortante que encontrou seus mais puros expoentes na Grã-Bretanha e França. Seus idealizadores acreditavam na capacidade da razão em compreender e solucionar todos os problemas. Para eles, o mundo humano era constituído de átomos individuais que buscavam suas próprias satisfações diminuindo seus desprazeres. Na busca pela vantagem pessoal os homens acabavam sendo forçados a entrar em contato com outros indivíduos estabelecendo um complexo de acordos úteis que formava a sociedade e os grupos políticos. O homem do liberalismo clássico era um animal social somente na medida em que coexistia em grande número. A felicidade era o supremo objetivo de cada um e a maior felicidade ao maior número de pessoas era o objetivo da sociedade. Este utilitarismo puro esteve associado a pensadores como Jeremy Bentham (1748-1836) e James Mill(1773-1836) e acima de tudo aos economistas políticos clássicos.

Além do direito de utilidade, conferido à propriedade privada e à liberdade individual e de empresa, foi constituído um direito natural do homem. A base dessa ordem natural era a divisão social do trabalho. Podia ser cientificamente provado que a existência de uma classe de capitalistas donos dos meios de produção beneficiava a todos, inclusive aos trabalhadores que se alugavam aos seus membros. O progresso era, portanto, tão “natural” quanto o capitalismo. Se fossem removidos os obstáculos artificiais que no passado lhe haviam sido colocados, se produziria de modo inevitável; e era evidente que o progresso da produção estava de braços dados com o progresso das artes, da ciência e da civilização em geral.

Neste momento, essa ideia começa a tropeçar não só porque David Ricardo descobrira contradições dentro do sistema que Smith preconizava, mas também porque os verdadeiros resultados sociais e econômicos do capitalismo provaram ser menos felizes do que tinham sido previstos. Naturalmente, ainda se poderia sustentar que a miséria dos pobres que estava condenada a se prolongar até a beira da extenuação, ou a padecer com a introdução das máquinas, ainda se constituía na maior felicidade do maior número de pessoas, número que simplesmente resultou ser muito menor do que poderia se esperar.

No continente europeu, os liberais práticos se assustavam com a democracia política, preferindo uma monarquia constitucional com sufrágio adequado ou, em caso de emergência, qualquer absolutismo ultrapassado que garantisse seus interesses. Os descontentamentos sociais, os movimentos revolucionários e as ideologias socialistas do período pós-napoleônico intensificaram esse dilema, e a revolução de 1830 tornou-o mais agudo. O liberalismo e a democracia pareciam mais adversários do que aliados; o tríplice slogan da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – expressava melhor uma contradição do que uma combinação.

II

Enquanto a ideologia liberal perdia assim sua confiança original, uma nova ideologia, o socialismo, voltava a formular os velhos axiomas do século XVIII. A razão, a ciência e o progresso eram suas bases firmes. O que distinguia os socialistas de nosso período dos paladinos de uma sociedade perfeita de propriedade comum era a aceitação incondicional da revolução industrial que criava a verdadeira possibilidade do socialismo moderno. O Conde Claude de Saint-Simon (1760-1825), que é por tradição reconhecido como o primeiro “socialista utópico”, foi antes de tudo o apóstolo do “industrialismo” e dos “industrialistas”. Na Grã-Bretanha, Robert Owen (1771-1858) foi um pioneiro muito bem sucedido da indústria algodoeira. Embora de maneira relutante, Friederick Engels também se envolveu com os negócios algodoeiros e até mesmo Charles Fourrier (1772-1837), o menos entusiasta do industrialismo, sustentava que a solução estava além e não atrás dele.

Se, como argumentava a economia política, o trabalho representava a fonte de todo o valor, então porque a maior parte de seus produtores viviam à beira da privação? Porque, como demonstrava Ricardo o capitalista se apropriava – em forma de lucro – do excedente que o trabalhador produzia além daquilo que ele recebia de volta sob a forma de salário. De fato, o capitalista explorava o trabalhador. Era necessário eliminar o capitalista para que fosse abolida a exploração.

No período de formação do socialismo, isto é, entre a publicação da Nova Visão da Sociedade(1813-14), de Robert Owen, e o Manifesto Comunista(1848), a depressão, os salários decrescentes, o pesado desemprego tecnológico e as dúvidas sobre as futuras possibilidades de expansão da economia eram simplesmente muito inoportunas. Isso não só demonstrava que o capitalismo era injusto, mas que também funcionava mal.

O que distinguia os vários membros da família ideológica descendente do humanismo e do iluminismo – liberais, socialistas, comunistas ou anarquistas – não era a amável anarquia mais ou menos utópica de todos eles, mas sim os métodos para alcançá-la. Neste ponto o socialismo se separava da tradição clássica liberal. Em primeiro lugar, o socialismo rompia com a suposição liberal de que a sociedade era um mero agregado ou combinação de seus átomos individuais, e que sua força motriz estava no interesse próprio e na competição. Com isso ele voltava à mais antiga de todas as tradições ideológicas humanas: a crença de que o homem é naturalmente um ser comunitário. Em segundo lugar, o socialismo adotou uma forma de argumentação histórica e evolutiva. Para os liberais clássicos, e de fato para os primeiros socialistas modernos, tais propostas eram naturais e racionais.

III

Comparadas com estas relativamente coerentes ideologias do progresso, as de resistência ao progresso mal merecem o nome de sistemas de pensamento. A carga principal de sua crítica era que o liberalismo destruía a ordem social ou a comunidade que o homem tinha, em outros tempos, considerado como essencial à vida, substituindo-a pela intolerável anarquia da competição de todos contra todos e pela desumanização do mercado. Esses pensadores eram conservadores que não tinham o sentido do progresso histórico.

IV

Resta considerar um grupo de ideologias singularmente equilibradas entre a progressista e a antiprogressista ou, em termos sociais, entre a burguesia industrial e o proletariado de um lado, e as classes aristocráticas e mercantis e as massas feudais do outro. Seus defensores mais importantes foram os radicais “homens pequenos” da Europa Ocidental e dos EUA e os homens da modesta classe média da Europa Central e Meridional. O mais importante pensador deste primeiro grupo de radicais pequeno-burgueses já estava morto em 1789: Jean Jacques Rousseau. Indeciso entre o individualismo puro e a convicção de que o homem só é ele mesmo em comunidade, ele expressava seu próprio dilema pessoal tanto quanto o das classes que não podiam aceitar as promessas liberais dos donos de fábricas nem as certezas socialistas dos proletários. Em nosso período ele era considerado, acima de tudo, o paladino da igualdade, da liberdade contra a tirania e a exploração, da democracia contra a oligarquia, do “homem natural” não estragado pelas falsificações do dinheiro e da “educação”, e do sentimento contra o cálculo frio.

O segundo grupo, que talvez possa ser chamado mais adequadamente o da filosofia alemã, era bem mais complexo. Além disso, visto que seus membros não tinham nem poder para derrubar suas sociedades nem os recursos econômicos para fazer uma revolução industrial, tendiam a se concentrar na construção de elaborados sistemas gerais de pensamento. Possivelmente uma reação nacionalista contra a cultura francesa predominante no início do século XVIII intensificava um teutonismo do pensamento alemão. Sua expressão mais monumental foi a filosofia clássica alemã, um corpo de pensamento criado entre 1760 e 1830 juntamente com a literatura clássica alemã e em íntima ligação com ela. Emanuel Kant (1724-1804) e Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) são seus dois grandes luminares.

A filosofia clássica alemã foi um fenômeno verdadeiramente burguês. Todas as suas principais figuras (Kant, Hegel, Fichte, Schelling) saudaram com entusiasmo a Revolução Francesa e de fato permaneceram fiéis a ela durante um considerável tempo. O iluminismo foi a estrutura do pensamento típico do século XVIII de Kant e o ponto de partida de Hegel. A filosofia de ambos era profundamente impregnada da idéia de progresso e evolução (ou historicidade em termos sociais). Uma tendência burguesa liberal é mais facilmente observada em Kant, que tem entre seus últimos escritos um nobre apelo em favor da paz universal mediante uma federação mundial de repúblicas que renunciariam à guerra. Já o pensamento de Hegel é mais abstrato, ficando apenas parcialmente evidente que suas abstrações buscam um acordo com a sociedade burguesa.

Contudo, desde o princípio, a filosofia alemã diferia do liberalismo clássico em importantes aspectos, mais notadamente em Hegel do que Kant. Em primeiro lugar, era deliberadamente idealista e rejeitava o materialismo ou o empirismo da tradição clássica. Em segundo lugar, embora a unidade básica do pensamento kantiano seja o indivíduo, em Hegel é o coletivo, que ele vê sendo desintegrado sob o impacto do desenvolvimento histórico.

Assim, o período da revolução dupla viu o triunfo e a mais elaborada expressão das radicais ideologias da classe média liberal e da pequena burguesia, e sua desintegração sob o impacto dos Estados e das sociedades que haviam contribuído para criar, ou pelo menos recebido de braços abertos.

Capítulo 14

AS ARTES

I

A primeira coisa que surpreende a qualquer um que tente analisar o desenvolvimento das artes no período da revolução dupla é seu extraordinário florescimento entre as nações. O segundo fato evidente é o excepcional desenvolvimento de certas artes e gêneros, como, por exemplo, a literatura e dentro dela o romance. A música talvez seja algo ainda mais surpreendente. A lista de artes plásticas, por outro lado, é menos brilhante, com a exceção parcial da pintura.

O que determina o florescimento ou o esgotamento das artes em qualquer período ainda é muito obscuro. Entretanto, não há dúvida de que entre 1789 e 1848, a resposta deve ser buscada em primeiro lugar no impacto da revolução dupla. Se fôssemos resumir as relações entre o artista e a sociedade nesta época em uma só frase, poderíamos dizer que a revolução francesa inspirava-o com seu exemplo e a revolução industrial com seu horror, enquanto a sociedade burguesa, que surgiu de ambas, transformava sua própria experiência e estilos de criação.

É claro que não se deve esquecer que estas novas culturas nacionais estavam limitadas a uma minoria de letrados e às classes superiores e médias. Com a provável exceção da ópera italiana, das reproduções gráficas de arte plástica, e de alguns pequenos poemas e canções, nenhuma das grandes realizações artísticas deste período estava ao alcance dos analfabetos ou dos pobres. A maioria dos habitantes da Europa as desconhecia por completo, até que o nacionalismo de massa ou os movimentos políticos as convertessem em símbolos coletivos. A literatura, é claro, teria a maior circulação, embora principalmente entre as crescentes e novas classes médias.      

II

Mas mesmo as artes de uma pequena minoria social ainda podem fazer ecoar o trovão dos terremotos que abalam toda a humanidade. Assim ocorreu com a literatura e as artes de nosso período, e o resultado foi o “romantismo”. Como um estilo, uma escola, uma época artística, nada é mais difícil de definir ou mesmo de descrever em termos de análise formal; nem mesmo o “classicismo” contra o qual o “romantismo” assegurava erguer a bandeira da revolta.

O romantismo não é simplesmente classificável como um movimento antiburguês. De fato, no pré-romantismo, muitos de seus slogans característicos tinham sido usados para a glorificação da classe média, cujos sentimentos verdadeiros e simples haviam sido contrastados com a firme camada superior de uma sociedade corrupta. Entretanto, já que a sociedade burguesa triunfara de fato nas revoluções francesa e industrial, o romantismo inquestionavelmente se transformou em seu inimigo instintivo, e pode muito justamente ser considerado como tal.

Sem dúvida sua apaixonada, confusa, porém profunda revolta contra a sociedade burguesa se devia aos interesses egoístas dos dois grupos que lhe forneciam suas tropas de choque: os jovens socialmente deslocados e os artistas profissionais. Claro que nada havia de universal nesta revolta de jovens contra os mais velhos. Não era senão um reflexo da sociedade criada pela revolução dupla. Ainda assim, a forma histórica específica desta alienação certamente coloriu uma grande parte do romantismo.

III

A ansiedade que se convertia em obsessão nos românticos era a recuperação da unidade perdida entre o homem e a natureza. O mundo burguês era profunda e deliberadamente anti-social. “Ele impiedosamente quebrou os fortes laços feudais que uniam o homem a seus superiores naturais, e não deixou nenhum outro vínculo entre os homens a não ser o puro interesse pessoal.”(Manifesto Comunista)

Três fontes abrandaram a sede da perdida harmonia entre o homem e o mundo: a Idade Média, o homem primitivo (o povo) e a Revolução Francesa. A primeira atraiu principalmente os românticos da reação, tendo encontrado sua expressão mais clássica na Alemanha. No romantismo francês foi muito mais importante o peso dado sobre o povo, eternamente sofredor, turbulento e criativo. (ex.: O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo)

IV

A Idade Média, o povo e a nobreza do selvagem eram ideais firmemente ancorados ao passado. Só a revolução, a “primavera dos povos”, apontava exclusivamente para o futuro, e assim mesmo os mais utópicos ainda achavam cômodo recorrer a um precedente em favor do sem precedente. Isso não foi possível até que uma segunda geração romântica tivesse produzido uma safra de jovens para quem a Revolução Francesa e Napoleão eram fatos da história e não um doloroso capítulo autobiográfico. A mais surpreendente conseqüência da união entre o romantismo com a visão de uma nova e mais elevada Revolução Francesa foi a avassaladora vitória da arte política entre 1830 e 1848. Raramente houve um período em que mesmo os artistas menos “ideológicos” tenham sido mais universalmente partidários, frequentemente considerando o serviço à política como seu dever primordial.

V

O romantismo é a moda mais característica na arte e na vida do período da revolução dupla, mas não é absolutamente a única. De fato, visto que não dominava nem a cultura da aristocracia, nem a da classe média, e menos ainda a da classe trabalhadora pobre, sua verdadeira importância quantitativa na época foi pequena.

O estilo fundamental da vida e da arte aristocrática permanecia enraizado no século XVIII, embora consideravelmente vulgarizado pela adesão de novos ricos empobrecidos. Esse estilo era baseado na triunfante supremacia da nobreza, com seus cavalos, cães, carruagens e jogos.

A cultura das classes média e baixa tinha sua tônica fundamental na sobriedade e modéstia. Somente entre os milionários industriais é que o pseudo-barroco do final do século XIX apareceu. Em qualquer caso, nos centros da sociedade burguesa avançada, as artes como um todo vinham em segundo lugar em relação às ciências. O culto engenheiro ou fabricante, americano ou britânico, poderia apreciá-las, especialmente em momentos de descanso ou férias em família, mas seus verdadeiros esforços culturais se dirigiam para a difusão e o avanço do conhecimento.

VI

Enquanto isso, fora do raio de ação da literatura, a cultura do povo comum seguia seu caminho. Nas partes não urbanas e não industriais do mundo, pouco mudou. As canções e festas da década de 1840, os costumes, motivos e cores das artes decorativas do povo, o padrão de seus hábitos continuava a ser os mesmos de 1789. A indústria e o desenvolvimento das cidades começaram a destruí-los. Ninguém poderia viver em uma cidade industrial da mesma maneira que o havia feito em uma aldeia, e todo o complexo da cultura necessariamente teria que se esfacelar com o colapso da armação social que o mantinha unido e lhe dava forma.

Em seu conjunto, a cidade, e especialmente a nova cidade industrial, continuava sendo um lugar desolado, cujos poucos atrativos – espaços abertos, festas – iam gradativamente diminuindo pela febre das construções, pela fumaça que empestiava a natureza, e pela obrigatoriedade do trabalho incessante, reforçado em casos adequados pela austera disciplina dominical imposta pela classe média. Só a nova iluminação a gás e as amostras de comércio nas ruas principais, aqui e ali, antecipavam as vivas cores da noite na cidade moderna. Mas a criação da grande cidade moderna e dos modernos estilos urbanos de vida popular teriam que esperar a segunda metade do século XIX.

Capítulo 15

A CIÊNCIA

I

Traçar um paralelo entre as artes e a ciência é sempre perigoso, pois as relações entre cada uma delas e a sociedade em que vicejam são muito diferentes. O progresso da ciência não é um simples avanço linear, cada estágio determinando a solução de problemas anteriormente implícitos ou explícitos nele, e por sua vez colocando novos problemas. Esse avanço também prossegue pela descoberta de novos problemas, de novas maneiras de enfocar os antigos, de novas maneiras de enfrentar ou solucionar velhos problemas, de campos de investigação inteiramente novos, de novos instrumentos práticos e teóricos de investigação.

A ciência se beneficiou tremendamente com o surpreendente estímulo dado à educação científica e técnica por influência da revolução dupla. A Revolução Francesa transformou a educação técnica e científica de seu país, principalmente devido à criação da Escola Politécnica(1795) e do primeiro centro genuíno de pesquisa fora das ciências físicas, no Museu Nacional de História Natural(1794). A supremacia mundial da ciência francesa se deveu quase certamente a estas importantes fundações. A Escola Politécnica teve imitadores em Praga, Viena, Estocolmo, São Petersburgo, Copenhagen, em toda Alemanha e Bélgica, em Zurique e Massachussets. Na Grã-Bretanha, a imensa riqueza do país, que tornava possível a criação de laboratórios particulares, e a pressão geral das pessoas inteligentes da classe média por uma educação técnica e científica também obteve bons resultados.

A era revolucionária fez, portanto, crescer o número de cientistas e eruditos e estendeu a ciência em todos os seus aspectos. E ainda mais, viu o universo geográfico das ciências se alargar em duas direções. Em primeiro lugar, o progresso do comércio e o processo de exploração abriram novos horizontes do mundo ao estudo científico, e estimularam o pensamento sobre ele. Em segundo lugar, o universo das ciências se ampliou para abraçar países e povos que até então só tinham dado contribuições insignificantes.

II

No todo, as clássicas ciências físicas não foram revolucionadas, isto é, permaneceram substancialmente dentro dos termos de referência já estabelecidos por Newton. O mais importante dos novos campos abertos, e o único que teve imediatas conseqüências tecnológicas, foi o da eletricidade, ou melhor, o do eletro-magnetismo. Cinco datas importantes: 1786, descoberta da corrente elétrica; 1799, construção da primeira bateria; 1800, descoberta da eletrólise; 1820, descoberta da conexão entre eletricidade e magnetismo; 1831, Faraday estabelece as relações entre todas essas forças. A mais importante das novas sínteses foi a descoberta das leis da termodinâmica, isto é, das relações entre calor e energia.

A revolução que criou a química estava em pleno desenvolvimento no início de nosso período. De todas as ciências, esta foi a mais íntima e imediatamente ligada à prática industrial, especialmente aos processos de tingimento e branqueamento da indústria têxtil. A química, como a física, foi proeminentemente uma ciência francesa. Seu verdadeiro fundador, Lavoisier (1743-1794), publicou seu fundamental Tratado Elementar de Química no próprio ano da revolução. A química teve ainda uma implicação revolucionária: a descoberta de que a vida podia ser analisada em termos das ciências inorgânicas.

Uma revolução ainda mais profunda, mas pela própria natureza do assunto menos óbvia do que a ocorrida na química, se deu em relação à matemática. A matemática em nosso período entrou em um universo inteiramente novo, trazido pelas inovações em relação à teoria das funções de complexos variáveis, pelas teorias dos grupos e dos vetores. A revolução da matemática passou despercebida, exceto para alguns especialistas, por sua distância da vida cotidiana.

III

A revolução nas ciências sociais, por outro lado, não podia deixar de abalar o leigo, já que lhe afetava visivelmente. Para sermos precisos, houve duas revoluções cujos cursos convergem para produzir o marxismo como a mais abrangente síntese das ciências sociais. A primeira delas, que dava continuidade ao brilhante pioneirismo dos racionalistas dos séculos XVII e XVIII, estabelecia o equivalente das leis físicas para as populações humanas. A segunda foi a descoberta da evolução histórica (ver cap. 13 – I e II). O período que vai de 1776 a 1830 assistiu o triunfo da economia política. Ela foi suplementada pela primeira apresentação sistemática de uma teoria demográfica que pretendia estabelecer uma relação mecânica entre as proporções matemáticas dos aumentos de população e os meios de subsistência, o Ensaio sobre a População, de T. Malthus (1798).

A criação da história como uma matéria acadêmica talvez seja o aspecto menos importante da historiografia das ciências sociais. É verdade que uma epidemia de historiadores tomou conta da Europa na primeira metade do século XIX. Os resultados mais duradouros desse despertar histórico se deram no campo da documentação e da técnica histórica. A inserção da história nas ciências sociais teve seus efeitos mais imediatos no direito (jurisprudência), no estudo da teologia e, especialmente, em uma nova ciência, a filologia. O ostensivo estímulo para a filologia era a conquista de sociedades não européias pela Europa. Ela foi a primeira ciência que considerou a evolução como sua verdadeira essência. Os filólogos pioneiros não avançaram muito quanto à explicação das mudanças lingüísticas, mas estabeleceram uma espécie de árvore genealógica para as línguas indo-européias.

IV

Para os biólogos e geólogos a história se constituía no principal problema. Se o problema histórico da geologia era o de como explicar a evolução da terra, o do biólogo era duplo: como explicar a formação da vida desde a origem e como explicar a evolução das espécies. Laplace, em 1796, antecipado pelo filósofo Emanuel Kant, desenvolveu também uma teoria evolucionista do sistema solar. Em 1809, Lamarck propôs a primeira teoria moderna e sistemática da evolução, baseada na herança de caracteres adquiridos. Nenhuma dessas teorias obteve triunfo.

Só na década de 1830 – quando a política dera outra guinada para a esquerda – foi que as amadurecidas teorias da evolução irromperam na geologia, com a publicação da famosa obra de Lyell, Princípios de Geologia (1830-33). A evolução biológica, entretanto, ainda engatinhava. Só bem depois da derrota das revoluções de 1848 foi que este explosivo assunto voltou a ser examinado.

O período da revolução dupla pertence à pré-história de todas as ciências sociais, com a exceção da economia política, da lingüística e da estatística. Até mesmo seu mais formidável empreendimento, a coerente teoria da evolução social de Marx e Engels era, nesta época, pouco mais que uma brilhante suposição publicada em um soberbo panfleto.

V

Os padrões retirados das transformações da sociedade tentariam os cientistas em campos aos quais tais analogias pareciam aplicáveis; por exemplo, para introduzir os dinâmicos conceitos de evolução em conceitos até então estáticos. Assim, o conceito da revolução industrial, fundamental para a história e para a maior parte da economia moderna, foi introduzido na década de 1820 como algo análogo ao de Revolução Francesa. Charles Darwin deduziu o mecanismo da “seleção natural” por analogia com o modelo da competição capitalista, que tomou de Malthus (a “luta pela existência”).

Capítulo 16

CONCLUSÃO: RUMO A 1848

I

Começamos analisando a situação do mundo em 1789. Concluiremos examinando-o cerca de 50 anos mais tarde, ao final do meio século mais revolucionário da história até hoje registrado. A área do mundo conhecida, mapeada e em intercomunicação era maior do que em qualquer época anterior e suas comunicações eram incrivelmente mais rápidas. A população do mundo era também maior do que nunca. As cidades de grande tamanho se multiplicavam e a produção industrial atingia cifras astronômicas. Essas cifras só foram suplantadas pelas do comércio internacional, que se multiplicara quatro vezes desde 1780.

A ciência nunca fora tão vitoriosa; o conhecimento nunca fora tão difundido. Mais de quatro mil jornais informavam os cidadãos do mundo. Homens e mulheres já podiam ser transportados ao longo de seis mil milhas férreas na Grã-Bretanha em 1850 e por nove mil milhas a esta época nos EUA. Sem dúvida todos esses triunfos tinham seu lado obscuro, embora não figurassem nos quadros estatísticos. A revolução industrial criou o mundo mais feio no qual o homem jamais vivera.

Quando analisamos a estrutura política e social da década de 1840, entretanto, deixamos o mundo dos superlativos para entrarmos no mundo das afirmações modestas. A maioria dos habitantes da terra continuava sendo de camponeses como antes, embora houvesse poucas áreas onde a agricultura já era a ocupação de uma pequena minoria, e a população urbana já estava a ponto de ultrapassar a rural, como aconteceu, pela primeira vez, no censo de 1851. Havia também proporcionalmente menos escravos.

No outro extremo da pirâmide social, a posição do aristocrata proprietário de terras também mudou menos do que se poderia pensar, exceto em países de revolução camponesa direta, como a França. Entretanto, mesmo na Grã-Bretanha, na década de 1840, as maiores concentrações de riqueza eram ainda certamente as dos nobres. Claro está que esta firmeza aristocrática ocultava uma mudança: os rendimentos dos nobres dependiam cada vez mais da indústria, dos estoques e das ações, e do desenvolvimento das propriedades da desprezada burguesia. As “classes médias” tinham aumentado rapidamente, mas seu número ainda assim não era avassaladoramente grande.

 A classe trabalhadora naturalmente crescia de uma forma vertiginosa. Contudo, comparada com o total da população do mundo, ainda era numericamente desprezível e, em todo caso – uma vez com a exceção da Grã-Bretanha e alguns pequenos núcleos em outros países – era uma classe desorganizada.

A estrutura política do mundo também foi grandemente transformada na década de 1840. Todavia, a monarquia continuava sendo avassaladoramente o modo mais comum de governo. Por volta de 1840 havia vários Estados novos, produtos da revolução; a Bélgica, a Sérvia, a Grécia e alguns estados latino-americanos. O mais importante dos estados revolucionários eram os Estados Unidos, que já existia em 1789. Os Estados Unidos gozavam de duas enormes vantagens: a ausência de quaisquer vizinhos poderosos ou de potências rivais e uma taxa extraordinariamente rápida de expansão econômica.

O mundo da década de 1840 era completamente dominado pelas potências européias, política e economicamente, às quais se somavam os Estados Unidos. A Guerra do Ópio de 1839-42 demonstrara que a única grande potência não européia sobrevivente, o Império da China, estava inerte em face de uma agressão econômica e militar do ocidente. E dentro desse domínio ocidental, a Grã-Bretanha era a maior potência, graças a seu maior número de canhoneiras, comércio e bíblias. O comércio britânico dominava a Argentina, o Brasil e o sul dos Estados Unidos tanto quanto a colônia espanhola de Cuba ou as colônias britânicas na Índia. Nunca, em toda história do mundo, uma única potência havia exercido uma hegemonia mundial como a dos britânicos na metade do século XIX, pois mesmo os maiores impérios ou hegemonias do passado tinham sido meramente regionais – como no caso dos chineses, dos maometanos e dos romanos. Desde então nenhuma outra potência jamais conseguiu estabelecer uma hegemonia comparável.

Contudo, o futuro declínio da Grã-Bretanha já era visível. Observadores inteligentes, mesmo nas décadas de 1830 e 1840, como Tocqueville e Haxthausen, já previam que o tamanho e os recursos potenciais dos Estados Unidos e da Rússia viriam a transformá-los nos gêmeos gigantes do mundo; dentro da Europa a Alemanha logo viria também entrar na competição em termos iguais.

Para a massa do povo comum a condição nas grandes cidades e nos distritos fabris da Europa Ocidental e Central empurrava-os inevitavelmente em direção a uma revolução social. O grande despertar da Revolução Francesa lhes ensinara que os homens comuns não necessitavam sofrer injustiças e se calar: “anteriormente, as nações de nada sabiam, e o povo pensava que os reis eram deuses sobre a terra e que tinham o direito de dizer que qualquer coisa que fizessem estava bem feita. Através desta atual mudança, é mais difícil governar o povo”.

Este era o “espectro do comunismo” que aterrorizava a Europa, o temor do “proletariado”. E com justiça, pois a revolução que eclodiu nos primeiros meses de 1848 não foi uma revolução social simplesmente no sentido de que envolveu e mobilizou todas as classes. Foi, no sentido literal, o insurgimento dos trabalhadores pobres nas cidades – especialmente nas capitais – da Europa Ocidental e Central. Foi unicamente sua força que fez cair os antigos regimes desde Palermo até as fronteiras da Rússia. Com este momento coincide uma outra catástrofe social que dá mais intensidade às revoluções: a grande depressão que varreu a Europa a partir da metade da década de 1840. As colheitas – e em especial a safra de batatas – fracassaram. Populações inteiras morriam de fome. Os preços dos gêneros alimentícios subiam enquanto a depressão industrial multiplicava o desemprego, e as massas urbanas de trabalhadores eram privadas de seus modestos rendimentos no exato momento em que o custo de vida atingia proporções gigantescas.

Assim, pois, um cataclismo econômico europeu coincidiu com a visível corrosão dos antigos regimes. Raras vezes a revolução foi prevista com tamanha certeza, embora não fosse prevista em relação aos países certos ou às datas certas. Em 1831, Victor Hugo escrevera que já ouvia o “ronco sonoro da revolução, ainda profundamente encravado nas entranhas da terra, estendendo por baixo de cada reino da Europa suas galerias subterrâneas a partir do eixo central da mina, que é Paris”. Em 1847, o barulho se fazia claro e próximo. Em 1848, a explosão eclodiu.