A era do capital livro e seu autor

Eric Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do século XX, que escreveu os já clássicos “A Era das Revoluções 1789–1848 “, “A Era do Capital 1848-1875“, “A Era dos Impérios 1975-1914” e “Era dos Extremos 1914-1991“.

A Era do Capital é continuação de A Era das Revoluções. A Era do Capital é a história do triunfo global do capitalismo. Hobsbawm identifica as instituições, as ideologias, a ciência, a religião, os vencedores e os vencidos do curto período que vai de 1848 a 1875. No apagar das chamas revolucionárias (1848), surgiu uma época de relativa paz, um período em que se desenvolveram um novo estilo e uma nova escala de valores que, juntos, formaram “A era do capital”. Análise detalhada da ascensão do capitalismo industrial e da consolidação da cultura burguesa.

O conteúdo dessas obras é denso, por isso estamos disponibilizando para vocês um fichamento delas. Nesta postagem, está o fichamento da “Parte 1” da obra, com a primeira e a segunda partes. A “Parte 2”, com a terceira parte, está no post seguinte. Bons estudos.

A ERA DO CAPITAL

1848 – 1875

PRIMEIRA PARTE: PRELÚDIO REVOLUCIONÁRIO

  1. “A Primavera dos Povos”

SEGUNDA PARTE: DESENVOLVIMENTO

  1. A Grande Expansão
  2. O Mundo Unificado
  3. Conflitos e Guerras
  4. A Construção das Nações
  5. As Forças da Democracia
  6. Perdedores
  7. Vencedores
  8. A Sociedade em Processo de Mudança

TERCEIRA PARTE: RESULTADOS

  1. A Terra
  2. Os Homens se Põem a Caminho
  3. A Cidade, a Indústria, a Classe Trabalhadora
  4. O Mundo Burguês
  5. Ciência, Religião, Ideologia
  6. As Artes

Conclusão

Primeira Parte

PRELÚDIO REVOLUCIONÁRIO

1.“A PRIMAVERA DOS POVOS”

I

Nunca houve uma revolução que tivesse se espalhado tão rápida e amplamente, se alastrando como fogo na palha por sobre fronteiras, países e mesmo oceanos. 1848 foi a primeira revolução potencialmente global, cuja influência direta pôde ser detectada até mesmo na insurreição de 1848 em Pernambuco (Brasil) e poucos anos depois na remota Colômbia. Na Europa foi a única a afetar tanto as partes “desenvolvidas” quanto as atrasadas do continente. Foi ao mesmo tempo a mais ampla e a menos bem sucedida deste tipo de revoluções. No breve período de seis meses de sua explosão, sua derrota universal era seguramente previsível; dezoito meses depois, todos os regimes que derrubara foram restaurados, com a exceção da República Francesa que, por seu lado, estava mantendo todas as distâncias possíveis em relação à revolução à qual devia sua própria existência.

As revoluções de 1848, portanto, possuem uma curiosa relação com o conteúdo deste livro. Pela sua ocorrência, e pelo medo de sua recorrência, a história da Europa nos 25 anos seguintes seria muito diferente.

II

A revolução triunfou através de todo o centro do continente europeu, mas não na sua periferia. Isto inclui países demasiadamente remotos ou isolados em sua história para serem diretamente atingidos de alguma maneira (por exemplo, a Península Ibérica, Suécia e Grécia), demasiadamente atrasados para possuir estratificação social politicamente explosiva da zona revolucionária (por exemplo, Rússia e o Império Otomano), mas também os únicos países já industrializados, cujo jogo político já estava sendo feito de acordo com regras diferentes, como a Inglaterra e a Bélgica.

Politicamente, a zona revolucionária era heterogênea. Excetuando-se a França, o que estava em jogo não era meramente o conteúdo político e social destes estados, mas sua forma ou mesmo existência. Os alemães, os italianos e praticamente todos os movimentos nacionais envolvidos na revolução, exceto os franceses, viram-se lutando contra o grande império multinacional dos Habsburgos, que espalhava-se pela Alemanha e Itália, também incluindo os tchecos, húngaros, uma parte substancial dos poloneses, romenos, iugoslavos e outros povos eslavos.

Os radicais confessadamente tinham uma simples solução: uma república democrática unitária e centralizada da Alemanha, Itália, Hungria ou o país que ocorresse a ser, constituído de acordo com os princípios da Revolução Francesa sobre as ruínas de todos os reis e príncipes, e que empunhasse sua versão da bandeira tricolor que, usada no modelo francês, era o modelo básico de uma bandeira nacional.

As revoluções de 1848, portanto, requerem um detalhado estudo por estado, povo, região, para o que este livro não é o lugar. No entanto, elas tiveram muito em comum, não apenas pelo fato de terem ocorrido quase simultaneamente, mas também porque seus destinos estavam cruzados, todas possuíam um estilo e sentimento comuns, uma atmosfera curiosamente romântico-utópica e uma retórica similar, para que os franceses inventaram a palavra quarente-huitard. Precisamos olhar brevemente algumas de suas características comuns.

Em primeiro lugar, todas foram vitoriosas e derrotadas rapidamente, e na maioria dos casos totalmente. Nos primeiros poucos meses todos os governos na zona revolucionária foram derrubados ou reduzidos à impotência. Todos entraram em colapso ou recuaram virtualmente sem resistência. Na Europa central o ponto decisivo veio quando o exército dos Habsburgos, com sua liberdade de manobra aumentada pela fuga do imperador em maio, conseguiu reagrupar-se, derrotar, em junho, uma insurreição radical em Praga – não sem o apoio da classe média moderada da Tchecoslováquia e Alemanha – e em seguida reconquistar as terras da Bohemia, que eram o coração econômico do império, e logo após recuperar o controle da Itália do norte.

Entre o verão e o fim do ano, os velhos regimes retomaram o poder na Alemanha e na Áustria, embora tenha sido necessário recuperar a cidade de Viena, cada vez mais revolucionária, pela força das armas em outubro, com um custo de mais de 4 mil vidas. Por volta do inverno, apenas duas regiões ainda estavam nas mãos da revolução – partes da Itália e da Hungria. Depois da capitulação dos húngaros e venezianos em agosto de 1849, a revolução estava morta.

Com a única exceção na França, todos os antigos comandos foram restaurados no poder – em alguns casos, como no Império dos Habsburgos, inclusive com mais força do que antes – e os revolucionários espalharam-se no exílio. Mais uma vez, com a exceção da França, virtualmente todas as mudanças institucionais, todos os sonhos políticos e sociais da primavera de 1848 foram varridos, e mesmo na França a república teria apenas mais dois anos e meio de vida. Ocorrera uma e apenas uma modificação irreversível importante: a abolição da escravatura no Império dos Habsburgos.

Todas essas revoluções têm algo mais em comum, que contribuiu largamente para o seu fracasso. Elas foram, de fato ou enquanto antecipação imediata, revoluções sociais dos trabalhadores pobres. Portanto, elas assustaram os moderados liberais a quem elas mesmas deram poder e proeminência. Aqueles que fizeram a revolução eram inquestionavelmente trabalhadores pobres e foi sua fome que alimentou as demonstrações que se transformaram em revoluções. 1848 fracassou porque ficou evidente que a confrontação decisiva não era entre os velhos regimes e as “forças do progresso” unidas, mas entre a “ordem” e a “revolução social”.

Havia alguma alternativa para esta débâcle geral? Quase certamente não. Dos principais grupos sociais envolvidos na revolução, a burguesia, como já vimos, descobriu que preferia a ordem à chance de por em prática todo o seu programa, quando diante da ameaça à propriedade. De volta, os regimes conservadores restaurados estavam bem preparados para fazer concessões ao liberalismo econômico, legal e até cultural dos homens de negócios, desde que isso não significasse um recuo político. Em 1848-49, os moderados liberais fizeram então duas importantes descobertas na Europa ocidental: que revoluções eram perigosas e que algumas de suas mais substanciais exigências (especialmente nos assuntos econômicos) poderiam vir a ser atingidas sem elas. A burguesia cessara então de ser uma força revolucionária.

Portanto, as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda, deixando pouco, exceto mito e promessa. Elas “deveriam ter sido” revoluções burguesas, mas a burguesia fugiu delas. Ainda assim, 1848 não foi meramente um breve episódio histórico sem conseqüências. Se as mudanças que 1848 realizou não foram nem as que os revolucionários intentaram, nem mesmo facilmente definíveis em termos de regimes políticos, leis e instituições, elas foram pelo menos bem profundas. Marcaram o fim, pelo menos na Europa ocidental, da política da tradição, das monarquias que acreditavam que seus povos (exceto os descontentes da classe média) aceitavam, acolhiam mesmo com prazer, a regra do direito divino que apontava dinastias para presidir sobre sociedades hierarquicamente estratificadas, tudo sancionado pela tradição religiosa, na crença dos direitos e deveres patriarcais dos que eram superiores social e economicamente.

Dali em diante, as forças do conservadorismo, privilégio e riqueza teriam que defender-se de outras formas. Mesmo os pesados e ignorantes camponeses da Itália do sul, na grande primavera de 1848, cessaram de patrocinar o absolutismo, como haviam feito 50 anos antes. Os defensores da ordem social precisaram aprender a política do povo. Essa foi a maior inovação trazida pelas revoluções de 1848. Elas deixaram claro que a classe média, liberalismo, democracia política, nacionalismo e mesmo as classes trabalhadoras eram, daquele momento em diante, presenças permanentes no panorama político. A derrota das revoluções poderia tirá-los do cenário, mas quando reapareciam, determinavam as ações mesmo daqueles estadistas que tinham menos simpatias por eles.

Segunda Parte

DESENVOLVIMENTO

1.A GRANDE EXPANSÃO

I

O período tratado neste livro foi o momento em que o mundo tornou-se capitalista e uma minoria significativa de países “desenvolvidos” transformou-se em economias industriais. Esta era de desmedido avanço econômico começou com um boom que viria a ser o mais espetacular ocorrido até então, sobretudo por ter sido temporariamente impedido pelos eventos de 1848. 1847-48 viu um severo tropeço do ciclo do comércio, provavelmente agravado por problemas remanescentes mais antigos. De qualquer modo, de um ponto de vista puramente capitalista, era apenas uma depressão aguda naquilo que parecia uma tumultuada economia de negócios.

O que seguiu foi tão extraordinário que não foi possível detectar um precedente. Nunca, por exemplo, as exportações inglesas cresceram tão rapidamente do que nos primeiros sete anos de 1850. O que fez este boom tão satisfatório para os homens de negócios famintos de lucros foi a combinação de capital barato e um rápido aumento nos preços. Depressões (do tipo de ciclo de comércio) sempre significaram preços baixos, em todos os acontecimentos do século XIX. Expansões eram inflacionárias. Os lucros aparentemente à espera de produtores e comerciantes apresentavam-se irresistíveis. E os homens de negócios não eram os únicos a lucrar. Como já foi sugerido, o emprego cresceu aos saltos, tanto na Europa como no resto do mundo, para onde homens e mulheres migravam então em quantidades enormes. A alta taxa de emprego e a presteza em conceder aumentos salariais onde fosse necessário apagaram o descontentamento popular.

A conseqüência política deste boom era de longo alcance. Proporcionou aos governos sacudidos pela revolução um espaço para respirar de valor inestimável e, por outro lado, destroçou os ânimos dos revolucionários. Numa palavra, a política estava em estado de hibernação. Para as monarquias restauradas do continente e para o filho indesejado da Revolução Francesa, o Segundo Império de Napoleão III, o espaço para respirar era ainda mais vital. Mesmo o Império do Habsburgos, que já havia sido restaurado em 1849 graças à intervenção do exército russo, era agora capaz de, pela primeira e única vez na história, administrar todos os seus territórios – incluindo os húngaros recalcitrantes – num único regime absolutista centralizado e burocrático.

Esse período de calma chegou ao fim com a depressão de 1857. Economicamente falando, tratava-se apenas de uma interrupção da era de ouro do crescimento capitalista, que continuou numa escala até maior na década de 1860 e atingiu seu clímax em 1871-73. Politicamente, transformou a situação. Mas a política reanimou-se. Em pouco tempo, todas as velhas questões da política liberal voltaram à agenda – a unificação nacional da Alemanha e da Itália, a reforma constitucional, liberdades civis e o resto. Em resumo, a política ganhou novo ânimo num período de expansão, mas não era mais a política da revolução.

II

O mundo triunfante do capitalismo teve sua era de vitória global iniciada e pontilhada pelos gigantescos rituais de autocongratulação, as grandes exibições internacionais, cada uma delas encaixada num principesco monumento à riqueza e ao progresso técnico – o Palácio de Cristal em Londres (1851), a Rotonda (“maior que São Pedro em Roma”) em Viena, cada qual exibindo o número crescente e variado de manufaturas, cada uma delas atraindo turistas nacionais e estrangeiros em quantidades astronômicas. Quais eram as razões para este progresso? Porque a expansão econômica foi tão acelerada neste período? A pergunta precisava realmente ser feita inversamente. O que nos choca retrospectivamente sobre a primeira metade do século XIX é o contraste entre o enorme e crescente potencial produtivo da industrialização capitalista e sua inabilidade, bem patente, em aumentar sua base. Poderia crescer dramaticamente, mas parecia incapaz de expandir o mercado para seus produtos, proporcionar saídas lucrativas para seu capital acumulado, ter por si só a capacidade de gerar emprego a uma taxa comparável ou com salários adequados.

A economia industrial nos seus primórdios descobriu – graças largamente à pressão da busca de lucro da acumulação do capital – o que Marx chamou de sua “suprema realização”; a estrada de ferro. Depois – e parcialmente devido à estrada de ferro, o vapor e o telégrafo “que finalmente representaram os meios de produção” – o espaço geográfico da economia capitalista poderia repentinamente multiplicar-se, na medida em que a intensidade das transações comerciais aumentasse. O mundo inteiro tornou-se parte desta economia. Esta criação de um único mundo expandido é talvez a mais importante manifestação do nosso período. Isso era particularmente crucial para o desenvolvimento econômico e forneceu a base para a gigantesca expansão nas exportações – em mercadorias, capital e homens – que teve um papel tão importante na expansão daquele que era ainda o maior país capitalista, a Inglaterra. A economia do consumo de massa ainda repousava no futuro, exceto talvez nos Estados Unidos.

O comércio mundial entre 1800 e 1840 não tinha chegado a duplicar. Entre 1850 e 1870, cresceu 260%. Observadores da época, com seus olhos fixos em aspectos menos fundamentais da economia, certamente apontariam outro fator: as descobertas de ouro na Califórnia, Austrália e outros lugares depois de 1848. Essas descobertas multiplicaram os meios de pagamento disponíveis para a economia mundial e removeram o que muitos homens de negócios acharam ser uma escassez (de meios de pagamento) paralisante, abaixaram a taxa de juros e encorajaram a expansão de crédito. Em sete anos a disponibilidade mundial de ouro aumentou de seis a sete vezes, assim como a quantidade de impressões de moedas de ouro emitidas pela Inglaterra, França e Estados Unidos. Porém, três aspectos da nova disponibilidade de ouro não levantavam controvérsias.

Em primeiro lugar, ajudaram, talvez de forma decisiva, a produzir aquela situação relativamente rara, entre cerca de 1810 e o fim do século XIX, de uma era de aumento de preços ou de inflação moderada, porém flutuante. Basicamente, a maior parte deste século foi deflacionária, devido grandemente à persistente tendência da tecnologia em baratear produtos manufaturados, e das recém-abertas fontes de matérias primas e alimentos que barateavam os produtos primários. Nosso período foi basicamente um interlúdio inflacionário num século deflacionário.

Segundo, a disponibilidade de barras de ouro em largas quantidades ajudou a estabelecer aquele standard monetário estável e seguro baseado na libra esterlina (fixada com paridade no ouro), sem o qual, como a experiência das décadas de 1930 e 1970 viria demonstrar, o comércio mundial torna-se mais difícil, complexo e imprevisível. Terceiro, os caçadores de ouro abriram eles mesmos novas áreas, sobretudo no Pacífico, para intensa atividade econômica. Assim fazendo, eles “criaram mercados a partir do nada”. Essas zonas auríferas (Califórnia, Austrália e outras) continham para mais de três milhões de habitantes com mais dinheiro na mão que qualquer outra população comparável em tamanho. Observadores da época também teriam dado ênfase à contribuição de um outro fator: a liberação da iniciativa privada. Nunca houve um consenso mais esmagador entre economistas ou políticos e administradores inteligentes no que toca à receita para o crescimento de sua época: o liberalismo econômico.

De alguma forma a tendência mais impressionante era o movimento em direção à total liberdade de comércio. Abertamente apenas a Inglaterra havia abandonado o protecionismo de forma total, mas mesmo a Rússia (1863) e a Espanha (1868) ligaram-se de certa forma ao movimento. Apenas os Estados Unidos, cuja indústria apoiava-se grandemente num mercado interno protegido e era pobre em exportações, permaneceu um bastião do protecionismo, mas mesmo assim mostrou alguma modificação no começo da década de 1870. A maior parte das economias em vias de industrialização podia ver neste período duas vantagens no livre comércio. Em primeiro lugar, a expansão geral do comércio mundial, que era realmente muito espetacular comparada ao período de antes de 1840, beneficiou a todos, mesmo que beneficiasse desproporcionalmente à Inglaterra. Em segundo lugar, qual fosse a futura rivalidade entre as economias capitalistas, nesta etapa de industrialização a vantagem de poder utilizar o equipamento, as fontes e o know-how da Inglaterra era bastante útil.

III

A economia capitalista recebeu, portanto, simultaneamente (o que não quer dizer acidentalmente) um número de estímulos extremamente poderosos. Qual foi o resultado? Expansão econômica é mais convenientemente medida em estatística, e a sua mais característica medida do século XIX era a força a vapor e seus produtos associados, carvão e ferro. Em 1850, a Inglaterra possuía bem mais de um terço de toda força a vapor, mas já na década de 1870 possuía apenas uma quarta parte ou menos: 900 mil HP de um total de 4,1 milhões de HP. Em números absolutos, os Estados Unidos já estavam um pouco mais na frente por volta de 1850, e deixaram a Inglaterra bem atrás em 1870, com mais do dobro da força a vapor que a velha Inglaterra, mas mesmo assim a expansão industrial americana, apesar de extraordinária, era menos sensacional que a da Alemanha. A força a vapor fixa desta última era extremamente modesta em 1850 – talvez 40 mil HP no todo, muito menos que 10% das dos ingleses – e em 1870 era de 900 mil HP, o mesmo que a Inglaterra e muito superior à francesa.

Os produtos característicos da era vieram ser o ferro e o carvão, e seu símbolo mais espetacular, a estrada de ferro, que os combinava. Têxteis, o mais típico produto da primeira fase de industrialização, cresceu comparativamente menos. Com pequenas exceções, as principais invenções técnicas da primeira fase industrial não exigiram conhecimento científico muito avançado. Felizmente, para a Inglaterra, elas estavam dentro da possibilidade de compreensão de homens práticos, experientes e com bom senso como George Stephenson, o grande construtor de estradas de ferro. A partir da metade do século, as coisas se modificaram. O telégrafo estava ligado bem de perto à ciência acadêmica, as tintas artificiais da indústria nasceram de um laboratório dentro de uma fábrica, assim como ocorreu com os explosivos e a fotografia. Como testemunham as novelas de Julio Verne (1828-1905), o professor tornou-se uma figura industrial mais importante do que nunca.

Uma conseqüência significativa desta penetração da indústria pela ciência era que, dali em diante, o sistema educacional tornara-se crucial para o desenvolvimento da indústria. O valor prático de uma boa educação primária para uma tecnologia científica, econômica e militar é evidente. O que o desenvolvimento econômico precisava em nível mais elevado não era tanto a originalidade científica e sofisticação – estas poderiam ser emprestadas – mas a capacidade de compreender e manipular ciência: “desenvolvimento” mais do que pesquisa.

Novas matérias-primas, freqüentemente encontráveis apenas fora da Europa, atingiram a partir daí uma significação que só viria a se tornar evidente no período subseqüente do imperialismo. Desse modo, o petróleo já havia atraído a atenção dos engenhosos ianques como um combustível conveniente para lâmpadas, mas rapidamente encontrou novos usos através do processamento químico. Em 1859, apenas dois mil barris haviam sido produzidos, mas por volta de 1874 quase 11 milhões de barris (a maioria proveniente de Pensilvânia e Nova York) já davam meios a John D. Rockfeller (1839-1937) para estabelecer um cerco à nova indústria pelo controle de seu transporte através de sua Standard Oil Company.

Em 1876, havia exatamente 200 telefones trabalhando na Europa e 380 nos Estados Unidos, e na Exposição Internacional de Viena a operação de uma bomba d’água movida à eletricidade ainda era uma grande novidade. Olhando para trás, podemos observar que a ruptura estava bem próxima: o mundo estava prestes a entrar na era da luz e força elétricas, do aço e ligas de aço, do telefone e fonógrafo, das turbinas e máquinas a explosão. Mas isso tudo ainda não havia acontecido em meados da década de 1870.

A maior inovação industrial, excetuando-se os campos científicos acima mencionados, foi provavelmente a produção em massa de maquinaria, que tinha sido virtualmente construída à mão, como as locomotivas e os navios o são até hoje. A maior parte do avanço na engenharia de produção de massa veio dos Estados Unidos, pioneiro do revólver Colt, rifle Winchester, relógios produzidos em massa, máquinas de costura e as modernas linhas de montagem. O mundo inteiro em 1875 tinha talvez 62 mil locomotivas, mas o que era esta demanda comparada aos 400 mil relógios de pulso produzidos nos Estados Unidos em um único ano ou os rifles demandados pelos 3 milhões de soldados Federais e Confederados, entre 1861 e 1865, na Guerra Civil Americana? Tudo isso assustava os europeus, que já percebiam, por volta de 1860, a superioridade tecnológica dos Estados Unidos na produção em massa, mas que ainda não tinham percebido o “homem prático”, pois pensavam que os americanos não iriam se preocupar em inventar máquinas para produzir artigos inferiores se havia na Europa uma fonte de artesãos preparados e versáteis.

IV

O processo de expansão deste período era curiosamente catastrófico. Violentas quedas sucediam booms estratosféricos, até que os preços descessem suficientemente para dissipar os mercados retraídos e limpar o campo das empresas falidas, para que então os homens de negócios recomeçassem o investimento e a expansão, renovando desta forma o ciclo. Por mais dramáticas que fossem as interrupções na expansão, elas eram temporárias. Nunca foi tão alta a euforia destes homens de negócios quanto no começo da década de 1870. Então veio a derrocada, 21000 milhas de estradas de ferro americanas entraram em colapso e falência, as ações na bolsa alemã caíram em 60% e – mais característico – quase metade dos altos fornos nos grandes produtores de ferro pararam. O dilúvio de imigrantes para o Novo Mundo foi reduzido para um modesto rio. “A Grande Depressão” de 1873 a 1896, evidentemente não foi tão dramática quanto a de 1929 a 1934, quando a economia capitalista mundial chegou a entrar em colapso. No entanto, os observadores da época não tinham dúvida de que o grande boom havia sido seguido por uma grande depressão. Uma nova era na história, tanto política quanto econômica, abre-se com esta depressão da década de 1870. Esta era encontra-se fora dos limites deste volume, apesar do que podemos ressaltar, de passagem, que minou ou destruiu as fundações do liberalismo de mercados do século XIX, que parecia tão fortemente estabelecido.

2.O MUNDO UNIFICADO

I

Mesmo em 1848, imensas áreas de vários continentes estavam marcadas em branco, inclusive nos melhores mapas europeus – principalmente no que diz respeito a África, Ásia central, o interior da América do Sul e partes da América do Norte e Austrália, sem mencionar os quase totalmente inexplorados Ártico e Antártico. Ignorância era mais um sintoma do que uma causa da falta de unidade no mundo. Refletia simultaneamente a falta de relações diplomáticas, políticas e administrativas, que eram demasiado tênues.

No decorrer da década de 1870, uma quantidade anual de cerca de 88 milhões de toneladas de mercadorias foi trocada entre as nações mais importantes, comparadas com as 20 milhões de 1840. Em outras palavras, em 35 anos, o valor das trocas entre a mais industrializada das economias e as regiões mais atrasadas ou remotas do mundo havia se multiplicado por seis. Isso evidentemente não é muito impressivo pelo que temos hoje em dia, mas o volume em números absolutos ultrapassava tudo que podia ter sido previsto anteriormente. A rede que unia as várias regiões do mundo visivelmente apertava.

Definir precisamente quanto o processo contínuo de exploração, que gradualmente preencheu os espaços vazios no mapa, estava interligado com o crescimento do mercado mundial é uma questão complexa. Parte era subproduto da política externa, parte produto de entusiasmo missionário, parte de curiosidade científica e, para o fim de nosso período, parte de iniciativa jornalística e editorial. O mundo em 1875 era, portanto, mais conhecido do que nunca fora antes. Mesmo em nível nacional, mapas detalhados (a maior parte iniciados por razões militares) podiam ser agora encontrados na maioria dos países desenvolvidos. As mais remotas partes do mundo estavam agora começando a ser interligadas por meios de comunicação que não tinham precedentes pela regularidade, pela capacidade de transportar vastas quantidades de mercadorias e número de pessoas e, acima de tudo, pela velocidade: a estrada de ferro, o barco a vapor, o telégrafo.

II

O período que este livro trata viu a construção de tais redes ferroviárias quase que por toda a Europa, nos Estados Unidos e mesmo em uns outros poucos lugares do mundo. Trilhos e navios transportavam mercadorias e pessoas. Porém, a transformação tecnológica mais sensacional de nosso período estava na comunicação de mensagens através do telégrafo elétrico. Este invento revolucionário parece que estava pronto para ser descoberto em meados da década de 1830. Em 1836-37 fora inventado quase que simultaneamente por um número de diferentes pesquisadores, dos quais Cooke e Wheatstone foram os mais imediatamente bem sucedidos. Em poucos anos era aplicado nas estradas de ferro e, o que era mais importante, planos de linhas submarinas já eram considerados por volta de 1840, não se tornando porém praticáveis antes de 1847, quando então o grande Faraday sugeriu isolar os cabos com guta-percha. [O guta-percha é uma substância de coloração cinzenta semelhante à borracha, mas que não apresenta a propriedade elástica desta]

Em 1871, o resultado do Derby [Elegante clube inglês que patrocinava famosas corridas de cavalo] era enviado de Londres para Calcutá em não mais do que 5 minutos. Tal rapidez de comunicação não era apenas sem precedentes, ou sem comparação possível, mas também, para a maioria das pessoas, era algo completamente fora da imaginação. A construção deste sistema telegráfico mundial combinava elementos políticos e comerciais: com a importante exceção dos Estados Unidos, o telégrafo interno era ou tornou-se quase inteiramente estatal, e mesmo a Grã-Bretanha nacionalizou-o adjudicando-o ao Post Office em 1869.

Os homens de negócios obviamente usaram intensamente o telégrafo, mas os cidadãos comuns descobriram seu uso – a maioria das vezes, evidentemente, para ligações urgentes e dramáticas com parentes. O telégrafo transformou as notícias. Do ponto de vista jornalístico, a Idade Média terminou em 1860, quando as notícias internacionais passaram a poder ser enviadas livremente de um número suficientemente grande de lugares no mundo para atingir a mesa do café-da-manhã no dia seguinte. Novidades não eram mais medidas em dias, ou no caso de lugares remotos em semanas ou meses, mas em horas ou mesmo em minutos.

Essa aceleração extraordinária na velocidade das comunicações teve um resultado paradoxal. Aumentando o abismo entre os lugares acessíveis à nova tecnologia e o resto, intensificou o atraso relativo daquelas partes do mundo onde o cavalo, o boi, a mula, o homem ou o barco ainda determinavam a velocidade do transporte. Numa época em que Nova York podia telegrafar a Tóquio numa questão de minutos ou horas, tornou-se mais espantoso que as imensas disponibilidades do New York Herald não fossem suficientes para obter uma carta de David Livingstone do centro da África em menos de oito ou nove meses (1871-72).

III

O que contava não era apenas velocidade – embora uma crescente intensidade do tráfico também trouxesse uma maior demanda por rapidez – mas o nível da repercussão. Isso pode ser vividamente ilustrado pelo exemplo de um acontecimento econômico que simultaneamente abriu nosso período e, como tem sido argumento, largamente determinou sua forma: a descoberta do ouro na Califórnia. Em janeiro de 1848, um indivíduo chamado James Marshall descobriu ouro no que parecia ser uma vasta jazida em Sutter´s Mill perto de Sacramento na Califórnia. Já que este território fazia face ao Pacífico e estava separado do resto dos Estados Unidos por grandes cadeias de montanhas, deserto e planície, suas atrações e evidente riqueza natural não eram de imediata relevância para empresas capitalistas, sendo porém reconhecidas. A corrida ao ouro rapidamente mudou essa situação. Notícias fragmentadas deste evento foram filtradas para o resto dos Estados Unidos em setembro e outubro daquele ano, despertando porém pouco interesse até serem confirmadas pelo presidente Polk em sua mensagem presidencial de dezembro. Pelo final de 1849, a população da Califórnia havia saltado de 14 mil para aproximadamente 100 mil, e em 1852 para 500 mil; São Francisco já era então uma cidade de quase 35 mil. No final de 1849, cerca de 540 navios aportaram naquela cidade, metade oriunda de portos europeus, metade americanos e, em 1850, 1150 navios ali deixaram quase meia tonelada em mercadorias. Engels observou dolorosamente a Marx em 1852: “A Califórnia e a Austrália são dois casos não-previstos no Manifesto (Comunista): a criação de grandes e novos mercados a partir do nada. Precisamos rever isso.”

O que estava claro, de qualquer maneira, é que acontecimentos localizados a milhares de milhas distantes da Europa tinham, na opinião de competentes observadores, um efeito imediato e de longo alcance naquele continente. A interdependência da economia mundial não poderia ser melhor demonstrada. Frete e salário de marinheiros dispararam com os preços de qualquer coisa exportável para a Califórnia; e nada era não-exportável. Mais significativo do nosso ponto de vista, a mobilidade de pessoas era maior que o comércio.

IV

Hoje estamos mais familiarizados do que os homens de meados do século XIX com este desenho totalizante do planeta em um único mundo. Mas há uma diferença substancial entre o processo que vivenciamos hoje e o do período que este livro abarca. O que é mais impressionante neste aspecto, mais adiante no século XX, é a padronização que vai bem além da puramente econômica e tecnológica. Neste particular, nosso mundo é bem mais massivamente padronizado. O que pouco ocorria então era a padronização internacional, interlingüística da cultura, que hoje distribui os mesmos filmes, tipos de música, programas de televisão e mesmo estilos de vida através do mundo.

Como foi sugerido, dois tipos maiores de flutuação econômica afetavam a sorte do mundo na década de 1840; o antigo ciclo agrário, baseado nos azares das colheitas e do gado, e o novo “ciclo do comércio”, parte essencial do mecanismo da economia capitalista. Em 1840, o primeiro destes ainda era dominante no mundo, embora seus efeitos tendessem a ser mais regionais do que globais.

Dois processos se apresentaram depois de 1848 para mudar este estado de coisas. Em primeiro lugar, a crise do ciclo do comércio tornou-se genuinamente mundial. A de 1857, que começou com um colapso bancário em Nova York, era provavelmente a primeira crise mundial do tipo moderno. Dos Estados Unidos a crise passou para a Inglaterra, então para a Alemanha do norte, depois para a Escandinávia, de volta para Hamburgo, deixando uma trilha de bancarrotas e desemprego enquanto atravessava oceanos em direção à América do Sul. A depressão de 1873, que começou em Viena, espalhou-se na direção oposta com muito maior amplitude. Seus efeitos a longo prazo viriam a ser, como veremos, muito mais profundos – como era de se esperar.

3.CONFLITOS E GUERRAS

I

Para o historiador, a grande expansão da década de 1850 marca a fundação de uma economia industrial global e de uma única história mundial. Para os dirigentes de meados do século XIX na Europa, como vimos, proporcionou uma oportunidade para tomar fôlego durante a qual os problemas chegaram a ser esquecidos ou mesmo mitigados pela prosperidade e administração sadia. Mas os problemas políticos permaneceram, e pelo final da década de 1850, estava claro que não podiam ser evitados por muito mais tempo. Estes problemas eram, para cada governo, essencialmente questões de política doméstica, mas devido a natureza peculiar dos sistemas de estado europeus a leste da linha da Holanda à Suíça, questões domésticas e internacionais apresentavam-se como inextricavelmente interligadas. Liberalismo e democracia radical, ou pelo menos o desejo por direitos e representação não podiam ser separados, na Alemanha ou Itália, no Império dos Habsburgos ou mesmo no Império Otomano e nas fronteiras do Império Russo, das ambições por autonomia nacional, independência ou unificação. E isto poderia (como efetivamente viria a ocorrer nos casos da Alemanha, Itália ou Império dos Habsburgos) produzir conflitos internacionais.

Entretanto, estas novas agitações não eram revolucionárias, exceto em um ou dois lugares onde puderam ser isoladas ou contidas. O episódio característico destes anos era a confrontação entre um parlamento prussiano fortemente liberal, eleito em 1861, e o rei da Prússia com sua aristocracia, ambos sem a mais remota intenção de abdicar de seus propósitos. O governo da Prússia, sabendo perfeitamente que a ameaça liberal era meramente retórica, provocou uma confrontação e simplesmente chamou o mais rude conservador disponível – Otto von Bismarck – para o cargo de primeiro-ministro, para governar desafiando a recusa do parlamento em votar taxas. Ele o fez sem dificuldades.

Em 1862, Bismarck tornou-se primeiro-ministro da Prússia, num programa de manutenção da tradicional monarquia prussiana e sua aristocracia, contra o liberalismo, democracia e nacionalismo germânico. Em 1871, o mesmo chefe de estado aparecia como chanceler do Império Germânico unido por suas próprias forças, com um parlamento (confessadamente de pouca importância) eleito por voto masculino universal, e repousando no entusiástico apoio dos liberais (moderados) alemães. Bismarck não era de forma alguma um liberal, e longe de um nacionalista alemão, no sentido político. Era apenas suficientemente inteligente para perceber que o mundo dos junkers prussianos não poderia ser mais preservado apenas com a manutenção do conflito contra o liberalismo e o nacionalismo, mas precisava trazê-los, ambos, para o seu próprio lado.

A política dos dirigentes da década de 1860 estava portanto determinada por três considerações. Primeiro, eles se encontravam numa situação de mudança política e econômica que não podiam controlar, mas à qual precisavam se adaptar. A única escolha era seguir na direção do vento ou utilizar seus conhecimentos de navegação para pôr seus navios em outra direção. Segundo, eles precisavam determinar que concessões às novas forças poderiam ser feitas sem ameaçar o sistema social. Mas, em terceiro lugar, eles tinham a sorte de poder tomar ambas as decisões em circunstâncias que lhes permitiam uma considerável iniciativa, campo para manipulação e que lhes faziam capazes, em alguns casos, até de agir com virtual liberdade para controlar o curso dos acontecimentos.

Os chefes de estado que figuram com maior proeminência nas histórias tradicionais da Europa deste período eram, por conseguinte, aqueles que de forma mais sistemática combinavam controle político com diplomacia e controle da máquina do governo, como Bismarck na Prússia, conde Camillo Cavour (1810-61) em Piemonte e Napoleão III, ou aqueles mais capazes de manejar o difícil processo de abertura controlada de um sistema de dominação da classe alta, como por exemplo, o liberal W. E. Gladstone (1809-98) e o conservador Disraeli na Inglaterra. E os mais bem sucedidos foram aqueles que souberam trazer as novas e antigas forças políticas não-oficiais para sua própria vantagem, aprovassem-nas a política destes governantes ou não. Napoleão III caiu em 1870 porque não conseguiu fazê-lo. Mas dois homens provaram ser incomumente eficientes nesta difícil operação, o moderado liberal Cavour e o conservador Bismarck.

Bismarck, que não precisava de ajuda externa e não se preocupava com oposição interna, só podia considerar uma Alemanha unificada que não fosse nem democrática nem demasiado grande que não pudesse ser dominada pela Prússia. Isso implicava a exclusão da Áustria, que ele obteve por meio de duas rápidas guerras brilhantemente conduzidas em 1864 e 1866 e a paralisia do país, que ele conseguiu fomentando e alimentando a autonomia da Hungria dentro do Império dos Habsburgos (1867), simultaneamente com a preservação da Áustria, para a qual dali em diante ele iria dedicar alguns belos presentes diplomáticos. Isso também implicava fazer a supremacia da Prússia mais digerível que a austríaca para os estados menos germânicos e mais anti-Prússia, o que Bismarck conseguiu com uma guerra igualmente brilhante na sua concepção e condução contra a França, em 1870-71.

Cavour, por seu turno, precisava mobilizar um aliado (França) para expulsar a Áustria da Itália, mas terminou por ser imobilizado por esta iniciativa quando o processo de unificação foi bem além do que Napoleão III esperava. Mais grave, Cavour encontrou-se diante de uma Itália dividida, com a metade superior unificada sob controle do Estado, e a metade inferior unificada pela guerra revolucionária, liderada militarmente por aquele Fidel Castro do século XIX, o chefe guerrilheiro de camisa vermelha Giuseppe Garibaldi (1807-82). Rápido pensar, veloz conversação e brilhantes manobras foram necessárias para persuadir Garibaldi a entregar o poder ao rei, o que veio a fazer em 1860.

II

A geração posterior a 1848 foi uma era de guerras e não de revoluções. Algumas delas foram de fato o produto de tensões internas, ou de fenômenos revolucionários ou quase-revolucionários. Estes – as grandes guerras civis da China (1851-64) e dos Estados Unidos (1861-65) – não fazem parte exatamente da presente discussão, exceto no que diz respeito aos aspectos técnicos e diplomáticos das guerras deste período. Aqui estamos interessados principalmente nas tensões e mudanças internas dentro do sistema de relações internacionais, sem esquecer o curioso intercâmbio entre as políticas internacional e doméstica. Se fôssemos perguntar a um especialista do sistema internacional pré-1848 sobre problemas de política externa ele nos teria explicado da seguinte forma: as únicas questões internacionais que contavam eram as relações entre as cinco grandes potências européias, cujos conflitos pudessem resultar em guerras de maior importância, ou seja, Inglaterra, Rússia, França, Áustria e Prússia.

Por mais de 30 anos depois da derrota de Napoleão em 1815, nenhuma das grandes potências havia usado armas entre si, limitando suas operações militares à supressão da subversão doméstica. Havia, entretanto, uma fonte de atrito o bastante constante, surgindo sobretudo da combinação entre uma lenta desintegração do Império Otomano, do qual vários elementos não turcos estavam aptos a se libertar, e das ambições conflitantes da Rússia e Inglaterra no Mediterrâneo oriental, o atual Oriente Médio e a área entre a fronteira leste da Rússia e a fronteira oeste do Império Britânico da Índia. Da mesma forma que os ministros das relações exteriores dos países decisivos não estavam preocupados com nenhum distúrbio grave no sistema internacional através de revoluções, eles se sentiam, porém, ameaçados com aquilo que era chamado de “A questão do leste”. Mesmo assim, não se havia ainda perdido o controle. Enquanto as ambições francesas estivessem situadas bem longe, não afetavam particularmente o sistema de poder europeu; mas quando elas tomavam lugar onde as potências européias estivessem exercitando sua rivalidade, vinham trazer pertubação ao que já era um equilíbrio bastante delicado.

O primeiro dos mais importantes resultados desta pertubação foi a Guerra da Criméia (1854-56), o acontecimento mais próximo de uma guerra geral européia entre 1815 e 1914. Não havia nada de novo ou inesperado na situação que se transformou numa carnificina internacional importante e notoriamente incompetente, entre a Rússia de um lado, Inglaterra, França e Turquia do outro, e na qual estima-se que mais de 600 mil pessoas tenham perecido, sendo que 500 mil delas por doença. Os resultados diplomáticos diretos da guerra foram temporários ou insignificantes. Os resultados políticos de longo alcance foram mais sérios. O mapa político do resto da Europa viria em breve a ser transformado, processo facilitado, se não tornado possível, pelas alterações do sistema de poder internacional precipitadas pelo episódio da Criméia.

Como já assinalamos, um reino unido da Itália surgiu nos anos 1858-70, uma Alemanha unida em 1862-71, incidentalmente levando ao colapso o Segundo Império de Napoleão na França e a Comuna de Paris (1870-71), além de que a Áustria tinha sido excluída da Alemanha e profundamente reestruturada. Em resumo, com a exceção da Inglaterra, todas as “potências” européias foram substancialmente – em muitos casos até territorialmente – modificadas entre 1856 e 1871, e um novo grande estado, como cedo viria a ser reconhecido, tinha sido fundado: a Itália.

Muitas dessas alterações derivavam direta ou indiretamente das unificações políticas da Alemanha e da Itália. Como na famosa frase de Bismarck, a questão da unificação tinha sido solucionada “com sangue e ferro”. Em doze anos a Europa passou por quatro guerras importantes: França, Savóia e os italianos contra a Áustria (1858-59); Prússia e Áustria contra a Dinamarca (1864); Prússia e Itália contra a Áustria (1866); Prússia e os estados germânicos contra a França (1871). Todas foram relativamente breves e, pelos padrões das grandes carnificinas na Criméia e nos Estados Unidos, nenhuma excepcionalmente custosa, apesar do que 160 mil pereceram na guerra franco-prussa, a maior parte do lado francês. Mas todas ajudaram a fazer do período da história européia de que trata este volume um interlúdio guerreiro, naquele que de outra forma seria um século incomumente pacífico entre 1815 e 1914.

A Guerra Civil Americana matou mais de 630 mil soldados e a Guerra do Paraguai mais de 330 mil. Por onde for que se observe, a década de 1860 foi uma década de sangue. O que fez com que este período da história fosse relativamente tão sangrento? Em primeiro lugar, o próprio processo de expansão capitalista global que multiplicava as tensões no mundo não-europeu, as ambições do mundo industrial e os conflitos diretos e indiretos dali surgidos. Assim foi a Guerra Civil Americana quando o norte industrializado venceu o sul agrário. Da mesma forma, a Guerra do Paraguai pode ser vista como parte da integração da bacia do Rio da Prata na economia mundial da Inglaterra: Argentina, Uruguai e Brasil, com suas faces e economias voltadas para o Atlântico, forçaram o Paraguai a perder sua auto-suficiência, conseguida na única área na América Latina onde os índios resistiram ao estabelecimento de brancos de forma efetiva. A rebelião Taiping e sua supressão são inseparáveis da rápida penetração de armas e capital ocidental no Império Celestial, desde a primeira Guerra do Ópio (1839-42).

Em segundo lugar, como já vimos – especialmente na Europa – foi graças à recuperação da guerra como um instrumento normal de política governamental, já que não mais se acreditava que a guerra devia ser evitada por medo da conseqüente revolução, e já que estava também convencido de que os mecanismos de poder eram capazes de mantê-las nos limites desejados. Em terceiro lugar, estas guerras agora podiam ser promovidas com a nova tecnologia do capitalismo. A Guerra da Criméia falhou em usar adequadamente a tecnologia já existente. Mas as guerras da década de 1860 já iriam empregar a estrada de ferro para mobilização e transporte adequados e o telégrafo disponível para rápidas comunicações. Também nesta época, foram desenvolvidos os barcos de guerra e suas derivações, a artilharia pesada, as armas de guerra de produção em massa, incluindo a metralhadora Gatling (1861), assim como os modernos explosivos passaram a ser usados – a dinamite foi inventada em 1866 – trazendo conseqüências significativas para o desenvolvimento das economias industriais.

Entre 1848 e 1871, ou mais precisamente durante a década de 1860, três fatos ocorreram. Primeiro, a expansão da industrialização produziu outras potências essencialmente industriais e capitalistas além da Inglaterra: os Estados Unidos, a Prússia (Alemanha), e muito antes disso, a França, tendo o Japão se somado mais tarde. Segundo, o progresso da industrialização fez com que, de forma crescente, a riqueza e a capacidade industrial viessem a ser os fatores decisivos no poderio internacional, diminuindo assim a posição relativa da Rússia e da França e aumentando a da Prússia (Alemanha). Terceiro, a emergência como potências independentes de dois estados extra-europeus, os Estados Unidos e o Japão, criavam pela primeira vez a possibilidade de um conflito global entre potências. Apesar dos conflitos, a era do triunfo liberal tinha sido estável. Não mais o seria depois de 1875.

4.A CONSTRUÇÃO DAS NAÇÕES

I

Os meados do séc. XIX conheciam o “nacionalismo” como o “princípio da nacionalidade”, que ligava as políticas doméstica e internacional. Entre os anos de 1848 e 1870, a política internacional criava, na Europa, as nações-estados. A “primavera dos povos” foi, sobretudo, em termos internacionais, uma afirmação de nacionalidade (ou de nacionalidades rivais). Alemães, italianos, húngaros, poloneses, romenos e o resto afirmaram seu direito de serem estados independentes e unidos. Somente a Polônia, que não teve adequada participação na revolução de 1848, fracassou em conseguir independência ou autonomia através da insurreição de 1863.

No extremo oeste da Europa, como no extremo sudeste, o problema nacional veio a se impor. Os feninanos na Irlanda levantaram-se sob a forma de uma insurreição radical apoiados pelos milhões de compatriotas empurrados para os Estados Unidos pela fome e ódio aos ingleses. Mesmo fora da Europa, a construção de nações era dramaticamente visível, como a Guerra Civil Americana, a Restauração Meiji. Era o “nation-making” (Walter Bagehot).

A típica nação “a-histórica” ou “semi-histórica” era também uma pequena nação, e isto colocava o nacionalismo do séc. XIX diante de um dilema. Os grandes defensores da “nação-estado” entendiam-se não apenas como nacional, mas também como “progressista”, isto é, capaz de uma economia, tecnologia, organização de estado e força militar viáveis. “Unificação”, assim como “independência”, era o princípio básico.

Diante das aspirações nacionais de povos pequenos, os ideólogos de uma “Europa nacional” tinham três escolhas: negar legitimidade ou existência a tais movimentos; reduzi-los a movimentos de autonomia regional; ou aceitá-los como fatos indiscutíveis, porém intragáveis. Os alemães tenderam para a primeira hipótese. Cavour e Mazzini assumiram a segunda, com respeito ao movimento irlandês. Políticos de todas as correntes foram constrangidos a assumir a terceira, com respeito aos tchecos, cujo movimento nacional, apesar de não pretender total independência, não podia mais ser posto de lado após 1848. Quando possível, evidentemente, não se dava nenhuma importância a tais movimentos.

II

Havia uma diferença fundamental entre o movimento para fundar Estados-nações e “nacionalismo”. O primeiro era um programa para construir um artifício político que reclamava basear-se no último. Um caso extremo de divergência entre nacionalismo e estado-nação era a Itália. No momento da unificação, em 1860, estimou-se que não mais de 2,5% de seus habitantes falava a língua italiana no dia-a-dia. Não é de se admirar que Massimo d’Azeglio (1792-1866) tivesse exclamado em 1860: “Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos”.

Movimentos representando a “idéia nacional” cresceram e multiplicaram-se. Eles ainda não representavam aquilo que o séc. XX viria a entender como um programa nacional (a necessidade de um estado totalmente independente, homogêneo territorial e lingüisticamente, laico, republicano ou parlamentar).

Nas nações, principalmente as emergentes, o movimento “nacional” tendia a tornar-se político após sua fase sentimental e folclórica (cap. 14 da Era das Revoluções), com a emergência de grupos mais ou menos expressivos dedicados à ideia nacional, publicando jornais e literatura nacionais, organizando sociedades nacionais, tentando estabelecer instituições educacionais e culturais, e engajando-se em várias atividades francamente políticas. Mas, de forma geral, neste ponto o movimento ainda era carente de um apoio decisivo por parte da massa da população. No todo, esta fase de nacionalismo termina entre 1848 e a década de 1860 na Europa central, ocidental e setentrional, embora muitos pequenos povos bálticos e eslavos estivessem apenas começando a entrar no período.

As camadas mais tradicionais, atrasadas ou pobres de cada povo eram as últimas a serem envolvidas em tais movimentos: trabalhadores, empregados e camponeses, que seguiam o caminho traçado pela “bem-educada” elite. A fase de nacionalismo de massa, que vinha normalmente sob a influência de organizações da camada média de nacionalistas liberais-democratas, estava de alguma forma relacionada com desenvolvimento econômico e político.

O nacionalismo de massa era novo, e bem diferente do nacionalismo de elite ou de classe média dos movimentos italianos e alemão. Existia outra forma de nacionalismo de massa: mais tradicional, revolucionário e independente das classes médias locais. Mas quando os revoltosos eram unidos apenas pela consciência de opressão, xenofobia e uma ligação profunda com a tradição antiga, com a fé e um vago sentido de identidade étnica, só podemos falar em nacionalismo quando estas rebeliões mostravam de uma ou outra forma alguma conexão como movimentos nacionalistas modernos. Na melhor das hipóteses podemos falar de um proto-nacionalismo, como entre romenos, conscientes da diferença de sua língua dos vizinhos eslavos, alemães e húngaros, e cônscios de um certo “eslavismo” que diversos intelectuais e políticos tentaram desenvolver entre eles sob a forma de uma ideologia de Panslavismo, com objetivo de formar uma grande nação ao invés de várias pequenas nações inviáveis.

Um desses movimentos era indiscutivelmente nacional: o irlandês. A concentração exclusiva no objetivo de conseguir uma República Irlandesa através de uma luta armada substituiu um programa social, econômico e mesmo de política doméstica. Fenianismo era nacionalismo de massa na época do triunfante liberalismo. Gerou a força que iria conseguir independência para a maior parte da Irlanda Católica, mas a partir do momento em que não geraram nada mais além disso, deixaram o futuro da Irlanda para os moderados classe-média, os ricos fazendeiros e os mercadores das pequenas cidades de um país agrário, que iriam tomar posse da herança dos fenianos.

O “internacionalismo” da esquerda, na prática, significava solidariedade e apoio para aqueles que lutavam pela mesma causa em outras nações. Mas, como os exemplos de Garibaldi, Clauseret e da Comuna de Paris (que ajudou os feninanos na América) provaram, isso não era incompatível com uma passional profissão de fé nacionalista. O proletariado, como a burguesia, existia apenas conceitualmente como um fato internacional. Na realidade existia como um agregado de grupos definidos pelos seus estados nacionais ou diferenças linguísticas/ étnicas; ingleses, franceses ou, em estados multinacionais, alemães, húngaros ou eslavos. E, na medida em que “estado” e “nação” coincidiam na ideologia daqueles que estabeleciam instituições e dominavam a sociedade civil, política em termos de estado implicava política em termos de nação.

III

Mesmo assim, malgrado poderosos sentimentos e lealdades nacionais, a “nação” não era algo espontâneo, mas um produto. Ocorreu enorme avanço nas escolas primárias, cujo objetivo era não apenas o de transmitir rudimentos da língua ou aritmética, mas, talvez mais do que isso, impor os valores da sociedade (moral, patriotismo) a seus alunos. O progresso era espantoso: entre 1840 e 1880 a população da Europa cresceu 33%, mas o número de seus filhos na escola cresceu em 145%.

De fato, para as novas nações-estados, estas instituições eram de importância crucial, pois apenas através delas a “língua nacional” podia transformar-se na língua escrita e falada do povo.

Na medida em que estado-nações eram formados, postos públicos e profissões da civilização progressista se multiplicavam, a educação escolar se tornava mais geral. Escolas e instituições, ao imporem uma língua de instrução, impunham também uma cultura, uma nacionalidade. O paradoxo do nacionalismo era que, ao formar sua própria nação, automaticamente criava contra-nacionalismos para aqueles que a partir de então eram forçados à escolha entre assimilação e inferioridade.

A era do liberalismo não entendeu este paradoxo. Observadores da época estavam certos em supor que nações e nacionalismo eram ainda malformados e maleáveis. As comunidades imigrantes não perderam sua identidade nacional no melting-pot do novo mundo, mas permaneceram ou tornaram-se mesmo conscientes e orgulhosos irlandeses, alemães, suecos, italianos etc. Eles podiam ser forças nacionais importantes nos seus países de origem.

O nacionalismo parecia manejável na estrutura do liberalismo burguês e compatível com ele, mas o futuro viria a mostrar que a relação entre os dois não era tão simples assim.

5.AS FORÇAS DA DEMOCRACIA

I

Se o nacionalismo era uma força histórica reconhecida por governos, “democracia”, ou a crescente participação do homem comum nas questões do estado, era outra. Apesar dos movimentos nacionalistas terem se tornado movimento de massa, uma grande parte do povo comum, como os camponeses, ainda não havia sido atingida pelo nacionalismo.

Mobilidade social e progresso educacional, ambos essenciais à sociedade burguesa, obscureciam a divisão entre as camadas médias e as camadas inferiores. Além disso, e de forma mais decisiva, as revoluções de 1848 tinham mostrado como as massas podiam irromper no círculo fechado dos dirigentes da sociedade, e o progresso da sociedade industrial fez com que sua pressão fosse constantemente maior e mesmo em períodos não-revolucionários.

A década de 1850 deu a muitos dirigentes um espaço para respirar. Por mais de uma década eles não tiveram seriamente que se preocupar com tais problemas na Europa. Entretanto, na França, onde três revoluções já haviam começado, a exclusão das massas da política parecia uma tarefa utópica: elas deveriam então ser “dirigidas”. O chamado Segundo Império de Luís Napoleão (Napoleão III) tornou-se uma espécie de laboratório de um tipo de política mais moderno, embora as peculiaridades de seu caráter tenham, algumas vezes, obscurecido suas formas de controle político.

Ele era o primeiro dirigente de um grande país, com a exceção dos Estados Unidos, a chegar ao poder através de sufrágio (masculino) universal. Ele continuou a operar desta forma, primeiro como um César plebiscitário mais ou menos como o general de Gaulle (a assembléia representativa eleita sendo bem mais insignificante), e depois de 1860 com a parafernália usual do parlamentarismo.

Na prática, apoiou-se no elemento conservador e especialmente no campesinato. Para estes, ele era um Napoleão, um governo estável e anti-revolucionário, seguro contra as ameaças à propriedade. Napoleão era o poder executivo. Muitos políticos do séc. XX – nacionalistas, populistas e fascistas – iriam redescobrir a forma de relação que ele inaugurou com as massas incapazes de “impor seu interesse de classe em nome próprio”.

O reaparecimento da pressão popular na década de 1860 fez com que fosse impossível manter uma política do tipo isolada. Muito poucos estados, nesta década, escaparam de alguma forma de aumentar suas franquias, e os problemas preocupavam todos os governos.

Nem as velhas aristocracias nem a nova burguesia tinham a força dos números, mas as aristocracias estavam firmes em instituições que as salvaguardavam do voto: em Câmaras dos Lordes ou câmaras similares. Além disso, as monarquias, que eram ainda a forma prevalecente de governo, apoiavam a classe aristocrática. As burguesias escoravam-se na sua riqueza, na sua indispensabilidade e no destino histórico que fazia delas e de suas idéias, as fundações dos estados “modernos” deste período. Entretanto, o que as transformavam em força era a habilidade para mobilizar o apoio dos não-burgueses que possuíam número, e portanto, votos.

Para a burguesia era crucial manter o apoio ou a hegemonia sobre a pequena burguesia, as classes trabalhadoras e, raramente, o campesinato. Em sistemas políticos representativos, os Liberais estavam geralmente no poder. Na França, a burguesia há muito não conseguia mais comandar sozinha ou mesmo sob a bandeira liberal, e seus candidatos buscavam apoio popular. Somente na Inglaterra os radicais permaneceram uma ala permanente do Partido Liberal.

De qualquer forma, por razões práticas, o liberalismo permaneceu no poder, pois representava a única política econômica que acreditava fazer sentido para o desenvolvimento. Quase todo chefe de estado e funcionário público, nas décadas de 1850 e 1860, era um liberal. Juntar-se com a genuína oposição contra o liberalismo era impensável. Ambos faziam parte da “esquerda”. A genuína oposição (a “direita”) veio daqueles que resistiam às “forças da história”. Portanto, o conservadorismo era capaz de atrair alguns grupos da burguesia liberal, que sentiam que mais progresso podia trazer uma revolução mais pra perto.

Mas o conservantismo essencialmente estava com aqueles que ficavam com a tradição, em oposição a tudo que fosse novo. Daí a importância crucial da posição das igrejas oficiais, organizações ameaçadas por tudo aquilo que o liberalismo defendia e ainda capazes de mobilizar forças imensas contra ele. A linha entre a direita e a esquerda tornou-se em grande parte a divisão entre clericalistas e anticlericalistas.

Na Prússia, Bismarck resolveu o conflito constitucional entre a Dieta Liberal e a monarquia governando sem referência ao parlamento. Só quem sustentava os liberais era a burguesia. Bismarck percebia que uma “revolução burguesa” era uma impossibilidade, já que a burguesia não estava mobilizada. Isto não o impediu de aplicar o programa econômico, legal e ideológico da burguesia liberal, desde que pudesse ser combinado com a predominância da aristocracia agrária numa monarquia prussiana protestante.

Depois do Reform Act de 1867, havia muitos (incluindo trabalhadores) cujo comportamento político era dirigido para a defesa do “melhor da sociedade”. A partir do momento em que as massas entraram na cena política, inevitavelmente passaram a agir como atores, e não mais como extras na multidão do fundo de um quadro.

Os crescentes setores industriais e urbanos não podiam mais ser considerados seguros. O que eles queriam não era o liberalismo clássico. Isso ficaria evidente durante a depressão econômica e a incerteza que acompanharam o colapso da expansão liberal em 1873.

O primeiro e mais perigoso grupo a estabelecer sua identidade separada e definir seu papel na política foi o novo proletariado. O movimento trabalhista não tinha sido tão destruído pelo fracasso das revoluções de 1848 e pela subseqüente década da expansão econômica. As organizações políticas sobreviventes da classe operária tinham entrado em colapso, como a Liga Comunista em 1852, ou tinham-se tornado gradualmente insignificantes, como o Cartismo inglês.

Entretanto, no nível mais modesto de luta econômica e autoproteção, organizações da classe operária sobreviveram. Somente na Inglaterra, Austrália e, curiosamente, nos Estados Unidos, sindicatos de trabalhadores tinham significado real. O processo de emergência do proletariado era um curioso amálgama de ação política e industrial, de vários tipos de radicalismo, do democrático ao anárquico, de luta de classes, alianças de classe e concessões governamentais ou capitalistas. Mas acima de tudo era internacional. A solidariedade internacional das classes trabalhadoras e da esquerda radical era inseparável.

Na Inglaterra, a Internacional emergiu de uma combinação de agitação para reforma eleitoral com uma série de campanhas de solidariedade internacional. Fundada em Londres e rapidamente passada às mãos de Karl Marx, a Internacional começou com uma curiosa combinação de líderes sindicalistas ingleses insulares e liberal-radicais, misturados ideologicamente com militantes sindicalistas franceses bem mais esquerdistas, e um staff de velhos revolucionários do continente de visões bem variadas. Suas batalhas ideológicas iriam arruiná-la.

Novos sindicatos espalharam-se. Eles deram à Internacional as suas massas, o que assustava governos, especialmente em 1871 quando a época de maior apelo popular da Internacional coincidiu com a Comuna de Paris (ver Capítulo 9). Alguns governos ficaram apreensivos com o crescimento do trabalhismo no início da década de 1860. Mesmo os não-liberais estavam convencidos de que as atividades e as organizações trabalhistas deveriam ser reconhecidas para que fossem controladas. Alguns dos mais demagógicos políticos como Napoleão III ou Disraeli (símbolo do conservadorismo e do imperialismo na era vitoriana) estavam bem alertados sobre o potencial eleitoral da classe operária. Na década de 1860, a lei foi modificada para permitir uma limitada organização trabalhista, bem como greves em alguns países da Europa. Entretanto, a posição legal dos sindicatos permanecia bastante incerta. Apenas na Inglaterra era grande o peso político da classe operária e de seus movimentos.

O objetivo dessas reformas era prevenir o surgimento do trabalhismo como uma força política independente ou revolucionária. Mas na maior parte da Europa, o movimento trabalhista emergiu no período da Internacional, que havia tornado o trabalhismo independente e socialista. Mas a Internacional não planejou a revolução imediata.

No início da década de 1870, parecia que o movimento havia fracassado em atingir mesmo estes modestos objetivos. O trabalhismo britânico permanecia nas mãos dos liberais, submetido a líderes fracos e corruptos. O movimento francês estava em ruínas, como conseqüência da Comuna de Paris. A outra única revolução européia, a espanhola chegava a um ponto sem saída: em torno de 1874, os Bourbons estavam de volta à Espanha, adiando a República Espanhola por quase 60 anos.

Da queda da Comuna em diante, os movimentos da massa trabalhadora haveriam de ser organizados, independentes, políticos e socialistas. A influência da esquerda socialista pré-marxista havia sido quebrada. E, em conseqüência, a estrutura da política iria ser constantemente modificada.

A maioria destas modificações seria evidente no final da década de 1880, quando a Internacional renasceu, agora com uma frente comum de partidos de massa, a maioria marxista. Mesmo na década de 1870, a Alemanha enfrentou o novo problema. O voto socialista começou a crescer novamente com uma força aparentemente inexorável. Ninguém sabia o que fazer com essa força. Bismarck não podia pensar em outra coisa senão proibir a atividade socialista pela força da lei.

6.PERDEDORES

I

Na “luta pela existência”, metáfora básica do pensamento econômico, político, social e biológico do mundo burguês, somente os “mais capazes” sobreviveriam. A maior parte da população mundial tornou-se vítima daqueles que eram econômica, tecnológica e militarmente superiores: as economias e estados da Europa central e do norte e especialmente Estados Unidos.

 A maior parte do mundo não estava numa posição de determinar seu próprio destino. Este mundo de vítimas consistia em quatro setores mais importantes:

1) os impérios não-europeus sobreviventes ou grandes reinos independentes do mundo islâmico e da Ásia (o Império Otomano, Pérsia, China, Japão e outros menores);

2) as antigas colônias da Espanha e Portugal nas Américas (estados nominalmente independentes);

3) a África ao sul do Saara;

4) as vítimas já formalmente colonizadas ou ocupadas, sobretudo na Ásia.

Para a maioria dos povos politicamente organizados do mundo não-capitalista, a dúvida era como seria a reação ao impacto do mundo da civilização branca: copiá-lo, resistir à sua influência ou uma combinação de ambos. As antigas e as atuais colônias das Américas já tinham sofrido compulsoriamente a “ocidentalização” pela dominação européia.

Basicamente, os países do continente eram quase todos oligarquias. Isto significava que o poder nacional e os estados nacionais estavam fracos, salvo se uma república fosse muito pequena e um ditador suficientemente feroz para instilar, pelo menos, terror temporário nos mais remotos cidadãos. Estes países estavam em contato com a economia mundial através dos estrangeiros que dominavam a importação e exportação assim como o transporte (principalmente os ingleses).

As primeiras décadas depois da independência viram regressão econômica e demográfica em muitas áreas, com exceções notáveis como o Brasil (separado de Portugal sob um imperador local, evitando conflitos e guerra civil) e o Chile, isolado na sua faixa temperada pelo Pacífico.

O investimento de capital estrangeiro começou a desenvolver a infra-estrutura do continente (estradas de ferro, instalações portuárias, utilidades públicas). Este desenvolvimento fortaleceu as mãos da minoria de latino-americanos devotados à modernização do continente, tão pobre quanto rico em potencialidades e recursos. Para eles, a maior ameaça era a soma de um campesinato tradicionalista, senhores da terra antiquados e sem visão e, sobretudo, a Igreja.

Na década de 1840, várias formas de socialismo utópico tinham capturado intelectuais, e de 1870 em diante o positivismo de Augusto Comte penetrou profundamente no Brasil e no México. Portanto, o “liberalismo” clássico ainda prevalecia. A combinação da revolução de 1848 com a expansão capitalista mundial deu aos liberais sua chance. Eles trouxeram a destruição real da antiga ordem legal colonial. As duas reformas mais significativas foram a liquidação de qualquer propriedade de terra que não fosse propriedade privada e, sobretudo, um feroz anticlericalismo, que chegou a abolir os privilégios de propriedade da Igreja.

A tentativa de transformar a sociedade via modernização institucional imposta através do poder político fracassou, essencialmente porque não tinha o suporte de uma independência econômica.

Os impérios coloniais das potências europeias consistiam em umas poucas regiões onde uma maioria ou uma minoria de colonos brancos coexistia com uma população indígena de razoável importância. Colônias do “colono branco” viriam criar o mais intratável problema de colonialismo. O problema das populações nativas era o de como resistir ao avanço dos colonos brancos. A escassez de brancos fez com que fosse essencial usar nativos em grande número para esta administração, pelo menos ao nível local. Ou seja, os colonizadores precisaram criar um corpo de nativos assimilados para tomar o lugar do homem branco e também de depender das instituições tradicionais dos países. Por outro lado, os povos indígenas confrontavam o desafio da ocidentalização como algo muito mais complexo do que mera resistência.

II

A Índia, a maior colônia, ilustra as complexidades e paradoxos desta situação. Os ingleses esforçaram-se para inserir um processo de ocidentalização, sobretudo por causa das necessidades de mesma administração e mesma economia. Ambas destruíram a estrutura social e econômica existentes, mesmo quando não era a intenção. Portanto, após longos debates, T.B. Macaulay (1800-59) – e sua famosa Minuta (1835) – estabeleceu um sistema de educação puramente inglês para os poucos indianos nos quais o British Raj tinha interesse oficial, ou seja, os administradores subalternos. Os ingleses recusaram-se ou fracassaram na tentativa de ocidentalização porque os indianos eram um povo dominado e por causa dos riscos políticos da excessiva interferência em práticas populares.

A “ocidentalização” viria a produzir as ideologias e os programas da luta de libertação indiana, cujos líderes culturais e políticos surgiram daqueles que haviam colaborado com os ingleses, beneficiando-se desta dominação na qualidade de uma burguesia compradora, iniciando “sua modernização” pela imitação do Oeste. Isso produziu o início de uma classe de industrialistas locais, cujos interesses produziriam conflito com a política econômica metropolitana. Neste período, a elite ocidentalizada via nos britânicos um modelo e a abertura de novas possibilidades. Estradas de ferro, telégrafo, estradas, escolas impressionavam o povo.

 A importante exceção foi o grande levante de 1857-58 no norte da planície indiana, conhecido na tradição histórica inglesa como o “Motim indiano”, um ponto crucial de administração britânica, que tem sido apontado como prelúdio ao movimento nacional indiano; o último sinal de reação do norte da Índia contra a imposição do domínio inglês direto e, finalmente, fez ruir a velha East India Company. Embora o levante tenha começado como um motim do exército bengalês transformou-se numa insurreição popular.

O “Motim” foi esmagado num banho de sangue, mas ensinou os ingleses a ter cuidado. A política de anexações cessou, exceto nas fronteiras ocidental e oriental do subcontinente. As grandes áreas da Índia ainda não ocupadas por administração direta foram deixadas para a administração de príncipes locais marionetes, controlados pelos ingleses. Após o final do regime da Company, o crescimento de uma nova comunidade de ingleses expatriados, enfatizava seus sentimentos segregacionistas e de superioridade racial, o que aumentou a fricção social com a nova camada de classe média. Pelo final da década de 1880, o Congresso Nacional Indiano já existia.

III

O Levante Indiano não foi a única rebelião colonial de massa do passado contra o presente. Dentro do império francês, o grande levante argelino de 1871 constitui-se um fenômeno análogo. Porém, as principais vítimas da sociedade ocidental capitalista não eram colônias conquistadas, mas sociedades e estados enfraquecidos, embora nominalmente independentes (como Egito e China).

A riqueza agrária do Egito transformou-o numa economia de exportação agrária (trigo e especialmente algodão), cujas vendas cresceram dramaticamente. Até os camponeses se beneficiaram, embora metade tenha contraído doenças parasitárias devido ao aumento da irrigação. Esta vasta expansão levou o comércio egípcio para dentro do sistema internacional (britânico). A situação estratégica atraía os interesses das potências ocidentais e seus capitalistas.

Os europeus teriam talvez ficado contentes em explorar um Egito independente, mas o colapso do boom econômico, assim com o da estrutura política e administrativa do governo Khedive tornava esta independência difícil. Os ingleses emergiram como os novos dirigentes do país na década de 1880.

Entretanto, a incomum abertura do Egito ao Oeste tinha criado uma nova elite (senhores da terra, intelectuais, funcionários civis e militares) que dirigiam o movimento nacional de 1879-82 diretamente contra Khedive e os estrangeiros. O árabe substituiu o turco como língua oficial, reforçando a já poderosa posição do Egito como centro da vida intelectual islâmica. O notável pioneiro da ideologia islâmica moderna foi o persa Al Afghani, que sabia que as convicções religiosas do mundo islâmico eram uma força política de grande magnitude. Seu apelo era por uma revitalização do Islã que permitisse ao mundo muçulmano absorver a ciência moderna e copiar o Oeste.

A maior das revoluções do século XIX ocorria no maior dos impérios não-europeus, a chamada rebelião de Taiping da China (1850-66), que tem sido ignorada por historiadores eurocentristas. Foi a maior das rebeliões, não apenas porque a China era o estado mais populoso do mundo, mas também por causa da escala extraordinária que ocorreram as guerras civis no país. Provavelmente 20 milhões de chineses morreram neste período. Estas convulsões eram o produto direto do impacto ocidental na China.

A China possuía uma tradição revolucionária popular, ideológica e prática. Sua história era de uma sucessão de dinastias, em ciclos de ascensão, crise e transcendência: ganhando e perdendo o “mandato do Céu” que legitimava sua absoluta autoridade. A permanência da China, centro da civilização mundial, era conseguida através da repetição contínua do ciclo de mudanças de dinastia (elemento revolucionário).

A dinastia Manchu, imposta por conquistadores do Norte em meados do séc. XVII, havia substituído a dinastia Ming que, através da revolução popular, havia derrubado a dinastia Mongol no séc. XIV. O extraordinário aumento da população do país no século precedente havia começado a criar pressões econômicas agudas. O novo elemento dramático era a conquista ocidental, que havia derrotado o Império na primeira Guerra do Ópio (1839-42). A administração imperial havia instruído forças de milícia contra os ingleses, desta forma ajudando a distribuir armas pela população civil.

O líder messiânico Hung Hsiu Chuan (1813-64), por volta de 1847-48 fundou a “Sociedade dos que veneram Deus”, que teve rapidamente seguidores (camponeses e mineiros, homens da grande população chinesa de nômades empobrecidos, membros de várias minorias nacionais e de velhas sociedades secretas). A rebelião estourou em 1850, em Kwangsi. Um “Reino Celestial de Paz Universal” pôde ser proclamado no ano seguinte, com Hung como o supremo “Rei Celestial”. Era um regime de revolução social, cujo maior apoio baseava-se nas massas populares e dominado por idéias igualitárias e taoístas, budistas e cristãs. A China estava dividida, e mesmo os que não se encontravam sob o regime de Taiping (eram pelo menos um milhão de ativos militantes) estavam sendo convulsionadas por graves insurreições.

A revolução de Taiping não se manteve. O fracasso de seus líderes, em guiar-se pelas suas próprias regras puritanas, enfraqueceu seu apelo popular, e profundas divisões desenvolveram-se rapidamente na liderança. O governo imperial recuperou-se, mas o preço que pagou era pesado e fatal. Isso também ilustrava as complexidades do impacto do Ocidente.

Paradoxalmente, os dirigentes da China eram menos propensos a adotar inovações ocidentais que os rebeldes plebeus. Para os intelectuais burocratas confucianos que governavam o Império, o que não fosse chinês era bárbaro. Havia mesmo resistência à tecnologia (que fazia os bárbaros invencíveis). Um partido “modernizante” desenvolveu-se, mas preferiu manter a China inalterada. A enfraquecida administração imperial via-se diante da escolha entre diferentes graus de concessão ao Oeste. Portanto, a China Imperial viu-se rapidamente na completa dependência de estrangeiros. Um triunvirato anglo-franco-americano já controlava a alfândega de Shangai desde 1854.

O Império chinês recuperou-se da crise de Taiping através de uma combinação de concessões ao Oeste, um retorno ao conservadorismo e uma erosão fatal de seu poder central. O grande e antigo Império da China iria, a partir de então, viver a custa dos outros.

Com exceção do Japão, as sociedades e estados vítimas do mundo capitalista fracassaram. Os que viviam nas colônias conquistadas, dominadas ou administradas pelo Oeste, não tinham muita escolha: seus destinos eram determinados pelos seus conquistadores. No geral, as antigas colônias dos estados europeus nas Américas optaram por uma incondicional imitação do Oeste.

Os dirigentes da China e do Egito rejeitaram uma política de resistência nacional, preferindo uma dependência em relação ao Oeste, que lhes mantivesse o poder político próprio.

IV

Tais políticas fracassaram. O Egito ver-se-ia cedo sob controle direto de seus conquistadores e a China tornou-se ainda mais sem saída na via da desintegração. Portanto, o que hoje é chamado “Terceiro Mundo” ou “países subdesenvolvidos” estavam à mercê do Oeste, vítimas perdidas.

Os ganhos eram difíceis de discernir neste período e as perdas demasiado evidentes. O contraste mais óbvio entre os mundos desenvolvidos e subdesenvolvidos era (e ainda é) aquele entre pobreza e riqueza.

O progresso não pertencia ao mundo que conheciam e muitos duvidavam se isso era desejável. Mas aqueles que resistiram em nome da tradição foram derrotados. O dia daqueles que resistiriam com as armas do progresso ainda não havia chegado.

7.VENCEDORES

I

Nunca os brancos de origem européia dominaram o mundo de forma tão completa e inquestionável como no período entre 1848 e 1875. Já que o mundo estava tomado pela era da economia e do poder capitalista.

Os EUA apesar de não se tratar de um Estado europeu esta federação estava diretamente ligada àquela, apesar de não ter uma participação maior nas questões mundiais, e por isso os estadistas europeus lhe davam atenção intermitente.

Neste período a América Latina tinha eliminado todas as colônias europeias continentais da América Central e do Sul, com exceção das Guianas. O interesse dos EUA estava intimamente ligado ao continente americano e ao Oceano Pacífico, objetivo este que não causava alvoroço nas chancelarias europeias.

Vale destacar que o EUA estava em crescente expansão territorial; vale citar algumas conquistas, como por exemplo: grande parte do sudoeste do continente (Califórnia, Arizona, Utah e partes do Colorado e Novo México) foi cedido pelo México em 1848-53, depois de uma guerra desastrosa; e a Rússia vendeu o Alasca em 1867.

“A maior parte do mundo, e especialmente a Europa, estava atenta aos Estados Unidos porque nesse período (1848-75) vários milhões de europeus haviam emigrado para lá e porque sua grande extensão territorial e seu extraordinário progresso fizeram-no rapidamente o milagre técnico do planeta”.

A política da América (Novo Mundo) em que a sociedade era aberta num país aberto onde um imigrante sem um centavo podia fazer-se a si mesmo (o self-made man) e dessa forma construir uma república igualitária e democrática. A imagem dos EUA como de esperança pessoal através do enriquecimento individual, tornando-se a sociedade dos novos ricos.

Além disso, ainda persistia o sentimento utópico de uma terra de igualdade, democracia, liberdade anárquica e sem obstáculos, de oportunidade ilimitada, conceitos que mais tarde seriam chamados de “destino manifesto” da nação.

A utopia rural (o pequeno proprietário livre em solo livre) podia mobilizar mais poder político do que nunca, principalmente no seio da população crescente do meio-oeste, ressalta-se aqui que essa população contribuiu para a formação do partido Republicano e para a sua orientação anti-escravista, já que o programa “homens livres”excluía a escravidão.

O maior trunfo deste programa se deu em 1862 com o Homestead Act  que oferecia a qualquer filho de família americana, maior de 21 anos, 160 acres gratuitos depois de cinco anos de residência contínua ou compra por US$ 1,25 por acre depois de seis meses, que por obvio fracassou. Nas últimas décadas do século pouco se ouvia falar do bucólico sonho de liberdade da terra.

A transformação dos EUA, portanto, aconteceu no período de 1848-75, devido a dois temas mais profundos e duradouros da história americana localizados na cultura popular: a Guerra Civil e o Oeste. Sendo que ambos estão intimamente interligados, já que foi a busca pelo Oeste que gerou a faísca para a guerra.

“Foi o conflito Kansas- Nebraska, em 1854, sobre a introdução do escravismo no centro país que viria a precipitar a formação do Partido Republicano. Este elegeria Abraham Lincoln (1809-65) presidente em 1860, acontecimento que levaria à secessão dos Estados Confederados do Sul em 1861”.

A referida expansão para o Oeste não era coisa nova, mas foi acelerado de forma drástica devido ao surgimento das estradas de ferro. As primeiras linhas transcontinentais foram construídas simultaneamente para o Leste, a partir do Pacifico, e para o Oeste a partir do Mississippi, encontrando-se em certo ponto do Utah.

O Oeste foi dividido em:

  1. Selvagem (região entre o Mississippi e a Califórnia) que estava sendo lentamente colonizado por fazendeiros, o que implicava na remoção dos índios, mas essa designação, ao contrario do que se pensa não é devido aos conflitos com os povos indígenas, mas sim pela falta de instituições efetivas de governo e da aplicação da lei, ou seja, um lugar onde prevalecia à lei do mais forte; era um sonho de brancos pobres que esperavam substituir a empresa privada do mundo burguês pelo jogo, ouro e armas.
  2. Dócil (ou central) que já estava povoado, cultivado e levemente industrializado.

Este tema sobre a abertura do Oeste é bem claro, ao contrário da natureza e da origem da Guerra Civil Americana (1861-65) que é sempre objeto de discussão entre os historiadores. Pode-se dizer que esta disputa gira em torno da natureza da sociedade escravista dos estados do Sul e sua possível compatibilidade com o capitalismo dinâmico em expansão do Norte. A verdadeira questão é saber porque de alguma forma estes estados não puderam coexistir.

As sociedades escravistas, incluindo as do sul, estavam com os dias contados, já que elas estavam isoladas fisicamente, devido a abolição do tráfico negreiro, que era muito eficiente na década de 1850, e também isoladas moralmente, devido ao consenso geral do liberalismo burguês, que as olhava como contrarias à marcha da história, moralmente indesejáveis e economicamente ineficientes. Mas o que levou o sul a uma situação de crise na década de 1850 foi um problema específico: a dificuldade de coexistência com o capitalismo dinâmico no Norte e um dilúvio de migração para o Oeste. 

Em termos puramente econômicos, o Norte não estava muito preocupado com o sul, uma região agrária praticamente não envolvida na industrialização. Os principais empecilhos eram políticos, já que a indústria do Norte estava certamente mais preocupada com uma nação, do ponto de vista do comércio, metade livre e metade protecionista, do que metade escrava e metade livre.

Em resumo, o Norte estava numa posição de unificar o continente que o Sul não tinha, por isso se fez necessária a Guerra Civil que por quatro anos devastou o país. Os Estados do Norte, embora notoriamente inferiores em desempenho militar, venceram por causa de sua vasta superioridade em homens, capacidade de produção e tecnologia. O triunfo do Norte também era o triunfo do capitalismo americano e dos Estados Unidos modernos e de fato o Sul permaneceu agrário, pobre, atrasado e ressentido.

O capitalismo americano desenvolveu-se com impressionante e drástica rapidez depois da Guerra Civil, que talvez tenha atrasado temporariamente seu crescimento, embora isso também tenha fornecido consideráveis oportunidades para os grandes empresários corretamente apelidados de robber barons. São os magnatas do período que fizeram contribuições importantes, para o desenvolvimento da economia industrial moderna.

Pode-se distinguir os robber barons das outras florescente economias capitalistas do mesmo período em três aspectos:

  1. Não havia qualquer forma de controle sobre as trocas comerciais feitas de modo implacável e com desonestidade. Os EUA, sozinho entre os Estados do mundo burguês, era um país de justiça privada e forças armadas privadas – os famosos pistoleiros.
  2. a maior parte dos investidores, pareciam estar obcecados pela construção tecnológica em si mesma, sem se julgarem aparentemente comprometidos com nenhuma forma de fazer dinheiro[A maioria deles conseguiu dinheiro através do grande fazedor de dinheiro dessa época, as estradas de ferro]; tudo o que queriam era maximizar os lucros. Todos esses homens eram especuladores e estavam prontos para ir ao encontro do dinheiro grosso onde quer que ele se encontrasse. Nenhum deles tinha ou poderia ter escrúpulos excessivos, numa era e numa economia onde a fraude, o suborno, a calunia e, se necessário, os revólveres eram aspectos normais da competição. 
  3. por fim uma proporção considerável deles eram self-made men e não possuíam competidores em riqueza e posição social. Eram homens imbuídos acima de tudo do imperativo capitalista da acumulação.

Em certo sentido, portanto, os robber barons sentiam-se representantes da América como nenhum outro grupo ou pessoa. E não estavam enganados, já que os grandes capitalistas impuseram seu selo ao país, os nomes dos maiores multimilionários[Morgan, Rockeffeller, Stanford, Crocker, Hopkins] se tornaram mitos.

“Antigamente, os homens da América podiam ser seus próprios dirigentes. Ninguém devia tornar-se dominador”. Mas agora “esses sonhos não se realizam (…) A classe trabalhadora deste país(…) descobriu repentinamente que o capital é tão rígido como uma monarquia absoluta”.   

II

“De todos os países não europeus, apenas um conseguiu encontrar e derrotar o Ocidente no terreno inimigo, esse país foi o Japão, para a surpresa dos contemporâneos.”

Aos olhos do Ocidente, em meados do séc. XIX, o Japão não parecia diferente de qualquer outro país oriental, ou pelo menos afigurava-se igualmente destinado ao atraso econômico e à inferioridade militar para tornar-se vítima do capitalismo.

O Japão, embora com sua tradição cultural, era surpreendentemente análogo ao Ocidente na estrutura social. O país possuía algo muito próximo de uma ordem feudal da Europa medieval, uma nobreza agrária hereditária, camponeses semi-servis e um corpo de mercadores-empresários e financistas cercados por um corpo incomumente ativo de artífices, todos assentados em uma crescente urbanização.

Diferentemente da Europa, as cidades não eram independentes nem os mercadores livres, mas a crescente concentração da nobreza (os samurais) nas cidades fazia-os depender de uma forma crescente do setor não – agrário da população, e o desenvolvimento sistemático de uma economia nacional fechada, fora do mercado externo, criou um corpo de empresários essencial para a formação de um mercado nacional intimamente ligado ao governo.

Os japoneses estavam mais dispostos a imitar os ocidentais do que muitos outros grupos não-europeus e eram também os mais capazes de fazê-lo. Como por exemplo a China que tinha capacidade, mas não queria imitar o Ocidente e os homens cultos do México que queriam imitar o capitalismo liberal tal como os EUA, caso em que a vontade era maior do que a capacidade. Mas o Japão possuía ambas, era mais uma “nação” potencial do que um império ecumênico, possuíam a capacidade técnica e outras, além do pessoal necessário para uma economia do século XIX.

A elite japonesa possuía um aparato de Estado e uma estrutura social capazes de controlar o movimento de uma sociedade inteira. 

Os japoneses perceberam que seria difícil enfrentar o Ocidente já que as Guerras do ópio contra a china (1839-42 e 1857-58) sublinharam a fraqueza dos países orientais diante da capacidade e métodos por eles utilizados.

Além disso, ao final do Período Edo (1603-1868), o Japão era um país feudal, economicamente atrasado, e que permanecia isolado em termos de Relações Internacionais.

Em 1853, os Estados Unidos da América invadiram a baía de Uraga e forçaram o Japão a abrir-se ao comércio internacional. A partir de então iniciou-se um período de turbulência que perdurou até à chamada Restauração Meiji.

A restauração Meiji (ou revolução de cima), foi uma sucessão de eventos que conduziu a uma profunda mudança nas estruturas política, econômica e social do Japão, que teve lugar em 1868, terminou com o sistema feudal de duzentos e cinquenta e seis anos dos xogunatos Tokugawa.

A unidade política do país permitiu a centralização da administração pública, e a intervenção do Estado na economia. Isso, por sua vez, possibilitou reformas econômicas que consistiram na eliminação de entraves e resquícios do modo de produção feudal, na liberação da mão-de-obra, e na assimilação da tecnologia ocidental, preparando o Japão para o capitalismo.

Os antigos feudos foram extintos e os privilégios pessoais foram eliminados através de uma reforma agrária e da reformulação da legislação do imposto territorial rural.

Surgiram então os zaibatsus, os grandes conglomerados empresariais originados dos clãs familiares[como a Mitsubishi, a Mitsui, a Sumitomo, a Yasuda, dentre outros] que passaram a dominar cada vez mais a economia japonesa, atuando praticamente em todos os setores industriais, além do comércio e das finanças. Estes logo incorporaram as indústrias menores e, inclusive, as indústrias do Estado. Com esse processo de modernização, o Japão industrializou-se rapidamente, fortalecendo a sua economia, tornando-se futuramente uma potência mundial inquestionável.

Existe um paralelismo feito entre o Japão e a Prússia já que em ambos os países o capitalismo tinha sido formalmente instituído não pela revolução burguesa, mas efetuada por uma velha ordem aristocrático-burocrática, que reconhecia que sua sobrevivência não poderia ser assegurada de outra forma. Em ambos os países os regimes econômicos e políticos subsequentes conservaram importantes características da velha ordem

8.A SOCIEDADE EM PROCESSO DE MUDANÇA

A Revolução Industrial triunfou, mas teve desdobramentos como a formação do proletariado, a prática do “capitalismo selvagem” e a evolução das idéias socialistas.

Esta revolução consolidou o sistema capitalista e as relações de produção assalariadas. Nestas, o trabalhador não tem qualquer controle sobre os meios nem sobre os instrumentos de produção, entrando no processo como mera força de trabalho não-qualificada. Tal situação, agravada pela enorme oferta de mão-de-obra, levou os capitalistas a explorar o proletariado de forma absolutamente desumana, configurando o que se convencionou chamar de “capitalismo selvagem”.

O proletariado, por ser um grupo social novo, demorou para adquirir consciência de classe, que lhe daria a coesão necessária para lutar por melhores condições de trabalho e de vida. Em meados do século XIX, começaram a aparecer as políticas populares e os movimentos trabalhistas passaram a se organizar em forma de sindicatos; mas somente em fins daquele século eles começaram a conquistar alguns direitos.

Os governos dos países industrializados, controlados pela burguesia, obviamente dificultaram ao máximo a organização do operariado e sua luta reivindicatória. No começo do século XIX, a miséria dos trabalhadores permanecia sem expectativa de solução; por isso, certos intelectuais (geralmente de origem burguesa, mas sensibilizados pela causa operária) começaram a criar teorias que propunham mudanças na estrutura econômica e social do capitalismo, com vistas a criar uma sociedade mais justa e menos diferenciada. Surgiram assim as idéias socialistas.

As primeiras teorias receberam mais tarde o nome de socialismo utópico porque não pregavam a destruição do capitalismo, mas apenas sua reforma; ora, na opinião dos socialistas radicais, essa atitude era utópica, já que, para eles, o capitalismo era intrinsecamente mau e não poderia ser reformado — mas apenas destruído. O socialismo radical encontrou sua maior expressão em Karl Marx — criador do socialismo científico ou comunismo. Para ele, o capitalismo seria derrubado por uma revolução armada do proletariado, o qual implantaria uma ditadura socialista. Nesta, a propriedade privada desapareceria e os meios de produção seriam coletivizados, criando o que Marx esperava fosse uma sociedade sem classes. Quando a revolução socialista tivesse se estendido a todos os países (daí a célebre frase “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”), seria possível suprimir o Estado e estabelecer uma sociedade inteiramente igualitária: a sociedade comunista.

Embora o futuro tenha provado que o projeto de uma sociedade comunista era tão utópico quanto as teorias anteriores, o socialismo marxista seduziu milhares de intelectuais e milhões de operários e camponeses. Já em 1871, os comunistas, aliados aos socialistas utópicos e a uma facção de esquerda ainda mais radical — os anarquistas — realizaram aquela que se tornou a maior insurreição socialista antes da Revolução Russa de 1917: a Comuna de Paris[Foi importante não tanto pelo que realizou, mas sim pelo que anunciou. Se não chegou a ameaçar seriamente a ordem burguesa, pelo menos aterrorizou a todos pela sua existência, já que se tratou de uma insurreição operária], que se manteve por 40 dias, foi o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante à invasão alemã , durante a guerra franco-prussiana, foi considerada a primeira República Proletária da história. Mas a repressão do governo burguês foi implacável: 13.000 revolucionários foram fuzilados e quase 50.000, deportados.

Os anarquistas auto-denominados socialistas libertários vêem qualquer governo como a manutenção do domínio de uma classe social sobre outra. Compartilham da crítica socialista ao sistema capitalista em que o Estado mantém a desigualdade social através da força, ao garantir a poucos a propriedade sobre os meios de produção, no entanto, estendem a crítica aos socialistas que advogam a permanência de um estado pós-revolucionário para garantia e organização da “nova sociedade”. Tal estado, ainda que proletário, somente faria permanecer antigas estruturas de dominação de uma parcela da população sobre a outra, agora sob nova orientação ideológica.

Esta teoria clama por um sistema socialista em que a posse dos meios de produção sejam socializados e garantidos a todos os que trabalham. Num tal sistema, não haveria necessidade de autoridades e/ou governos uma vez que a administração da vida social, para a garantia plena da liberdade só poderia ser exercida por aqueles mesmos que a compõem e a tornam efetiva (seja na indústria, na agricultura, nas empresas, creches, escolas, etc.).

A sociedade seria gerida por associações democráticas, formadas por todos, e dividindo-se livremente (ou seja, com entrada e saída livre) em cooperativas e estas, em federações.

Para o ideário anarquista, a Revolução deve ser imediata, para não permitir que os elementos revolucionários possam ser corrompidos pela realidade estatal. Especialmente por isso, para eles, a Revolução Social deve ascender o mais rápido possível à sociedade anarquista, ao Comunismo puro, para, também, através dos princípios da defesa da revolução, não permitir a ressurreição do Estado.

Por fim, por intermédio do processo de destruição completa do Estado, sobre todas as suas formas, torna-se plenamente tangível a Liberdade, podendo, o/a sujeito/a, renovar de forma efetiva os seus princípios e preceitos humanistas.

O anarquismo de modo geral atraía a desfavorável atenção de Marx, já que por sua ótica seria necessária a instrumentalização do Estado para a conquista planejada, detalhada e gradativa da Revolução, sendo instituída a Ditadura do Proletariado para o controle operário dos meios de produção até a eclosão do Comunismo.

Além disso, Marx afirmava que a revolução socialista deveria triunfar nos países mais industrializados, que contariam com um proletariado mais numeroso e organizados[como nos EUA]. Tal previsão falhou redondamente porque, nos países mais desenvolvidos, os operários já conseguiram conquistar certos direitos e benefícios, o que diminuiu seu entusiasmo por uma revolução armada.

Restavam, portanto, os países atrasados, onde a exploração e a miséria dos trabalhadores ainda se encontravam no estágio do capitalismo selvagem; nesses Estados, as condições para uma revolução proletária eram mais favoráveis, como por exemplo à  Rússia.

Ao final do século XIX, o Império Russo apresentava um extraordinário atraso em relação às demais potências europeias:

  1. Atraso econômico, a economia ainda era basicamente agrária, praticada em latifúndios explorados de forma antiquada, através do trabalho de milhões de camponeses miseráveis. A industrialização russa foi tardia, dependente de capitais estrangeiros e se restringia a algumas grandes cidades, deste modo a burguesia russa era extremamente fraca.
  2. Atraso político o Império Russo era oficialmente uma autocracia com todos os poderes centralizados nas mãos do czar. Não havia partidos políticos legalizados, embora as agremiações clandestinas fossem bastante atuantes. Delas, a mais importante era o Partido Social- Democrata Russo, que em 1903 se dividiu em dois ramos: bolcheviques – marxistas radicais (do russo bolchinstvo = maioria) e mencheviques (socialistas moderados; do russo menchinstvo = minoria).
  3. Em 1861 aboliu-se a servidão e se deu ao camponês a propriedade da terra em que construíra sua casa. A reforma acentuou a crise social, uma vez que a organização social baseada no mir foi rompida, sendo transformado numa célula administrativa, pois a comunidade era coletivamente responsável pelo pagamento da dívida ao Estado: este assumira o pagamento das indenizações aos senhores da nobreza. Ao mesmo tempo, aumentava a compra e a venda de terras por elementos urbanos ou por camponeses enriquecidos saídos da própria comunidade aldeã – eram os kulaks, burguesia rural dona de terras mais vastas. Portanto a situação de miséria se manteve.

Isto tudo fez com que a Rússia tivesse o cenário perfeito para as primeiras revoluções sociais, inicialmente com a Revolução de 1905[consistiu em três episódios distintos, todos extremamente significativos: o Domingo Sangrento – manifestação pacífica de milhares de operários de São Petersburgo foi violentamente dispersada pela Guarda Imperial, com centenas de vítimas. A revolta do “Potemkin” – um couraçado pertencente à frota russa do Mar Negro. Sua tripulação rebelou-se, por melhores condições de trabalho, melhores alimentos, e melhores salários, ao saber que seria enviada para lutar contra os japoneses. De qualquer forma, tratava-se de um motim em uma grande unidade da Marinha Russa, evidenciando que as Forças Armadas já não podiam ser consideradas sustentáculos fiéis da Monarquia. A greve geral – Em São Petersburgo, Moscou e Kiev, os operários entraram em greve] que culminou na famosa revolução de 1917[Como Marx previu de forma correta, uma Rússia revolucionária mudaria as perspectivas de revolução em todos os lugares].

2 respostas a “Resumo / Fichamento: A ERA DO CAPITAL 1848-1875 – Eric Hobsbawm [Parte 1]”

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