A era do capital livro e seu autor

Eric Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do século XX, que escreveu os já clássicos “A Era das Revoluções 1789–1848 “, “A Era do Capital 1848-1875“, “A Era dos Impérios 1975-1914” e “Era dos Extremos 1914-1991“.

A Era do Capital é continuação de A Era das Revoluções. A Era do Capital é a história do triunfo global do capitalismo. Hobsbawm identifica as instituições, as ideologias, a ciência, a religião, os vencedores e os vencidos do curto período que vai de 1848 a 1875. No apagar das chamas revolucionárias (1848), surgiu uma época de relativa paz, um período em que se desenvolveram um novo estilo e uma nova escala de valores que, juntos, formaram “A era do capital”. Análise detalhada da ascensão do capitalismo industrial e da consolidação da cultura burguesa.

O conteúdo dessas obras é denso, por isso estamos disponibilizando para vocês um fichamento delas. Nesta postagem, está o fichamento da “Parte 2” da obra, com a terceira parte. A “Parte 1”, com a primeira e segunda partes, está no post anterior. Bons estudos.

A ERA DO CAPITAL

1848 – 1875

PRIMEIRA PARTE: PRELÚDIO REVOLUCIONÁRIO

  1. “A Primavera dos Povos”

SEGUNDA PARTE: DESENVOLVIMENTO

  1. A Grande Expansão
  2. O Mundo Unificado
  3. Conflitos e Guerras
  4. A Construção das Nações
  5. As Forças da Democracia
  6. Perdedores
  7. Vencedores
  8. A Sociedade em Processo de Mudança

TERCEIRA PARTE: RESULTADOS

  1. A Terra
  2. Homens a Caminho
  3. A Cidade, a Indústria, a Classe Trabalhadora
  4. O Mundo Burguês
  5. Ciência, Religião, Ideologia
  6. As Artes

Conclusão

Terceira Parte

RESULTADOS

1.“A Terra”

I

Em 1848, a população do mundo, mesmo na Europa, ainda consistia sobretudo de homens do campo. Portanto, de longe, a maior parte da humanidade e os destinos da vida ainda dependiam do que acontecesse na e com a terra.

O que uma parte crescente da agricultura tinha em comum por todo o mundo era a sujeição à economia industrial mundial.

As convulsões sociais que sucederam à transferência da agricultura para um modelo capitalista, ou pelo menos um padrão de comércio em larga escala, afrouxaram os laços tradicionais entre os homens e a terra de seus ancestrais, especialmente quando descobriram que não possuíam praticamente nada dela, ou pelo menos muito pouco para manterem suas famílias. Simultaneamente, as demandas insaciáveis de trabalho, por parte das novas indústrias e ocupações urbanas, a lacuna crescente entre o campo atrasado e obscuro e a cidade avançada com seus estabelecimentos industriais atraíam-nos de qualquer maneira.

Portanto, o comércio internacional era ditado pela regras do crescente capitalismo, e as produções agrícolas deveriam ser levadas a especializações extremas ou mesmo à monocultura nas regiões exportadoras. E isto era possível através da tecnologia que acompanhava visivelmente a demanda, ou procurava na medida do possível antecipá-la.

De longe a construção das redes ferroviárias diminuíram as distâncias proporcionando o transporte de grandes quantidades em tão pouco tempo, além disso, métodos tradicionais de conservação dos alimentos, como, por exemplo, o de salgar e de secar as carnes para que fossem preservadas, estavam sendo substituídas pelos enlatados e posteriormente pela refrigeração.

O elemento dinâmico do desenvolvimento agrícola era portanto a demanda: a crescente busca por alimentos por parte das regiões urbanas e industriais do mundo, a crescente demanda desses mesmos setores por trabalho e , unindo os dois, a economia de rápida expansão que fez crescer o padrão de consumo das massas e, portanto, sua demanda per capita.

A agricultura mundial cada vez mais se dividia em duas partes, uma dominada pelo mercado capitalista, nacional ou internacional, a outra amplamente independente dela.

Do ponto de vista econômico, o setor tradicional da agricultura era uma força negativa: estava imune às flutuações dos grandes mercados ou resistia a seu impacto da melhor maneira possível. Onde fosse forte, mantinha homens e mulheres ligados à terra, até onde pudesse dar-lhes um meio de vida, ou se desfazia do excesso de população por via das migrações sazonais.

O setor de mercado era mais complexo, já que sua fortuna dependia tanto da natureza do mercado, em alguns casos do mecanismo de distribuição, quanto do grau de especialização dos produtores e da estrutura social da agricultura. Num extremo, poderia haver a virtual monocultura das novas áreas agrícolas, imposta pela orientação em direção a um remoto mercado mundial e intensificada, se não mesmo criada, pelo mecanismo característico de firmas comercias estrangeiras, nas grandes cidades portuárias, que controlavam esse comércio de exportação.

A grande depressão agrária das décadas de 1870 e 1880 foi, portanto, uma depressão de produtos duráveis e de plantações internacionais de alimentos.

O campesinato sofria uma constante erosão devido à proletarização daqueles cujo rendimentos eram demasiado pequenos para sustentá-los, ou pela imigração daquelas bocas adicionais que o crescimento demográfico multiplicava e que não poderiam ser alimentadas pela terra da família. Grande parte do campesinato era pobre, e o setor de pequenos proprietários ou camponeses sem dúvida tendia a crescer.

O crescimento da economia capitalista transformou a agricultura com sua demanda maciça. Seria tedioso multiplicar as estatísticas da crescente produtividade e produção agrícolas. Mais interessante é descobrir até onde elas se deviam à industrialização, e se usavam os mesmos métodos e tecnologia que estavam transformando a industria.

As maiores inovações tecnológicas do campo são originárias dos lugares em que a mão de obra era escassa e os campos extensos, como ocorre no caso dos EUA, em que se fazia necessário a substituição por maquinas que colhiam, debulhavam e moíam.

II

As forças econômicas que moviam a agricultura faziam-no naquelas áreas que eram acessíveis à mudança – eram as forças da expansão. Mas em grande parte do mundo chocaram-se contra obstáculos sociais ou institucionais que as impediam ou inibiam, ficando também no caminho de outra importante tarefa do capitalismo: o desenvolvimento industrial do setor agrário. Pois sua função na economia moderna não era apenas a de suprir alimentos e matéria-prima em quantidades crescentes, mas também a de proporcionar o mais importante reservatório de forças de trabalho para ocupações não-agrícolas. Sua terceira grande função, a de proporcionar capital para o desenvolvimento urbano e industrial dificilmente poderia ocorrer em países agrários, onde as outras fontes de renda para governos e ricos eram escassas, embora pudessem supri-las, ainda que de forma ineficiente e inadequada.

A agricultura era uma “indústria” como qualquer outra, a ser conduzida segundo princípios de maximização de lucro, e o fazendeiro um empresário. O mundo rural como um todo era um mercado, uma fonte de trabalho, uma fonte de capital.

Três tipos de empreendimentos agrários estavam sob particular pressão: a plantação escrava, a propriedade servil e a economia camponesa tradicional não-capitalista . O primeiro foi liquidado, no período 1848-75, pela abolição da escravidão nos EUA e na maior parte da América Latina , com exceção do Brasil e de Cuba, onde estavam com os dias contados. O estado servil foi formalmente liquidado na Europa entre 1848-68, embora ainda existisse uma situação semi-servil em alguns pontos da Europa e o terceiro tipo manteve-se como já citado anteriormente.

As razões para essa liquidação geral das formas pré-capitalistas, ou seja não –econômicas de dependência agrária são complexas, mas podem ser entendidas ao perceber as diferenças essenciais entre elas; uma acaba por excluir a outra, não tendo como coexistir. Já que todas estas formas de empreendimentos agrários citados iam à contra-mão da idéia capitalista de homens livres para vender sua mão de obra (busca livre do interesse individual), o que impedem um ajuste racional do mercado.

O novo mundo trouxe modificações para a vida no campo que podem ser largamente discutidas sem jamais chegar a um consenso, o que de uma maneira geral enriquece a discussão em torno deste assunto.

 2.“Homens a caminho”

I

A metade do século XIX marca o começo da maior migração de povos na História. Seus detalhes não são exatos e não capturam todos os movimentos de homens e mulheres dentro e fora dos países.  Contudo, estimativas apontam que entre 1846 e 1875 um número superior a 9 milhões de pessoas  deixaram a Europa indo, em sua grande maioria, para o EUA. Trata-se de um número 4 vezes maior que a população de Londres em 1851. No meio século precedente, tal movimentação não superou o valor de 1,5 milhão de pessoas.

Hobsbawn busca estabelecer uma correlação entre os movimentos populacionais e a industrialização. Segundo o autor, tais elementos caminham juntos na medida em que o desenvolvimento econômico moderno pede mudanças substanciais juntos aos povos, além de facilitar os movimentos ao torná-los mais baratos e simples. Estes movimentos migratórios de massa não eram inesperados e já contavam com precedentes nas décadas anteriores. Em 1845, 100 mil passageiros chegaram aos EUA. Entre 1846-50 a média anual ultrapassou 250 mil. Nos 5 anos subseqüentes a média atingiu 350 mil. Tais número, contudo, parecem modestas com as cifras das décadas posteriores. Na década de 1880 a média de emigrantes atingiu o intervalo entre 700 e 800 mil europeus por ano. Nos anos posteriores a 1900 os valores alcançaram um intervalo entre  1 e 1,4 milhão emigraram por ano.

No período abordado pelo autor, o tráfico negreiro estava em ruínas (ilegal e estrangulado pela marinha britânica), os europeus compunham agora  o maior número de migrantes internacionais, mais precisamente os europeus ocidentais e alemães. Chineses e indianos também estavam sem movimentando, os primeiros em direção as fronteiras do norte e nas regiões da costa sul, enquanto os segundos em direção a Birmânia. Estes acabaram posteriormente suprindo o vazio deixado pelo banimento do tráfico negreiro. 125 mil chineses seguiram para Cuba entre 1853 -74. Também foram atraídos na parte pioneira da parte americana do pacífico.

Na Europa, as migrações intercontinentais estavam confinadas aos povos de poucos países, sobretudo ingleses, irlandeses e alemães. A partir de 1860, partiram os noruegueses e suecos. Os noruegueses destinaram 2/3 do seu excedente populacional para os EUA, sendo superados penas pelos irlandeses. Por outro lado, apesar de ingleses e alemães tenham mandado aproximadamente 10% do seu aumento demográfico para o exterior, numericamente isso significava muito. Entre 1851 e 1880, cerca de 5,3 milhões de pessoas deixaram  as Ilhas Britânicas (3,5 para os EUA, 1 para a Austrália e 0,5 para o Canadá) que, segundo Hobsbawn significou a maior migração transoceânica no mundo.

O grande período da migração eslava, judaica e italiana para as Américas começa apenas em 1880.

“O século XIX foi uma gigantesca máquina para desenraizar os homens do campo”. A maioria dos camponeses se dirigiu para as cidades. Embora fossem para muitos um mundo estranho e assustador, as cidades eram vistas como um ambiente promissor. Ressalta o autor que pequena fração dos trabalhadores alemães e escandinavos que chegaram a região dos grandes lagos se dedicaram inicialmente a agricultura, em virtude do custo elevado para equipar uma fazenda.

Assim como a industrialização se ligava a migração, esta vinculava-se a urbanização. Na segunda metade do século XIX, EUA, Austrália e Argentina caracterizavam este quadro, possuindo taxas de urbanização elevadas, não superadas em outros lugares com a exceção da Inglaterra e partes industrializadas da Alemanha. Em 1890 das vinte maiores cidades do mundo ocidental, 5 encontrava-se na América e 1 na Austrália.

Os migrantes dentro do próprio paÍs freqüentemente não iam muito longe. Mulheres tornavam-se em sua maioria empregadas domésticas, até que se casassem com um compatriota ou passassem para alguma ocupação urbana. Migração de famílias ou mesmo casais era incomum. Os homens seguiam o comércio tradicional de suas regiões ou transferiam-se para as cidades e seguiam alguma profissão de especialização prévia. Aqueles que não tinham especialização particular entravam nos ramos da construção e transporte. Nas grandes cidades não havia alternativa de trabalho fabril, que se encontrava em maior parte nas cidades médias (rápido crescimento) ou mesmo pequenas vilas e cidades.

Migrações através de fronteiras levantavam problemas ainda mais complexos. A língua não era um problema significativo para aqueles que migravam para as colônias do império. Dificuldades maiores surgiam para alguns migrantes internos dentro de alguns impérios multinacionais na Europa central e oriental. O maior desafio estava sem dúvida na necessidade da naturalização “forçada” em países como os EUA. Esta mudança de cidadania não implicava no divórcio em relação ao país de origem. Tem-se inicio movimentos xenofóbicos – como o movimento contra a migração irlandesa nos anos 1850 – e, por outro lado, movimentos de auxílio entre os compatriotas.

As dificuldades matérias elementares durante o processo migratório se pautavam em aonde ir e o que fazer no novo lugar. O custo da passagem em si não era uma dificuldade insuperável, embora as condições das viagens fossem terríveis. Uma passagem de Hamburgo para Nova York custava 7 dolares em 1885, ou seja, muitas vezes o custo da viagem até o porto era bem maior do que a travessia em si. Mesmo assim, esse dinheiro não estava ao alcance de todos. O auto custo de vida no seus novos países levavam os imigrantes a pouparem, o que propiciou o envio de remessas aos familiares no exterior.

Quando os familiares não podiam ajudar, entrava em cena indivíduos que acumulavam lucros enviando “gado humano” para os locais de demanda (companhias de navegação, de estradas de ferro, proprietários de minas, donos de siderúrgicas). Os empresários da imigração não sofriam controle algum e tinham a opinião pública dos influentes a seu favor.  A burguesia acreditava que a Europa estava super povoada e seria melhor para os que imigrassem (melhoria de suas condições) e para os que ficassem (alivio no mercado de trabalho).

Por que as pessoas emigravam? Sobretudo por razões econômicas. As perseguições políticas formavam depois de 1848 apenas uma pequena fração. A fuga de seitas religiosas era menos significativa que no século precedente. As pessoas emigravam para escapar às más condições em casa ou para procurar melhores no exterior? Os pobres apresentam tendência de emigrar mais que os ricos… Na primeira grande onda de imigração de nosso período (1845-54) foi essencialmente uma fuga de fome, sendo composta majoritariamente por Irlandeses e alemães. Contudo, os processos de emigração passavam por ciclos de marcha e contra-marcha de acordo com a expansão da oferta de emprego no locais de atração.

Vale ressaltar que em virtude do avanço tecnológico das comunicações, as emigrações não se tornaram permanentes. Havia uma parcela considerável (30 – 40%) que fizeram fortuna e voltaram para suas terras natais, agora, em melhores condições. Havia também aqueles que não se adaptavam a um determinado local e emigravam novamente.

A extensão mundial da nova economia teve como símbolo a estrada de ferro. Seus construtores cobriam o globo e levavam consigo seus trabalhadores (na maioria ingleses e irlandeses). Estes recebiam mais por enfrentarem condições mais difíceis. Compunham o que Marx chamava de “cavalaria ligeira” do capitalismo. A expansão econômica criou uma “fronteira” em praticamente todos os lugares, mas havia uma divisão entre nítida entre os países do velho e do novo mundo. No primeiro, não houve a necessidade da criação de uma mão de obra móvel de expressão, ao contrário dos trabalhadores do novo mundo em que a presença de trabalhadores ambulantes era mais necessária.

II

A forma característica de viagem para o pobre era a migração. Este, raramente viajava exclusivamente por prazer, mas combinavam prazer com negócios nos mercados e feiras. Já para a classe média e ricos, era cada vez mais freqüente o turismo, que surgiram como um produto da estrada de ferro, barco a vapor e também da nova magnitude e rapidez das comunicações postais.

O capitalismo industrial produziu duas novas formas de viagens de prazer: turismo e viagens de verão para a burguesia, e pequenas excursões mecanizadas para as massas, em alguns países como a Inglaterra. As viagens de massa nasceram de fato apenas na década de 1850, sendo impulsionada pelas numerosas exposições internacionais e a reconstrução das capitais que encorajaram cidades provincianas a exibirem suas maravilhas. O turismo de massas se restringiu a pequenas viagens, que forneceu estímulos a uma florescente industria dos souvenirs.

A classe média, porém, viajava com mais seriedade.  A forma mais importante de tais viagens em termos quantitativos era provavelmente as férias de verão. As estações de águas do continente tinham mais estilo sendo freqüentados pelos ricos. Ir para o mediterrâneo no verão, exceto com o objetivo de procurar arte e arquitetura, ainda se considerava loucura até o inicio do século XIX.

Havia, entretanto, duas formas de passeio: o mais longo (verão ou inverno) e o tour cada vez mais rápido e prático. As maiores atrações eram as paisagens românticas e os monumentos da cultura e na década de 1860 os ingleses exportavam sua paixão pelo exercício físico para as montanhas da suíça.  Esses tours não eram baratos. No início da década de 1870 uma viagem de seis semanas para duas pessoas de Londres via Bélgica, Vale do Reno, Suiça e França custava cerca de 85 libras (20%  da renda anual de um respeitável empregado doméstico naqueles dias).  Tal soma tomaria mais de três quartas partes do salário anual de um bem-pago operário especializado britânico.

No final do nosso período, contudo, a maioria das pessoas deste planeta ainda vivia e morria no lugar de nascimento, ou mais precisamente, que toda essa movimentação não era maior ou diferente do que havia sido antes da Revolução Industrial (contradição de Hobsbawn?). Contudo, em países como a Austrália e cidades como Nova York, Chicago, Estocolmo, Cristânia (Oslo), Budapeste, Berlim e Roma (50-60%), assim como Paris e Viena (65%) os migrantes compunham a grande maioria. As cidades e as zonas industriais, eram, cada vez mais, os magnetos que atraiam. Que tipo de vida os esperava ali?

3.“A cidade, a indústria, a classe trabalhadora”

I

A vida daqueles que migraram ou nasceram num mundo de indústria e tecnologia não consistia apenas de fabricas, empregadores e proletários. Por mais espantosas que fossem as mudanças trazidas pelo avanço da indústria e da urbanização em si mesmas não são adequadas para medir o impacto do capitalismo. Ainda assim, O trabalho industrial, na sua estrutura e organização característica e a urbanização eram certamente as formas mais dramáticas da nova vida; nova porque mesmo a continuação pura e simples de alguma ocupação local escondia mudanças de longo prazo (distinção entre comunidade e sociedade de indivíduos = cidade antiquada e cidade capitalista).

A cidade era sem dúvida o mais impressionante símbolo exterior do mundo industrial, exceção feita à estrada de ferro. A urbanização cresceu rapidamente depois de 1850. Na primeira metade do século, somente a Inglaterra tinha tido uma taxa anual de urbanização superior a 0,20 pontos. Entre 1850 e 1890 até a Austro-Hungria, Noruega, Irlanda urbanizavam-se neste ritmo; Bélgica 0,3 pontos; EUA 0,4; Prússia, Austrália e Argentina entre 0,4 e 0,5; Inglaterra e País de Gales acima de 0,5 pontos por ano.  A concentração de pessoas em cidades era “o mais impressionante fenômeno do atual século”.

A cidade industrial típica era nesse período uma cidade de tamanho médio, mesmo por padrões atuais, embora, como ocorreu na Europa Central e oriental, algumas cidades (muito grandes) também se tornassem centros maiores de produção, por exemplo, Berlim, Viena e São Petersburgo. Mas as antigas cidades pré-industriais de maior reputação geralmente não atraiam as novas formas de produção, e conseqüentemente a nova região industrial típica tomava em geral a forma de pequenas vilas, que cresciam juntas e transformavam-se em pequenas cidades e posteriormente em grandes cidades.

Em meados da década de 1870, acreditava-se haver quatro cidades de mais de 1 milhão de habitantes na Europa (Londres, Paris, Berlim e Viena), seis com mais de meio milhão (São Petersburgo, Constantinopla, Moscou, Glasgow, Liverpool, Manchester) e vinte e cinco com mais de 200 mil.

A grande cidade não era exatamente um centro industrial (embora pudesse conter um grande número de fábricas), mas mais precisamente um centro de comercio, transporte, administração e serviços. A maior parte de seus habitantes era de fato composta de trabalhadores, incluindo um grande número de empregados domésticos. Continham também uma boa porcentagem de classe média e baixa classe média – entre 20 e 23% tanto em Londres como em Paris.

Essas cidades cresceram com extraordinária rapidez. Entre 1851 – 1881, Paris de 1 para 1,9 milhão e Londres de 2,5 para 3,9 milhões. Mudou-se a forma, imagem e estrutura seja através do planejamento politicamente motivado (Paris e Viena) ou pela fome de lucros empreendedora. Os pobres eram vistos como um ameaça pública e suas concentrações deveriam ser cortadas por avenidas e bulevares. Essa também foi a política das estradas de ferro, que fazia suas linhas passarem pelo centro da cidade, de preferência pelo meio dos cortiços, onde os custos eram menores e os protestos negligenciáveis

Quem se refere as cidades de meados do século XIX se refere também a superpovoamento e cortiço. Quanto mais rápida a cidade crescia, pior era em superpopulação. Apesar da reforma sanitária e do pequeno planejamento, a situação só começou a melhorar no final de nosso período. Este se caracterizou por ser a primeira era mundial de expansão na construção de bens imobiliário para a burguesia. A classe média, na medida em que drenava recursos para seu próprio sistema habitacional, menos recursos eram destinados aos bairros da classe operária, exceto nas formas mais gerais de despesas públicas – ruas, esgotos, iluminação e utilidades públicas.

II

A cidade grande era um portento, embora só contivesse uma minoria da população. A grande empresa industrial era ali pouco significativa. Pelos padrões modernos de tamanho, tais empresas não eram muito expressivas (1871 uma fábrica inglesa de médio porte empregava 180 pessoas, a maquinaria chegando a 85). A indústria pesada era muito maior e tendia a influenciar cidades e regiões inteiras.

Companhias de estradas de ferro eram gigantescos empreendimentos enquanto as minas de carvão eram ainda, na maioria dos casos, empreendimentos individuais e freqüentemente pequenos. Na Alemanha, de maneira crescente, desenvolveram-se impérios industriais que controlavam o horizontal e o vertical. Os Krupp em Essen cresceram de 72 trabalhadores em 1848 para quase 12 mil em 1873, os Schneider na França atingiram 12.500 em 1870 (metade da população de Creusot trabalhava em seus fornos).

Neste momento, fosse pequena ou grande, era o “dono” e não a autoridade impessoal da “companhia” que dirigia os negócios. Na mente das pessoas, o capitalismo ainda significava um único homem, uma única família, donos de um negócio a coordenar. A empresa característica da primeira metade do século tinha sido financiada pelo capital privado, por exemplo, recursos de familiares. Contudo, com o tamanho e custos crescentes de empreendimentos tais como metalurgia e ferrovias, novas formas de financiamento se fizeram necessárias. Alguns países em desenvolvimento, por não terem um reservatório de capital já disponível, dependiam de investimentos externos que foram supridos por ingleses e franceses.

Inicia-se neste período a mobilização de capital para o desenvolvimento industrial. Com a exceção da Inglaterra, a maioria das transações envolvia bancos, ou uma companhia  financeira dedicada ao investimento industrial denominada crédit mobilier. Inspirados pelas idéias de Saint-Simon, os irmãos Pereire desenvolveram o protótipo desta invenção que se espalhou por toda a Europa competindo com os Rothschilds, que foram obrigados a seguir esta idéia. Com a vitória dos Rothschilds, novas formas de investimentos similares se desenvolveram como o banque d´affaires. Concomitantemente observa-se o florescimento das bolsas de valores que trabalhavam com ações principalmente de empresas comerciais e de transporte.

Até que ponto, realmente, eram requeridas essa vastas mobilizações de capital? Em que medidas eram elas eficazes? Industriais nunca apreciaram muito os financistas e tentaram sempre ter o mínimo possível a ver com os banqueiros. Porém com o rápido crescimento industrial, às vezes era necessário requerer empréstimos. Nenhum país dependeu mais da mobilização de capitais oriundos de bancos e casas de investimento do que a Alemanha.

As finanças não afetaram muito a organização dos negócios, mas afetaram sua política. A instrução era um dos aspectos essenciais da gerência nos novos países em vias de industrialização. A alternativa e o complemento a instrução eram o comando. Neste período, a gerência em larga escala foi influenciada pelos modelos já existentes: o militar e o burocrático. Este modelo encorajava entre os trabalhadores as virtudes militares (lealdade, disciplina e modesta satisfação. Contudo, a verdadeira motivação dos trabalhadores encontrava-se na vontade de ingressarem no universo burguês.

Baseados na teoria econômica do wage-fund (demonstração científica de que aumentar salários era impossível) os empregadores acreditavam que os salários deveriam ser mantidos os mais baixos possíveis. Contudo, com a ascensão do trabalhismo e do empirismo de alguns patrões que observavam o ganho de produtividade em trabalhadores bem-pagos, esta posição se enfraqueceu principalmente em 1969 quando John Stuart Mill (economista) passou a simpatizar com o trabalhismo.

Para a classe média, a desigualdade de vida e expectativas eram inerentes ao sistema e a inferioridade econômica era também indicio de inferioridade de classe. Para Marx, a melhor forma de retribuição para o capitalismo seria o pagamento por resultados. Contudo, a adoção de salários ligados a produção como os sistemas de piece-work (trabalho por empreitadas) que se espalharam durante o nosso período, tornaram-se grandes fatores de insegurança na vida dos trabalhadores. Estes não sabiam o quando iriam ganhar, ou quando iria durar o emprego atual.

Para o mundo do liberalismo, a insegurança era o preço a pagar por progresso e liberdade e tornava-se tolerável pela contínua expansão econômica. Não há evidencias que o salário real na Europa tenha aumentando antes do final da década de 1860. Contudo, o contraste com as décadas desesperadas de 1830-40 levavam a um sentimento crescente que os tempos melhoraram. A expansão econômica havia gerado emprego em uma escala sem precedentes, o que aliviou as catástrofes sociais em tempo de crise (inflação entre 1853-54 e quebra financeira em 1858).

Nem incentivos econômicos, nem insegurança forneciam um mecanismo geral realmente efetivo para manter o trabalho no seu ponto máximo; os primeiro porque sua amplitude era limitada; a última porque era praticamente inevitável. Dois fatores para o controle do trabalho eram primeiro o gosto (valorização) pelo trabalho e as expectativas modestas dos trabalhadores, “um dia justo de trabalho por um dia justo de pagamento”.

III

Mas é possível falar dos “trabalhadores” como uma categoria única ou como uma classe? O que havia em comum em termos de meio, origem social, formação, situação econômica ou mesmo língua e costumes?

Nem mesmo a pobreza: a renda era baixa em comparação com a classe média, mas havia também paraísos do trabalho como a Austrália, e os trabalhadores especializados que recebiam melhor. Estavam unidos, porém no sentido comum do trabalho manual, da exploração, e da vida como assalariado. A união também era crescente contra a segregação da sociedade burguesa. Compartilhavam também costumes (taverna “a igreja do trabalhador”) e um estilo comum de pensamento.

A homogeneidade observada entre os diversos grupos de trabalhadores pobres na medida em que a era do capitalismo liberal florescia. Esta fissura tornou-se evidente com a separação de trabalhadores “os respeitáveis” dos pobres “não-respeitáveis”. Os primeiros freqüentemente eram trabalhadores especializados e envolvidos com os movimentos trabalhistas, enquanto os segundos constituíam uma massa de trabalhadores extenuados, e que ficavam a margem da organização dos movimentos trabalhistas.

Por fim, os trabalhadores não se encontravam em um quadro de fome e miséria, prestes a se rebelarem, assim como a situação não era muito melhores do que há cinqüenta anos. A expansão capitalista trouxe pequena, mas genuína melhoria para uma parte substancial da classe trabalhadora.

4.“O mundo Burguês”

I

Nesta primeira etapa, Hobsbawn descreve a sociedade burguesa como uma sociedade de aparências. Busca através dos elementos superficiais alcançar os fenômenos mais profundos desta sociedade que atingiu seu apogeu no período em questão. Nesta fase, os trajes compunham um dos elementos de distinção social, mas, sobretudo o lar tornou-se a quintessência do mundo burguês. Apenas no lar, os problemas e contradições da sociedade podiam ser esquecidos ou artificialmente eliminados.

A impressão mais imediata do interior burguês era ao mesmo tempo, um interior repleto de objetos e oculto. Em contraste, a mobília dos quartos dos empregados era nua. O autor ressalta que neste momento os objetos expressavam seu custo, visto que ainda eram produzidos por processos manuais. Deste modo, eram vistos como um sinal de riqueza e status.

Estes objetos , como as casas que os continham, eram sólidos, construídos para durar para sempre. Ao mesmo tempo, precisavam expressar as aspirações mais altas e espirituais da vida através de sua beleza. Essa dualidade entre solidez e beleza expressava uma grande divisão entre o material e o ideal, o corpóreo e o espiritual, típica do mundo burguês. Espírito e idéia dependiam da matéria e podiam ser expresso somente através dela, ou pelo menos através do dinheiro  que pudesse comprá-la. Nada mais espiritual que a música, e a forma característica em que ela entrava na casa burguesa era o piano. Aparato grande, rebuscado e caro, porém nenhum interior burguês era completo sem ele. Todas as filhas diletas da burguesia eram obrigadas a praticar escalas sem fim naquele instrumento.

Essa dualidade entre matéria e espírito implicava uma hipocrisia que os observadores não simpáticos ao mundo burguês consideravam uma característica não apenas difusa mas fundamental deste mundo. Em nenhum outro aspecto era isso mais visível, no sentido literal de ser visível, do que em questões de sexo. Essa hipocrisia não era simplesmente mentira, exceto entre aqueles que a preferias sexuais eram publicamente inadmissíveis (políticos proeminentes dependentes de votos protestantes, homossexuais). Não havia hipocrisia absolutamente nos países (sobretudo católicos) onde um comportamento francamente duplo era aceito: castidade das mulheres solteiras e fidelidade para as casadas, a caça livre de todas as mulheres (exceto filhas casadoiras das classes médias e altas) por todos os jovens burgueses solteiros e uma infidelidade tolerada para os casados. Nos países protestantes, esperava-se que a moralidade das restrições sexuais e da fidelidade atingisse os dois sexos, mas o próprio fato de que isso era percebido mesmo por aqueles que a quebravam, não os levava exatamente à hipocrisia, mas ao tormento pessoal.

O mundo burguês era perseguido pelo sexo, mas não necessariamente pela promiscuidade sexual. O burguês vitoriano andava coberto de tecidos, deixando pouca coisa publicamente visível, exceto a face, mesmo nos trópicos. Em casos extremos (como nos EUA) até objetos que lembrassem o corpo (como as pernas das mesas) podiam ser escondidos. De maneira mais geral, a civilização apoiava-se na repressão das urgências sexuais. O maior psicólogo da burguesia, Sigmund Freud, fez dessa proposição a pedra de toque de suas teorias, embora gerações posteriores tenham lido nele um apelo pela abolição da repressão.

O problema do puritanismo sexual burguês é mais complexo. A crença que o burguês de meados do século XIX era incomumente fogoso não convence: o que fazia as tentações tão tentadoras era precisamente o extremismo dos padrões morais aceitos. O problema era também de certa forma econômico. A “família” era também a unidade básica do sistema de propriedade e das empresas de comercio, ligadas por um sistema de trocas de mulheres-mais-propriedade (o dote do casamento) em que as mulheres deveriam ser, pela tradição pré-burguesa virgenes intactae. Qualquer coisa que enfraquecesse essa unidade familiar era inadmissível, e nada a enfraquecia mais do que a paixão física descontrolada, que introduzia herdeiros e noivas “inadequadas” (isto é, economicamente indesejáveis), separava maridos de mulheres e desperdiçava recursos comuns.

Mas as tensões eram mais que econômicas. Elas eram particularmente fortes em nosso período, quando a moral da abstinência, moderação e contenção entrava dramaticamente em conflito com a realidade do sucesso burguês.  Os burgueses não viviam mais numa economia familiar de escassez ou num nível social distanciado das tentações da alta sociedade. O problema era mais o de gastar que o de economizar. A coisa mais importante pela qual os burgueses lutavam, o lucro, cessava de ser uma motivação assim que trazia riqueza em quantidade suficiente. No final do século, a burguesia descobriu uma fórmula ao menos temporária para combinar aquisições e despesas através da compra de antiguidades. Essas décadas finais antes da catástrofe de 1914 iriam ser o Indian Summer, a belle époque da vida burguesa. Mas em nosso período as contradições estavam talvez no seu ponto mais agudo: esforço e prazer coexistiam, mas entravam em confronto. E a sexualidade era um das vitimas do confronto, a hipocrisia o vencedor.

II

Cercada de roupas, paredes e objetos, ali estava a família burguesa, a instituição mais misteriosa da nossa época. Porque uma sociedade dedicada a uma economia de obtenção de lucro, livre iniciativa competitiva, esforços do individuo isolado, igualdade de direitos, oportunidades e igualdades, apoiar-se numa instituição que negava todos esses idéias?

Sua unidade básica, a casa de uma única família, era uma autocracia patriarcal e um microcosmo da espécie de sociedade que a burguesia como classe denuncia e destruía: uma hierarquia de dependência pessoal. Acima, estava o pai “trazendo prosperidade, como guardião, guia e juiz”, abaixo o bom anjo da casa, a mãe “esposa e amante”. Sua nova função de esposa burguesa, mais do que apenas ostentar e demonstrar a capacidade do marido burguês de mantê-la em paz e conforto, refletia sua inferioridade em relação ao homem que precisava ser demonstrada.

Entretanto essa atraente escrava, ignorante e tola era requisitada para exercer também a dominação; não tanto sobre as crianças, cujo senhor era ainda pater famílias, mas sobre os criados cuja presença distinguia os burgueses dos que lhes eram socialmente inferiores. Sociologicamente, a diferença entre as classes trabalhadoras e as classes médias era entre os que possuíam criados e os que eram criados em potencial. 

Mas a criada doméstica, apesar de receber salário e, portanto se igualar a um trabalhador, era diferente deste, já que  ela mantinha uma ligação mais estreita com o patrão, pessoal e de dependência. Tudo em sua vida era controlado, seu alojamento, uniforme e até a carta testemunho, sem a qual era impossível arrumar um novo emprego. Assim, a estrutura da família burguesa estava em direta contradição com a sociedade burguesa. Dentro dela a liberdade, a oportunidade, o nexo do dinheiro e a busca individual não eram a regra.

Poderia ser argumentado que tal ocorria porque o anarquismo individualista hobbesiano, que formava o modelo teórico da economia burguesa, não dava base para nenhum tipo de organização social, incluindo a família. E, de fato, era um contraste deliberado com o mundo de fora, um oásis de paz num mundo de guerra. Mas pode ser também que a desigualdade essencial sobre a qual o capitalismo se apoiava encontrasse uma expressão necessária na família burguesa.

As vantagens econômicas de uma família grande ou de um grupo fechado de famílias eram certamente substanciais. Dentro dos negócios garantia capital, talvez contratos proveitosos e sobretudo gerentes de confiança. A história dos negócios do século XIX está repleta de tais alianças familiares e interpenetrações. Elas demandavam um grande numero de filhos e filhas disponíveis e não havia nenhum incentivo ao controle de natalidade dos filhos, exceto entre as famílias mais pobres e das classes médias baixas.

III

O que queremos dizer com “burguesia” enquanto classe neste período? As definições econômicas, políticas e sociais diferiam de alguma forma, mas eram próximas para causar pouca dificuldade.

Economicamente, a quintessência do burguês era um “capitalista” (possuidor de capital, ou aquele que recebia renda derivada de tal fonte, ou empresário em busca de lucro). O aspecto da política burguesa era naturalmente diferente de alguma forma, pelo menos na medida em que a política é uma atividade especializada e que consome tempo, além de não atrair a todos igualmente, ou para a qual nem todos estão qualificados. Socialmente, as definições não eram tão claras, embora a “classe média” incluísse todos os grupos acima descritos, desde que fossem abastados e bem estabelecidos. A dificuldade está em definir os limites “altos” e “baixos” dessa camada dentro da hierarquia de status social.

No topo da escala, a burguesia era mais ou menos diferente da aristocracia (alta e baixa), dependendo parcialmente da exclusividade social e legal desse grupo ou da sua própria consciência de classe. Na Rússia e Prússia e menos no império dos Habsburgos a burguesia poderia transformar-se em aristocracia. A Inglaterra estava sozinha ao aceitar, especialmente banqueiros e financias a industriais na aristocracia.  No outro extremo, a linha divisória era bem mais claramente econômica.

Uma das principais características da burguesia como classe era que consistia num corpo de pessoas com poder e influência, independente do poder e influência derivados de nascimento ou status. Para pertencer a ela, um homem tinha que ser “alguém”, uma pessoa que contasse como indivíduo, por causa da sua riqueza, capacidade de comandar outros homens, ou influenciá-los. Apoiava-se em pressupostos comuns, credos comuns, formas de ação comuns. A burguesia dos penúltimos 25 anos do século XIX era esmagadoramente “liberal” não necessariamente no sentido partidário (que prevaleciam), mas num sentido ideológico. Acreditava no capitalismo, empresa privada competitiva, tecnologia, ciência e razão. Acreditava no progresso, numa certa forma de governo representativo, numa certa quantidade de liberdades e direitos civis. Acreditavam na cultura com um adendo à religião. Acreditava na carreira aberto ao empreendimento e ao talento.

Mas antes de qualquer outra coisa significava superioridade. O burguês não era apenas independente, um homem a quem ninguém (exceto o Estado ou Deus) dava ordens, mas as dava ele mesmo. O monopólio do comando – na casa, no negócio, na fabrica – era fundamental para sua própria definição e reconhecimento formal.

De senhor à raça superior era apenas um passo. O direito de dominar, a inquestionável superioridade do burguês como espécie, implicava não apenas inferioridade, mas idealmente uma inferioridade aceita nas relações entre homens e mulheres (que mais uma vez simbolizavam muito sobre a visão burguesa do mundo). Os trabalhadores e mulheres deveriam ser leais e satisfeitos.

Tal atitude refletia a determinação em decapitar as classes mais baixas, quando elas não perdiam seus lideres potenciais espontaneamente através da absorção por parte da classe média.

IV

Trata-se de uma classe dirigente? A burguesia não era evidentemente uma classe dirigente no sentindo em que o velho tipo de senhor da terra o era. O burguês normalmente operava dentro de uma rede de poder de governo e administração que não era de sua propriedade, pelo menos fora dos prédios que ocupasse. Na maioria dos países a burguesia, embora bem definida, realmente não controlava ou exercia o poder político, exceto talvez nos níveis subalternos ou municipais.

O que realmente exerceu foi hegemonia, e foi que determinou de forma crescente a sua política. Não havia alternativa ao capitalismo como método de desenvolvimento econômico, e na época isso implicava a realização do programa econômico e institucional da burguesia liberal, assim como a posição crucial da burguesia dentro do Estado. Mesmo para os socialistas, a via para o triunfo do proletariado passava por um capitalismo completamente desenvolvido. Em relação aos dirigentes dos regimes conservadores, antiburgueses e antiliberais da Europa, fosse em Viena, Berlim ou São Petersburgo, eles reconheciam , embora relutante, que a alternativa para o desenvolvimento econômico capitalista era o atraso e consequentemente o enfraquecimento.  A simples rejeição da sociedade burguesa e suas idéias não era mais viável. A única organização que resolveu combater essa tendência sem tréguas, a Igreja Católica, consegui apenas isolar-se.

A partir de 1870, o monopólio do programa burguês começou a desagregar-se. Mas, no nosso período, era imbatível. Em questões econômicas, os dirigentes absolutistas desmantelaram a servidão e o aparato tradicional do controle estatal na economia. Em questões políticas, estes dirigentes se aproximaram dos tipos burgueses de instituições representativas. Culturalmente, era o estilo burguês de vida que prevalecia sobre o aristocrático (que se tornaram “bárbaros”). Os anos de 1848 e 1870 representaram períodos de abalos pelo medo de revolução social, mas no intermediário, a burguesia triunfou sem qualquer dúvida ou ameaça. Bismark: “acredito que o avanço das questões econômicas no desenvolvimento interno progride e não pode ser interrompido”.

5.“Ciência, Religião, Ideologia”

I

A sociedade burguesa de nosso período estava confiante e orgulhosa de seus sucessos. Em nenhum outro campo da vida humana isso era mais evidente que no avanço do conhecimento, da “ciência”. Homens cultos deste período não estavam apenas orgulhosos de suas ciências, mas preparados para subordinar todas as outras formas de atividade intelectual a elas. O próprio Hegel saíra de moda no seu país natal. As duas grandes correntes filosóficas subordinavam-se elas mesmas à ciência: o positivismo francês, associada com a escola do curioso Augusto Comte, e o empirismo inglês, associado com John Stuart Mill. O positivismo foi pouco mais do que uma justificação filosófica do método convencional das ciências experimentais, e, da mesma forma, para a maior parte dos da época Mill foi, nas palavras de Taine, o homem que “abriu o caminho certo da indução e do experimento”. Portanto, esta perspectiva estava explicitamente baseada em Comte e Spencer, numa visão histórica do progresso evolucionista.

Com tal confiança nos métodos da ciência, não é de se surpreender que os homens instruídos da segunda metade do século XIX estivessem tão impressionados com suas conquistas. Chegaram a pensar que estas conquistas não eram apenas impressionantes, mas também finais.

Ninguém duvidava do progresso, tanto material como intelectual, já que parecia tão óbvio para ser negado. Este era, sem dúvida, o conceito dominante da época, embora houvesse uma divisão fundamental entre aqueles que pensavam que o progresso seria mais ou menos contínuo e linear e aqueles (como Marx) que sabiam que ele precisaria e iria ser descontínuo e contraditório. Embora o progresso maciço fosse possível em todos os ramos do conhecimento, parecia evidente que alguns estavam mais adiantados, mais bem formados que outros. Parecia que a física estava mais madura que a química. A química, por seu turno, mesmo a “química orgânica”, estava muito mais adiantada do que as ciências sobre a vida, que pareciam estar começando a tomar impulso naquela era de excitante progresso. De fato, se uma única teoria científica deva representar o avanço das ciências naturais em nosso período, e era de fato reconhecida como crucial, esta teoria é a da evolução, e se uma única figura dominou a imagem pública da ciência esta foi a do indivíduo de aparência simiesca Charles Darwin (1809-82).

A teoria darwinista da evolução impressionava não porque o conceito de evolução fosse novo – era familiar havia décadas – mas porque fornecia, pela primeira vez, um modelo de explanação satisfatório para a origem das espécies, e o fez em termos que eram inteiramente conhecidos até para não-cientistas, já que refletia os conceitos mais familiares da economia liberal, a competição.

No interior das ciências naturais havia pouco daquela confrontação passional que ocorre quando há um impasse, não de hipóteses diferentes, mas de diferentes formas de olhar o mesmo problema, isto é, quando um lado propõe não apenas uma resposta diferente, mas que pensa que o outro lado é inaceitável, “impensável”.

As ciências físicas tinham-se desenvolvido dramaticamente no meio-século precedente, quando fenômenos aparentemente disparatados como o calor e a energia foram unificados pelas leis da termodinâmica, enquanto que a eletricidade, o magnetismo e mesmo a luz convergiam para um único modelo analítico. De qualquer forma os ingleses (liderados por Thompson) e mesmo outros físicos que haviam desenvolvido sua capacidade criativa na termodinâmica, estavam atraídos pela idéia de que o homem ainda não havia adquirido um conhecimento definitivo das leis da natureza (embora Helmholtz ou Boltzmann não estivessem bem convencidos). Talvez a impressionante fertilidade tecnológica da física do modelo mecânico tornasse a ilusão da finalidade mais tentadora.

Não havia certamente tal finalidade em vista no que toca à segunda grande ciência natural, talvez a mais florescente de todo o século XIX, a química. Sua expansão era dramática, especialmente na Alemanha, não apenas porque seu uso industrial parecesse não ter fim. Ela havia florescido desde então, e continuou desenvolvendo-se numa excitante fonte de idéias e descobertas em nosso período.

Talvez ainda mais sensacional fosse a generalização maior no campo da química produzida por este período, a Tabela Periódica dos Elementos (1869) de Mendeleev (1834-1907). Além disso, a década de 1860 foi um grande período de padronização e mensuramento. (Entre outras coisas, a fixação das unidades familiares das medidas elétricas, volt, ampere, watt e ohm.)

A biologia ficava bem atrás das ciências físicas, agrilhoada não apenas pelo conservadorismo dos dois grupos maiores de homens interessados na sua aplicação prática, mas também pelos fazendeiros e especialmente pelos médicos. Claude Bernard, cujo trabalho fornece a base para toda a fisiologia moderna assim como a bioquímica, e que, além de tudo, escreveu uma das melhores análises dos processos da ciência jamais escritos – a sua Introdução ao Estudo da Medicina Experimental(1865). Entretanto, embora reconhecido, especialmente no seu país natal, a França, suas descobertas não foram imediatamente aplicadas e sua influência foi, conseqüentemente inferior a de seu compatriota Louis Pasteur que se tornou, juntamente com Darwin, talvez o cientista de meados do século XIX mais conhecido do grande público. Pasteur foi atraído para o campo da bacteriologia, do qual tornou-se o grande pioneiro. Técnicas como antissépticos (desenvolvidas por Lister [1827-1912] por volta de 1865), pasteurização ou outros métodos de preservação de produtos orgânicos do contágio de micróbios, assim como a isolação estavam à mão, e os argumentos e resultados eram suficientemente palpáveis para derrubar mesmo a ferrenha hostilidade da comunidade médica.

A teoria da evolução pela seleção natural ia bem mais longe dos limites da biologia, e nisto reside sua importância. Ela ratificava o triunfo da história sobre todas as ciências, embora “história” neste sentido fosse normalmente confundida pelos da época com “progresso”. Além disso, ao trazer o próprio homem para dentro do esquema da evolução biológica, abolia a linha divisória entre ciências naturais, humanas ou sociais.

A grande conquista da seleção natural era poder explicar a grande variedade das espécies, inclusive o homem. Este sucesso era tentador, e ainda tenta pensadores a negar ou minimizar os processos inteiramente diferentes ou novos que governam a mudança histórica, e que reduzem as mudanças as sociedades humanas a regras da evolução biológica – com importantes conseqüências (e às vezes, intenções) políticas – “social-darwinismo”. A sociedade na qual os cientistas ocidentais viviam – e todos os cientistas pertenciam ao mundo ocidental, mesmo aqueles situados nas margens da Rússia – combinavam estabilidade e mudança, assim como suas teorias revolucionárias.

Eles eram, apesar de tudo, dramáticos ou mesmo traumáticos, já que pela primeira vez investiam em direção a uma confrontação deliberada e militante com as forças da tradição, o conservadorismo e especialmente a religião.

Era devido sim, à feliz conjuntura de dois fatos, ao rápido avanço da burguesia liberal e progressista” e à ausência de revoluções. O desafio às forças da tradição cresceram e ficaram mais fortes, mas não mais pareciam implicar em mudanças sociais.

A sorte do darwinismo, portanto, dependia não tanto do seu sucesso em convencer o público científico, isto é, dos méritos evidentes de A Origem das Espécies, mas da conjuntura política e ideológica do tempo e do país. Iria ser, evidentemente, adotada de imediato pela extrema esquerda, que havia de fato há muito tempo atrás fornecido um poderoso componente do pensamento evolucionista.

Esta evidente afinidade entre socialistas e darwinismo biológico não impediu que as classes médias liberais, dinâmicas e progressistas também o acolhessem de braços abertos. A oposição à evolução darwinista, mesmo entre cientistas, veio dos socialmente conservadores.

II

A evolução liga as ciências naturais às ciências humanas ou sociais, embora o último termo seja anacrônico. Porém, a necessidade de uma ciência específica e geral da sociedade (distinta das várias disciplinas relevantes já tratando com assuntos humanos), era pela primeira vez sentida. Entretanto, a sociologia, termo inventado por Auguste Comte em 1839 e popularizado por Herbert Spencer (que escreveu um livro prematuro sobre os princípios desta e de numerosas outras ciências em 1876), era muito falada. Por outro lado, o amplo, mas cognoscível campo da antropologia emergia rapidamente como uma ciência reconhecida, saindo da filosofia, direito, etnologia, literatura de viagem, do estudo da língua e do Folclore e das ciências médicas (via o então popular assunto da “antropologia física”, que levou à moda de medir e colecionar os crânios de vários povos). A psicologia (outro termo cunhado recentemente, desta vez por John Stuart Mill) ainda estava ligada à filosofia.

Pelos padrões das ciências “positivas” e especialmente as experimentais, os resultados destas novas ciências não impressionavam muito, embora três pudessem clamar resultados sistemáticos e genuínos como ciências antes de 1848: economia, estatística e lingüística. A ligação entre economia e matemática tornou-se então direta com A. A. Cournot (1801-77) e L. Walras (1834-1910). Por conseguinte, a estatística social floresceu como nunca antes, seus praticantes encontrando emprego público à vontade. A lingüística, como veremos, seguiria uma linha diferente de desenvolvimento.

No total, estes resultados não eram excepcionais. Já que o modelo básico da economia parecia perfeitamente satisfatório, não deixava nenhum grande problema a resolver, tais como o do crescimento, possível colapso econômico ou distribuição de renda. Na medida em que estes problemas não estivessem ainda resolvidos, as operações automáticas da economia de mercado (sobre as quais as análises então se concentravam) iriam resolvê-los.

As reservas que os pensadores burgueses tinham sobre seu mundo eram de natureza mais social e política que econômica, especialmente onde o perigo de revolução não estava esquecido como na França, ou estava emergindo com o crescimento do movimento trabalhista, como na Alemanha. Os pensadores pouco tinham a propor exceto reformas sociais preventivas. A imagem básica do sociólogo era a imagem biológica de um “organismo social”, a cooperação funcional de todos os grupos na sociedade, muito diferente da luta de classes. Era no fundo o antigo conservadorismo vestido com roupa do século XIX.

Portanto, o único pensador do período que desenvolveu uma teoria compreensível da estrutura e da mudança social que ainda impõe respeito foi o revolucionário social Karl Marx, que desfruta da admiração, ou pelo menos do respeito, de economistas, historiadores e sociólogos.

O problema com o qual Marx se defrontava era o mesmo que outros cientistas sociais tentavam enfrentar: a natureza e mecânica da transição de uma sociedade pré-capitalista para uma capitalista e suas específicas formas de operação e tendências de futuro desenvolvimento.

Poder-se-ia talvez esperar que a disciplina ligada mais de perto ao passado proporcionasse uma contribuição mais importante ao desenvolvimento das ciências sociais, mas na realidade a história como uma especialização acadêmica foi curiosamente de pouca ajuda. A história acadêmica, apesar do moderado liberalismo de alguns de seus praticantes, tinha uma natural inclinação em preservar o passado, e tinha uma atitude de suspeita, senão de deploração, em relação ao futuro.

Isto era particularmente óbvio no florescente (e como em tantos outros, proeminentemente alemão) campo da lingüística, ou melhor, para usar o termo da época, da filologia. O maior interesse desta ciência residia na reconstituição da evolução histórica das línguas indo-europeias que, talvez porque fossem conhecidas na Alemanha como “indo-alemãs”, atraíam ali a atenção nacional, quando não nacionalista.

O racismo tinha um papel central em outra ciência social que se desenvolvia rapidamente, a antropologia, uma fusão de duas disciplinas sensivelmente diferentes, a “antropologia física” (basicamente derivada de interesses anatômicos e similares) e a “etnografia”, ou a descrição de várias comunidades – geralmente atrasadas ou primitivas. Ambas inevitavelmente confrontaram e foram de fato dominadas pelo problema da diferença entre diversos grupos humanos e (como estavam calcadas no modelo evolucionista) o problema da descendência do homem, assim como os diferentes tipos de sociedade, dos quais o mundo burguês parecia sem dúvida o mais elevado. Primitive Culture (1871) de E. B. Tylor é a obra mais importante.

Outras raças eram “inferiores” porque representavam um estágio anterior da evolução biológica ou da evolução sócio-cultural, ou então de ambas. E esta inferioridade era comprovada porque, de fato, a “raça superior” era superior pelo critério de sua própria sociedade: tecnologicamente mais avançada, militarmente mais poderosa, mais rica e mais “bem-sucedida”. O argumento era tão lisonjeiro quanto conveniente.

O racismo atravessa o pensamento de nosso período numa extensão difícil de julgar hoje, e nem sempre fácil de compreender. (Por que, por exemplo, o horror generalizado da miscigenação e a crença quase universal entre os brancos de que os mestiços herdavam precisamente as piores características das raças de seus pais?) Exceto pela sua conveniência enquanto legitimização da dominação do branco sobre indivíduos de cor, ricos sobre pobres; isto talvez seja melhor explicado como um mecanismo através do qual uma sociedade fundamentalmente desigual, baseada sobre uma ideologia fundamentalmente igualitária, racionalizava suas desigualdades, uma tentativa para justificar e defender aqueles privilégios que a democracia (implicitamente nas suas instituições) precisava inevitavelmente desafiar. O liberalismo não tinha nenhuma defesa lógica diante da igualdade e da democracia, portanto a barreira ilógica do racismo foi levantada: a própria ciência, o trunfo do liberalismo, podia provar que os homens não eram iguais. O “darwinismo social” e a antropologia racista pertencem não à ciência do século XIX, mas à sua política.

Se olharmos retrospectivamente por sobre as ciências naturais e sociais do período ficaremos espantados com sua impressionante confiança em si mesmas. Este sentimento não era muito baseado nos resultados – os das disciplinas evolucionistas dificilmente eram suscetíveis de falsificação – mas na crença da infalibilidade do “método científico”. Ciência “positiva”, operando com fatos objetivos e precisos, ligados rigidamente por causa e efeito, e produzindo “leis” uniformes e invariantes além de qualquer possível modificação, era a chave-mestra do universo, e o século XIX a possuía. Mais do que isso: com o crescimento do mundo do século XIX, os estágios anteriores e infantis do homem, caracterizados pela superstição, teologia e especulação tinham acabado, e o “terceiro estágio” da ciência positiva de Comte havia chegado. E se os cientistas sentiam que podiam falar com certeza, mais ainda os propagandistas e os ideólogos, que tinham ainda mais certeza que as certezas dos cientistas. Nunca mais iria ser tão simples para o senso comum, que sabia que o mundo triunfante do progresso liberal capitalista era o melhor dos mundos possíveis, mobilizar o universo para confirmar seus próprios preconceitos.

Os publicistas, popularizadores e ideólogos eram agora encontrados através do mundo ocidental onde quer que houvesse uma elite atraída pela “modernização” Os cientistas e estudiosos originais eram distribuídos de forma mais irregular. Na Realidade, eles estavam virtualmente confinados a partes da Europa e da América do Norte (Na Europa, as penínsulas Ibérica e Balcânica permaneceram meio atrasadas neste particular).

A mera distribuição geográfica não pode revelar suficientemente o que era cada vez mais o fator dominante sobre a vida acadêmica de nosso período, em outras palavras, a hegemonia dos alemães, apoiados pelo fato de diversas universidades usarem aquela língua (que incluía as da maior parte da Suíça, Império dos Habsburgos e regiões bálticas da Rússia), e a poderosa atração que a cultura alemã exercia na Escandinávia e na Europa do leste e do sudeste. Exceto na história acadêmica e na linguística, não havia tal dominação alemã nas ciências sociais. A economia era ainda bastante inglesa, embora em retrospectiva possamos detectar alguma obra analítica importante na França, Itália e Áustria. (O Império dos Habsburgos, embora de alguma forma parte da cultura alemã, seguiu uma trajetória intelectual bastante diferente.) A sociologia, pelo pouco que valia, estava basicamente associada à França e à Inglaterra, tendo sido recebida entusiasticamente no mundo latino. Na antropologia, as conexões internacionais dos ingleses deram-lhes uma vantagem notável. A “evolução” em geral – a ponte entre as ciências naturais e sociais – tinha seu centro de gravidade na Inglaterra. O mais eminente cientista social do período, Karl Marx, trabalhou na Inglaterra.

III

A “ciência” era o centro daquela ideologia laica de progresso, quer liberal quer, numa medida menor, mas de crescente importância, socialista.

Comparada com a ideologia laica, a religião no nosso período é de interesse incomparavelmente menor. A descrença em Deus tornou-se relativamente fácil em meados do século XIX, pelo menos no mundo ocidental, já que muitas das idéias passíveis de verificação das escrituras judaico-cristãs haviam sido minadas ou mesmo desmentidas pelas ciências sociais históricas, e, sobretudo, naturais. O pensamento livre da classe operária, embora já associado a ideologias revolucionárias, tomou uma forma especial, tanto porque as velhas ideologias revolucionárias declinavam deixando atrás apenas seus aspectos políticos menos diretos como também porque as novas ideologias, firmemente baseadas numa filosofia materialista, ganhavam terreno.

O anticlericalismo era militantemente laico, na medida em que pretendia tomar da religião qualquer status oficial na sociedade (“desestabelecimento da igreja”, “separação da igreja do Estado”), deixando- a como uma questão puramente privada. Deveria ser transformada em uma ou diversas organizações puramente voluntárias, análogas aos clubes de colecionadores de selos, somente que em dimensões um pouco maiores. Mas isso não era baseado tanto na falsidade da crença em Deus ou qualquer versão particular desta crença, mas na crescente capacidade administrativa, amplitude e ambição do estado laico – mesmo na sua forma mais laissez-faire e liberal – que estava decidido a expulsar organizações privadas daquilo que então considerava seu campo de ação. Entretanto, o anticlericalismo era basicamente político, porque a certeza passional por detrás de tudo era de que religiões bem estabelecidas eram hostis ao progresso. E de fato eram, sendo do ponto de vista sociológico e político instituições bastante conservadoras.

Apesar de tudo, mesmo entre os livre-pensadores, uma nostalgia pela religião permaneceu. Ideólogos da classe média, que apreciavam o papel da religião como uma instituição mantenedora de um estado de adequada modéstia entre os pobres e uma garantia da ordem, algumas vezes flertaram com neo-religiões. A metade do século XIX está plena de rituais laicos inventados. A mais antiga, e sem dúvida a mais influente de todas estas sociedades secretas, ritualizadas e hierarquizadas estava de fato comprometida com o pensamento livre e o anticlericalismo, pelo menos afora dos países anglo-saxônicos: os franco-maçons. Se o número de seus adeptos cresceu neste período não sabemos, embora seja provável; certamente sua importância política cresceu.

Mas se mesmo os livre-pensadores reclamavam pelo menos algum consolo espiritual do tipo tradicional, na medida em que as classes médias estavam em questão, o declínio da religião era, como vimos, inibido não apenas pela tradição e pelo fracasso em larga escala do racionalismo liberal em fornecer um substituto coletivo para o ritual e a fé religiosa (exceto talvez através da arte – ver capítulo seguinte), mas também pela relutância em abandonar um pilar de estabilidade, moralidade e ordem social tão valioso, talvez tão indispensável. Na medida em que as massas estavam em questão, a expansão da religião pode ter sido devido, sobretudo, àqueles fatores geográficos sobre os quais a Igreja Católica gostava de apoiar-se para os seus maiores triunfos: as migrações de massa de homens e mulheres de regiões mais tradicionais para as novas cidades, regiões e continentes, e a alta taxa de fertilidade dos pobres comparadas a dos não-crentes corrompidos pelo progresso. E, além disso, não haviam forças dentro da própria religião para revivê-la e dispersá-la?

Certamente neste estágio os missionários cristãos não eram notavelmente bem-sucedidos, fosse ao lidar com o proletariado perdido rivais pelo mundo afora. Considerando as despesas substanciais – entre 1871 e 1877 os ingleses sozinhos contribuíram com 8 milhões de libras para as missões 16 – os resultados foram bastante modestos. O Cristianismo de todas e quaisquer denominações fracassou em tornar-se um competidor sério em relação à única religião realmente em expansão, o Islamismo. Este continuava a espalhar-se de forma irresistível, sem o benefício de uma organização missionária, dinheiro ou o apoio das grandes potências, através da África e partes da Ásia – sem dúvida ajudado não apenas por seu igualitarismo, mas também pela consciência da superioridade dos valores em relação aos conquistadores europeus. Nenhum missionário conseguiu jamais abrir uma brecha dentro da população maometana. Conseguiram apenas entrar um pouco dentro de algumas não-islâmicas. O Cristianismo fez alguns avanços no sul da índia (sobretudo no meio da camada mais baixa do sistema de castas), apesar da falta de entusiasmo do governo – na Indochina, em seqüência à conquista francesa, mas nada de significativo na África, até que o imperialismo multiplicasse o número de missionários. O Cristianismo era mais efetivo quando alguns elementos da religião eram absorvidos pela ideologia religiosa local, sob a forma de cultos “nativistas” sincréticos.

Mas dentro do Cristianismo havia sinais de um contra-ataque em relação ao avanço da laicização. Contra o anticlericalismo oficial a Igreja sistematicamente capturou ou reproselitizou o campo. Em certo sentido, diante da ameaça da reforma laica, a Igreja reagiu da mesma forma como havia feito no século XVI com a Contra-Reforma. O Catolicismo, agora totalmente intransigente, recusando qualquer acomodação com as forças do progresso, industrialização e liberalismo, tornou-se uma força muito mais poderosa depois do Concilio Vaticano de 1870 do que antes – mas ao custo de abandonar muito do seu terreno aos adversários. Fora da cristandade as religiões apoiavam-se, sobretudo, na força do tradicionalismo para resistir à erosão da era liberal ou à confrontação com o Ocidente. As forças da tradição ainda eram esmagadoramente poderosas, e freqüentemente reforçadas pela resistência ao “progresso” e à expansão européia. Tudo que a religião poderia fazer contra eles era recuar para trás de suas vastas e poderosas fortificações e preparar-se para um cerco muito longo.

6.“As Artes”

I

Se o triunfo da sociedade burguesa parecia congênito à ciência, tal não ocorria da mesma forma com as artes. A segunda metade do século XIX, especialmente as décadas que são o objeto deste livro, não dão uma impressão equivalente, exceto em um ou dois países atrasados, sendo de longe o mais notável deles a Rússia. Isto não quer dizer que as realizações criativas deste período fossem medíocres, embora ao rever aqueles criadores cuja obra maior ou a aclamação pública ocorreram entre 1848 e a década de 1870, precisamos lembrar que muitos deles já eram pessoas maduras e com uma expressiva produção antes de 1848. Afinal – para mencionar apenas três dos mais inquestionavelmente importantes – Charles Dickens (1812-70) já estava na metade de sua ouvre, Honoré Daumier (1808-79) tinha sido um ativo artista gráfico desde a revolução de 1830, e mesmo Richard Wagner (1813-83) já tinha várias óperas atrás de si: Lohengrin foi produzida em 1851. Porém, não há dúvida de que a literatura de prosa, e especialmente o romance, floresceu de forma admirável graças principalmente à continuada glória dos ingleses e dos franceses e à nova glória dos russos. Na história da pintura houve claramente um admirável e grandioso período, graças quase que exclusivamente aos franceses. Na música, a era de Wagner e Brahms é inferior apenas em comparação com a era precedente de Mozart, Beethoven e Schubert.

Para a Rússia tratava-se de uma era espantosamente triunfante na música e, sobretudo, na literatura, para não mencionar as ciências naturais e sociais. Uma década como a de 1870, que viu os pontos culminantes de Dostoievsky e Tolstoi, P. Tchaikovsky (1840-93), M. Mussorgsky (1835-81) e o balé imperial clássico. Os Estados Unidos, embora ainda contribuindo de forma insignificante no campo das artes visuais e da música, já começa a estabelecer-se como uma força literária com Melville (1819-91), Hawthorne (1804-64) e Whitman (1819-91) no leste, e com uma nova geração de escritores populistas emergindo do jornalismo no oeste, entre os quais Mark Twain (1835-1910) iria ser o mais expressivo.

Contra tudo isso, precisamos observar um declínio visível e de certa forma espetacular na qualidade das melhores obras daqueles dois centros de atividade criativa, os povos de língua germânica e os italianos. Talvez possa haver alguma discussão sobre música, mas na Itália não há quase nada além de Verdi (1813-1901), cuja carreira estava bem estabelecida desde antes de 1848 e na Austro-Alemanha, entre os compositores reconhecidos, apenas Brahms (1833-97) e Bruckner (1824-96) surgiram essencialmente neste período, Wagner já sendo virtualmente maduro.

Tomando as diversas artes separadamente, a queda geral de nível é igualmente óbvia em algumas, sendo que em outras a superioridade em relação ao período precedente é inegável. A literatura floresceu, como já vimos, através do meio conveniente dos romances. Podem ser vistos como o gênero que achou uma forma possível de adaptar-se àquela sociedade burguesa cuja ascensão e crises formavam o assunto preferido dos escritores. Tentativas foram feitas para salvar a reputação da arquitetura do século XIX, mas há de qualquer forma algumas realizações expressivas. Os edifícios da segunda metade do século XIX são mais capazes de demandar desculpas do que admiração universal.

Mesmos os entusiastas têm até bem recentemente encontrado dificuldades em dizer muito a favor da pintura deste período. A obra que tem se tornado uma parte permanente do museu do século XX é, quase sem exceção, francesa: sobreviventes da era das revoluções como Daumier e G. Courbet (1819-77), a escola de Barbizon e o grupo avant-garde dos Impressionistas. Esta façanha é de fato muito impressionante, e um período que viu o surgimento de E. Manet (1832-83), E. Degas (1834-1917) e o jovem P. Cézanne (1839-1906) não precisa se preocupar com sua reputação. Mesmo assim, estes pintores não eram apenas atípicos em relação ao que era posto sobre telas em quantidades cada vez maiores neste tempo, mas também muito suspeitos à arte respeitável e ao gosto do público.

Pode ser que a escultura de meados e fins do século XIX, amplamente dispostos em inumeráveis obras monumentais, mereça um pouco mais de atenção do que se lhe tem dado normalmente – afinal, produziu o jovem Rodin (1840-1917). Entretanto, qualquer coleção de obras plásticas vitorianas en masse, como ainda podem ser vistas nas casas dos ricos Bengalis, constituiu-se numa visão tremendamente depressiva.

II

Poucas sociedades valorizaram tanto as obras dos gênios criadores do que a burguesa do século XIX. Paradoxalmente, poucas sociedades tinham estado tão convencidas de que viviam numa era dourada das artes criadoras.

O gosto deste período não era nada se não fosse contemporâneo, como era de fato natural para uma geração que acreditava no progresso universal e constante. Os jornalistas que registravam orgulhosamente a abertura e o custo total destes gigantescos edifícios públicos, que começaram a desfigurar a imagem das cidades depois de 1848, genuinamente acreditavam que estavam celebrando uma nova Renascença, financiada por príncipes industriais comparáveis aos Medici. Enfim, a conclusão mais evidente que os historiadores podem tirar do final do século XIX é que a mera aplicação de dinheiro não é capaz de garantir uma idade de ouro para as artes.

Quem pagava então pelas artes? Governos e outras entidades públicas, a burguesia e – este ponto merece atenção – uma seção cada vez mais significativa das “ordens menores” para os quais os processos industriais e tecnológicos faziam com que os produtos das mentes criativas se tornassem accessíveis em quantidades cada vez maiores e a preços cada vez menores.

Autoridades públicas laicas eram quase os únicos fregueses para os edifícios gigantescos e monumentais, cujo propósito era comprovar a riqueza e esplendor da era em geral e da cidade em particular. Seus propósitos eram raramente utilitários. A paixão pela “restauração” e acabamento das grandes igrejas e catedrais da Idade Média que varreu a Europa de meados do século como uma doença contagiosa, era mais cívica que espiritual. Mesmo nas monarquias mais esplêndidas, pertencia mais ao público do que à corte: coleções imperiais eram agora museus, as óperas abriam suas bilheterias.

O teatro florescia, pelo menos financeiramente. O mesmo ocorria com os editores de livros caros e sólidos para um mercado limitado. De qualquer maneira, as necessidades domésticas e de comércio da burguesia fizeram a fortuna de inúmeros arquitetos que construíram e reconstruíram áreas substanciais das cidades para aquela classe.

O mercado burguês era novo apenas na medida em que agora era especialmente grande e cada vez mais próspero. Por outro lado, os meados do século produziram um fenômeno realmente revolucionário: pela primeira vez, graças à tecnologia e à ciência, alguns tipos de obras criativas tornaram-se tecnicamente passíveis de reprodução barata, e numa dimensão sem precedentes. Apenas um destes processos chegava de fato a competir com o ato da criação artística em si mesma, em outras palavras, a fotografia, que nasceu na década de 1850. Como veremos, seus efeitos na pintura foram imediatos e profundos. O resto apenas trouxe versões de qualidade inferior de produtos individuais ao alcance do público de massa: escrita, através da multiplicação de edições baratas, estimuladas principalmente pelas estradas de ferro (os seriados principais eram chamados tipicamente de bibliotecas “ambulantes ou “de viagem”), retratos através de gravação em ferro, em que os novos processos de eletrogravação (1845) tornaram possível a produção em grandes quantidades sem perda de detalhes ou refinamentos, assim como através do desenvolvimento do jornalismo, literatura, autoditatismo etc.

O enorme significativo econômico deste nascente mercado de massa é freqüentemente subestimado. O mercado de massas para as artes não pode ser comparado com o dos tempos atuais. Apesar disso, ele existia e sua importância é inegável.

As artes eram prósperas, e assim também eram os talentos criativos que tinham apelo junto ao público – e eles eram, de todas as formas, claramente os piores. É um mito afirmar que os melhores talentos do período eram normalmente deixados à míngua e na boêmia por filistinos que não sabiam apreciá-los. Podemos certamente descobrir aqueles que, por várias razões, resistiram ou tentaram chocar o público burguês, ou simplesmente falharam em atrair compradores, a maioria na França (G. Flaubert, 1821-80, os primeiros simbolistas e os impressionistas), mas também em outros lugares. O artista tinha que chegar a um bom termo com o mercado. E mesmo aqueles que não chegaram a ficar ricos eram respeitados. Dickens, W. Thackeray (1811-63), George Eliot (1819-80), Tennyson (1809-92), Victor Hugo (1802-85), Zola (1840-1902), Tolstoi, Dostoievsky, Turgenev, Wagner, Verdi, Brahms, Liszt (1811-86), Dvorak, Tchaikovsky, Mark Twain, Henrik Ibsen: estes são nomes de pessoas que em vida não sentiram falta de sucesso e reconhecimento.

III

Na sociedade aristocrática e monárquica, o artista tinha sido quando muito um ornamentador ou ornamento da corte ou palazzo. Para a sociedade burguesa ele representava o “gênio”, que era uma versão não-financeira da empresa individual, “o ideal” que complementava e coroava o sucesso material e, de forma mais geral, os valores espirituais da vida.

Não há como compreender as artes do final do século XIX sem este sentido da necessidade social delas deverem agir como fornecedoras do conteúdo espiritual da mais materialista das civilizações. Poder-se-ia até dizer que eles tomavam o lugar das religiões tradicionais, entre os cultos e emancipados, isto é, as classes médias bem-sucedidas, suplementadas, evidentemente, pelos espetáculos inspiradores da “natureza” quer dizer, paisagens. Isso era mais evidente entre os povos de língua germânica, que tinham passado a considerar a cultura como seu monopólio especial numa época em que os ingleses haviam tomado conta do econômico e os franceses se apossado do político. Ali, óperas e teatros tornaram-se templos onde homens e mulheres cultuavam.

Nem todos os países empurraram a exaltação religiosa das artes até o ponto que esta atingiu na Europa central, e mais especificamente entre as classes médias judias – na maior parte da Europa e dos Estados Unidos culturalmente alemãs ou germanizadas.

A substituição da religião pela exaltação em relação à natureza e às artes era característica apenas de setores intelectuais, das classes médias, como aqueles que iriam formar mais tarde o Bloomsburv inglês, homens e mulheres com renda privada proveniente de heranças, raramente envolvidos em negócios.

Apesar de tudo, mesmo nas sociedades burguesas mais filistéias, talvez com a exceção dos Estados Unidos, as artes ocupavam um lugar especial de respeito e estima. Os grandes símbolos coletivos de status do teatro e da ópera cresceram nos centros das capitais.

É verdade que havia algumas formas de criação artística que mantinham uma relação direta com um público que elas apenas pretendiam entreter. Mas tais diversões eram aceitas como culturalmente inferiores. Arte culta de verdade não era uma questão de mero entretenimento ou mesmo algo que pudesse ser isolado como uma “apreciação estética”.

A “arte pela arte”, era ainda um fenômeno minoritário mesmo entre os artistas românticos, uma reação contra o ardente compromisso político e social da era das revoluções, intensificado pelos amargos resultados de 1848, o movimento que havia arrastado tantos espíritos criativos. O esteticismo não iria se tornar uma moda burguesa até o final da década de 1870 e 1880. Os artistas criativos eram sábios, profetas, mestres, moralistas, fontes da verdade. O esforço era o preço pago pelos seus rendimentos vindos de uma burguesia pronta a acreditar que tudo que tinha valor (financeiro ou espiritual) requeria abstenção de prazer. As artes eram parte deste esforço humano. O cultivo das artes coroava-o.

IV

Aqui precisamos destacar a arquitetura das outras artes, pois faltava-lhe o tema que dava às outras a aparência de unidade. De fato, a coisa mais característica acerca da arquitetura é o desaparecimento daqueles “estilos” morais ideológicos- estéticos aceitos, que tinham sempre deixado sua marca em outras épocas. O ecletismo comandava. Como Pietro Selvático observou, já em 1850 na sua Storia dell’Arte del Disegno, não havia um estilo único de beleza. Cada estilo era adaptado a uma função. Portanto, dos edifícios ao longo da Ringstrasse vienense à igreja, o estilo era naturalmente gótico, o parlamento grego, a prefeitura uma combinação de renascença com gótico, a bolsa de valores (como muitas outras oeste período) um classicismo opulento, os museus e a universidade alta renascença, o Burgtheater e a Opera o que melhor pode ser descrito como Segundo Império, no qual elementos ecléticos da renascença predominavam.

Em resumo, a arquitetura não expressava nenhum tipo de “verdade”, mas apenas a autoconfiança da sociedade que a construía, e este (sentido de imensa e indiscutível fé no destino burguês é que torna expressivos seus melhores exemplos. Era uma linguagem de símbolos sociais. Daí o deliberado encobrimento do que era realmente novo e interessante nela, a magnífica tecnologia e técnicas de engenharia, que mostrava sua face em público apenas em raras ocasiões, quando o que era para ser simbolizado era o progresso técnico em si mesmo: no Crystal Palace de 1851, a Rotunda da exibição de Viena de 1873, mais tarde a Torre Eiffel (1889).

A arquitetura não tinha uma “verdade” própria, porque não tinha significado que pudesse ser expresso em palavras. As outras artes tinham, porque seu sentido assim permitia. A crença de meados do século XIX na qual a forma da arte não era importante, que o conteúdo valia tudo. Se “cada quadro contava uma história” e freqüentemente a música também – esse era, afinal, o tempo característico das óperas, música de bale e suítes descritivas – a nota programática estava destinada a ser proeminente.

A questão “do que se trata?” era portanto não apenas legítima mas fundamental para qualquer julgamento das artes de meados do século. A resposta era geralmente: “realidade” e “vida”. “Realismo” era o termo que mais comumente vinha aos lábios dos observadores da época e posteriores acerca deste período, e sempre quando lidando com a literatura ou as artes visuais. A burguesia de meados do século estava dividida num dilema que seu triunfo fazia ainda mais agudo. A imagem de si mesma a qual aspirava não podia representar toda a realidade, na medida em que a realidade fosse de pobreza, exploração e miséria, materialismo, paixões e aspirações cuja existência ameaçasse uma estabilidade que, apesar de toda confiança que a burguesia tinha em si mesma, era sentida como sendo precária. Na melhor das hipóteses a versão burguesa de “realismo” era cuidadosamente seleta, como o famoso Angelus de J-F. Millet (1814-75), no qual a pobreza e o trabalho duro pareciam mais aceitáveis pela piedade obediente dos pobres; na pior das hipóteses transformava-se no sentimentalismo do retrato de família. Nas artes representativas havia três formas de escapar a este dilema. Uma era insistir em representar toda a realidade, incluindo o desagradável ou o perigoso. O “realismo” transformava-se então em “naturalismo” ou “verismo”. Isso normalmente implicava uma consciência social crítica da sociedade burguesa, como Courbert na pintura, Zola e Flaubert na literatura, ou mesmo obras que não tinham tal intenção crítica deliberada, como a obra-prima de Bizet (1838-75), a ópera das classes baixas Carmen (1875), que eram percebidas pelo público e pela crítica como se fossem políticas. A alternativa era abandonar totalmente qualquer realidade, fosse cortando as ligações entre arte e vida, ou mais especificamente vida contemporânea (“arte pela arte”) ou então pela escolha da abordagem visionária (como no Bateau Ivre de 1871 do jovem revolucionário Rimbaud), ou ainda a fantasia evasiva dos humoristas como Edward Lear (1812-88) e Lewis Carroll (1832-98) na Inglaterra, Wilhelm Busch (1832-1908) na Alemanha.

A fotografia, inventada na década de 1820 e divulgada publicamente na França na década seguinte, tornou-se um meio para se trabalhar na reprodução em massa da realidade de nosso período e foi rapidamente desenvolvida num negócio comercial na França da década de 1850. As insaciáveis demandas da burguesia, especialmente a pequena burguesia cheia de aspirações por retratos baratos, forneceu a base de seu sucesso. Ela ameaçava seriamente a existência de “vários ramos da arte, tais como as gravuras, litogravura, e alguns tipos de retratos”. J. A. D. Ingres (1780-1867) via-a com uma invasão imprópria do progresso industrial no domínio da arte. Charles Baudelaire (1821-67), de um ponto de vista bastante diferente, pensava o mesmo.

Duvidosos entre o idealismo e o realismo do mundo burguês, os realistas também rejeitavam a fotografia, mas com um certo embaraço.

O debate era passional, mas foi resolvido através daquela invenção característica da sociedade burguesa, o direito de propriedade. A Corte de Cassação, que decidiu que a fotografia era, afinal, uma arte, já que esta era a única maneira de proteger efetivamente seu copyright.

“Nus fotográficos, de forma feminina, em quaisquer posições, provocativas aos olhos em sua nudez total” ” eram obscenos, não havia dúvida: uma lei assim já os havia declarado em 1850. Mas como seus sucessores do século XX, os fotógrafos de garotas de meados do século XIX podiam – inutilmente neste período – refutar os argumentos da moralidade com os da arte: a arte radical do realismo. Condenando tal fotógrafo, o promotor público também condenava “aquela escola de pintura que se chamava realista.

O realismo era portanto ambíguo e contraditório. Com o “realismo” programático, isto é, naturalista de Courbet, a história da pintura ocidental, complexa, mas coerente desde a Renascença italiana, chegava a seu fim. O que veio depois – ou melhor, o que já estava surgindo simultaneamente com os Impressionistas – não podia ser ligado tão facilmente ao passado: eles antecipavam o futuro.

A revolução na arte e a arte da revolução começaram então a divergir. Os Impressionistas foram importantes não pelos motivos populares que retratavam – danças populares, visões das cidades e as cenas das ruas, teatros, corridas e bordéis da sociedade burguesa – mas por suas inovações de método.

Mas se a busca pela ciência na arte não encontrava uma solução definitiva, então tudo o que se havia conseguido tinha sido a destruição de um código de comunicação visual convencional e geralmente aceito, que não havia sido substituído pela “realidade” ou nenhum outro código equivalente. Em última análise – mas as décadas de 1860 e 1870 estavam ainda longe de chegar a esta conclusão – talvez não houvesse meio de escolher entre as visões subjetivas de nenhum indivíduo; e quando este ponto estava para ser descoberto, a busca da perfeita objetividade do concreto visual veio a ser transformada no triunfo da perfeita subjetividade.

Se a arte era análoga à ciência, ela partilhava então também a característica do progresso que (com algumas qualificações) igualava “novo” ou “último” a “superior”.Isso não é verdade nas artes. Além disso, a palavra “progresso” em si mesma era ambígua, já que podia ser e era aplicada igualmente a qualquer mudança historicamente observada. O “progresso” podia ou não ser um fato, mas “progressista” era uma declaração de intenção política.

Não é acidente que a genealogia retrospectiva das artes avant-garde normalmente não nos conduza além do Segundo Império na França – para Baudelaire e Flaubert na literatura e para os Impressionistas na pintura. Historicamente é em grande medida um mito, mas sua localização no tempo é importante. Marca o colapso da tentativa de produzir uma arte intelectualmente consistente (embora constantemente crítica) com a sociedade burguesa – uma arte assumindo as realidades físicas do mundo capitalista, do progresso e da ciência natural da forma que era concebida pelo positivismo.

V

Este colapso afetava mais as camadas marginais do mundo burguês que seu centro: estudantes e jovens intelectuais, escritores e artistas com aspirações, a bohème em geral daqueles que se recusavam (embora temporariamente) a adotar uma espécie de respeitabilidade burguesa e se misturavam rapidamente aos que eram incapazes de fazê-lo, ou cujo tipo de Vida impedia-os de fazer. Eles forneciam para os produtores e consumidores aquilo que iria ser chamado, um século depois, underground ou contracultura, e que não era, de forma alguma, um mercado negligenciável, embora ainda incapaz de dar à avant-garde um meio de vida.

Até 1848 estes Quartiers Latins espirituais da sociedade burguesa tinham esperança em uma revolução republicana ou social – e talvez até, com todo o ódio possível, uma certa admiração relutante pelo dinamismo dos mais ativos robber barons do capitalismo, que faziam seu caminho através das barreiras da tradicional sociedade aristocrática. Quando uma nova forma de arte visionária viria surgir no meio da geração que havia vivido a infância em 1848 ou mesmo não era ainda nascida ela seria esotérica, irracionalista e, fossem quais fossem as intenções de seus criadores, apolítica.

Como o colapso do sonho de 1848 e a vitória da realidade da França do Segundo Império, da Alemanha de Bismarck, da Inglaterra Palmerstoniana e Gladstoniana, e da Itália de Vittorio Emmanuel, as artes ocidentais burguesas, a começar pela pintura e poesia, bifurcaram-se naquelas com apelo ao público de massa e naquelas outras dirigidas apenas a uma minoria bem definida. Elas não eram tão marginais em relação à sociedade burguesa quanto pode fazer crer a história mitológica da avant-garde, mas no todo é inegável que os pintores e poetas que chegaram à maturidade entre 1848 e o final de nosso período e que até hoje admiramos, tinham um apelo indiferente ao mercado de sua época e quando eram famosos, o eram por causar escândalos: Courbet e os Impressionistas, Baudelaire e Rimbaud, os prérafaelitas, A. C. Swinburne (1837-1909), Dante Gabriel Rossetti (1828-82).

VI

A música praticamente não era afetada, já que nenhum realismo representativo é de fato possível naquela arte, e qualquer tentativa de introduzir realismo ali precisava ser necessariamente metafórica ou dependente de palavras ou drama. A não ser no caso da fusão wagneriana da Gesamtkunstwerk (a arte total de suas obras) ou na modesta canção, o realismo na música significava a representação de emoções identificáveis: incluindo – como no Tristan de Wagner (1865) – as conhecidas emoções do sexo. Nesta medida, a música podia opor-se ao mundo burguês apenas de dentro, o que era uma tarefa fácil, já que os próprios burgueses não percebiam direito quando estavam sendo criticados – eles poderiam até sentir que suas próprias aspirações e a glória de sua cultura estavam ali sendo expressas. Portanto, a música floresceu em um idioma mais ou menos tradicionalmente romântico. Seu maior militante vanguardista, Richard Wagner, também era sua figura pública mais célebre.

A literatura de prosa, e especialmente a arte formal característica da era burguesa, a novela, floresceu exatamente pela razão oposta: As palavras podiam, diferentemente das notas musicais, representar a “vida real” assim como idéias, e diferentemente das artes visuais, a técnica literária não reclamava para si a capacidade de imitá-la. O “realismo” na novela não colocava, portanto, contradições imediatas e insolúveis tais como a fotografia introduziu em relação à pintura. Não há nenhum novelista deste período cuja obra não possa ser transformada em novela de televisão. Daí a popularidade e a flexibilidade da novela como um genre, e suas realizações extraordinárias.

Seus esforços mais ambiciosos foram obtidos não através do mito e da técnica (como o Anel de Wagner), mas através da descrição simples da vida cotidiana. Pelo menos um grande novelista de nosso período tornou-se uma figura de projeção internacional: Charles Dickens.

Este era, como já vimos, um período da arte para as massas através da tecnologia da reprodução, que tornava a multiplicação ilimitada das imagens um fato possível, o casamento entre tecnologia e comunicações que produziu o jornal de massa e o periódico – especialmente a revista ilustrada – e a educação de massa que fez a todos capazes de se transformarem num público.

Com o triunfo da cidade e da indústria, uma divisão cada vez maior se interpunha entre de um lado os setores “modernos” das massas, quer dizer, os urbanizados, os instruídos, aqueles que aceitavam o conteúdo da cultura hegemônica – a da sociedade burguesa – e de outro lado, os setores “tradicionais” cada vez mais minados.

Mas mesmo as formas de cultura rural mais tradicionais estavam minadas, nem tanto pelas migrações, mas, sobretudo, pela educação. A partir do momento em que a educação primária tornou-se accessível às massas, a cultura tradicional inevitavelmente cessou de ser basicamente oral e face a face e dividiu-se em uma cultura superior ou dominante para os instruídos e outra inferior ou dominada para os analfabetos.

A hegemonia da cultura oficial, inevitavelmente identificada com a classe média triunfante, era dominante em relação às massas subalternas. E neste período pouco poderia mitigar tal sujeição.

Conclusão

A era do triunfo liberal começou com uma revolução derrotada e terminou numa depressão prolongada.

A nova era que iria se seguir à era do triunfo liberal seria bastante diferente. Economicamente, iria se desligar rapidamente da competição sem barreiras das empresas privadas, da abstenção governamental em relação a interferências, e daquilo que os alemães chamavam Manchesterismus (a ortodoxia do livre comércio da Inglaterra vitoriana), para passar às grandes corporações industriais (cartéis, trustes, monopólios), grande intervenção governamental, e às mais diferentes ortodoxias de política econômica, mas não necessariamente de teoria econômica.

A economia capitalista mudou de quatro formas significativas. Em primeiro lugar, entramos agora numa nova era tecnológica, não mais determinada pelas invenções e métodos da primeira Revolução Industrial: uma era de novas fontes de poder (eletricidade e petróleo, turbinas e motor a explosão), de nova maquinaria baseada em novos materiais (ferro, ligas, metais não-ferrosos), de indústrias baseadas em novas ciências tais como a indústria em expansão da química orgânica. Em segundo lugar, entramos também agora cada vez mais na economia de mercado de consumo doméstico, iniciada nos Estados Unidos, desenvolvida (na Europa ainda modestamente) pela crescente renda das massas, mas sobretudo pelo substancial aumento demográfico dos países desenvolvidos.

Em terceiro lugar – e de certa forma este foi o desenvolvimento mais decisivo – uma reviravolta paradoxal teve lugar. A era do triunfo liberal tinha sido aquela era de facto do monopólio industrial inglês, dentro do qual (com algumas notáveis exceções) os lucros eram assegurados sem muita dificuldade pela competição de pequenas e médias empresas. A era pós-liberal caracterizava-se por uma competição internacional entre economias industriais nacionais rivais – a inglesa, a alemã, a norte-americana; uma competição acirrada pelas dificuldades que as firmas dentro de cada uma destas economias enfrentavam (no período de depressões) para fazer lucros adequados. A competição levava, portanto, à concentração econômica, controle de mercado e manipulação.

O mundo entrou no período do imperialismo. Além da rivalidade (que levou as potências a dividir o globo entre reservas formais ou informais para seus próprios negócios) entre mercados e exportações de capital, tal processo também era devido à crescente não-disponibilidade de matérias-primas na maioria dos próprios países desenvolvidos, por razões geológicas ou climáticas.

Numa escala global, esta dicotomia entre áreas desenvolvidas e subdesenvolvidas (teoricamente complementares), embora não nova em si mesma, começou a tomar uma forma reconhecidamente moderna. O desenvolvimento da nova forma de desenvolvimento/dependência iria continuar com apenas breves interrupções até a queda geral na década de 1930, e forma a quarta grande mudança na economia mundial.

Politicamente, o final da era liberal significa literalmente o que as palavras querem dizer. A tendência em relação à liberdade de comércio foi revertida na Rússia e na Áustria em 1874-75, na Espanha em 1877, na Alemanha em 1879 e praticamente em todos os lugares exceto na Inglaterra – e mesmo ali o livre comércio estava sob pressão a partir da década de 1880. Por outro lado, as demandas vindas de baixo por proteção contra os “capitalistas”, por segurança social, por medidas públicas contra o desemprego e um salário mínimo por parte dos trabalhadores tornaram-se audíveis e politicamente eficazes.

Um novo estado, cada vez mais forte e intervencionista e dentro dele um novo tipo de política desenvolveram-se a partir de então.

Pelos padrões modernos, o crescimento do papel e das funções do Estado permaneceu bem modesto, embora seus gastos (isto é, suas atividades) tenham crescido per capita em praticamente todo o mundo durante nosso período. Por outro lado, três novas tendências emergiam na política das tensões confusas da nova era de depressão econômica, que em quase todos os lugares tornou-se uma era de agitação social e descontentamento.

A primeira tendência, e quase que aparentemente nova, era a emergência de partidos e movimentos de classe operária, geralmente com uma orientação socialista (isto é, cada vez mais marxista). A segunda tendência não partilhava desta herança, e, aliás, opunha-se decididamente a ela. Partidos demagógicos antiliberais e anti-socialistas surgiram nas décadas de 1880 e 1890, tanto da sombra de suas antigas raízes liberais – como os nacionalistas alemães pan-germânicos e anti-semitas que se tornaram os ancestrais do hitlerismo. A terceira tendência era a emancipação dos partidos e movimentos nacionalistas de massa de sua antiga identificação ideológica com o radicalismo liberal. Alguns movimentos pela autonomia nacional ou independência tendiam a passar, pelo menos teoricamente, para o lado do socialismo, especialmente nos casos em que a classe operária tinha um papel importante em seus respectivos países; mas era um socialismo mais nacional do que internacional. O elemento nacional tendia a prevalecer sobre o socialista.

Tal processo não iria abalar o tipo básico de política dos estados desenvolvidos que haviam surgido na década de 1860. Mesmo assim, o surgimento da política de massa não-liberal, ainda que teoricamente aceitável, assustava governos. A estrutura da política burguesa (onde existia) não seria encurralada no seu ponto-limite até bem para dentro do século XX.

Embora nosso período deságüe nos momentos perturbados da “Grande Depressão”, seria errôneo pintar um quadro muito carregado nas cores. Nem do ponto de vista econômico nem do político a estrutura do mundo capitalista de meados do século entrou em colapso. Seria diferente nos países pobres, atrasados, subdesenvolvidos e dominados, ou então aqueles situados, como a Rússia, simultaneamente no mundo dos vitoriosos e das vítimas. Ali a “Grande Depressão” iria abrir uma era de revolução iminente. Mas para a primeira ou as duas primeiras gerações posteriores a 1875, o mundo da burguesia triunfante parecia permanecer bastante sólido. Talvez tivesse um pouco menos de autoconfiança do que antes, e suas afirmações sobre esta confiança talvez um pouco menos seguras, talvez um pouco mais preocupada a respeito de seu próprio futuro. A “Grande Depressão” era apenas um interlúdio. Não havia afinal crescimento econômico, avanço científico e técnico, melhorias e paz? Não iria o século XX ser uma versão mais gloriosa e bem-sucedida do século XIX?

Nós sabemos que não iria ser.