Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm foi um dos grandes historiadores do século XX, que escreveu os já clássicos “A Era das Revoluções 1789–1848 “, “A Era do Capital 1848-1875“, “A Era dos Impérios 1975-1914” e “Era dos Extremos 1914-1991“.

O conteúdo dessas obras é denso, por isso estamos disponibilizando para vocês um fichamento delas. Nesta postagem, está o fichamento da “Parte 2” da obra. Veja também a “Parte 1” e a “Parte 3” aqui. Bons estudos.

Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores da atualidade, dá seu testemunho sobre o século XX: “Meu tempo de vida coincide com a maior parte da época de que trata este livro”, diz ele na abertura, “por isso até agora me abstive de falar sobre ele”. Neste livro fascinante, porém, ele abandona seu silêncio voluntário para contar, em linguagem simples e envolvente, a história da “era das ilusões perdidas”.

ERA DOS EXTREMOS

1914 – 1991

O século: vista aérea

Parte um

A ERA DA CATÁSTROFE

  1. A era da guerra total
  2. A revolução mundial
  3. Rumo ao abismo econômico
  4. A queda do liberalismo
  5. Contra o inimigo comum
  6. As artes 1914-45
  7. O fim dos impérios

Parte dois

A ERA DE OURO

  1. Guerra Fria
  2. Os anos dourados
  3. Revolução social
  4. Revolução cultural
  5. O terceiro mundo
  6. “Socialismo real”

Parte três

O DESMORONAMENTO

  1. As Décadas de Crise
  2. Terceiro Mundo e revolução
  3. Fim do socialismo
  4. Morre a vanguarda: as artes após 1950
  5. Feiticeiros e aprendizes: as ciências naturais
  6. Rumo ao milênio

Parte dois

A ERA DE OURO

1. Guerra Fria

I

Os 45 anos que vão do lançamento das bombas atômicas até o fim da União Soviética não formam um período homogêneo único na história do mundo. Como veremos nos capítulos seguintes, dividem-se em duas metades, tendo como divisor de águas o início da década de 1970 (ver capítulos 9 e 14). Apesar disso, a história desse período foi reunida sob um padrão único pela situação internacional peculiar que o dominou até a queda da URSS: o constante confronto das duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial na chamada “Guerra Fria”.

A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo iminente de guerra mundial. Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados, mas sobretudo do lado americano, os governos das duas superpotências aceitaram a distribuição global de forças no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de poder desigual mas não contestado em sua essência. A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela exercia predominante influência — a zona ocupada pelo Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no término da guerra — e não tentava ampliá-la com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle e predominância sobre o resto do mundo capitalista, além do hemisfério norte e oceanos, assumindo o que restava da velha hegemonia imperial das antigas potências coloniais. Em troca, não intervinha na zona aceita de hegemonia soviética.

As duas superpotências aceitavam a divisão desigual do mundo, faziam todo esforço para resolver disputas de demarcação sem um choque aberto entre suas Forças Armadas que pudesse levar a uma guerra e, ao contrário da ideologia e da retórica da Guerra Fria, trabalhavam com base na suposição de que a coexistência pacífica entre elas era possível a longo prazo. Na verdade, na hora da decisão, ambas confiavam na moderação uma da outra, mesmo nos momentos em que se achavam oficialmente à beira da guerra, ou mesmo já nela. Assim, durante a Guerra da Coréia de 1950-3, em que os americanos se envolveram oficialmente, mas os russos não, Washington sabia que pelo menos 150 aviões chineses eram na verdade aviões soviéticos com pilotos soviéticos (Walker, 1993, pp.75-7). A informação foi mantida em segredo, porque se supunha, corretamente, que a última coisa que Moscou queria era guerra. Durante a crise dos mísseis cubanos de 1962, como agora sabemos (Bali, 1992; Bali, 1993), a principal preocupação dos dois lados era impedir que gestos belicosos fossem interpretados como medidas efetivas para a guerra.

Assim que a URSS adquiriu armas nucleares — quatro anos depois de Hiroxima no caso da bomba atômica (1949), nove meses depois dos EUA no caso da bomba de hidrogênio (1953) — as duas superpotências claramente abandonaram a guerra como instrumento de política, pois isso equivalia a um pacto suicida. Não está muito claro se chegaram a considerar seriamente a possibilidade de uma ação nuclear contra terceiros — os EUA na Coréia em 1951, e para salvar os franceses no Vietnã em 1954; a URSS contra a China em 1969 —, mas de todo modo as armas não foram usadas. Contudo, ambos usaram a ameaça nuclear, quase com certeza sem intenção de cumpri-la, em algumas ocasiões: os EUA para acelerar as negociações de paz na Coréia e no Vietnã (1953,1954), a URSS para forçar a Grã-Bretanha e a França a retirar-se de Suez em 1956. Infelizmente, a própria certeza de que nenhuma das superpotências iria de fato querer apertar o botão nuclear tentava os dois lados a usar gestos nucleares para fins de negociação, ou (nos EUA) para fins de política interna, confiantes em que o outro tampouco queria a guerra.

II

Em primeiro lugar, a Guerra Fria baseava-se numa crença ocidental, retrospectivamente absurda mas bastante natural após a Segunda Guerra Mundial, de que a Era da Catástrofe não chegara de modo algum ao fim; de que o futuro do capitalismo mundial e da sociedade liberal não estava de modo algum assegurado. Hoje é evidente, e era razoavelmente provável mesmo em 1945-7, que a URSS não era expansionista — e menos ainda agressiva — nem contava com qualquer extensão maior do avanço comunista além do que se supõe houvesse sido combinado nas conferências de cúpula de 1943-5. Em qualquer avaliação racional, a URSS não apresentava perigo imediato para quem estivesse fora do alcance das forças de ocupação do Exército Vermelho. Saíra da guerra em ruínas, exaurida e exausta, com a economia de tempo de paz em frangalhos, com o governo desconfiado de uma população que, em grande parte fora da Grande Rússia, mostrara uma nítida e compreensível falta de compromisso com o regime.

Sem dúvida Stalin, como comunista, acreditava que o capitalismo seria inevitavelmente substituído pelo comunismo, e nessa medida qualquer coexistência dos dois sistemas não seria permanente. Contudo, os planejadores soviéticos não viam o capitalismo em crise no fim da Segunda Guerra Mundial. Não tinham dúvida de que ele continuaria por um longo tempo sob a hegemonia dos EUA. Dessa situação surgiu uma política de confronto dos dois lados. A URSS, consciente da precariedade e insegurança de sua posição, via-se diante do poder mundial dos EUA, conscientes da precariedade e insegurança da Europa Central e Ocidental e do futuro incerto de grande parte da Ásia. O confronto provavelmente teria surgido mesmo sem ideologia. George Kennan, o diplomata americano que no início de 1946 formulou a política de “contenção” que Washington adotou com entusiasmo, não acreditava que a Rússia estivesse em cruzada pelo comunismo, e — como provou em sua carreira posterior — estava longe de ser um cruzado ideológico.

Em suma, enquanto os EUA se preocupavam com o perigo de uma possível supremacia mundial soviética num dado momento futuro, Moscou se preocupava com a hegemonia de fato dos EUA, então exercida sobre todas as partes do mundo não ocupadas pelo Exército Vermelho. Não seria preciso muito para transformar a exausta e empobrecida URSS numa região cliente da economia americana, mais forte na época que todo o resto do mundo junto. Os dois lados viram-se assim comprometidos com uma insana corrida

armamentista para a mútua destruição, e com o tipo de generais e intelectuais nucleares cuja profissão exigia que não percebessem essa insanidade. Os dois também se viram comprometidos com o que o presidente em fim de mandato, Eisenhower, chamou de “complexo industrial-militar”, ou seja, o crescimento cada vez maior de homens e recursos que viviam da preparação da guerra.

Os britânicos conseguiram bombas próprias em 1952, por ironia com o objetivo de afrouxar sua dependência dos EUA; os franceses (cujo arsenal nuclear era na verdade independente dos EUA) e os chineses na década de 1960. Enquanto durou a Guerra Fria, nada disso contou. Nas décadas de 1970 e 1980, outros países conseguiram a capacidade de fazer armas nucleares, notadamente Israel, África do Sul e provavelmente a Índia, mas essa proliferação nuclear só se tornou um problema internacional sério após o fim da ordem bipolar de superpotências em 1989.

Assim, quem foi responsável pela Guerra Fria? Como o debate sobre esta questão foi durante longo tempo uma partida de tênis entre os que punham a culpa apenas na URSS e os dissidentes (sobretudo, deve-se dizer, americanos) que culparam basicamente os EUA, é tentador juntarmo-nos aos mediadores históricos que a atribuem ao medo mútuo do confronto que aumentou até os dois “campos armados começarem a mobilizar-se sob suas bandeiras opostas” (Walker, 1993, p. 55).

III

Embora o aspecto mais óbvio da Guerra Fria fosse o confronto militar e a cada vez mais frenética corrida armamentista no Ocidente, não foi esse o seu grande impacto. As armas nucleares não foram usadas. As potências nucleares se envolveram em três grandes guerras (mas não umas contra as outras). Abalados pela vitória comunista na China, os EUA e seus aliados (disfarçados como Nações Unidas) intervieram na Coréia em 1950 para impedir que o regime comunista do Norte daquele país se estendesse ao Sul. O resultado foi um empate. Fizeram o mesmo, com o mesmo objetivo, no Vietnã, e perderam. A URSS retirou-se do Afeganistão em 1988, após oito anos nos quais forneceu ajuda militar ao governo para combater guerrilhas apoiadas pelos americanos e abastecidas pelo Paquistão. Em suma, o material caro e de alta tecnologia da competição das superpotências revelou-se pouco decisivo.

Muito mais óbvias foram as conseqüências políticas da Guerra Fria. Quase de imediato, ela polarizou o mundo controlado pelas superpotências em dois “campos” marcadamente divididos. Os governos de unidade antifascista que tinham acabado com a guerra na Europa (exceto, significativamente, os três principais Estados beligerantes, URSS, EUA e Grã-Bretanha) dividiram-se em regimes pró-comunistas e anticomunistas homogêneos em 1947-8. A política dos Estados europeus alinhados com os EUA era menos monocromática, uma vez que praticamente todos os partidos locais, com exceção dos comunistas, se uniam em sua antipatia aos soviéticos. Em termos de política externa, não importava quem estava no poder. Contudo, os EUA simplificaram as coisas em dois países ex-inimigos seus, Japão e Itália, criando o que equivalia a um sistema unipartidário permanente. Em Tóquio, encorajou a fundação do Partido Liberal-Democrata (1955), e na Itália, insistiu na total exclusão do partido de oposição natural ao poder, porque acontecia ser comunista e entregou o país aos democrata-cristãos, apoiados quando a ocasião o exigia por uma série de partidos nanicos — liberais, republicanos etc.

Contudo, o efeito da Guerra Fria foi mais impressionante na política internacional do continente europeu que em sua política interna. Provocou a criação da “Comunidade Européia”, com todos os seus problemas; uma forma de organização sem precedentes, ou seja, um arranjo permanente (ou pelo menos duradouro) para integrar as economias, e em certa medida os sistemas legais, de vários Estados-nação independentes. Inicialmente (1957) formada por seis Estados (França, República Federal da Alemanha, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo), ao final do Breve Século XX, quando o sistema começou a balançar, como todos os outros produtos da Guerra Fria, nela já haviam entrado outros seis (Grã-Bretanha, Irlanda, Espanha, Portugal, Dinamarca, Grécia), e em teoria ela se comprometia com uma integração política ainda mais estreita, além da econômica.

A “Comunidade”, como tantas outras coisas na Europa pós-1945, era ao mesmo tempo a favor e contra os EUA. Não se deve esquecer que em todos os cálculos sobre o mundo do pós-guerra, e em todas as decisões do pós-guerra, “a premissa de todos os formuladores de políticas era a preeminência econômica americana” (Maier, 1987, p. 125). Felizmente para os aliados dos EUA, a situação da Europa Ocidental em 1946-7 parecia tão tensa que Washington sentiu que o fortalecimento da economia européia e, um pouco depois, também da japonesa, era a prioridade mais urgente, e o Plano Marshall, um projeto maciço para a recuperação européia, foi lançado, em junho de 1947. Para os americanos, uma Europa efetivamente restaurada parte da aliança militar anti-soviética que era o complemento lógico do Plano Marshall, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de 1949. Os franceses propuseram sua própria versão de união européia, a “Comunidade Européia do Carvão e do Aço” (1950), que se transformou numa “Comunidade Econômica Européia, ou Mercado Comum” (1957), depois simplesmente “Comunidade Européia”, e, a partir de 1993, “União Européia”. O quartel-general era em Bruxelas, mas o núcleo era a unidade franco-germânica. A Comunidade Européia foi estabelecida como uma alternativa ao plano americano de integração européia.

Contudo, embora os EUA fossem incapazes de impor em detalhes seus planos político-econômicos aos europeus, eram suficientemente fortes para dominar seu comportamento internacional. A política da aliança contra a URSS era dos EUA, e também seus planos militares. E, no entanto, à medida que a era da Guerra Fria se estendia, abria-se um crescente fosso entre a dominação esmagadoramente militar, e portanto política, que Washington exercia na aliança e o enfraquecimento da predominância econômica dos EUA. O peso econômico da economia mundial passava então dos EUA para as economias européia e japonesa, as quais os EUA julgavam ter salvo e reconstruído (ver capítulo 9). Os dólares, tão escassos em 1947, haviam fluído para fora dos EUA numa torrente crescente, acelerada — sobretudo na década de 1960 — pela tendência americana a financiar o déficit gerado pelos enormes custos de suas atividades militares globais, notadamente a Guerra do Vietnã (depois de 1965), e pelo mais ambicioso programa de bem-estar social da história americana.

Durante a maior parte da década de 1960, a estabilidade do dólar, e com ela a do sistema de pagamento internacional, não mais se baseava nas reservas dos EUA, mas na disposição dos bancos centrais europeus — sob pressão americana — de não trocar seus dólares por ouro, e entrar num “Pool do Ouro” para estabilizar o preço do metal no mercado. Isso não durou. Em 1968 o “Pool do Ouro”, esgotado, dissolveu-se. De facto, acabou a conversibilidade do dólar. Foi formalmente abandonada em agosto de 1971, e com ela a estabilidade do sistema de pagamentos internacional, e chegou ao fim o seu controle pelos EUA ou por qualquer outra economia nacional.

IV

Em determinado momento do início da década de 1960, a Guerra Fria pareceu dar alguns passos hesitantes em direção à sanidade. Os anos perigosos de 1947 até os dramáticos fatos da Guerra da Coréia (1950-3) haviam passado sem uma explosão mundial. O mesmo acontecera com os abalos sísmicos que sacudiram o bloco soviético após a morte de Stalin (1953), sobretudo em meados da década de 1950. Assim, longe de ter de lutar contra a crise social, os países da Europa Ocidental começaram a observar que estavam na verdade vivendo uma era de inesperada e disseminada prosperidade, que será discutida com mais amplitude no próximo capítulo. No jargão tradicional dos diplomatas da velha guarda, o afrouxamento da tensão era a détente. A palavra tomou-se então familiar.

Contudo, a détente primeiro teve de sobreviver ao que pareceu um período extraordinariamente tenso de confrontos entre o gosto de Kruschev pelo blefe e os gestos políticos de John F. Kennedy (1960-3), o mais superestimado presidente americano do século. As duas superpotências foram assim levadas a duas operações de alto risco num momento em que o Ocidente capitalista sentia estar perdendo terreno para as economias comunistas, que haviam crescido mais rapidamente na década de 1950. A URSS se preocupava não só com a retórica ambígua, porém muitas vezes apenas belicosa demais, de Washington, mas com o rompimento fundamental da China, que agora acusava Moscou de amolecer diante do capitalismo, forçando assim o pacífico Kruschev a uma posição pública mais inflexível em relação ao Ocidente. Ao mesmo tempo, a súbita aceleração da descolonização e de revolução no Terceiro Mundo (ver capítulos 7, 12 e 15) parecia favorecer os soviéticos. Os EUA, nervosos mas confiantes, enfrentavam assim uma URSS confiante mas nervosa por Berlim, pelo Congo, por Cuba.

Na verdade, o resultado líquido dessa fase de ameaças e provocações mútuas foi um sistema internacional relativamente estabilizado, e um acordo tácito das duas superpotências para não assustar uma à outra e ao mundo, simbolizado pela instalação da “linha quente” telefônica que então (1963) passou a ligar a Casa Branca com o Kremlin. Kennedy foi assassinado em 1963; Kruschev foi mandado para casa em 1964 pelo establishment soviético, que preferia uma visão menos impetuosa da política. Os anos 60 e 70 na verdade testemunharam algumas medidas significativas para controlar e limitar as armas nucleares: tratados de proibição de testes, tentativas de deter a proliferação nuclear (aceitas pelos que já tinham armas nucleares ou jamais esperaram tê-las, mas não pelos que estavam construindo seus próprios arsenais nucleares, como a China, a França e Israel), um Tratado de Limitação de Armas Estratégicas (SALT) entre os EUA e a URSS, e mesmo alguns acordos sobre os Mísseis Antibalísticos (ABMS) de cada lado. Mais objetivamente, o comércio entre os EUA e a URSS, politicamente estrangulado de ambos os lados por tanto tempo, começou a florescer à medida que os anos 60 desembocavam nos 70. As perspectivas pareciam boas. Não eram. Em meados da década de 1970, o mundo entrou no que se chamou de Segunda Guerra Fria (ver capítulo 15). Coincidiu com uma grande mudança na economia mundial, o período de crise a longo prazo que caracterizaria as duas décadas a partir de 1973, e que atingiu o clímax no início da década de 1980 (capítulo 14).

Contudo, economia à parte, dois acontecimentos inter-relacionados pareciam então alterar o equilíbrio das duas superpotências. O primeiro era a presumida derrota e desestabilização nos EUA, quando esse país se lançou numa nova grande guerra. A Guerra do Vietnã desmoralizou e dividiu a nação, em meio a cenas televisadas de motins e manifestações contra a guerra; destruiu um presidente americano; levou a uma derrota e retirada universalmente previstas após dez anos (1965-75); e, o que interessa mais, demonstrou o isolamento dos EUA. Pois nenhum de seus aliados europeus mandou sequer contingentes nominais de tropas para lutar junto às suas forças. E, se o Vietnã não bastasse para demonstrar o isolamento dos EUA, a guerra doYom Kipur de 1973 entre Israel — que os americanos permitiram tornar-se seu mais estreito aliado no Oriente Médio — e as forças de Egito e Síria, abastecidas pelos soviéticos, mostrou isso de forma mais evidente.

O secretário de Estado americano, Henry Kissinger (cujo presidente, Richard Nixon, se achava empenhado inutilmente em defender-se de seu impeachment), decretou o primeiro alerta nuclear desde a crise dos mísseis cubanos, uma ação típica, em sua brutal insinceridade, desse hábil e cínico operador. Através da OPEP, os Estados árabes do Oriente Médio tinham feito o possível para impedir o apoio a Israel, cortando fornecimentos de petróleo e ameaçando com embargos. Ao fazer isso, descobriram sua capacidade de multiplicar o preço do petróleo no mundo. O Vietnã e o Oriente Médio enfraqueceram os EUA, embora isso não alterasse o equilíbrio global das superpotências, ou a natureza do confronto nos vários teatros regionais da Guerra Fria.

Contudo, entre 1974 e 1979, uma nova onda de revoluções surgiu numa grande parte do globo (ver capítulo 15). Foi a coincidência dessa terceira onda de revolução mundial com o fracasso público e a –derrota americanos que produziu a Segunda Guerra Fria.

A détente na Europa dera aos EUA de Nixon (1968-74) e Kissinger a oportunidade de faturar dois grandes sucessos: a expulsão dos soviéticos do Egito e, muito mais significativo, o recrutamento informal da China para a aliança anti-soviética.

Muito antes de os propagandistas americanos explicarem, post facto, que os EUA haviam decidido ganhar a Guerra Fria levando seu antagonista à bancarrota, o regime de Brejnev começara a conduzir a si próprio à falência, mergulhando num programa de armamentos que elevou os gastos com defesa numa taxa anual de 4% a 5% (em termos reais) durante vinte anos após 1964. A política de Ronald Reagan, eleito para a Presidência em 1980, só pode ser entendida como uma tentativa de varrer a mancha da humilhação sentida demonstrando a inquestionável supremacia e invulnerabilidade dos EUA, se necessário com gestos de poder militar contra alvos imóveis, como a invasão da pequena ilha caribenha de Granada (1983), o maciço ataque aéreo e naval à Líbia (1986), e a ainda mais maciça e sem sentido invasão do Panamá (1989).

No fim, o trauma só foi curado pelo colapso final, imprevisto e inesperado, do grande antagonista, que deixou os EUA sozinhos como potência global. Mesmo então, podemos detectar na Guerra do Golfo, em 1991, contra o Iraque, uma compensação tardia pelos pavorosos momentos de 1973 e 1979 quando a maior potência da Terra não pôde achar resposta para um consórcio de fracos Estados do Terceiro Mundo que ameaçava estrangular seus abastecimentos de petróleo. A cruzada contra o “Império do Mal” a que — pelo menos em público — o governo do presidente Reagan dedicou suas energias destinava-se assim a agir mais como uma terapia para os EUA do que como uma tentativa prática de restabelecer o equilíbrio de poder mundial.

Encerrou-se um extenso período de governo centrista e moderadamente social-democrata, quando as políticas econômicas e sociais da Era de Ouro pareceram fracassar. Governos da direita ideológica, comprometidos com uma forma extrema de egoísmo comercial e laissez-faire, chegaram ao poder em vários países por volta de 1980. Entre esses, Reagan e a confiante e temível Sra. Thatcher na Grã-Bretanha (1979-90) eram os mais destacados.

A Guerra Fria reaganista era dirigida não contra o “Império do Mal” no exterior, mas contra a lembrança de F. D. Roosevelt em casa: contra o Estado do Bem-estar Social, e contra qualquer outro Estado interventor. A Guerra Fria acabou quando uma ou ambas superpotências reconheceram o sinistro absurdo da corrida nuclear, e quando uma acreditou na sinceridade do desejo da outra de acabar com a ameaça nuclear. Provavelmente era mais fácil para um líder soviético que para um americano tomar essa iniciativa, porque, ao contrário de Washington, Moscou jamais encarara a Guerra Fria como uma cruzada, talvez porque não precisasse levar em conta uma excitada opinião pública. Para fins práticos, a Guerra Fria terminou nas duas conferências de cúpula de Reykjavik (1986) e Washington (1987).

V

A Guerra Fria transformara o panorama internacional em três aspectos. Primeiro, eliminara inteiramente, ou empanara, todas as rivalidades e conflitos que moldavam a política mundial antes da Segunda Guerra Mundial, com exceção de um. Segundo, a Guerra Fria congelara a situação internacional, e ao fazer isso estabilizara um estado de coisas essencialmente não fixo e provisório. A Alemanha era o exemplo mais óbvio. Durante 46 anos permaneceu dividida — de fato, se não, por longos períodos, de jure — em três setores: a Ocidental, que se tornou a República Federal em 1949; a do meio, que se tornou a República Democrática Alemã em 1954; e a Oriental, além da linha do Oder-Neisse, que expulsou a maioria de seus alemães e se tomou parte da Polônia e da URSS.Estabilização não significava paz. Exceto na Europa, a Guerra Fria não foi uma era em que se esqueceu a luta. Dificilmente houve um ano entre 1948 e 1989 sem um conflito armado bastante sério em alguma parte. Terceiro, a Guerra Fria encheu o mundo de armas num grau que desafia a crença. Era o resultado natural de quarenta anos de competição constante entre grandes Estados industriais para armar-se com vistas a uma guerra que podia estourar a qualquer momento; quarenta anos de competição das superpotências para fazer amigos e influenciar pessoas distribuindo armas por todo o globo, para não falar de quarenta anos de constante guerra de “baixa intensidade”, com ocasionais irrupções de grande conflito.

2.Anos Dourados

I

Durante os anos 50, sobretudo nos países “desenvolvidos” cada vez mais prósperos, muita gente sabia que os tempos tinham de fato melhorado, especialmente se suas lembranças alcança­vam os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Contudo, só depois que passou o grande boom, nos perturbados anos 70, à espera dos trau­máticos 80, os observadores — sobretudo, para início de conversa, os econo­mistas — começaram a perceber que o mundo, em particular o mundo do capi­talismo desenvolvido, passara por uma fase excepcional de sua história; talvez uma fase única.

Para os EUA, que dominaram a economia do mundo após a Segunda Guerra Mundial, ela não foi tão revolucionária assim. Simplesmente continuaram a expansão dos anos da guerra, que, como vimos, foram singular­mente bondosos com aquele país. Não sofreram danos, aumentaram seu PNB em dois terços, e acabaram a guerra com quase dois ter­ços da produção industrial do mundo. Além disso, considerando o tamanho e avanço da economia americana, seu desempenho de fato durante os Anos Dou­rados não foi tão impressionante quanto a taxa de crescimento de outros países, que partiram de uma base bem menor.

Hoje é evidente que a Era de Ouro pertenceu essencialmente aos países capitalistas desenvolvidos, que, por todas essas décadas, representaram cerca de três quartos da produção do mundo, e mais de 80% de suas exportações manufaturadas. Entretanto, a população do Terceiro Mundo aumentou num ritmo espetacular — o número de africanos, leste-asiá­ticos e sul-asiáticos mais que duplicou nos 35 anos depois de 1950, o número de latino-americanos mais ainda. As décadas de 1970 e 1980 mais uma vez se familiarizaram com a fome endêmica, com a imagem clássica da criança exótica morrendo de inanição, vista após o jantar em toda tela de tv do Ocidente.

A economia mundial, portanto, crescia a uma taxa explosiva. Na década de 1960, era claro que jamais houvera algo assim. A produção mundial de ma­nufaturas quadruplicou entre o início da década de 1950 e o início da década de 1970, e, o que é ainda mais impressionante, o comércio mundial de pro­dutos manufaturados aumentou dez vezes. Como vimos, a produção agrícola mundial também disparou, embora não espetacularmente. Mal se notava ainda um subproduto dessa extraordinária explosão, embora em retrospecto ele já parecesse ameaçador: a poluição e a deterioração ecológica. Durante a Era de Ouro, isso chamou pouca atenção, a não ser de entusiastas da vida silvestre e outros protetores de raridades humanas e natu­rais, porque a ideologia de progresso dominante tinha como certo que o cres­cente domínio da natureza pelo homem era a medida mesma do avanço da humanidade. Acabou, como sempre, havendo um crash — a Era de Ouro acabou, como os booms anteriores, num colapso de imóveis e bancos —, mas até então os centros das cidades, grandes e pequenos, foram postos abaixo e “incorpo­rados” por todo o mundo, incidentalmente destruindo catedrais medievais em cidades como Worcester na Grã-Bretanha ou capitais coloniais espanholas co­mo Lima, no Peru. Como as autoridades no Oriente e Ocidente também des­cobriram que se podia usar métodos industriais para construir rapidamente conjuntos habitacionais baratos, enchendo os arredores das cidades de prédios de apartamentos visivelmente ameaçadores, a década de 1960 provavelmente ficará como a mais desastrosa na história da urbanização humana.

Não há como negar que o impacto das atividades humanas sobre a natureza, sobretudo as urbanas e industriais, mas também, como se acabou compreendendo, as agrícolas, aumentou acentuadamente a partir de meados do século. Isso se deveu em grande parte ao enorme aumento no uso de combus­tíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural etc.), cujo possível esgotamento vinha preocupando os que pensavam no futuro desde meados do século XIX. Descobriam-se novas fontes mais depressa do que se podia usá-las. O fato de o consumo total de energia ter disparado — na verdade triplicou nos EUA entre 1950 e 1973 — está longe de surpreen­der. Um dos motivos pelos quais a Era de Ouro foi de ouro é que o preço do barril de petróleo saudita custava em média menos de dois dólares durante todo o período de 1950 a 1973, com isso tornando a energia ridiculamente barata, e barateando-a cada vez mais. Ironicamente, só depois de 1973, quando o cartel de produtores de petróleo, a Opep, decidiu finalmente cobrar o que o mercado podia pagar, os ecologistas deram séria atenção aos efeitos da con­seqüente explosão no tráfego movido a petróleo, que já escurecia os céus acima das grandes cidades nas partes motorizadas do mundo, em particular na ame­ricana. A poluição da atmosfera foi, compreensivelmente, a preocupação ime­diata.

II

De início, essa espantosa explosão da economia pareceu apenas uma ver­são gigantesca do que acontecia antes; por assim dizer, uma globalização da situação dos EUA pré-1945, tomando esse país como um modelo de socialidade industrial capitalista. E de certa forma era mesmo. A guerra, com suas demandas de alta tecnologia, preparou vários processos revolucionários para posterior uso civil, embora um pouco mais do lado britânico (depois assumido pelos EUA) que entre os alemães com seu espírito científico: radar, motor a jato e várias idéias e técnicas que prepararam o terreno para a eletrônica e a tecno­logia de informação do pós-guerra. Sem elas o transistor (inventado em 1947) e os primeiros computadores digitais civis (1946) teriam aparecido considera­velmente mais tarde.

Três coisas nesse terremoto tecnológico impressionam o observador. Pri­meiro,ele transformou absolutamente a vida cotidiana no mundo rico e mes­mo, em menor medida, no mundo pobre, no qual o rádio podia agora, graças ao transistor e à miniaturizada bateria de longa duração, chegar às mais remo­tas aldeias. A “revolução verde” transformou o cultivo do arroz e do trigo, e as sandálias de plástico substituíram os pés descalços. Quanto aos produtos que visivelmente representavam novidade tecnoló­gica, a lista é interminável, e não exige comentário. Um aspecto não menos significativo dessas inovações é o sistemático processo de miniaturização de tais produtos, ou seja, a portabilidade,que ampliou imensamente seu alcance e mercado potenciais.

Segundo, quanto mais complexa a tecnologia envolvida, mais complexa a estrada que ia da descoberta ou invenção até a produção, e mais elaborado e dispendioso o processo de percorrê-la. “Pesquisa e Desenvolvimento” [R & D em inglês] tornaram-se fundamentais para o crescimento econômico e, por esse motivo, reforçou-se a já enorme vantagem das “economias de mercado desenvolvidas” sobre as demais. (Como veremos no capítulo 16, a inovação tecnológica não floresceu nas economias socialistas) O “país desenvolvido” típico tinha mais de mil cientistas e engenheiros para cada milhão de habitan­tes na década de 1970, mas o Brasil tinha cerca de 250, a Índia 130, o Pa­quistão uns sessenta, o Quênia e a Nigéria cerca de trinta.

Terceiro,as novas tecnologias eram, esmagadoramente, de capital inten­sivo e (a não ser por cientistas e técnicos altamente qualificados) exigiam pouca mão-de-obra, ou até mesmo a substituíam. A grande característica da Era de Ouro era precisar cada vez mais de maciços investimentos e cada vez menos gente, a não ser como consumidores. O ideal a que aspirava a Era de Ouro, embora só se rea­lizasse aos poucos, era a produção, ou mesmo o serviço, sem seres humanos, robôs automatizados montando carros, espaços silenciosos cheios de bancos de computadores controlando a produção de energia, trens sem maquinistas. Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como com­pradores de bens e serviços. Aí estava o seu problema central.

III

Havia mais no Grande Salto, havia uma substancial reestruturação e reforma do capitalismo e um avanço bastante espetacular na globalização e internacionalização da economia. A primeira produziu uma “economia mista”, que ao mesmo tempo tornou mais fácil aos Estados planejar e administrar a modernização econômica e aumentou enormemente a demanda. As grandes histórias de sucesso econômico em países capitalistas no pós-guerra, com raríssimas exceções (Hong Kong), são histórias de industrialização sustentadas, supervisionadas, orientadas e às vezes planejadas e administradas por governos: da França e Espanha na Europa a Japão, Cingapura e Coréia do Sul. Ao mesmo tempo, o compromisso político de governos com o pleno emprego e — em menor medida — com redução da desigualdade econômica, isto é, um compromisso com a seguridade social e previdenciária, pela primeira vez proporcionou um mercado de consumo de massa para bens de luxo que agora podiam passar a ser aceitos como necessi­dades. Quanto mais pobres as pessoas, maior a proporção da renda que têm de gastar em produtos essenciais, como comida (uma observação sensata conhe­cida como “Lei de Engels”). Na década de 1930, mesmo nos ricos EUA, cerca de um terço dos gastos domésticos ainda se destinava à comida, mas no início da década de 1980 esse índice era de apenas 13%. O resto ficava disponível para outras despesas. A Era de Ouro democratizou o mercado.

A segunda (internacionalização) multiplicou a capacidade produtiva da economia mundial, tor­nando possível uma divisão de trabalho internacional muito mais elaborada e sofisticada. O comércio mundial de manufaturas mul­tiplicou-se por mais de dez em vinte anos após 1953. Os fabricantes, que compunham uma fatia consistente do comércio mundial desde o século XIX, de pou­co menos da metade, agora disparavam para mais de 60%. A Era de Ouro continuou ancorada nas economias dos países-núcleo do capi­talismo — mesmo em termos puramente quantitativos. Em 1957, só os Sete Grandes do capitalismo (Canadá, EUA, Japão, França, Alemanha Federal, Itália e Grã-Bretanha) possuíam três quartos de todos os carros de passageiros do globo, e uma proporção quase igualmente alta de seus telefones. Apesar disso, a nova revo­lução industrial não estava restrita a nenhuma região. A reestruturação do capitalismo e o avanço na internacionalização da economia foram fundamentais.

Por diversos motivos, os políticos, autoridades e mesmo mui­tos dos homens de negócios do Ocidente do pós-guerra se achavam convenci­dos de que um retorno ao laissez-faire e ao livre mercado original estava fora de questão. Alguns objetivos políticos — pleno emprego, contenção do comu­nismo, modernização de economias atrasadas, ou em declínio, ou em ruínas — tinham absoluta prioridade e justificavam a presença mais forte do governo. Mesmo regimes dedicados ao liberalismo econômico e político podiam agora, e precisavam, dirigir suas economias de uma maneira que antes seria rejeitada como “socialista”. Afinal, fora assim que a Grã-Bretanha e mesmo os EUA haviam orientado suas economias de guerra. O futuro estava na “economia mista”.

IV

A supremacia americana era, claro, um fato. A pressão política por ação vinha de Washington, mesmo quando muitas idéias e iniciativas partiam da Grã-Bretanha, e onde as opiniões divergiram, como na discordância entre Keynes e o porta-voz americano Harry White, sobre o novo Fundo Monetário Internacional (FMI), em que os EUA prevaleceram. Contudo, o plano original para a nova ordem econômica mundial via essa supre­macia como parte de uma nova ordem política mundial, também planejada durante os últimos anos da guerra como as Nações Unidas, e só depois que o modelo original da ONU desmoronou, na Guerra Fria, as duas únicas instituições internacionais de fato criadas sob os Acordos de Bretton Woods de 1944, o Banco Mundial (“Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento”) e o FMI, ambos ainda existentes, tornaram-se de facto subordinadas à política americana. A proposta Organização do Comércio Internacional tornou-se o muito mais modesto Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), uma estrutura para redu­zir barreiras comerciais por meio de barganhas periódicas.

Em suma, na medida em que tentavam construir um conjunto de institui­ções funcionais para dar vida a seus projetos, os planejadores do admirável mundo novo fracassaram. O mundo não emergiu da guerra sob a forma de um eficiente sistema internacional, multilateral, de livre comércio e pagamentos, e as medidas americanas para estabelecê-lo desabaram dois anos após a vitória. Na prática, a Era de Ouro foi a era do livre comércio, livres movimentos de capital e moedas estáveis que os planejadores do tempo da guerra tinham em mente. Sem dúvida isso se deveu basicamente à esmagadora dominação econô­mica dos EUA e do dólar, que funcionou como estabilizador por estar ligado a uma quantidade específica de ouro, até a quebra do sistema em fins da década de 1960 e princípios da de 1970. Deve-se ter sempre em mente que em 1950 só os EUA tinham mais ou menos 60% de todo o estoque de capital de todos os paí­ses capitalistas avançados, produziam mais ou menos 60% de toda a produção deles, e mesmo no auge da Era de Ouro (1970) ainda detinham mais de 50% do estoque total de capital de todos esses países e eram responsáveis por mais da metade de sua produção.

É notável que numa era de espetacular crescimento econô­mico e crescente escassez de mão-de-obra, e num mundo ocidental dedicado a livres movimentos na economia, os governos resistissem à livre imigração, e, quando de fato começaram a permiti-la, acabassem por interrompê-la. Mesmo na Era de Ouro a imigração era uma questão politicamente delicada. Nas difíceis déca­das após 1973, ia levar a uma aguda elevação da xenofobia pública na Europa. Começou a surgir, sobretudo a partir da década de 1960, uma economia cada vez mais transnacional, ou seja, um sistema de atividades econômicas para as quais os territórios e fronteiras de Estados não constituem o esquema operatório básico, mas apenas fatores complicadores.

Três aspectos dessa transnacionalização foram particularmente óbvios: as empresas transnacionais (muitas vezes conhecidas como “multinacionais”), a nova divisão internacional do trabalho e o aumento de financiamento offshore (externo). Este último foi não só uma das primeiras formas de transnaciona­lismo a desenvolver-se, mas também uma das que demonstraram mais vivida­mente a maneira como a economia capitalista escapava do controle nacional, ou de qualquer outro. O termo offshore entrou no vocabulário público civil a certa altura da dé­cada de 1960, para descrever a prática de registrar a sede legal da empresa num território fiscal generoso, em geral minúsculo, que permitia aos empresários evitar os impostos e outras restrições existentes em seu próprio país. Por motivos óbvios, a prática do offshore prestava-se particularmente a transações financeiras.

Em dado momento da década de 1960, um pouco de engenhosidade transformou o velho centro internacional financeiro, a City de Londres, num grande centro offshore global, com a invenção da “euromoeda”, ou seja, sobretudo “eurodólares”. Os dólares depositados em bancos não americanos e não repatriados, sobretudo para evitar as restrições da legislação bancária ame­ricana, tornaram-se um instrumento financeiro negociável. Esses dólares em livre flutuação, acumulando-se em grandes quantidades graças aos crescentes investimentos americanos no exterior e aos enormes gastos políticos e milita­res do governo dos EUA, se tornaram a fundação de um mercado global, sobre­tudo de empréstimos a curto prazo, que escapava a qualquer controle. Seu crescimento foi sensacional. O mercado de euromoeda líquida subiu de cerca de 14 bilhões de dólares em 1964 para aproximadamente 160 bilhões em 1973 e quase 500 bilhões cinco anos depois, quando esse mercado se tornou o prin­cipal mecanismo para reciclar o Klondike de lucros do petróleo que os países da OPEP de repente se viram imaginando como gastar e investir. Os EUA foram o primeiro país a se ver à mercê dessas vastas e multiplicantes enxurradas de capital solto que varriam o globo de moeda em moeda, em busca de lucros rápidos. Todos os governos acabaram sendo vítimas disso, pois perderam o controle das taxas de câmbio e do volume de dinheiro em circu­lação no mundo. Em princípios da década de 1990, até mesmo a ação conjunta de grandes bancos centrais revelou-se impotente.

Uma nova divisão internacional do trabalho, portanto, começou a solapar a antiga. A empresa alemã Volkswagen instalou fábricas na Argentina, Brasil (três), Canadá, Equador, Egito, México, Nigéria, Peru, África do Sul e Iugoslávia – como sempre, sobretudo após meados da década de 1960. Novas indústrias do Terceiro Mundo abasteciam não apenas os crescentes mercados locais, mas também o mercado mundial. Podiam fazer isso tanto exportando artigos inteira­mente produzidos pela indústria local (como os têxteis, a maioria dos quais em 1970 tinha emigrado dos velhos países para os “em desenvolvimento”), quanto tornando-se parte de um processo transnacional de manufatura.

Essa foi a inovação decisiva da Era de Ouro, embora só atingisse plena­mente a maioridade depois. Isso só poderia ter acontecido graças à revolução no transporte e na comunicação, que tornou possível e economicamente factível dividir a produção de um único artigo entre, digamos, Houston, Cingapura e Tailândia, transportando por frete aéreo o produto parcialmente completo en­tre esses centros e controlando centralmente todo o processo com a moderna tecnologia de informação. Grandes fabricantes de produtos eletrônicos come­çaram a globalizar-se a partir de meados da década de 1960. A linha de pro­dução cruzava agora não hangares gigantescos num único local, mas o glo­bo. Algumas delas paravam nas extraterritoriais “zonas francas” ou fábricas offshore, que agora começavam a espalhar-se, esmagadoramente pelos países pobres com mão-de-obra barata, e sobretudo feminina e jovem, outro novo artifício para escapar ao controle de um só Estado. Assim, uma das primeiras, Manaus, no interior da floresta amazônica, fabricava artigos têxteis, brinque­dos, produtos de papel, eletrônicos e relógios digitais para empresas america­nas, holandesas e japonesas.

Tudo isso produziu uma mudança paradoxal na estrutura política da eco­nomia mundial. À medida que o globo se tornava sua unidade real, as econo­mias nacionais dos grandes Estados foram dando lugar a tais centros offshore, a maioria situada nos pequenos ou minúsculos míni-Estados que se haviam convenientemente multiplicado quando os velhos impérios coloniais se despe­daçaram. No fim do Breve Século XX, o mundo, segundo o Banco Mundial, possuía 71 economias com populações de menos de 2,5 milhões de habitantes (dezoito delas com populações de menos de 100 mil), ou seja, dois terços de todas as unidades políticas oficialmente tratadas como “economias”. Até a Segunda Guerra Mundial, essas unidades eram encaradas como piadas econômicas, e na verdade nem como Estados de fato.

Eram e certamente são incapazes de defender sua independência nominal na selva internacional, mas na Era de Ouro se tornou evidente que podiam flores­cer tanto quanto e às vezes mais que grandes economias nacionais, oferecendo serviços diretamente à economia global. Daí o surgimento de novas cidades-Estado (Hong Kong, Cingapura), uma forma de organização política que flores­cera pela última vez na Idade Média; pedaços do deserto do golfo Pérsico foram transformados em grandes participantes no mercado de investimento global (Kuwait), e dos muitos refúgios offshore da legislação de Estado.

V

Era natural que a indústria se transferisse de locais de mão-de-obra cara para outros onde ela era barata assim que isso se tornasse possível e economi­camente viável. Contudo, havia um motivo particularmente convincente para o boom da Era de Ouro provocar o abando­no dos países-núcleo da velha industrialização. Um arranjo triangular, com os governos, formal ou informalmente, presidindo as negociações institucionalizadas entre capital e trabalho, agora habitualmente descritos, pelo menos na Alemanha, como “par­ceiros sociais”.

Á guerra se seguiram, em toda parte, governos fortemente reformis­tas, rooseveltiano nos EUA, dominados pelos social-democratas em pratica­mente toda a Europa Ocidental ex-beligerante, com exceção da Alemanha Oci­dental ocupada (onde não houve instituições nem eleições independentes até 1949). O grande boom da década de 1950 foi presidido, quase em toda parte, por governos de conservadores moderados. Nos EUA (a partir de 1952), Grã-Bretanha (de 1951), França (a não ser por breves episódios de coa­lizão), Alemanha Ocidental, Itália e Japão, a esquerda estava inteiramente fora do poder.

Na década de 1960, o centro de gravidade do consenso mudou para a esquerda; talvez em parte devido ao crescente recuo do liberalismo econômico diante da administração keynesiana, mesmo em bastiões anticoletivistas como a Bélgica e a Alemanha Ocidental, talvez em parte porque os velhos senhores que presidiam a estabilização e ressurreição do sistema capitalista deixaram a cena — Dwight Eisenhower (nascido em 1890) em 1960, Konrad Adenauer (n. 1876) em 1965, Harold Macmillan (n. 1890) em 1964. Mesmo o grande general De Gaulle (n. 1890) acabou partindo. Verificou-se certo rejuvenesci­mento da política.

Há um claro paralelismo entre a mudança para a esquerda e os acontecimentos públicos mais significativos da década, ou seja, o apareci­mento de Estados de Bem-estar no sentido literal da palavra, quer dizer, Estados em que os gastos com a seguridade social — manutenção de renda, assistência, educação — se tornaram a maior parte dos gastos públicos totais, e as pessoas envolvidas em atividades de seguridade social formavam o maior corpo de todo o funcionalismo público — por exemplo, em meados da década de 1970, 40% na Grã-Bretanha e 47% na Suécia. Os primei­ros Estados de Bem-estar, nesse sentido, apareceram por volta de 1970. Claro, o declínio dos gastos militares durante os anos da détente fez aumentar automaticamente a proporção de gastos em outros setores. No fim da dé­cada de 1970, todos os Estados capitalistas avançados se haviam tornado “Estados do Bem-estar” desse tipo, com seis deles gastando mais de 60% de seus orçamentos na seguridade social (Austrália, Bélgica, França, Alemanha Ocidental, Itália, Países Baixos). Isso iria produzir consideráveis problemas após o fim da Era de Ouro.

Enquanto isso, a política das “economias de mercado desenvolvidas” parecia tranqüila, se não sonolenta. Que havia de excitante, a não ser o comu­nismo, os perigos de guerra nuclear e as crises internas que as atividades impe­riais no exterior traziam, como a aventura de Suez de 1956, na Grã-Bretanha, a Guerra da Argélia, na França (1954-61), e, depois de 1965, a Guerra do Vietnã, nos EUA? Foi por isso que a súbita e quase mundial explosão de radi­calismo estudantil em 1968 e por volta dessa data pegou tão de surpresa os políticos e os intelectuais mais velhos.

Era um sinal de que o equilíbrio da Era de Ouro não podia durar. Eco­nomicamente, esse equilíbrio dependia de uma coordenação entre o cres­cimento da produção e os ganhos que mantinham os lucros estáveis. Um afrouxamento na ascensão contínua de produtividade e/ou um aumento des­proporcional nos salários resultariam em desestabilização. Durante a década de 1960, tudo isso dava sinais de desgaste. A hegemo­nia dos EUA declinou e, enquanto caía, o sistema monetário com base no dólar-ouro desabou. Houve alguns sinais de diminuição na produtividade da mão-de-obra em vários países. Qualquer que tenha sido a situação responsável pela “explosão mundial de salários” no fim da década de 1960, tudo se assentava na descoberta, feita por uma geração de trabalhadores acostumados a ter ou conseguir emprego, de que os regulares e bem-vindos aumentos há tanto negociados por seus sindicatos eram na verdade muito menos do que se podia arrancar do mercado.

Uma vez que era diretamente relevante para o modo como a economia funcionava, a mudança no estado de espírito dos trabalhadores teve muito mais peso que a grande explosão de agitação estudantil em 1968 e por volta dessa data, embora os estudantes oferecessem material mais sensacional para os meios de comunicação e muito mais alimento para os comentaristas. A rebe­lião estudantil foi um fenômeno fora da economia e da política.

Portanto, 1968 não foi nem um fim, nem um princípio, mas apenas um sinal. Ao contrário da explosão salarial, do colapso do sistema financeiro inter­nacional de Bretton Woods em 1971, do boom de produtos de 1972-3 e da crise da OPEP de 1973, não entra muito na explicação dos historiadores econô­micos sobre o fim da Era de Ouro. Seu fim não era exatamente inesperado. A expansão da economia no início da década de 1970, acelerada por uma inflação em rápida ascensão, maciços aumentos nos meios circulantes do mundo, e pelo vasto déficit americano, tornou-se febril. No jargão dos economistas, o sistema ficou “superaquecido”. Nos dozes meses a partir de julho de 1972, o PIB real nos países da OCDE subiu 7,5%, e a produção industrial real 10%.’Historiadores que não esqueceram como terminou o grande boom médio-vitoriano bem poderiam ter se perguntado se o sistema não se encaminhava para uma queda. Teriam estado certos, embora eu não creia que alguém tenha previsto a queda de 1974. E essa foi uma grande mudança. A econo­mia mundial não recuperou seu antigo ritmo após o crash. Uma era chegava ao fim. As décadas a partir de 1973 seriam de novo uma era de crise.

A Era de Ouro perdeu o seu brilho. Apesar disso, iniciara, na verdade rea­lizara, a mais impressionante, rápida e profunda revolução nos assuntos huma­nos de que a história tem registro. Para isso vamos nos voltar agora.

3.A Revolução Social

I

O mundo, ou seus aspectos relevantes, tornou-se pós-industrial, pós-imperial, pós-moderno, pós-estruturalista, pós-marxista, pós-Gutenberg, qualquer coisa. Como os funerais, esses prefixos tomaram conhecimento oficial da morte sem implicar qualquer con­senso, ou na verdade certeza, sobre a natureza da vida após a morte. Assim a transformação mais sensacional, rápida e universal na história humana entrou na consciência das mentes pensadoras que a viveram. Essa transformação é o tema do presente capítulo.

A novidade dessa transformação está tanto em sua extraordinária rapidez quanto em sua universalidade. Claro, as partes desenvolvidas do mundo, isto é, para fins práticos, as partes central e ocidental da Europa e a América do Norte, além de uma pequena faixa de ricos e cosmopolitas em toda parte, há muito viviam num mundo de constante mudança, transformação tecnológica e inovação cultural.

De fato, a rapidez da mudança foi tal que o tempo histórico podia ser medido em intervalos ainda mais curtos. Menos de dez anos (1962-71) separaram uma Cusco onde, fora dos limites da cidade, a maioria dos homens índios ainda usava tra­jes tradicionais de uma Cusco onde uma substancial proporção deles já usava o cholo, isto é, roupas européias. No fim da década de 1970, barraqueiros na feira de uma aldeia mexicana já faziam as contas de seus clientes em peque­nas calculadoras de bolso japonesas, ali desconhecidas no início da década.

A mudança social mais impressionante e de mais longo alcance da segun­da metade deste século, e que nos isola para sempre do mundo passado, é a morte do campesinato. Pois desde a era neolítica a maioria dos seres huma­nos vivia da terra e seu gado ou recorria ao mar para a pesca. Contudo, vejam o que aconteceu no terceiro quartel do século. Talvez não seja demasiado surpreendente o fato de que, no início da década de 1980, menos de três em cada cem britânicos ou belgas estavam na agricultura. O que poucos na década de 1940 poderiam prever era que, no início da de 1980, nenhum país a oeste das fronteiras da “cortina de ferro” tivesse mais de 10% de sua população na atividade agrícola, com exce­ção da República da Irlanda (que estava apenas um pouco acima deste número) e dos Estados ibéricos.

Só três regiões do globo permaneceram essencialmente dominadas por aldeias e campos: a África subsaariana, o sul e o sudeste da Ásia continental e a China. Apenas nessas regiões era possível encontrar países que tinham passado ao largo do declínio dos agricultores, nos quais os que plantavam e cuidavam de animais continuaram sendo durante todas as tempestuosas décadas uma propor­ção constante da população — mais de 90% no Nepal, cerca de 70% na Libéria, cerca de 60% em Gana, ou mesmo, um tanto surpreendentemente, cerca de 70% na Índia durante todos os 25 anos após a independência e um pouco menos (66,4%) mesmo em 1981. Essas regiões de dominação camponesa ainda representavam reconhecidamente metade da raça humana no fim do nosso período. Contudo, mesmo elas já desmoronavam pelas bordas sob as pressões do desen­volvimento econômico.

Como vimos (capítulo 9), os países industriais desenvolvidos, com uma ou duas exceções, também se transformaram nos grandes produtores agrícolas para o mer­cado mundial, e fizeram isso enquanto reduziam sua população agrícola a uma porcentagem pequena, e às vezes absurdamente minúscula, de seu povo. Isso foi conseguido graças a uma extraordinária explosão de produtividade per capita, de capital intensivo, promovida pelos agricultores. O aspecto imediato mais visível foi a expressiva quantidade de maquinário que o agricultor em países ricos e desenvolvidos tinha agora à sua disposição, e que realizava os grandes sonhos de abundância com a agricultura mecanizada.

Nas regiões pobres do mundo, a revolução agrícola não esteve ausente, embora fosse mais irregular. Na verdade, não fosse pela irrigação e a contribuição da ciência, através da chamada “revolução verde”, por mais controvertidas que possam ser as conseqüências de ambas a longo prazo, grandes partes do sudeste e sul da Ásia teriam sido incapazes de alimentar uma popu­lação que se multiplicava velozmente.

Quando o campo se esvazia, as cidades se enchem. O mundo da segunda metade do século XX tornou-se urbanizado como jamais fora. Em meados da década de 1980, 42% de sua população era urbana, e, não fosse o peso das enormes populações rurais da China e da Índia, que totalizavam três quartos de camponeses asiáticos, teria sido maioria. Na Ásia, multiplicaram-se as cidades de muitos milhões de habitantes, em geral capitais. Seul, Teerã, Karachi, Jacarta, Manila, NovaDélhi, Bancoc, todas tinham entre 5 milhões e 8 milhões de habitantes em 1980, e esperava-se que tivessem entre 10 milhões e 13,5 milhões no ano 2000. Em 1950, nenhuma delas (com exceção de Jacarta) tinha mais que cerca de 1,5 milhão. De fato, de longe as mais gigantescas aglomerações urbanas no fim da década de 1980 eram encon­tradas no Terceiro Mundo: Cairo, Cidade do México, São Paulo e Xangai, cujas populações se contavam na casa das dezenas de milhões. Pois, parado­xalmente, embora o mundo desenvolvido continuasse muito mais urbanizado que o mundo pobre (a não ser por partes da América Latina e da zona islâ­mica), suas cidades gigantescas se dissolviam.

II

Quase tão dramático quanto o declínio e queda do campesinato, e muito mais universal, foi o crescimento de ocupações que exigiam educação secun­dária e superior. A educação primária universal, isto é, a alfabetização básica, era na verdade a aspiração de todos os governos, tanto assim que no fim da década de 1980 só os Estados mais honestos e desvalidos admitiam ter até metade de sua população analfabeta, e só dez — todos, com exceção do Afeganistão, na África — estavam dispostos a admitir que menos de 20% de sua população sabia ler e escrever.

Tudo isso era não apenas novo, mas bastante súbito. O fato mais impres­sionante extraído do estudo dos universitários latino-americanos em meados da década de 1960 é que eram tão poucos em número. E isso apesar do fato de que os núme­ros deles vinham crescendo cerca de 8% ao ano. Na verdade, só na década de 1960 se tornou inegável que os estudantes tinham constituído, social e politi­camente, uma força muito mais importante do que jamais haviam sido, pois em 1968 as explosões de radicalismo estudantil em todo o mundo falaram mais alto que as estatísticas.

Na verdade, as famílias corriam a pôr os filhos na educação superior sem­pre que tinham a opção e a oportunidade, porque esta era de longe a melhor chance de conquistar para eles uma renda melhor e, acima de tudo, um status social superior. Dos estudantes latino-americanos entrevistados por pesquisa­dores americanos em meados da década de 1960 em vários países, entre 79% e 95% estavam convencidos de que o estudo os colocaria numa classe social superior dentro de dez anos.

Se houve um momento, nos anos de ouro posteriores a 1945, que correspondeu ao levante mundial simultâneo com que os revolucionários sonhavam após 1917, foi sem dúvida 1968, quando os estudantes se rebelaram desde os eua e o México, no Ocidente, até a Polônia, Tchecoslováquia e Iugoslávia, socialistas, em grande parte estimulados pela extraordinária irrupção de maio de 1968 em Paris, epicentro de um levante estudantil continental. Estava longe de ser a revolução, embora fosse consideravelmente mais que o “psicodrama” ou “tea­tro de rua” descartado por observadores velhos e não simpatizantes como Raymond Aron. Afinal, 1968 encerrou a era do general De Gaulle na França, de presidentes democratas nos eua, as esperanças de comunismo liberal na Europa Central comunista e (pelos silenciosos efeitos posteriores do massacre de estudantes de Tlatelolco) assinalou o início de uma nova era na política mexicana.

O motivo pelo qual 1968 (com seu prolongamento em 1969 e 1970) não foi a revolução, e jamais pareceu que seria ou poderia ser, era que apenas os estudantes, por mais numerosos e mobilizáveis que fossem, não podiam fazê-la sozinhos. A efetividade política deles estava em sua capacidade de agir como sinais e detonadores para grupos maiores mas que se inflamavam com menos facilidade. A partir da década de 1960, tiveram alguns êxitos nessa atuação. Provocaram enormes ondas de greves operárias na França e Itália em 1968, mas, após vinte anos de melhoria sem paralelos para os assalariados em economias de pleno emprego, revolução era a última coisa em que as massas proletárias pensavam.

III

Ao contrário das populações do campo e universitárias, as classes operá­rias industriais não sofreram terremotos demográficos até que, na década de 1980, começaram a declinar muito visivelmente. Isso é surpreendente, consi­derando-se o quanto se falava, mesmo da década de 1950 em diante, numa “sociedade pós-industrial”; considerando-se como foram revolucionárias, de fato, as transformações técnicas da produção, a maioria das quais economizou, afastou ou eliminou a mão-de-obra humana; e considerando-se como os parti­dos e movimentos baseados na classe operária entraram obviamente em crise após 1970 ou por volta dessa data. Contudo, a impressão generalizada de que de alguma forma a velha classe operária industrial estava morrendo era esta­tisticamente errada, pelo menos em escala global.

Com a única grande exceção dos EUA, as classes operárias industriais continuaram bastante está­veis durante todos os anos dourados mesmo nos velhos países industriais, constituindo cerca de um terço da população empregada. Naturalmente, cresceu nas partes recém-industrializadas da Europa (não comunista), e depois permaneceu estável até 1980, enquanto no Japão subiu de maneira impressionante, permanecendo bastante estável nas décadas de 1970 e 1980. Nos países comunistas que passavam por rápida industrialização, notadamente na Europa Oriental, o número de prole­tários multiplicou-se mais rápido que nunca, o mesmo ocorrendo nas partes do Terceiro Mundo que encetaram sua própria industrialização — Brasil, México, Índia, Coréia e outros. Em suma, no fim dos anos dourados havia sem dúvida mais operários no mundo, em números absolutos, e quase com certeza maior proporção de empregados em manufatura na população global do que jamais houvera antes.

A ilusão de uma classe operária em colapso se deveu mais a mudanças dentro dela, e dentro do processo de produção, do que a uma hemorragia demográfica. As velhas indústrias do século XIX e inícios do XX declinaram, e sua própria visibilidade no passado, quando muitas vezes simbolizavam a “indústria”, tornou mais impressionante o seu declínio. Os mineiros de car­vão, que outrora se contavam às centenas de milhares, passaram a ser menos comuns que os formados por universidades. A indústria siderúrgica americana agora empregava menos pessoas que as lanchonetes McDonald’s. Velhas áreas industriais torna­ram-se “cinturões de ferrugem” — termo inventado nos EUA na década de 1970 —, ou mesmo países inteiros identificados com uma fase anterior da indústria, como a Grã-Bretanha, foram largamente desindustrializados, trans­formando-se em museus vivos ou agonizantes de um passado desaparecido, que empresários exploravam, com certo êxito, como atrações turísticas.

Claro, as classes operárias acabaram — e de maneira muito clara após a década de 1990 — tornando-se vítimas das novas tecnologias; sobretudo os homens e mulheres não qualificados das linhas de produção em massa, que po­diam ser mais facilmente substituídos por maquinário automatizado. As crises econômicas do início da década de 1980 recriaram o desemprego em massa pela primeira vez em quarenta anos, pelo menos na Europa.

Era uma crise não de classe, mas de sua consciência. No fim do século XIX (ver A era dos impérios, capítulo 5), as próprias populações misturadas e heterogêneas que ganhavam a vida nos países desenvolvidos vendendo seu trabalho braçal por salários aprenderam a ver-se como uma única classe traba­lhadora, e a encarar esse fato como de longe a coisa mais importante em sua situação como seres humanos na sociedade. Eram unidos também por maciça segregação social, por estilos de vida ou até de roupas diferenciados e pela limitação de oportunidades de vida, que os separavam da camada de trabalhadores de escritórios, socialmente mais mó­veis, se bem que economicamente também apertados. Eram unidos, por fim, pelo elemento central de suas vidas, a coletividade: o domínio do “nós” sobre o “eu”. O que dava aos partidos e movimentos ope­rários sua força original era a justificada convicção dos trabalhadores de que pessoas como eles não podiam melhorar sua sorte pela ação individual, mas só pela ação coletiva, de preferência através de organizações, fosse pela ajuda mútua, a greve ou o voto.

Na maioria dos aspectos, essa consciente coesão operária atingiu o auge, nos países desenvolvidos mais antigos, no fim da Segunda Guerra Mundial. Durante as décadas de ouro quase todos os seus elementos foram minados. A combinação de boom secular, pleno emprego e uma sociedade de autêntico consumo de massa transformou totalmente a vida dos operários nos países desenvolvidos, e continuou transformando-a. A televisão tornava desnecessário ir ao jogo de futebol, do mesmo modo como tv e vídeo tornaram desnecessá­rio ir ao cinema, ou os telefones substituíam as fofocas com amigos na praça ou na feira. Os sindicalistas ou membros de partidos que outrora iam às assem­bléias locais ou reuniões políticas porque, entre outras coisas, isso era também uma espécie de diversão ou entretenimento agora podiam pensar em formas mais atraentes de passar o tempo, a não ser nos casos excepcionais dos mili­tantes. A prosperidade e a privatização destruíram o que a pobreza e a coletividade na vida pública haviam construído.

IV

Uma grande mudança que afetou a classe operária, e também a maioria de outros setores das sociedades desenvolvidas, foi o papel impressionante­mente maior nela desempenhado pelas mulheres; e sobretudo — fenômeno novo e revolucionário — as mulheres casadas. A mudança foi de fato sensa­cional. Em 1940, as mulheres casadas que viviam com os maridos e trabalha­vam por salário somavam menos de 14% do total da população feminina dos EUA. Em 1980, eram mais da metade: a porcentagem quase duplicou entre 1950 e 1970.

As mulheres também entraram, e em número impressionantemente cres­cente, na educação superior, que era agora a mais óbvia porta de acesso às profissões liberais. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, elas cons­tituíam entre 15% e 20% de todos os estudantes na maioria dos países desen­volvidos, com exceção da Finlândia — um farol de emancipação feminina — onde já somavam quase 43%. Mesmo em 1960, em parte nenhuma da Europa e da América do Norte elas eram metade dos estudantes, embora a Bulgária — outro, e menos amplamente alardeado, país pró-mulheres — já quase alcan­çasse essa cifra. Contudo, em 1980 metade ou mais da metade de todos os estudantes eram mulheres nos EUA, Canadá e seis países socialistas, encabeçados pela Alemanha Oriental e a Bulgária, e em apenas quatro países europeus elas constituíam então menos de 40% (Grécia, Suíça, Turquia e Reino Unido). Numa palavra, o estudo superior era agora tão comum entre as moças quanto entre os rapazes.

A entrada em massa de mulheres casadas — ou seja, em grande parte mães — no mercado de trabalho e a sensacional expansão da educação supe­rior formaram o pano de fundo, pelo menos nos países ocidentais típicos, para o impressionante reflorescimento dos movimentos feministas a partir da década de 1960. Embora esses movimentos pertencessem, essencialmente, ao ambiente de classe média educada, é provável que na década de 1970, e sobre­tudo na de 1980, uma forma política e ideologicamente menos específica de consciência feminina se espalhasse entre as massas do sexo (que as ideólogas agora insistiam que devia chamar-se “gênero”), muito além de qualquer coisa alcançada pela primeira onda de feminismo.

De qualquer modo, os motivos pelos quais as mulheres em geral, e sobretudo as casadas, mergulharam no trabalho pago não tinham relação necessária com sua visão da posição social e dos direitos das mulheres. Talvez se devessem à pobreza, à preferência dos patrões por operárias, por serem mais baratas e mais dóceis, ou simplesmente ao crescente número — sobretudo no mundo depen­dente — de famílias chefiadas por mulheres. A migração em massa da mão-de-obra masculina, como do campo para as cidades da África do Sul, ou de partes da África e Ásia para os Estados do golfo Pérsico, inevitavelmente dei­xou as mulheres chefiando a economia familiar em casa. Tampouco devemos esquecer os apavorantes massacres das grandes guerras, que deixaram a Rús­sia pós-1945 com cinco mulheres para cada três homens.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a sucessão de qualquer mulher à liderança de qualquer república, em quaisquer circunstâncias, teria sido encarada como politicamente impensável. Após 1945, tornou-se politicamente possível — Sirimavo Bandaranaike no Sri Lanka tornou-se a primeira primeira-ministra do mundo em 1966 — e em 1990 mulheres eram ou tinham sido chefes de governo em dezesseis Estados.

Além disso, nas décadas de 1950 e 1960 a própria demanda para romper a esfera doméstica e entrar no mercado de trabalho tinha entre as mulheres casadas prósperas e educadas da classe média uma forte carga ideológica que não tinha para outras, pois suas motivações nesses ambientes raramente eram econômicas. Entre as pobres, ou as de orçamento apertado, as mulheres casa­das saíram para trabalhar após 1945 porque, para pôr a coisa em termos sim­ples, os filhos não mais o faziam. O trabalho infantil no Ocidente quase desa­parecera, enquanto, ao contrário, a necessidade de dar aos filhos uma educa­ção que melhorasse suas perspectivas colocava sobre os pais um grande fardo financeiro por mais tempo que antes. Em suma, como já foi dito, no passado os filhos trabalhavam para que as mães pudessem ficar em casa cumprindo res­ponsabilidades domésticas e reprodutivas.

Nos países desenvolvidos, o feminismo de classe média, ou o movimento de mulheres educadas ou intelectuais, alargou-se numa espécie de sensação genérica de que chegara a hora da liberação feminina, ou pelo menos da auto-afirmação das mulheres. As mulheres foram cruciais nessa revolução cultural, que girou em torno das mudanças na família tradicional e nas ativi­dades domésticas — e nelas encontraram expressão — de que as mulheres sempre tinham sido o elemento central.

Para isso temos de nos voltar agora.

4.Revolução Cultural

I

A melhor abordagem dessa revolução cultural é portanto através da famí­lia e da casa, isto é, através da estrutura de relações entre os sexos e gerações. O número de pessoas vivendo sós (isto é, não como membro de nenhum casal ou família maior) também começou a disparar para cima. Na Grã-Bre­tanha, permaneceu em grande parte o mesmo durante o primeiro terço do século, cerca de 6% de todas as casas, subindo muito suavemente daí em diante. Contudo, entre 1960 e 1980, a porcentagem quase duplicou de 12% para 22% de todas as casas, e em 1991 era mais de um quarto. Em muitas grandes cidades oci­dentais, elas somavam cerca de metade de todas as casas. Por outro lado, a família nuclear ocidental clássica, o casal casado com filhos, estava em visível retração. Nos EUA, essas famílias caíram de 44% de todas as casas para 29% em vinte anos (1960-80); na Suécia, onde quase metade de todos os partos em meados da década de 1980 foi de mulheres solteiras, de 37% para 25%. Mesmo nos países desenvolvidos onde ainda formavam mais de metade de todas as casas em 1960 (Canadá, Alemanha Federal, Países Baixos, Grã-Bretanha), eram agora uma clara minoria.

A crise da família estava relacionada com mudanças bastante dramáticas nos padrões públicos que governam a conduta sexual, a parceria e a procria­ção. Eram tanto oficiais quanto não oficiais, e a grande mudança em ambas está datada, coincidindo com as décadas de 1960 e 1970. Oficialmente, essa foi uma era de extraordinária liberalização tanto para os heterossexuais (isto é, sobretudo para as mulheres, que gozavam de muito menos liberdade que os homens) quanto para os homossexuais, além de outras formas de dissidência cultural-sexual.

II

Pois se divórcio, nascimentos ilegítimos e o aumento de famílias com um só dos pais (isto é, esmagadoramente de mães solteiras) indicavam uma crise na relação entre os sexos, o aumento de uma cultura juvenil específica, e extraordinariamente forte, indicava uma profunda mudança na relação entre as gerações. A juventude, um grupo com consciência própria que se estende da puberdade — que nos países desenvolvidos ocorria vários anos mais cedo que nas gerações anteriores — até a metade da casa dos vinte, agora se tornava um agente social independente. Ninguém com a mínima experiência das limitações da vida real, ou seja, nenhum adulto, poderia ter idealizado os slogans confiantes, mas patentemente absurdos, dos dias parisienses de maio de 1968, nem do “outono quente” de 1969: “tutto e subito”, queremos tudo e já.

A nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve para­lelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juven­tude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro de cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo um ideal típico, no que se tor­nou a expressão cultural característica da juventude — o rock.Buddy Holly, Janis Joplin, Brian Jones, membro dos Rolling Stones, Bob Marley, Jimi Hendrix e várias outras divindades populares caíram vítimas de um estilo de vida fadado à morte precoce. O que tornava simbólicas essas mortes era que a juventude por eles representada era transitória por definição. Ser ator pode ser uma carreira duradoura, mas não ser um jeune premier.

O meio burguês esperava que seus rapazes — diferentemente das moças — passassem por um período de turbu­lência e “cabeçadas”, antes de “assentar-se”. A novidade da nova cultura juve­nil era tripla. Primeiro, a “juventude” era vista não como um estágio preparatório para a vida adulta, mas, em certo sentido, como o estágio final do pleno desenvolvi­mento humano. Como no esporte, atividade em que a juventude é suprema, e que agora definia as ambições de mais seres humanos do que qualquer outra, a vida claramente ia ladeira abaixo depois dos trinta. Na melhor das hipóteses, após essa idade restava um pouco de interesse. O fato de que isso não corres­pondesse, de fato, a uma realidade social em que (com exceção do esporte, algumas formas de diversão e talvez a matemática pura) poder, influência e rea­lização, além de riqueza, aumentavam com a idade, provava, uma vez mais, que o mundo estava organizado de forma insatisfatória. Pois até a década de 1970 o mundo do pós-guerra era na verdade governado por uma gerontocracia, em maior medida do que na maioria dos períodos anteriores, sobretudo por homens — dificilmente por mulheres ainda — que já eram adultos no fim, ou mesmo no começo, da Primeira Guerra Mundial. Isso se aplicava tanto ao mundo capi­talista (Adenauer, De Gaulle, Franco, ChurChill) quanto ao comunista (Stalin e Kruschev, Mao, Ho Chi Minh, Tito), bem como aos grandes Estados pós-coloniais (Gandhi, Nehru, Sukarno). Um líder com menos de quarenta anos era uma raridade mesmo em regimes revolucionários surgidos de golpes militares, um tipo de mudança política em geral promovida por jovens oficiais subalternos, porque esses têm menos a perder que os mais graduados. Daí muito do impacto internacional de Fidel Castro, que tomou o poder com 32 anos.

A segunda novidade da cultura juvenil provém da primeira: ela era ou tornou-se dominante nas “economias de mercado desenvolvidas”, em parte porque representava agora uma massa concentrada de poder de compra, em parte porque cada nova geração de adultos fora socializada como integrante de uma cultura juvenil autoconsciente, e trazia marcas dessa experiência, e não menos porque a espantosa rapidez da mudança tecnológica na verdade dava à juventude uma vantagem mensurável sobre grupos etários mais conservadores, ou pelo menos inadaptáveis. O que os filhos podiam aprender com os pais tornou-se menos óbvio do que o que os pais não sabiam e os filhos sim. Inverteram-se os papéis das gerações.

A terceira peculiaridade da cultura jovem nas sociedades urbanas foi seu espantoso internacionalismo. O blue jeans e o rock se tornaram marcas da juventude “moderna”, das minorias destinadas a tornar-se maiorias. Letras de rock em inglês muitas vezes nem eram traduzidas. Isso refletia a esmagadora hegemonia cultural dos EUA na cultura popular e nos estilos de vida. Essa hegemonia cultural não era nova, mas seu modus operandi mudara. Entre as guerras, seu principal vetor fora a indústria cinematográfica americana, a única com distribuição maciça global. Com o surgimento da televisão, da produção cinematográfica internacional e o fim do sistema de estúdio hollywoodiano, a indústria americana perdeu um pouco de sua predominância, embora acabasse recuperando grande parte de sua hegemonia. Seus estilos juvenis difundiam-se através dos discos e fitas, do velho rádio, da distribuição mundial de imagens, da rede mundial de universidades e, ainda, pela força da moda na sociedade de consumo que agora chegava às massas. Passou a existir uma cultura jovem global.

O poder de mercado independente tornou mais fácil para a juventude des­cobrir símbolos materiais ou culturais de identidade. Contudo, o que acentuou os contornos dessa identidade foi o enorme abismo histórico que separava as gerações nascidas antes de, digamos, 1925 das nascidas depois de, digamos, 1950; um abismo muito maior que o entre pais e filhos no passado. A maioria dos pais com filhos adolescentes passou a ter uma aguda consciência disso na década de 1960 e depois. Os jovens viviam em sociedades secionadas de seu passado por revolução, como na China, Iugoslávia ou Egito; por conquista e ocupação, como na Alemanha e Japão; ou por libertação colonial. Eles não tinham lembrança de antes do dilúvio.

A Era de Ouro alargou esse abismo, pelo menos até a década de 1970. Como rapazes e moças criados numa era de pleno emprego podiam compreen­der a experiência da década de 1930, ou, ao contrário, uma geração mais velha entender jovens para os quais um emprego não era um porto seguro após mares tempestuosos (sobretudo um emprego garantido, com direitos de aposentadoria), mas uma coisa que podia ser conseguida a qualquer hora, e abandonada a qualquer hora que a pessoa tivesse vontade de ir passar alguns meses no Nepal?

III

A cultura jovem tornou-se a matriz da revolução cultural no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de gozar o lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos. Duas de suas características são portanto relevan­tes. Foi ao mesmo tempo informal e antinômica, sobretudo em questões de con­duta pessoal. Todo mundo tinha de “estar na sua”, com o mínimo de restrição externa, embora na prática a pressão dos pares e a moda impusessem tanta uni­formidade quanto antes, pelo menos dentro dos grupos de pares e subculturas.

A antinomia essencial da nova cultura jovem surgiu mais claramente nos momentos em que encontrou expressão intelectual, como nos instantanea­mente famosos cartazes dos dias de maio de 1968 em Paris: “É proibido proi­bir”, e na máxima do radical pop americano Jerry Rubin, de que não se deve confiar em ninguém que não tenha dado um tempo (na cadeia). Ao contrário das primeiras aparências, estas não eram declarações políticas de princípios no sentido tradicional — mesmo no sentido estreito de visar à abolição de leis repressivas. Não era esse o seu objetivo. Eram anún­cios públicos de sentimentos e desejos privados. Como dizia um slogan de maio de 1968: “Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos”.

O slogan de maio de 1968, “Quando penso em revolução quero fazer amor”, teria intrigado não só Lenin, mas também Ruth Fischer, a jovem mili­tante comunista vienense cuja defesa da promiscuidade sexual Lenin atacou. Não se podia claramente sepa­rar fazer amor e fazer revolução. Liberação pessoal e liberação social, assim, davam-se as mãos, sendo sexo e drogas as maneiras mais óbvias de despedaçar as cadeias do Estado, dos pais e do poder dos vizinhos, da lei e da convenção. O primeiro, em suas múl­tiplas formas, não tinha de ser descoberto.

As drogas, por outro lado, com exceção do álcool e do tabaco, haviam até então se limitado a pequenas subculturas de sociedade alta, baixa e marginal, e não se beneficiavam de legislação permissiva. Espalharam-se não só como um gesto de rebelião, pois as sensações que elas tornavam possíveis podiam ser atração suficiente. Apesar disso, o uso de drogas era por definição uma atividade proscrita, e o próprio fato de a droga mais popular entre os jovens ocidentais, a maconha, ser provavelmente menos prejudicial que o álcool e o tabaco tornava o fumá-la (tipicamente uma atividade social) não apenas um ato de desafio, mas de superioridade em relação aos que a proi­biam. O recém-ampliado campo de comportamento publicamente aceitável, incluindo o sexual, na certa aumentou a experimentação e a freqüência de comportamento até então considerado inaceitável ou desviante, e sem dúvida aumentou sua visibilidade.

IV

A revolução cultural de fins do século XX pode assim ser mais bem enten­dida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais. Pois essas texturas consistiam não apenas nas relações de fato entre seres humanos e suas formas de organização, mas também nos modelos gerais dessas relações e os padrões esperados de comportamento das pessoas umas com as outras; seus papéis eram prescritos, embora nem sempre escritos.

As instituições mais severamente solapadas pelo novo individualismo moral foram a família tradicional e as igrejas tradicionais no Ocidente, que desabaram de uma forma impressionante no último terço do século. O cimento que agregava as comunidades de católicos romanos desfez-se com espantosa rapidez. No curso da década de 1960, o comparecimento à missa no Quebec (Canadá) caiu de 80% para 20%, e a tradicionalmente alta taxa de nascimentos franco-canadense caiu abaixo da média do país. As vocações para o sacerdócio e outras formas da vida religiosa caíram acentuadamente, como aconteceu com a disposição de praticar o celibato, real ou oficial. Em suma, para melhor ou para pior, a autoridade moral e material da Igreja sobre os fiéis desapareceu no buraco negro que se abriu entre suas regras de vida e morali­dade e a realidade do comportamento de fins do século XX.

As vantagens materiais da vida num mundo em que a comunidade e a família declinavam eram, e continuam sendo, inegáveis. O que poucos perce­biam era o quanto a sociedade industrial moderna, até meados do século XX, dependera de uma simbiose da velha comunidade e velhos valores com a nova sociedade, e portanto como era provável que fossem dramáticos os efeitos de sua desintegração espetacularmente rápida. Isso se tornou evidente na era da ideologia neoliberal, quando o macabro termo “subclasse” entrou ou reentrou no vocabulário sociopolítico, por volta de 1980.

Como tomamos por certo o ar que respiramos, e que torna possíveis nos­sas atividades, também o capitalismo tomou como certa a atmosfera em que operava, e que herdara do passado. Só descobriu como ela fora essencial quando o ar começou a rarear. Em outras palavras, o capitalismo venceu por­que não era apenas capitalista. Maximização e acumulação de lucros eram condições necessárias para seu sucesso, mas não suficientes. Foi a revolução cultural do último terço do século que começou a erodir as herdadas vantagens históricas do capitalismo e a demonstrar as dificuldades de operar sem elas. A ironia histórica do neoliberalismo que se tornou moda nas décadas de 1970 e 1980, e que olhava de cima as ruínas dos regimes comunistas, foi que triun­fou no momento mesmo em que deixava de ser tão plausível quanto parecera outrora. O mercado dizia triunfar quando não mais se podia ocultar sua nudez e inadequação.

A principal força da revolução cultural foi naturalmente sentida nas “eco­nomias de mercado industriais” urbanizadas dos velhos núcleos do mundo capitalista. Contudo, como veremos, as extraordinárias forças econômicas e sociais desencadeadas no fim do século XX também transformaram o que agora se passava a chamar de “Terceiro Mundo”.

5.O Terceiro Mundo

I

Descolonização e revolução transformaram de modo impressionante o mapa político do globo. O número de Estados internacionalmente reconheci­dos como independentes na Ásia quintuplicou. Na África, onde havia um em 1939, agora eram cerca de cinqüenta. Mesmo nas Américas, onde a descolo­nização no início do século XIX deixara atrás umas vinte repúblicas latinas, a de então acrescentou mais uma dúzia. Contudo, o importante nelas não era o seu número, mas seu enorme e crescente peso demográfico, e a pressão que representavam coletivamente.

Essa explosão demográfica nos países pobres do mundo, que causou séria preocupação internacional pela primeira vez no fim da Era de Ouro, é prova­velmente a mudança mais fundamental no Breve Século XX, mesmo supondo-se que a população global acabará se estabilizando em 10 bilhões (ou qualquer que seja o atual palpite) em algum momento do século XXI. Uma população mundial que dobrou nos quarenta anos desde 1950, ou uma população como a da África, que pode esperar dobrar em menos de trinta anos, é inteiramente sem precedente histórico, como o são os problemas práticos que tem de sus­citar. Basta pensar na situação social e econômica de um país do qual 60% da população tem menos de quinze anos.

Uma conseqüência incidental foi o alargamento do fosso entre ricos e pobres, países avançados e atrasados, mesmo quando as economias das duas regiões cresciam à mesma taxa. Distribuir um pib duas vezes maior que o de trinta anos antes num país cuja população era estável é uma coisa; distribuí-lo entre uma população que (como a do México) dobrara em trinta anos é com­pletamente diferente. É importante iniciar qualquer história do Terceiro Mundo com alguma consideração acerca de sua demografia, uma vez que a explosão demográfica é o fato central de sua existência.

II

Na verdade, a predominância de regimes militares, ou a tendência de neles cair, unia Estados do Terceiro Mundo de diversas filiações constitucionais e políticas. A Índia, claro, continua sen­do, de longe, na época em que escrevo, o exemplo mais impressionante de Es­tado do Terceiro Mundo que manteve ininterrupta supremacia civil e ininter­rupta sucessão de governos de eleição popular regular e relativamente honesta.

Na segunda metade do século, quando o equilíbrio de superpotências pareceu estabilizar fronteiras e, em menor medida, regimes, foi cada vez mais comum os homens de armas irem se envolvendo na política, quando mais não fosse porque o globo agora continha até duzentos Estados, a maioria dos quais novos e, portanto, sem qualquer legitimidade tradicional e em sua maior parte onerados por sistemas políticos mais propensos a produzir colapso político do que governo efetivo. Em tais situações, as Forças Armadas eram muitas vezes os únicos corpos capazes de ação política, ou qualquer outra ação, em base estatal ampla.

A política dos militares, como os serviços secretos de infor­mação, tendia a encher o vácuo deixado pela ausência da política ou dos servi­ços comuns de informação. Não era nenhum tipo particular de política, mas uma função da instabilidade e insegurança em volta. Contudo, foi se tornando cada vez mais difundida no Terceiro Mundo, porque praticamente todos os países da parte anteriormente colonial ou dependente do globo se achavam agora comprometidos, de uma maneira ou de outra, com políticas que exigiam deles exatamente os Estados estáveis, funcionais e eficientes que tão poucos tinham. Estavam comprometidos com a independência econômica e o “desen­volvimento”. Após o segundo round de guerra mundial, a revolução mundial e sua conseqüência, a descolonização global, aparentemente não havia mais futuro no velho programa de alcançar prosperidade enquanto produtores primários para o mercado mundial dos países imperialistas: o programa dos estancieros argentinos e uruguaios, com tanta esperança imitado por Porfírio Díaz no México e Leguía no Peru.

Os Estados mais ambiciosos, assim, exigiam o fim do atraso agrário atra­vés da industrialização sistemática. Mesmo os menos ambiciosos, que não sonhavam com um futuro de grandes siderúrgicas tropicais movidas por imensas instalações hidrelétricas à sombra de represas titânicas, queriam eles próprios controlar e desenvolver seus recursos nacio­nais. O petróleo era tradicionalmente produzido por empresas privadas ociden­tais, em geral tendo as mais estreitas relações com as potências imperiais. Os governos, seguindo o exemplo do México em 1938, passavam agora a nacio­nalizá-las e operá-las como empresas estatais. Os que se abstinham de nacio­nalizações descobriam (sobretudo após 1950, quando a aramco ofereceu à Arábia Saudita o até então inimaginável acordo de divisão meio a meio da renda) que a posse física de petróleo e gás lhes dava o domínio das negocia­ções com as empresas estrangeiras. Na prática, a Organização dos Países Ex­portadores de Petróleo (OPEP), que acabou fazendo o mundo refém na década de 1970, tornou-se possível porque a posse do petróleo do mundo passara das empresas para relativamente poucos governos produtores. Planejamento e iniciativa de Estado eram a voga em toda parte do mundo nas décadas de 1950 e 1960, e nos nics (Newly industrializing countries Países de industrialização recente) até a década de 1990. Se essa forma de desenvolvimento econômico produziu resultados satisfatórios ou decepcio­nantes, isso dependeu de condições locais e erros humanos.

III

O desenvolvimento, controlado ou não pelo Estado, não era de interesse imediato para a grande maioria dos habitantes do Terceiro Mundo que viviam cultivando sua própria comida; pois mesmo em países ou colônias cujas ren­das públicas dependiam dos ganhos com uma ou duas grandes safras de expor­tação — café, banana ou cacau —, estas se achavam em geral concentradas numas poucas áreas restritas. A maioria dos habitantes não precisava de seus Estados, em geral demasiado fracos para fazer grandes estragos, e que, se começassem a criar muito caso, podiam ser contornados por uma retirada para a auto-suficiência da aldeia.

A maior parte dos camponeses islâmicos e asiáticos estava muito mais pobre, ou pelo menos mais mal alimentada — às vezes, como na Índia, desesperadamente e historicamente pobre —, e a pressão de homens e mulheres sobre terras limitadas já era mais grave. Apesar disso, pareceu a muitos deles que a melhor solução para seus problemas seria não se envolver com os que lhes diziam que o desenvolvimento econômico traria inaudita riqueza e prosperidade, mas mantê-los a distância. Isso não os manteve inteira­mente fora do âmbito de uma revolução econômica global, que chegava mesmo às pessoas mais isoladas, sob a forma de sandálias de plástico, latas de gasolina, caminhões velhos e — claro — repartições do governo cheias de pa­pelada, mas que tendiam a dividir a humanidade, em tais áreas, entre os que operavam dentro e através do mundo da escrita e das repartições e o resto. Na maior parte do Terceiro Mundo, a distinção era entre “litoral” e “interior”, ou cidade e sertão. O problema era que, como modernidade e governo andavam juntos, o “interior” era governado pelo “litoral”, o sertão pela cidade, o analfabeto pelo educado. Até as pessoas mais distantes e atrasadas, portanto, reconheciam cada vez mais as vantagens da educação superior, mesmo quando não podiam elas pró­prias dela partilhar; talvez sobretudo quando não podiam. Num sentido literal, conhecimento significava poder, mais obviamente em

países onde o Estado pa­recia a seus súditos uma máquina que lhes extraía os recursos e depois os dis­tribuía aos funcionários públicos. De qualquer modo, o funcionário público bem-sucedido era o ho­mem mais bem pago da população.

A sede de conhecimento explica muito da espantosa migração em massa da aldeia para a cidade que esvaziou o campo do continente sul-americano, a partir da década de 1950. Pois todas as pesquisas concordam em que a atração da cidade estava não menos nas melhores oportunidades de educação e forma­ção para as crianças. Lá, elas “podiam se tornar outra coisa”.

Presumivelmente, só na década de 1960 ou depois a população rural latino-americana (exceto de um ou outro ponto isolado) começou a ver siste­maticamente a modernidade mais como uma promessa que como uma ameaça. E, no entanto, havia um aspecto da política de desenvolvimento econômico que se poderia esperar que os atraísse, pois afetava diretamente três quintos ou mais dos seres humanos que viviam da agricultura: a reforma agrária.

Provavelmente nunca houve tanta reforma agrária quanto na década após o fim da Segunda Guerra Mundial, pois era praticada ao longo de todo o espec­tro político. Entre 1945 e 1950, quase metade da raça humana se viu vivendo em países que passavam por algum tipo de reforma agrária — comunista na Europa Oriental e, após 1949, na China, como conseqüência da descoloniza­ção no ex-império britânico na índia, e como conseqüência da derrota do Ja­pão, ou melhor, da política de ocupação americana, no Japão, Taiwan e Coréia.

IV

Não surpreende, assim, que as dezenas de Estados pós-coloniais que sur­giram após a Segunda Guerra Mundial, junto com a maior parte da América Latina que também pertencia visivelmente às regiões dependentes no velho mundo imperial e industrial, logo se vissem agrupadas como o “Terceiro Mundo” — diz-se que o termo foi cunhado em 1952 —, em contraste com o “Primeiro Mundo” dos países capitalistas desenvolvidos e o “Segundo Mundo” dos países desenvolvidos comunistas.

Contudo, embora o confronto de superpotências dominasse e em certa medida estabilizasse as relações inter-Estados em todo o mundo, não as con­trolava de todo. Em duas regiões, tensões internas do Terceiro Mundo, essencialmente não ligadas à Guerra Fria, criavam condições permanentes de con­flito que periodicamente irrompiam em guerra: o Oriente Médio e a parte norte do subcontinente indiano. (As duas, não por acaso, eram herdeiras de esque­mas de partilha imperiais) A última zona de conflito era mais facilmente isolável da Guerra Fria, apesar das tentativas paquistanesas de envolver os ameri­canos, que fracassaram até a guerra afegã da década de 1980 (ver capítulos 8 e 16). Daí o Ocidente pouco saber e menos ainda lembrar das três guerras regionais: a sino-indiana de 1962, pela mal definida fronteira entre os dois paí­ses, vencida pela China; a indo-paquistanesa de 1965 (convenientemente ven­cida pela Índia); e o segundo conflito indo-paquistanês de 1971, resultado da separação do Paquistão Oriental (Bangladesh), que a Índia apoiou. Os EUA e a URSS tentaram atuar como mediadores neutros e benévolos. A situação no Oriente Médio não podia ser isolada, porque vários dos aliados americanos se achavam diretamente envolvidos: Israel, Turquia e o Irã do xá. Além disso, como provou a sucessão de revoluções locais, militares e civis — do Egito em 1952, passando por Iraque e Síria nas décadas de 1950 e 1960, Arábia Saudita nas décadas de 1960 e 1970 e até o próprio Irã em 1979 —, a região era e con­tinua sendo socialmente instável.

V

E no entanto, no momento mesmo em que o Terceiro Mundo e as ideolo­gias nele baseadas se achavam no auge, o conceito começou a desmoronar. Na década de 1970, tornou-se evidente que nenhum nome ou rótulo individual podia cobrir adequadamente um conjunto de países cada vez mais divergentes. O termo ainda era adequado para distinguir os países pobres do mundo dos ricos, e na medida em que o fosso entre as duas zonas, agora muitas vezes cha­madas de “Norte” e “Sul”, se alargava visivelmente, havia muito sentido na distinção. Contudo, o Terceiro Mundo não é mais, demonstravelmente, uma entidade individual.

O que o dividiu foi basicamente o desenvolvimento econômico. O triunfo da opep em 1973 produziu, pela primeira vez, um corpo de Estados do Terceiro Mundo, a maioria atrasada por quaisquer critérios e até então pobre, que agora surgiam como Estados supermilionários em escala mundial, sobretudo quando consistiam em pequenos trechos de areia ou floresta esparsamente habitados, governados (em geral) por xeques ou sultões. Era visivelmente impossível classificar, digamos, os Emirados Árabes Unidos, onde cada um do meio mi­lhão de habitantes (1975) tinha, em teoria, uma fatia do pnb de mais de 13 mil dólares — quase o dobro do pnb per capita dos eua na época. Os Estados do petróleo com grande população não iam tão bem, mas apesar disso tornou-se evidente que os Estados dependentes da exportação de um único produto primário, por me­nos vantagens que tivessem em outros aspectos, podiam tornar-se extrema­mente ricos, embora esse dinheiro, também fácil, quase invariavelmente, ten­tasse-os a jogá-lo pela janela.

Como vimos, uma nova categoria, os Nics, entrou no jargão internacional. Não havia definição precisa, mas pratica­mente todas as listas incluíam os quatro “tigres do Pacífico” (Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coréia do Sul), Índia. Brasil e México, mas o processo de industrialização do Terceiro Mundo é tal que Malásia e Filipinas, Colômbia, Paquistão e Tailândia, além de outros, também foram incluídos.

VI

O espantoso “grande salto avante” da economia mundial (capitalista) e sua crescente globalização não apenas dividiram e perturbaram o conceito de Terceiro Mundo como também levaram quase todos os seus habitantes conscientemente para o mundo moderno. Aldeia e cidade estavam daí em diante interligadas. Mesmo as mais remotas viviam agora num mundo de embalagem plástica, garrafas de coca-cola, relógios digitais baratos e fibras artificiais. Por uma estranha inversão da história, o país atrasado do Terceiro Mundo começou até a comercializar suas habilidades no Primeiro Mundo. Nas esquinas da Europa pequenos grupos de peripatéticos índios dos Andes sul-americanos tocavam suas melancólicas flautas e nas calçadas de Nova York, Paris e Roma camelôs negros da África Ocidental vendiam balangandãs aos nativos exatamente como os ancestrais dos nativos haviam feito em suas via­gens de negócios ao Continente Negro.

Contudo, a consciência da modernidade espalhou-se da cidade para o campo (até mesmo onde a própria vida rural não foi transformada por novas colheitas, nova tecnologia e novas formas de organização e marketing) através da impressionante “revolução verde” da agricultura de colheita de grãos por variedades cientificamente projetadas em partes da Ásia, que se disseminaram a partir da década de 1960, ou, um pouco depois, pelo desenvolvimento de novas colheitas de exportação para o mercado mundial, tornada possível pelo frete aéreo em massa de perecíveis (frutas tropicais, flores) e novos gostos de consumo no mundo “desenvolvido” (cocaína).

6.“Socialismo Real”

I

Quando se assentou o pó das batalhas de guerra e guerra civil no início da década de 1920, e congelou-se o sangue dos cadáveres e das feridas, a maior parte do que fora antes de 1914 o império russo ortodoxo dos czares emergiu intacta como império, mas sob o governo dos bolcheviques e dedi­cada à construção do socialismo mundial. Foi o único dos antigos impérios dinástico-religiosos a sobreviver à Primeira Guerra Mundial, que despedaçara tanto o império otomano, cujo sultão era califa de todos os fiéis muçulmanos, quanto o império habsburgo, que mantinha uma relação especial com a Igreja romana. Os dois desabaram sob as pressões da derrota. O fato de a Rússia ter sobrevivido como uma entidade multiétnica única, que se estendia da fronteira polonesa no Ocidente até a fronteira japonesa no Oriente, quase certamente se deveu à Revolução de Outubro, pois as tensões que haviam desmontado os im­périos anteriores em toda parte surgiram ou ressurgiram na União Soviética no fim da década de 1980, quando o sistema comunista que mantivera a união intacta desde 1917 abdicou efetivamente.

Em 1945, as fronteiras da região que se separou do capitalismo mundial ampliaram-se dramaticamente. Na Europa, incluíam agora toda a área a leste de uma linha que ia, grosso modo, do rio Elba na Alemanha até o mar Adriá­tico e toda a península Balcânica, com exceção da Grécia e da pequena parte da Turquia que restava no continente. Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia, Romênia, Bulgária e Albânia passavam agora para a zona socia­lista, assim como a parte da Alemanha ocupada pelo Exército Vermelho após a guerra e transformada em uma “República Democrática Alemã” em 1954.

A primeira coisa a observar na região socialista do globo era que, durante a maior parte de sua existência, formou um subuniverso separado e em grande parte auto-suficiente econômica e politicamente. Suas relações com a econo­mia mundial, capitalista ou dominada pelo capitalismo dos países desenvolvi­dos, eram surpreendentemente escassas. Mesmo no auge do grande boom no comércio internacional, durante a Era de Ouro, só alguma coisa tipo 4% das exportações das economias de mercado capitalistas foram para as “economias centralmente planejadas”, e na década de 1980 a fatia de exportações do Ter­ceiro Mundo que ia para elas não era muito maior. As economias socialistas mandavam um pouco mais de suas modestas exportações para o resto do mundo, mas mesmo assim dois terços de seu comércio internacional na década de 1960 (1965) se faziam dentro de seu próprio setor.

A segregação ou auto-segregação do “campo socialista” (como a terminologia soviética pas­sou a chamá-lo em fins da década de 1940) foi desmoronando aos poucos nas décadas de 1970 e 1980. Apesar disso, o mero grau de ignorância e incompre­ensão mútuas que persistia entre os dois mundos era bastante extraordinário, sobretudo quando se tem em mente que esse foi um período em que tanto a viagem quanto a comunicação de informação foram absolutamente revolucio­nadas. Durante longos períodos, muito pouca informação sobre esses países pôde sair, e muito pouca sobre outras partes do mundo pôde entrar.

O motivo fundamental para a separação dos dois “campos” era sem dúvida político. Como vimos, após a Revolução de Outubro a Rússia soviética via o capitalismo mundial como o inimigo a ser derrubado pela revolução mundial assim que possível. Assim, a jovem URSS foi necessariamente lançada num curso de desenvolvimento auto-suficiente, em virtual isolamento do resto da econo­mia mundial. Paradoxalmente, isso logo lhe ofereceria seu mais poderoso argumento ideológico. Ela pareceu imune à gigantesca depressão econômica que devastou a economia capitalista após o crash de Wall Street em 1929.

O fato central da União Soviética era o de que seus novos governantes, o Partido Bolchevique, jamais haviam esperado sobreviver em isolamento, quanto mais tornar-se o núcleo de uma economia auto-suficiente (“socialismo num só país”). Os fundadores do marxismo supunham que a função da Revolução Russa só podia ser a de provocar a explosão revolucionária nos países industriais mais avan­çados, onde estavam presentes as condições para a construção do socialismo. Como vimos, isso era exatamente o que parecia acontecer em 1917-8, e pare­cia justificar a controvertidíssima decisão de Lenin — pelo menos entre os marxistas — de dirigir o curso dos bolcheviques russos para o poder e o socia­lismo soviéticos. Na visão de Lenin, Moscou seria apenas o quartel-general temporário do socialismo, até que a ideologia pudesse mudar-se para sua capi­tal permanente em Berlim. Não foi por acaso que a língua oficial da Inter­nacional Comunista, criada como o estado-maior da revolução mundial em 1919, era — e continuou sendo — não o russo, mas o alemão.

Quando ficou claro que a Rússia ia ser por algum tempo, que certamente não seria curto, o único país onde a revolução proletária triunfara, a política lógica, na verdade a única convincente para os bolcheviques, era transformar sua economia e sua sociedade atrasadas em avançadas o mais breve possível. O comunismo de base soviética, por­tanto, passou a ser um programa voltado para a transformação de países atrasados em avançados.

Entre as guerras, e sobretudo durante a década de 1930, a taxa de crescimento da economia soviética andou mais depressa que a de todos os outros países, com exceção do Japão, e nos primeiros quinze anos após a Segunda Guerra Mundial as economias do “campo socialista” cresceram consideravelmente mais rápido que as do Ocidente, tanto que líde­res soviéticos como Nikita Kruschev acreditavam sinceramente que, conti­nuando na mesma taxa a curva ascendente de seu crescimento, o socialismo iria produzir mais que o capitalismo dentro de um futuro previsível.

Com seu realismo habitual, Lenin introduziu em 1921 a Nova Política Econômica, que na verdade reintroduzia o mercado e, de fato, em suas pró­prias palavras, recuava do Comunismo de Guerra para o Capitalismo de Es­tado. Contudo, foi nesse momento mesmo, em que a já retrógrada economia soviética caíra para 10% de suas dimensões pré-guerra (ver capítulo 2), que a necessidade de industrializar maciçamente, e fazê-lo por planejamento do governo, se tornou a tarefa prioritária básica para o governo soviético.

A Nova Política Econômica (conhecida como NEP no Ocidente) foi objeto de apaixonado debate na Rússia na década de 1920, e de novo no início dos anos Gorbachev na década de 1980, mas por motivos opostos. Na década de 1920, era claramente reconhecida como uma derrota para o comunismo, ou pelo menos um desvio, das colunas em marcha para o socialismo, da rodovia principal, para a qual, de uma maneira ou de outra, era preciso descobrir o caminho de volta. Os radicais, como os seguidores de Trotski, queriam um rompimento com a NEP o mais breve possível, e uma corrida em massa para a industrialização, que foi a política eventualmente adotada sob Stalin. Os mode­rados, encabeçados por Bukharin, que deixara para trás o ultra-radicalismo dos anos de Comunismo de Guerra, tinham aguda consciência das limitações polí­ticas e econômicas sob as quais precisava operar o governo bolchevique num país mais esmagadoramente dominado pela agricultura camponesa que antes da revolução. Eles favoreciam uma transformação gradual. As opiniões do pró­prio Lenin não puderam ser adequadamente expressas depois que a paralisia o atingiu em 1922 — ele sobreviveu apenas até o início de 1924 — mas, embora não pudesse expressar-se, parece ter preferido o gradualismo. Por outro lado, os debates da década de 1980 eram buscas retrospectivas de uma alternativa socialista histórica ao stalinismo que de fato sucedesse a NEP: uma estrada para o socialismo diferente da realmente prevista pela direita e esquerda bolcheviques na década de 1920. Em retrospecto, Bukharin tornou-se uma espécie de proto-Gorbachev.

A NEP na verdade teve um bri­lhante êxito na restauração da economia soviética a partir da ruína de 1920. Em 1926, a produção industrial soviética havia mais ou menos recuperado seu nível pré-guerra, embora isso não significasse grande coisa. A URSS continuava tão esmagadoramente rural quanto em 1913 (82% da população nos dois casos), e na verdade só 7,5% estavam empregados fora da agricultura. Deixando de lado todas as considerações políticas, uma continuação da NEP, modificada ou não, iria na melhor das hipóteses produzir uma modesta taxa de industrialização. Além disso, enquanto não houvesse muito mais desenvolvimento industrial, pouco havia que os camponeses pudessem com­prar na cidade para tentá-los a vender seus excedentes, em vez de comê-los e bebê-los nas aldeias. Isso (que ficou conhecido como a “crise da tesoura”) iria ser o laço que acabou estrangulando a NEP. Sessenta anos depois, uma “tesou­ra” semelhante, mas proletária, solapava a perestroika de Gorbachev. Portanto, jamais foi provável que a NEP — isto é, crescimento econômico equilibrado, baseado numa economia de mercado camponesa orientada pelo Estado, que controlava seus picos — se mostrasse uma estratégia duradoura.

Stalin, que presidiu a resultante era de ferro da URSS, era um autocrata de ferocidade, crueldade e falta de escrúpulos excepcionais, alguns poderiam dizer únicas. Poucos homens manipularam o terror em escala mais universal. Não há dúvida de que sob um outro líder do Partido Bolchevique os sofrimen­tos dos povos da URSS teriam sido minimizados, e o número de vítimas, menor. Apesar disso, qualquer política de rápida modernização na URSS, nas circuns­tâncias da época, tinha de ser implacável e, porque imposta contra o grosso do povo e impondo-lhe sérios sacrifícios, em certa medida coercitiva. E a econo­mia de comando centralizado que realizou essa corrida com seus “planos” estava, de maneira igualmente inevitável, mais perto de uma operação militar que de um empreendimento econômico. Por outro lado, como os empreendi­mentos militares com verdadeira legitimidade moral popular, a vertiginosa industrialização dos primeiros Planos Qüinqüenais (1929-41) gerou apoio exatamente pelos “sangue, esforço, lágrimas e suor” impostos ao povo.

A “economia planejada” dos Planos Qüinqüenais que tomou o lugar da NEP em 1928 era necessariamente um instrumento grosseiro — muito mais grosseiro que os sofisticados cálculos dos economistas pioneiros do Gosplan da década de 1920, que por sua vez eram mais grosseiros que os instrumentos de planejamento de que dispunham os governos e grandes empresas do fim do século XX. Essencialmente, seu objetivo era mais criar novas indústrias do que dirigi-las, e preferiu dar prioridade imediata aos setores básicos da indústria pesada e da produção de energia que eram a fundação de qualquer grande eco­nomia industrial: carvão, ferro e aço, eletricidade, petróleo etc.

Contudo, essa história de sucesso não incluiu a agricultura e aqueles que dela viviam, pois a industrialização se apoiava nas costas do campesinato explorado. Muito pouco se pode dizer em favor da política camponesa e agrí­cola, a não ser que os camponeses não foram os únicos a carregar o fardo da “acumulação primitiva socialista” (expressão de um seguidor de Trotski que a favorecia) como se tem dito. Os trabalhadores também arcaram com parte do fardo de geração de recursos para investir no futuro.

O outro aspecto de desenvolvimento soviético em defesa do qual pouco se pode dizer foi a enorme e exagerada burocratização que um governo de comando centralizado engendrou, e que nem Stalin pôde enfrentar. Na verdade, já se sugeriu a sério que o Grande Terror de fins da década de 1930 foi o método desesperado de Stalin superar o labirinto burocrático e sua habilidade em es­quivar-se da maioria dos controles e ordens do governo, ou pelo menos de impedi-lo de assumir como uma ossificada classe governante, como acabaria acontecendo sob Brejnev.

A terceira desvantagem do sistema, e aquela que acabou por afundá-lo, era sua inflexibilidade. Estava engrenado para o crescimento constante na pro­dução de bens cujo caráter e qualidade haviam sido predeterminados, mas não continha qualquer mecanismo interno para variar quantidade (a não ser para cima) e qualidade, nem para inovar.

Em suma, o sistema soviético foi projetado para industrializar o mais rapidamente possível um país muito atrasado e subdesenvolvido, na suposição de que seu povo se satisfaria com um padrão de vida que garantisse um mí­nimo social e um padrão de vida material pouco acima da subsistência — o quanto, dependia do que pingava do crescimento geral de uma economia engrenada para favorecer a industrialização. Apesar da ineficiência e desperdí­cio, atingiu esses objetivos. A Rússia se transformara numa grande potência industrial, e na verdade seu status de superpotência, mantido por quase meio século, apoiou-se nesse sucesso. Contudo, e ao contrário das ex­pectativas dos comunistas, o motor do desenvolvimento soviético era construído de modo mais a diminuir a velocidade do que a acelerá-la quando, de­pois de o veículo avançar uma certa distância, o motorista pisasse fundo no acelerador. Seu dinamismo continha o mecanismo da própria exaustão. Foi esse o sistema que, depois de 1944, se tornou o modelo para as economias sob as quais vivia um terço da raça humana.

II

Os Estados comunistas que passaram a existir após a Segunda Guerra Mundial, ou seja, todos, com exceção da URSS, eram controlados por partidos comunistas formados ou modelados nos moldes soviéticos, ou seja, stalinistas. Isso se aplicava até mesmo, em certa medida, ao Partido Comunista chinês, que estabelecera verdadeira autonomia em relação a Moscou na década de 1930, sob Mao Tsé-tung.

Politicamente, os Estados comunistas, autóctones ou impostos, começa­ram formando um único bloco sob a liderança da URSS, que, com base na soli­dariedade antiocidental, era apoiada mesmo pelo regime comunista que assu­miu o pleno controle da China em 1949, embora a influência de Moscou sobre o Partido Comunista chinês fosse tênue desde que Mao Tsé-tung se tornara seu líder inconteste na década de 1930. Mao seguiu seu próprio caminho em meio a profissões de lealdade à URSS, e Stalin, realista, teve o cuidado de não for­çar suas relações com o gigantesco partido irmão oriental efetivamente inde­pendente. Quando, no fim da década de 1950, Nikita Kruschev as forçou, o resultado foi um acerbo rompimento, em que a China contestou a liderança soviética do movimento comunista internacional, embora sem muito êxito.

Quase certamente se surpreendeu em 1948, quando a liderança comunista iugoslava, leal a ponto de Belgrado ser transformada, ape­nas poucos meses antes, em quartel-general da reconstituída Internacional Co­munista da Guerra Fria (o “Departamento de Informação Comunista”, ou Cominform), levou sua resistência às diretrizes de Moscou ao ponto do franco rompimento, e quando o apelo de Moscou à lealdade dos bons comunistas por cima de Tito não encontrou quase nenhuma reação séria na Iugoslávia. Carac­teristicamente, a reação de Stalin foi ampliar os expurgos e julgamentos ence­nados nas lideranças comunistas restantes.

Apesar disso, a secessão da Iugoslávia não afetou o resto do movimento comunista. O desmoronamento político do bloco soviético começou com a morte de Stalin, em 1953, mas sobretudo com os ataques oficiais à era stalinista em geral e, mais cautelosamente, ao próprio Stalin, no XX Congresso do PCUS, em 1956. Embora visando uma platéia soviética muitíssimo restrita — os comunistas estrangeiros foram excluídos do discurso secreto de Kruschev —, logo se espalhou a notícia de que o monolito soviético rachara. Os efeitos dentro da região da Europa dominada pelos soviéticos foi imediato. Em pou­cos meses, uma liderança comunista reformista na Polônia foi pacificamente aceita por Moscou (na certa com a ajuda ou o conselho dos chineses), e uma revolução estourou na Hungria. Ali, o novo governo, sob outro reformador co­munista, Imre Nagy, anunciou o fim do sistema unipartidário, o que os soviéti­cos talvez pudessem tolerar — as opiniões entre eles estavam divididas — mas também a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia e sua futura neutralidade, o que eles não iriam tolerar. A revolução foi reprimida pelo exército russo em novembro de 1956.

Na Hungria, a liderança imposta pelos soviéti­cos após a derrota da revolução de 1956 foi mais genuinamente reformista e eficaz. Começou, sob János Kádár (1912-89), a liberalizar sistematicamente (e talvez com tácito apoio de setores influentes na URSS) o regime, conciliar a oposição e, na verdade, a realizar os objetivos de 1956, dentro dos limites do que a URSS encarava como aceitável. Nisso, teve um êxito notável até a década de 1980.

O mesmo não se deu com a Tchecoslováquia, politicamente inerte desde o implacável expurgo do início da década de 1950, mas começando cautelosa e hesitante a desestalinizar-se. A descentralização econômica, não politicamente explosiva em si, tornou-se explosiva quando combinada com a exigência de liberalização econômica e, mais ainda, política. Na Tchecoslováquia, essa exigência era tanto mais forte não apenas porque o stalinismo fora particularmente duro e duradouro, mas também porque tantos de seus comunistas (sobretudo intelectuais, oriundos de um partido com genuíno apoio de massa antes e depois da ocupação nazista) estavam profundamente chocados com o contraste entre as esperanças comu­nistas que ainda retinham e a realidade do regime.

A Primavera de Praga, em 1968, precedida e acompanhada de fermentação e agitação político-culturais, coincidiu com a explosão geral de radicalismo estudantil discutida em outra parte (ver capítulo 10): um dos raros movimen­tos que cruzaram oceanos e as fronteiras de sistemas sociais, e produziram movimentos sociais simultâneos, sobretudo centrados nos estudantes, da Califórnia e México à Polônia e Iugoslávia. A coesão, talvez a própria existência do bloco soviético eu­ropeu oriental, pareceram estar em causa, quando a Primavera de Praga reve­lou, e aumentou, as fendas dentro dele. De um lado, regimes linha-dura, como a Polônia e a Alemanha Oriental, receavam desestabilização interna com o exemplo tcheco, que criticavam duramente; do outro, os tchecos eram entu­siasticamente apoiados pela maioria dos partidos comunistas europeus, pelos húngaros reformistas e, fora do bloco, pelo regime comunista independente de Tito na Iugoslávia, além da Romênia, que, desde 1965, começara a assinalar sua distância de Moscou em bases nacionalistas, sob a liderança de um novo líder, Nicolae Ceausescu (1918-89). (Em assuntos internos, Ceausescu era tudo, menos um reformador comunista.) Tanto Tito quanto Ceausescu visita­ram Praga e receberam do público acolhidas de heróis. Daí Moscou, embora não sem hesitações e divisões, decidir derrubar o regime de Praga pela força militar. Isso revelou ser o virtual fim do movimento comunista centrado em Moscou, já rachado pela crise de 1956. Contudo, manteve o bloco soviético unido por mais vinte anos, mas daí em diante só pela ameaça de intervenção militar soviética. Nos últimos vinte anos da União Soviética, mesmo a lide­rança de partidos comunistas governantes parece ter perdido qualquer crença real no que fazia.

Um comentário em “Resumo / Fichamento: ERA DOS EXTREMOS 1914-1991 – Eric Hobsbawm [Parte 2]”

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