Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo.

Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado.

Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo.

Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…
Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

DARCY RIBEIRO – O POVO BRASILEIRO

MISTURA DE RAÇAS:

Para explicar a mistura de raças do povo brasileiro, Darcy Ribeiro mostra que ela foi sustentada por quatro pilares, são eles: as matrizes que compuseram o nosso povo, as proporções que essa mistura tomou em nosso país, as condições ambientais em que ela ocorreu, e os objetivos de vida e produção assumidos por cada uma dessas matrizes. A esses pilares se somam três forças: a ecologia, a economia e a imigração. Ele sustenta que somos muito mais marcados hoje pelas nossas semelhanças do que pelas diferenças.

Surgia assim no Brasil uma estrutura social totalmente inédita, cuja economia era baseada no escravismo e no mercantilismo, que se constituiu pela supressão de qualquer identidade étnica discrepante da do conquistador através do etnocídio e do genocídio, cuja ideologia era sustentada pela igreja.

CONFLITOS INICIAIS:

Não se deu, contudo, sem percalços. Houve vários conflitos principalmente entre colonos e índios e entre colonos e jesuítas. O primeiro tipo se deu pelo choque de mentalidade entre os recém-chegados e os locais. Os índios eram considerados improdutivos e fúteis, cuja vida era levada dia a dia sem acúmulo de qualquer riqueza. Já os colonos eram considerados afoitos – os índios não conseguiam entender todo aquele desespero para juntar tantas coisas se ele tinha apenas uma vida para consumi-las. Houve muita resistência indígena principalmente pelo fato de eles serem politicamente descentralizados e atrasados. Isso fez com que cada tribo tivesse de ser dominada de cada vez.

Já os jesuítas estabeleceram inúmeras missões auto-sustentáveis em que tentavam recriar o modo de vida do índio, o que lhes foi extremamente prejudicial, dizimando sua população através das doenças trazidas pelo homem branco. Pelo fato de reunirem vários índios nessas missões, entraram e vários conflitos com os colonos, que queriam se apossar dos índios para realizarem seus trabalhos de extração. Assim, invadiram muitas dessas missões e mataram índios e saquearam os jesuítas. Por esse conflito de interesses e do caráter mercantil da nova colônia a Coroa ficou do lado dos colonos, o que culminou na expulsão dos jesuítas do Brasil.

AS GRANDES NAVEGAÇÕES:

Portugal lançou-se nessa aventura pelos mares principalmente por três fatores: a tecnologia de navegação e experiência comercial que possuíam; o caráter centralizado de seu Estado; por estarem agora livres do domínio mouro. Eram assim um império mercantil salvacionista, que buscava riqueza, e partiam como neocruzados cujas ações e a mentalidade eram sustentados pela igreja, assumindo até o Estado português funções de distribuir cargos sacerdotais com o padroado papal. Assim, o iberos foram, ao lado dos britânicos e dos eslavos, as nações germinais do mundo de hoje.

Os ingleses mostraram-se na época como granjeiros puritanos e burgueses industriais. Ignoravam as razões da igreja na colonização, queriam apenas transplantar as paisagens inglesas para as suas colônias. Na nossa costa, atuaram principalmente como piratas.

Já os russos eram uma sociedade arcaica e estratificada, cujos membros queriam apenas viver suas vidas de camponeses e ao entrar em contato com povos de etnia distinta não queriam mudá-los, como aconteceu aqui, mas estabeleciam um apartheid, tendo também o povo dominado uma certa liberdade. Esse estilo de colonização foi chamado de gótico.

O estilo de colonização dos ibéricos foi chamado de barroco. Ele se baseava no lucro e na riqueza, na opressão e na mistura com o povo local, na supressão das etnias locais discrepantes com o seu modo de ser e da implantação na colônia do seu modo de vida. Tudo sustentado pela força da igreja.

Esse estilo de colonização fomentou a estruturação econômica e social do nosso povo em três planos: associativo: pela escravatura, pela estrutura sócio-política; adaptativo: pela tecnologia que se implantava, pelo engenho, pela introdução da pastagem de gado; ideológico: pela igreja, pela língua nova que era trazida ao Brasil. Constituímos uma sociedade bipartida em rural e urbana, plasmada pela atualização histórica, que é o processo de interrupção do desenvolvimento natural de um povo por outro, ditando um novo rumo nesse processo. Tornamo-nos uma extensão da Europa ibérica. As dificuldades que encontramos foram principalmente a oposição indígena ao trabalho compulsório e mais adiante manter o controle sobre os neobrasileiros que nasciam.

A OCUPAÇÃO DO BRASIL:

A ocupação do Brasil só foi possível através do cunhadismo. Para o colono era extremamente conveniente formar vínculos familiares com os indígenas, pois esses lhe serviriam na extração de pau-brasil e outros produtos tropicais. Foi nessa época em que aconteceu o escambo, com o Português trocando o pau-brasil por bugigangas.

Esse cunhadismo foi marcante em algumas colônias, como Bahia e São Vicente. Na primeira, destaca-se a figura de Diogo Álvares, que conseguiu estabelecer-se com tranqüilidade na colônia, atingindo um equilíbrio com os índios, com os portugueses e com os jesuítas, a quem deixou inclusive bens em testamento. Para a Coroa era interesse ter índios recrutáveis, por isso apoiou a instalação de missões na Bahia. Com isso, nasceram os engenhos e o número de negros cresceu marcadamente mais na frente.

Em São Vicente, houve João Ramalho e Antônio Rodrigues. O primeiro, era muito temido pelos jesuítas, pois conseguiria levantar um número de até cinco mil índios de guerra se necessário. Ele mais na frente ajudou ou missionários a expulsar os franceses e a lutar contra os Tamoio na baía da Guanabara. São Vicente, antes das bandeiras, dedicaram-se principalmente ao aprisionamento indígena para realizar suas tarefas do dia-a-dia e depois à venda de índios cativos ao nordeste açucareiro.

No Rio a presença francesa foi forte inicialmente, apoiados pelos Tamoio. Foram por fim expulsos e se instalaram no Rio missões jesuíticas em relativa paz com os índios Tupinambá.

Com medo do cunhadismo desenfreado, a Coroa estabeleceu as colônias hereditárias, cujo objetivo era explorar e povoar a nova terra. Foi nessa época que já não era tão fácil aliciar os índios, então se intensificou sua escravização. A maior dificuldade para essa prosperidade mercantil foi a resistência indígena, principalmente onde estavam confederados com os franceses. Com a instauração do Governo Geral, o índio se mostrava muito rebelde ao trabalho escravo, principalmente com Mem de Sá. Sua população foi consideravelmente reduzida pela guerra, pela escravidão e principalmente pelas doenças. A isso, somara-se as guerras autorizadas, a perda de terras, as catequese e o fato de não encontrarem um papel na nova sociedade que se formava.

A França ocupava o Rio de Janeiro com o apoio do Tamoio. Assim, estimulou a criação das missões jesuíticas. Porém, decretava e revogava leis de captura de índios, o que tornou bastante irregular a vida indígena nas missões, que eram atacadas pelos colonos com o apoio da lei ou sem ele. Com a expulsão dos jesuítas os colonos se apossaram dos indígenas e passaram a arrendá-los, o que os consumia muito mais rápida e intensamente.

NEOBRASILEIROS E ÍNDIOS:

Surgiram então os neobrasileiros, que eram muito semelhantes aos índios, viviam em comunidades auto-suficientes e produziam para o mercado externo. Falavam tupi e nhengatu. Porém, constituíram uma macroetnia graças ao modo de vida comum que tinham. A vida no Brasil, como já foi dito, foi bipartida em grupos rurais e urbanos. Os primeiros viviam em fazendas e viviam das plantações. Eram patriarcados monocultores. Já o componente urbano servia para administrar a colônia. Esses novos brasileiros sofreram uma forte rejeição, pois já não eram mais índios nem portugueses, e nessa busca de identidade, só nasceu o sentimento de nativismo com a indiferenciação da cor entre eles. Os índios, por mais contato que sua tribo tivesse com o homem branco, nunca perdia seus traços culturais e sua identidade. Quando havia uma perseguição ao índio eles se fechavam ainda mais em si. Houve sempre uma tendência histórica de atenuar o impacto genocida da conquista do Brasil pela minimização quantitativa do número de índios existentes aqui na época da colonização. Vale lembrar também o papel de Cândido Rondon, que defendeu o direito à diferença para o índio, que lhe queria garantir o direito de ser ele próprio, sem ter seu modo de vida alterado e influenciado pelo branco.

O NEGRO ESCRAVO:

Os negros inicialmente foram passivos na formação cultural do nosso povo pelo fato de serem desgarrados de suas tribos e serem até hostis uns com os outros e de raramente falarem a mesma língua uns dos outros. Por isso mesmo, raramente índios da mesma tribo eram colocados juntos, para se evitarem os motins. Por isso foram os principais disseminadores da língua portuguesa, que aprenderam com o capataz. Eles viviam nos engenhos açucareiros, de algodão e nas áreas de mineração. Seu papel foi importante na inserção dos recém-chegados de outras tribos no modo de vida vigente, o que transformava a cultura desses e os unificava. Os mulatos que nasciam desses índios eram três: os banda-forra (negro com branco), os salta-atrás (negro com índio) e o terceirão (negro com banda-forra).   

A MISTURA DA RAÇAS:

A mistura dessas três raças foi mais intensa na época da mineração aurífera. Surgiram novas atividades para dar sustento à maquina mineradora, que permitiu a inclusão de diferentes etnias, além de permitir a expansão para o interior do país. A mineração atraiu levas de gente de todos os cantos, e essas foram forçadas a conviver. Podemos dizer que a mineração articulou os núcleos coloniais com a criação de uma rede de intercâmbio comercial que proporcionou a riqueza de algumas cidades e a construção de prédios suntuosos. Aí surgiu também a arte de Aleijadinho, de Gonzaga e de Cláudio Manuel da Costa. Com o esgotamento das jazidas auríferas houve a diáspora e a conseqüente disseminação do que foi vivido lá, o que espalhou sementes desses que lá conviveram por todo o país.

Com esse declínio, se anunciava uma série de outras atividades que se desenvolveriam pelo país, como a pecuária no sertão e no sul, do algodão no Maranhão, do arroz, e do café, que reintroduziu o Brasil no mercado externo. Isso mostrou que essa dependência nesse modelo externo era uma condição para existirmos, pois se não fosse dessa forma estaríamos fechados em uma autarquia feudal, sujeitos a novos conquistadores. Além disso, esse sistema de latifúndio era o mais lucrativo para a classe dominante. Vale lembrar que no momento não tínhamos um modelo de reconstrução da nossa sociedade nem da nossa economia.

Os conflitos que se deram nessa nova formação foram principalmente de caráter classista ou interétnico. Os primeiros se mostraram em Canudos, quando uma classe social queria criar um modo de vida melhor para eles, chocando-se com os interesses da classe dominante. Os conflitos interétnicos se deram entre os índios e os colonos. Os índios se organizavam pelo parentesco e possuíam uma forte identidade étnica, além de serem solidários entre si. O colono era movido pela cobiça, buscando sempre a conquista e a ocupação de terras, movido por metas economicamente e socialmente irresponsáveis, organizados em uma estrutura estatal.

A EMPRESA BRASILEIRA:

A nova empresa brasileira era sustentada por quatro pilares, a saber: escravista, que garantia o empreendimento colonial; jesuítica, que permitia o amansamento dos índios em suas reduções; dos banqueiros, armadores, portuários e intermediários comerciais e daqueles que produziam os gêneros de subsistência, que sustentava todos os outros e incorporavam os mestiços.

URBANIZAÇÃO:

A urbanização ocorreu mais pelo êxodo dos campos do que pelos atrativos da cidade. No meio rural, o latifúndio não dava condições de emprego a todos, muito menos de produção, e essa massa de camponeses sem encontrar um papel nesse sistema escapavam para a cidade, onde eram marginalizados, formando favelas. Esse é o nosso maior problema atual – assentar essa massa de marginalizados e incluí-los no sistema produtivo e de consumo, além de assentá-los. Isso só parece possível através da reestruturação agrária. Surgiam assim os quatro estratos que compõem a nossa sociedade: a classe dominante, que dita as regras e comanda o sistema econômico e político do país; os profissionais liberais, que são o estrato mais dinâmico e operam ora como agravadores, ora como atenuadores dos conflitos; os subalternos, que são os mais combativos, buscam conquistar mais do que têm e não uma reestruturação social e os oprimidos, que vivem na esperança de entrar no sistema produtivo – o que só é possível através do rompimento da estrutura social. Essa estratificação caracteriza o Brasil como uma feitoria.

INDUSTRIALIZAÇÃO:

O embrião da nossa industrialização foi a Companhia Siderúrgica Nacional da gestão de Getúlio e das jazidas de ferro em MG. A primeira foi negociada com os aliados em troca do apoio a eles na guerra mundial. Essa política entrou em conflito com os interesses dos privatistas e dos empresários estrangeiros. Mais adiante, Kubitchek queria implantar uma revolução industrial como se havia dado na Europa. Foram concedidos incentivos e subsídios às indústrias que se instalariam no Brasil. Isso acabou por favorecer São Paulo e colocar o centro de decisões na mão das grandes corporações e do empresariado externo.

INTEGRAÇÃO SOCIAL:

O desenvolvimento social no Brasil e a homogeneidade cultural transcenderam as singularidades ecológicas/regionais e as marcas decorrentes da variedade das matrizes raciais que formou nosso povo.

Dentro desse novo cenário urbano, vimos a integração e a inclusão dos povos de diferentes raças e origens acontecer. Isso se dava com maior ou menor intensidade e timbre entre as diferentes sociedades de acordo com a permeabilidade das barreiras sócio-raciais vigentes nelas. Os imigrantes vieram ao Brasil, principalmente alemães, italianos, japoneses e espanhóis, ser absorvidos pela cultura local, não representando uma pátria extra-nação. Já o negro depois da abolição não poderia estar em lugar nenhum, pois todas as terras tinham dono, assim, marginalizaram-se nas cidades formando favelas. Sua integração na nossa sociedade se deu principalmente no plano cultural, pois economicamente continuava servindo à sociedade com o mesmo propósito – uma força de trabalho barata. Vale lembrar que eles são motivados politicamente pela questão social, e não pela racial.     

A MULHER:

No momento em que a mulher ascendia a uma melhor posição social, eliminando a condição de servilidade a que era imposta, ela conseguia impor mais dignidade nas relações afetivas e sexuais, deixando de ser o centro da família. Porém, essa dignidade não foi ainda totalmente alcançada, só sendo possível com a superação da marginalidade que é o fundamento do paternalismo irresponsável.

PROGRESSO:

O progresso tecnológico e industrial que sofremos foi a simples passagem de uma economia dominada pelo latifúndio, que consumia pessoas, para uma industrial que consumia máquinas mas não se mostrava capaz de absorver a massa disponível de trabalho nem de lhes oferecer oportunidade de inclusão no mercado de consumo. A industrialização fez principalmente nascer um corpo gerencial cujos ganhos iam para fora do país e centrou-se em São Paulo, excluindo os outros centros. A independência do Brasil apenas transferiu o domínio da nação de uma classe externa para outra interna, não menos socialmente descomprometida e irresponsável. Essa autoridade foi imposta internamente pelo corpo dirigentes. Vivemos hoje em uma sistema cuja unidade nacional foi mantida graças a imposição de fidalgos como dirigentes regionais, assemelhando-nos aos consulados romanos, que viviam uma vida de Roma fora de Roma. Somos um povo uno por sermos parte do mesmo processo histórico e civilizatório.

No sistema colonial, vimos a conjugação do projeto da Coroa com o espontaneísmo dos colonos, que se desdobrou nas bandeiras, na gestação dos mamelucos e na tomada do interior, e hoje vemos os mesmo tecnocratas se afundarem no espontaneísmo do mercado de capitais e na irresponsabilidade do neoliberalismo. Porém, fomos mais receptivos ao progresso tecnológico do que as nossas matrizes. Somos um povo que nasceu do cunhadismo, apoiou-se na escravatura, sendo regidos sempre pelo mercado externo – uma massa superexplorada cuja classe dominante renova suas formas de exploração.

Sofremos no nosso processo evolutivo duas grandes revoluções. A agrário-mercantil, baseada na escravidão, no mercado externo, carente de mão-de-obra. Depois a industrial, em que o negro aprendia a ser livre. Um sistema que não conseguia absorver a massa de trabalhadores disponíveis, e, muito menos, incluí-los no mercado consumidor. Outrora nos vimos carentes de mão-de-obra, hoje ela nós é excedente. A indústria substitutiva à importação aliada ao interesse estrangeiro levou mais lucros para fora do que trouxe, causando um colonialismo interno que empobreceu outras zonas. Vemos hoje o discurso privatista e neoliberalista anunciando a nova ordem econômica.

TRANSFIGURAÇÃO ÉTNICA:

O processo de transfiguração étnica de um povo se dá em quatro níveis: biótico (doenças); ecológico (disputa de território); econômico (pela escravatura) e psicocultural (ethos e identidade). A isso, alia-se hoje o que vemos como uma pressão uniformizadora da cultura pela mídia.

OS BRASIS

O BRASIL CRIOULO:

A formação dos tipos culturais do Brasil se deu através de três forças aglutinadoras: a identidade étnica, a estrutura socioeconômica (mercantil) e da tecnologia produtiva (pela dependência de artigos importados). Sobre essas três pesava a força da cultura erudita da igreja. O passo inicial para essa formação só foi possível através do cunhadismo, que foi quando estabelecemos as comunidades-feitorias, através de alianças com tribos locais que serviam como bases de apoio para navios portugueses e integrando índios capturados. Esses núcleos foram o embrião de todas as áreas culturais que surgiram depois. 

 O Brasil crioulo nasceu nos engenhos nordestinos. Primeiramente vamos entender esse sistema. O funcionamento e a instalação de um engenho de açúcar demandava grandes investimentos, assemelhando-se a uma fábrica tanto pelos processos industriais que realizava quanto pela necessidade de gerência de mão-de-obra. Além disso, demandava uma especialização de funções. Foi a economia do açúcar que nos inseriu no mercado mundial. Nela, não havia espaço para o negro se estruturar como família e este, mesmo quando livre, continuava a depender do sistema. Isso gerava uma pressão conformadora tremenda, pois não havia espaço para uma reforma estrutural na sociedade, em contraste com as encomiendas, em que os camponeses se relacionavam com os donos das terras através de intermediários, e dos regimes pastoris, em que o peão tinha um certo brio, e dos granjeiros, que organizavam-se em famílias e produziam o seu sustento.

O sistema açucareiro era baseado no latifúndio, na monocultura, no trabalho escravo. Tudo isso requeria um planejamento do empreendimento, um domínio técnico dos processos envolvidos, de uma administração comercial e especialização de funções. Sua falha principal é que ele não permitia o ingresso da massa de trabalho numa economia de consumo.

Quando comparado ao sistema feudal, Darcy explica as diferenças. O sistema feudal se caracterizava pela auto-suficiência, em que o senhor queria zelar pela sobrevivência do feudo. A função do povo era a de sobreviver de acordo com a sua concepção de vida. Já na vida do açúcar, o trabalhador rural não tinha nenhuma perspectiva de possuir terras, eles buscavam apenas uma melhora na sua condição de vida. Era presente uma imutabilidade social. Ele se assemelhava a um trabalhador de fábrica, cuja função era gerar lucro. Esses dois sistemas apenas se assemelharam na forma como seus senhores exerciam o poder.

O sistema feudal teve como conseqüência um campesinato co-participante do capitalismo nascente, enquanto o outro se desdobrou num sistema de contingenciamento de força de trabalho capitalista, e esta na concentração patrimonial, no domínio empresarial e ao atendimento de solicitações externas.

Na orla dos engenhos, surgiam populações dedicadas ao cultivo de outras atividades. Esses produtos eram vendidos nas feiras. Essas atividades eram a pesca, lvouras de tabaco, que era a principal moeda de troca por escravos, granjas etc.

O fato de o senhor de engenho residir no local, ou seja, na casa grande, estreitou o relacionamento entre eles e os negros. Muitos destes iam trabalhar dentro da casa, como mucamas ou serviçais e eram diferenciados dos escravos do eito. Isso fez surgir um patrimônio de costumes, usos, atitudes comuns entre senhores e escravos, que se transmitia entre as gerações.

O senhor de engenho dependia de duas classes do patronato de armadores e intermediários no comércio do açúcar e do patriciado governamental. Graças à sua influência se deu a hegemonia do nordeste no açúcar. Com a Revolução Industrial, eles passaram a fornecedores ou cotistas, dando espaço ao surgimento de grandes usinas comandadas por um patronato gerencial apoiados no capital bancário.

A economia açucareira começou a entrar em declínio depois da expulsão dos holandeses. Mesmo antes da sua presença no Brasil, os holandeses já haviam financiado alguns senhores de engenho e obtinham o monopólio comercial do nosso açúcar, o que tornou mais fácil seu convívio aqui. Eles trouxeram inúmeros progressos para a região, fundaram cidades e concederam empréstimos. Com a cobrança desses empréstimos e a incapacidade de honrá-los por parte dos senhores de engenho gerou tensões que culminaram na expulsão dos holandeses. Agora, eles haviam aprendido as técnicas do cultivo do açúcar e iriam aplicá-las nas Antilhas, sendo essa a maior causa da crise da economia do açúcar. Outra dificuldade enfrentada pelo sistema açucareiro foi a resistência do negro, o que gerou revoltas como a de Palmares, fundada em moldes culturais neobrasileiros com modos e língua iguais à área crioula. Outra insurgência foi a de Pernambuco em 1817, incentivada pela Revolução Francesa. A abolição da escravatura iria possibilitar apenas ao negro a integração social através do regime de agregação e fomentou a integração das etnias.

O BRASIL CABOCLO:

O Brasil caboclo nasceu da mistura dos índios genéricos com outros mestiços, depois que os portugueses queriam expulsar os franceses e ingleses das margens dos rios, onde haviam se estabelecido. Com isso, começaram a explorar o extrativismo de drogas do sertão como o cacau, a canela, a baunilha, óleos, açafrão, resinas e tubérculos. Percebendo que esse tipo de comércio poderia ser bastante lucrativo estabeleceram algumas feitorias de depósito dessas drogas, e contaram com a força indígena para juntá-las. Daí começou-se uma exploração mais compulsória dos índios, inclusive mantendo suas famílias como refém para garantir que ele voltasse. Com isso, as tribos indígenas se afastavam dos leitos dos rios. Começaram então as guerras de caça ao índio. Estabeleceram-se algumas missões jesuíticas, em que o número de índios era dividido em três partes: uma para servir às obras públicas da Coroa, outra para servir aos padres e outra aos colonos. Com a expulsão dos jesuítas os colonos tomaram posse de todos os escravos e bens dos padres. As conseqüências dessas reservas foi a unificação lingüística e de costumes e a deculturação de tribos nas missões. Esse convívio do índio com o missionário produziu uma religiosidade folclórica com elementos da pajelança e do catolicismo.

No sentido de estabelecer esse povoamento, a Coroa fez grandes inverstimentos, trouxe colonos de Açores e estimulou o casamento entre brancos e índios. Os fatores predominantes para a manutenção dessa ordem social foram: a união das classes dominantes, a servilidade aos senhores e a fragilidade dos tapuias.

Vimos surgir nessa área cultural três tipos de gente: o índio tribal, o genérico e a população urbanizada e heterogênea, que sustentava o sistema colonial português.

Vimos nascer na região o cultivo do arroz e do algodão durante as guerras napoleônicas e a luta de independência norte-americana, quando encontramos mercado para esses produtos. Os centros produtores formam o Pará e o Maranhão. Com o fim dos dois conflitos essa economia regrediu ao extrativismo vegetal.

Com a descoberta da borracha, cresceram grandes cidades como Belém e Manaus, construiu-se a Madeira-Mamoré. O sistema da borracha era desvinculado da terra e ligado ao rio. Nele o caboclo entrava num esquema de endividamento e era quase que obrigado a endividar-se comprando nos barracões. Havia uma grande carência de mão-de-obra, e para supri-la vieram 500 mil nordestinos sertanejos. O negócio da borracha faliu com a concorrência inglesa no oriente, e assim os caboclos retornavam à economia de subsistência semi-indígena. Contudo, essa economia se recupera com subsídios do governo e com o monopólio do comércio nacional, que mantinha o regime senhorial. Houve também a guerra da borracha, em que o Brasil supria os aliados da mercadoria, e às custas disso morreu mais gente na extração da borracha do que soldados enviados à Itália.

Com o fim da segunda guerra e o fim do suprimento de borracha aos aliados, nascia na região o plantio da juta, arroz e da pimenta-do-reino, bem como a extração do manganês, que é monopólio da empresa Bethlehem Steel. Com a miséria da região, surgiu também o Programa de Valorização da Amazônia, que deu espaço para o clientelismo político.   

Os principais conflitos que houve na região foram a Balaiada, liderada por escravos do algodão no Maranhão que buscavam uma ruptura da ordem social e a Cabanagem no Pará e no Amazonas, de caráter anticolonialista, separatista e republicano.  

O BRASIL SERTANEJO:

A economia sertaneja surgiu como dependente da açucareira, pela pastagem de gado introduzido no Brasil pelos portugueses e trazidos de Cabo Verde. As criações seguiam pelo São Francisco até o sul e ao Maranhão e Piauí. Os criadores recebiam as terras da Coroa em regime de sesmarias. Os grandes proprietários de terras foram inicialmente senhores de engenho da costa como uma atividade de apoio, e só depois passaram a ser especialistas na criação de gado. O vaqueiro tinha um relacionamento com o seu senhor dotado de muito mais respeito mútuo e brio, e recebia seu salário em reses e em sal. Esse sistema, com o tempo, recebeu muitos mestiços que não tinham lugar no sistema açucareiro, que não permitia muitos intermediários no processo de produção de açúcar, com a esperança de um dia se tornarem criadores. Isso tornou dispensável a massa escrava.

Com a expansão dessa atividade, nasceram as estradas, vilas e feiras de gado. Os mais pobres se dedicaram aos pastos de bode. O sistema passou a não absorver a massa de trabalho disponível com o crescimento do número de vaqueiros na fazenda. Estes passaram a receber o salário em dinheiro. As populações excedentes se dedicavam a atividades extrativistas como a extração da carnaúba, da cera, e da palha. Descobriu-se o cultivo do mocó, que passou a ser cultivado por muitos por todo o nordeste sertanejo como meeiros. No interior o sertanejo se dedica ao garimpo de minerais e pedras semi-preciosas. Os sertanejos que escaparam do domínio de seus senhores formaram frentes de exploração à Amazônia para exploras as drogas de mata e o coco babaçu. Em Goiás e em Minas Gerais o sistema de primeiras colheitas já estava estabelecido, e os sertanejos ganhavam as duas primeiras colheitas para depois derrubar a mata para o pasto do gado.

O povo sertanejo é marcado na sua religiosidade pelo fatalismo messiânico, como na guerra de Canudos e no cangaço, pela sua rusticidade e brabeza. Eles se mostram como um povo isolado e rústico, porém, esse isolamento vem se quebrando com o contato com outra gente pelas estradas e com os cinemas das vilas. Com o contato de alguns sertanejos com os centros urbanos, criaram-se as ligas camponesas (Francisco Julião) e os sindicatos rurais.

O povo sertanejo viveu sempre com a ameaça de seca e em absoluta miséria, o que exigiu do governo medidas de socorro e amparo. O governo passou a subvencionar algumas obras de criação de açudes e outras reformas nas fazendas de gado, isso deu espaço ao clientelismo político na região, que apenas favorecia os grandes latifundiários – os coronéis. Isso se deu com a criação do DNOCS. A SUDENE veio tentar dinamizar a economia da região, mas encontrou resistência por parte dos coronéis até mostrar que a estrutura social não seria abalada. Surge nos últimos 30 anos na região uma perspectiva de crescimento através do plantio da soja e do trigo, mas essas áreas já estão sendo invadidas pelos fazendeiros sulinos e por alguns poucos sertanejos.

O BRASIL CAIPIRA:

Inicialmente só se falava a língua geral. As técnicas de lavoura também quase não se diferiam das dos índios. Seus luxos eram uma culinária mais fina, a posse de alguns instrumentos de metal, armas e na atitude arrogante. Assim, eram mais dispostos aos saqueios do que à produção. Eles tinham um disciplinamento militar superior e se ajustavam ao sistema mercantil mais facilmente. Os índios capturados não eram submetidos a uma disciplina rígida de trabalho, mas não podiam se organizar em família. Os novos paulistas não queriam ser vistos como índios, mas participar da sociedade de consumo e se tornar classe dominante. Inicialmente usavam os índios para trabalhar em suas vilas, depois passaram a vende-los ao nordeste açucareiro e então a ir buscá-los terra adentro.

No começo do século XVII atacaram prosperas missões jesuíticas no Paraguai. Os paulistas saquearam seus bens e aprisionaram seus índios. Eles se especializaram como homens de guerra. A sociedade se organizava mais como chefe e soldado do que como senhor e escravo. A família era patricêntrica e poligínica e o relacionamento entre raças era licre. Darcy compara os paulistas a novos romanos, que se impunham e subjugavam os povos conquistados.

São Paulo foi a edificação de uma entidade étnica, com gente desgarrada das tribos, que nascia ligada a uma sociedade e cultura exógenas por ela conformada e dela dependente. O Brasil, graças aos paulistas, foi antes exportador que importador de escravos. Os paulistas sonhavam encontrar ouro nas entradas ao sertão, conseguinto até o apoio da Coroa para tal. Assim, descobriram as zonas de mineração em Minas, Mato Grosso e Goisás. Formaram-se arraiais que se tornariam vilas e depois cidades ricas como Vila Rica, Cuiabá, Vila Bela e Goiás. A guerra dos Emboabas em 1710 foi um conflito entre os paulistas e os povos das outras regiões pelo ouro. Somente um década depois começou-se a criar ações para dirimir esses conflitos. Começam a estourar conflitos entre o empresariado local e o patriciado português. O principal foi em 1720, com o esquartejamento de Felipe dos Santos. Com a descoberta das regiões diamantíferas a Coroa decreta monopólio real (estanco).

Nessas zonas de mineração, a sociedade adquire feições paulistas, mescladas com escravos, europeus e brasileiros de outras regiões. As conseqüências da abertura das regiões mineradoras foram: 1) a transferência da capital para o Rio; 2) estimulou a expansão do pastoreio nordestino e do centro-oeste e 3) possibilitou a região sulina ocupada, com a destruição das missões jesuítas e 4) ensejou a integração na sociedade colonial e a unidade nacional.

A atividade urbana, que mantinha o fausto urbano, permitiu a criação de uma camada entre os cidadãos ricos e pobres – a dos artífices e músicos, fundaram inclusive corporações de oficio. A atividade religiosa régio o calendário da vida social. O sustento da população urbana criou a agricultura comercial diversificada, ocupando-se deles os negros e mulatos forros, os brancos mais pobres. Eles trabalhavam em terra alheia num regime de parceria. As camadas mais baixas ocupavam-se de trabalhos domésticos ou braçais. A Inconfidência Mineira que surgira com ideais de reordenação social com moldes na abolição americana, pretendia decretar a liberdade de comércio e promover a industrialização, com uma ideologia republicana e um sentimento nativista.

Com o esgotamento das reservas auríferas, a riqueza se dissipou e os mineradores se viram incapazes de produzir, regredindo a uma economia de subsistência. A saída poderia ser a industrialização, mas esta foi impedida pela Coroa, que mandou destruir as fabricas toscas que iam surgindo. Antigos mineradores se transformam em fazendeiros, citadinos ruralizados espalham-se pelos matos. Fazem-se parceiros de lavouras de subsistência ou criadores de gado. A população se dispersa e sedentariza, regredindo a formas arcaicas.

A área cultural caipira se cristaliza com a dispersão da crise da mineração, nas populações que estavam ligadas a esse sistema e no interior alcançado pelos paulistas, compondo uma população desarticulada e feudalizada. O único recurso com que conta essa economia falida são as massas desocupadas e terras virgens e despovoadas sem valor. Com isso surgiram os bairros rurais, que eram grupos de convívio unificados pela base territorial que ocupam, pelo sentimento que os identifica e os opõe aos outros, pela participação em formas coletivas de trabalho e lazer. Aí surgiram os mutirões. Organizaram também cultos a santos poderosos. A população caipira agora integrada em bairros preenche com essa economia sua subsistência, numa economia mais autárquica.

Esse modo de vida criado pela quebra dos vínculos mertcantis, possibilitou a posse da terra e invalidou o monopólio de terras por não haver um mercado comprados. Com a institucionalização da grande lavoura e da obrigatoriedade da compra das terras acabou com essas liberdade autárquica. Surge o cultivo comercail de expotação como algodão, arroz e café. Isso melhora as estradas, instala uma maquina administrativa nas cidades, erguem-se as paróquias. Isso faz necessário todos se colocarem sob o poderio de um senhor. Surgiu o domínio oligárquico com a ajuda do aparelho admnistrativo, que desenraizaram o caipira. Houve lutas pelas melhores propriedade através do aparato jurídico. Com o crescimento do café, o caipira se engaja no colonato como assalariado ou parceiro, nas regiões mais remotas e como meeiros ou terceiros, tendo assim quase o status de proprietário.

Com o crescimento da lavoura monocultora, o caipira era praticamente expulso das fazendas, tendo que escolher entre novos deslocamentos ou entrar no esquema de parceria, agora nas piores terras. O caipira se humilhava com o trabalho disciplinado da fazenda por confundir-se com os escravos. Assim, o caipira se marginaliza, obrigando a fazenda, apesar do número de desocupados, antes a importar mão de obra negra e depois estrangeira. Assim, o caipira se viu melhor na condição de parceiro pelo seu despreparo para o trabalho dirigido. O maior golpe nos caipiras foi a busca de terras mais longes para a pastagem de gado, limitando as terras disponíveis para o trabalho agrícola. Isso deixou a massa caipira obrigada a algumas opções: 1) permanecer na miséria da parceria; 2) virar posseiro invasor de terras alheias; 3) virar mão-de-obra reserva em terrenos baldios ou 4) incorporar-se às massas urbanas marginais como aspirante à proletarização.

O sistema das fazendas alcançou um auge comparado ao açúcar com o café. Isso colocou o Brasil como um próspero mercado importador de bens industriais. Ela configurava também uma feição cultural basicamente caipira. A essa matriz, acrescentou-se inicialmente uma grande massa escrava e então outra de imigrantes, além de gente vinda de outras regiões do país.

Para se implantar o empreendimento cafeeiro contava-se com uma imensa disponibilidade de terra, de mão de obra escrava e de um sistema adequado de trasporte e comercialização. Pelo fato de os trabalhos nos cafezais se intensificarem na época das colheitas, a fazenda conta sempre com um excedente de mão de obra, que se utiliza em tarefas de subsistência e artesanato. Uma grande unidade autárquica. As fazendas de café alcançaram MG, ES, SP e RJ. Inicialmente, se aproveitou a massa escrava que sobrou da mineração, depois a do nordeste açucareiro e do Maranhão, para depois se importar da África. A oligarquia do café se tornou assim mais forte do que a açucareira, pois dominavam todos os processos envolvidos, utilizando o poder político na defesa de seus interesses. Os cafeicultores tornavam-se os barões, apenas ameaçados pela abolição da escravidão. Com esta, arruinaram-se os antigos proprietários, com um novo empresariado moderno surgindo. O outro efeito foi no plano social, com uma relativa melhora no nível de vida das populações. Com o negro forro agora podendo ser trabalhador livre, não queria mais aquela carga de trabalho. Alarga-se a camada marginal absenteísta, que refugava aquele trabalho na fazenda. O reinado do café se torna ainda mais poderoso com frentes de trabalho que derrubavam a mata para o plantio de novos cafezais com o uso de mão de obra ex escrava e ex parceiros. A plantação ficava por conta dos imigrantes. A colheita usava braços de estranhos que ficavam pela vizinhança como reservas de mão de obra. Após a abolição é que se estabeleceu a onda regular de massas imigrantes europeias. Isso desvalorizou o trabalhador nacional. Outro efeito foi o de orientar a massa de sertanejos nordestinos para os seringais na Amazônia e retardou a proletarização do caipira. O principal mecanismo de defesa da classe dos cafeicultores era o controle da taxa de cambio, o que degradava a moeda e se fazia pedir empréstimos para conter essa desvalorização, aumentando a nossa dívida externa, que transferia os prejuízos dos exportadores para os importadores, num país dependente das importações em tudo, já que não tinha indústria.

Com a crise de 1929 o governo passou a ser comprador das safras, transferindo para a coletividade os prejuízos da cafeicultura. Esse domínio oligárquico refletiu no descaso pela educação popular. Pelo fato de o café funcionar num sistema extrativista, a cafeicultura era uma fronteira viva, deixando áreas erodidas para trás, que se tornariam regiões de pastoreio. As regiões entram em decadência, com algumas delas sobrevivendo com uma nova produção agrícola, como açúcar e álcool. No PR com trigo e soja. Lá, o café não ingressou como latifúndio, mas através de uma companhia inglesa na forma de pequenas propriedades, instalando milhares de famílias, em contraste com o regime de latifúndio.       

OS BRASIS SULISTAS:

A expansão dos paulistas que atingiu a região sulina somou-se a outras influencias para gerar os sulinos. A sua principal característica é a heterogeneidade cultural. São eles: 1) os lavradores matutos de origem açoriana que ocupa a faixa litorânea do Paraná para o sul; 2) os gaúchos da zona de campos da fronteira rio-platense e bolsões pastoris de SC e PR; 3) os gringos descendentes de imigrantes que ocupam uma faixa central avançando sobre as outras. A sua coexistência e interação opera no sentido de homogeneizá-los, enquanto a distancia de seus sistemas de produção opera para fixar suas diferenças. O sul surge graças às missões espanholas, de inspiração antigentílica. Isso atraia aos núcleos milhares de índios e produzia artigos para mercados regionais e externos que permitia manter um comércio de troca, obtendo tudo que precisavam produzir e não podiam.

Isso lançou contra eles a fúria dos mamelucos paulistas, que assaltavam suas missões na caça ao índio e causava inveja na Coroa, o que culminou com a sua expulsão.

Assim, formou-se o embrião do Brasil sulino. Primeiro com a criação das missões e depois com a incorporação daqueles que nela viveram à exploração mercantil das vacarias. Os propósitos da Coroa em ocupar o sul do Brasil se confirmaram com a fundação da Colônia do Sacramento no rio da Prata. No século seguinte esse projeto esteve ameaçado pela inviabilidade econômica pelo fato de as explorações do gado selvagem se fazer nas áreas de domínio dos colonos da região espanhola, atraindo os núcleos sulinos para a esfera de influencia dessas regiões. Essa ameaça foi superada com o surgimento em MG de um mercado para bois de carro, cavalos de montaria e muares de tração. O sul pelo fato de os bois se transportarem sozinhos por ser assim integrado ao norte.

Com o esgotamento do ouro, a técnica cearense do fabrico do charque ajudou a valorizar os rebanhos gaúchos e vincula-los ao mercado nordestino, amazonense e mais tarde antilhano. A incorporação do sul se deu pela criação de vínculos mercantis com as outras regiões do Brasil, de forma mais sólida que aqueles criados com as áreas espanholas. A isso somam-se: 1) a política portuguesa de potência, que quis estabelecer a Colônia de Sacramento e povoar a região; 2) pela vinda de imigrantes açorianos e 3) pelos esforços diplomáticos para estabelecer as fronteiras.

Houve tensões tanto entre os espanhóis e portugueses quanto entre os sulistas e Portugal, que culminou em guerras platinas. Contribuíram para os movimentos separatistas: 1) por fazerem parte de uma vasta e longínqua região com interesses próprios; 2) por viverem apartados do resto do Brasil e sob influencia intelectual de centros como Montevidéu e Buenos Aires.

OS GAÚCHOS

Surgem da transfiguração de homens luso-espanhois com mulheres guarani. Especializaram-se na exploração de gado. O principal contingente foi formado por índios missioneiros guaranis posteriormente cruzados com portugueses instalados na Colônia do Sacramento 1680).

O gado, trazido pelos jesuítas, era um dos principais procedimentos de sedentarização do índio, estendeu-se consituindo as Vacarias Del Mar. Com a especialização dos indígenas ao pastoreio, o índio passou a consumir carne. Três fatores pesaram na formação da matriz gaúcha: 1) o rebanho de ninguém na terra de ninguém; 2) a especialização mercantil na sua exploração e 3) a existência de uma parcela mestiça europeizada, que necessitava de artigos importados, o que viabilizava um intercambio de couro por manufaturas.

Essa matriz guarani é que formou a população gaúcha. A princípio os gaúchos não se identificavam com os portugueses, espanhóis nem índios. Constituíam uma nova etnia com costumes em comum. Uma parcela desses gaúchos seria incorporada à população brasileira devido a: participação dos paulistas na exploração do gado sulino; pela disputa entre portugueses e espanhóis pela região cisplatina e pela integração do sul como mercado provedor de bestas de carga para as minas de ouro.

A fundação de São Francisco, Laguna e Colônia do Sacramento mostrou o emprenho português em colonizar a região. Este último viabilizou a participação na exploração das Vacarias Del Mar. No começo do século XVII os paulistas e curitibanos estabelecem-se como criadores na região. Daí, passariam a fornecer gado à região do ouro, principalmente cavalos e muares. Deste ultimo a criação era tão especializada que acredita-se que os gaúchos eram apenas intermediadores dos verdadeiros criadores – estancieiros de Corrientes e Santa Fé, na Argentina. Foi a criação mais especializada desses animais que proporcionou a fixação do gaúcho no sul. Para aumentar a ocupação, a Coroa trouxe famílias de Açores para a faixa costeira, à qual se ajuntaram militares portugueses mandados para Sacramento e Sete Povos das Missões. Recebendo terras em sesmarias, esses estancieiros aquerenciavam o gado selvagem no próprio campo e viviam sempre com medo de ataques daqueles das outras áreas. Com a exploração de couro, com o crescimento dos cachorros selvagens, diminuía o número de bois e os estancieiros passaram a disputá-los dos dois lados da fronteira, em que o gaúcho alem de campeiro era combatente do seu patrão. Com a fixação da fronteira, surgiu o Uruguai, e a região se acalmou. Com o crescimento das charqueadas o pastoreio torna o gado mais valioso quando industrializa sua exploração.

Por outro lado, essa criação especializada que demandava trabalho duro e extrema disciplina não incorporou o gaúcho campeiro, tendo que importar mão de obra escrava negra. Diante desse quadro de uma economia mercantil-industrial mudou-se a forma de relação entre o caudilho-estancieiro e o gaúcho, distanciando ambos. Enquanto vingavam os conflitos por terras esses gaúchos das fazendas de gado tinham certos privilégios. Eles foram com a pacificação da região empobrecendo cada vez mais. Com o crescimento das pastagensm excluíam-se massas de peões, que eram desalojados das estâncias e amontoavam-se formando massas de reserva de mão-de-obra – um subproduto do latifúndio pastoril. Grande parte desses se tornou lavradores em terra alheia como parceiros. Assim se viu o RS se urbanizar sem se industrializar, abrigando uma massa de subocupados.

Nos últimos anos com o surgimento de um amplo mercado nacional, a região sulina se especializou no cultivo do trigo, arroz e soja. Esta última para exportação. Essa cultura foi raramente explorada pelos criadores de gado, mas por arrendamento das terras agricultáveis do latifúndio e normalmente um citadino com acesso a credito bancário ou oficial. Usando técnicas agrícolas modernas eles contribuíram para a marginalização ainda maior do gaúcho, no momento em que não poderia absorvê-lo no trabalho. O alto valor cobrado pelo arrendamento encarecia a produção, somando isso à obstacularização do cultivo de rotação, que sacrificava a terra, viriam a dificultar a expansão dessas culturas de trigo e arroz. Por outro lado o sistema permitiu uma surgimento de uma camada intermediária entre o oproprietário e o gaúcho, principalmente na época da colheita, quando se precisava de uma mão-de-obra especializada.

MATUTOS

Uma outra configuração do Brasil sulino foi a formada pelos açorianos trazidos pelos portugueses ao litoral de SC e às margens do rio Guaíba. Essa colonização foi um fracasso. Eles vieram atuar como uma retaguarda fiel à Coroa contra os espanhóis. Falharam pois não tinham mercado consumidor para suas colheitas, vivendo numa economia de subsistência. Passaram então a um modo de vida mais indígena que açoriano, lavrando a terra pelo sistema de coivara. Assemelhavam-se aos caipiras paulistas. Alguns açorianos conseguiram levar adiante o cultivo de cereais como trigo, comercializando-o com gente da área pastoril, incluindo-os no sistema econômico incipiente da região. Seu papel foi importante no aportuguesamento lingüístico e no abrasileiramento cultural da região, sendo um núcleo leal a Portugal e mais tarde ao Império. Funcionavam como base abafadora dos conflitos separatistas, abrigando tropas do governo. Hoje, antigas terras ocupadas pelos matutos funcionam como latifúndios ou minifúndios. Com isso, o matuto da fazenda se tornou mais um grupo de mão-de-obra reserva, depreciada pelos seus hábitos rudes e apego a formas não salariais de relação no trabalho. Alguns núcleos desses matutos, com o surgimento da demanda nacional, se especializaram em novas atividades produtivas, como a pesca, minas de carvão no interior. Também, as massas matutas e gaúchas marginalizadas caíram numa cultura de pobreza que as uniformizou pela pobreza, além dos meios de comunicação que as atingem.

A principal revolta dessa camada ocorreu em 1910 e 1914 entre PR e SC, com a sustpensão da posse de terras, que gerou o influxo de milhares de famílias para aquelas áreas, que fustigou a ira dos dois estados contestantes e provocou a intervenção do governo central com tropas. Foram taxados de monarquistas e revolucionários. Deu-se o aumento da importância dos “monges” que passaram a liderar os conflitos (messiânicos). Os núcleos conflagrados reuniam-se em “quadros santos”. Na revolução do Contestado, eles formaram grupos igualitários baseados no comércio interno, querendo manter um paraíso terrestre. A vida nesses núcleos era alegre, presidido pelo ideal igualitário e pelo forte convívio social. Esses núcleos foram dissolvidos com a ação do exército nacional, em que morreram 3500 pessoas em 3 anos.

Outros levantes ameaçaram ocorrer mas foram rapidamente abafados. As lutas populares como Canudos, Cabanagem, Mucker tinham em comum o fato de todos reivindicarem a posse da terra de onde tiram sua subsistência, além de se mostrarem capazes de criar prosperidade e fartura.

GRINGOS

Compõem os povos de origem germânica, italiana, polonesa, japonesa, libanesa e outras, introduzidos no século passado. Distingue-os o bilingüismo, um modo de vida rural fundado na policultura e um nível educacional mais elevado.

O empreendimento colonial refletiu os ideais da europeização do Brasil e foi um dos objetivos mais persistentes do governo imperial, preterindo o povo local a outro, eugenicamente melhor. Foram-lhes oferecidos benefícios que nunca as populações caipiras tiveram, marginalizando-as ainda mais pelo latifúndio. Esse bolsão cultural gringo se mostra uniforme pelo seu modo de vida, baseado na pequena propriedade. Cada grupo pode organizar autonomamente sua própria vida, criando suas escolas e igrejas.

A primeira geração de imigrantes teve a dificuldade e o desafio de desbravar as áreas virgens e estavelecer quais produtos lhes integrariam na economia nacional.

A segunda geração encontrou condições mais propícias – seu problema foi a disponibilidade de terras para as famílias que se multiplicavam. A marginalidade étnica dos núcleos de colonização, principalmente alemães, japoneses e italianos, criou conflitos de elaldade étnico-culturais na época da segunda guerra. Esses conflitos inter-nucleos só foram resolvidos com a instauração do Português nas escolas e com o recrutamento de nipo-brasileiros e grindos para servir nas forças armadas, que contribuiu para a sua identificação nacional. Esses núcleos gringo-brasileiros se tornaram centros importantes na produção de vinho, mel, trigo, batatas, cevada, lúpulo, legumes, milho para porcos e mandioca. Contudo, com a multiplicação das famílias e esbarrando nos limites do latifúndio, viram-se divididas e assoladas pelo minifúndio. Há também a camada de gringos acaboclados, que se junta e se confunde com a massa de gaúchos das rancharias e com os matutos marginalizados. A formação dessas camadas tem duas conseqüências sérias: 1) reduz a combatividade dos camponeses e 2) funciona como indutor do conformismo, já que as camadas pobres vêem que ainda tem um patamar a descer. E para os marginalizados opera como uma incitação à rebeldia revolucionária.

Nos últimos anos surgiu uma onda de desenvolvimento industrial intensivo, originado no artesanato familiar com: metalurgia, tecelagem, indústria química, couros, cerâmica e vidreira. Alguns núcleos gringos se tornaram grandes centros industriais, como Caxias, São Leopoldo, Nova Hamburgo, Blumenau, Joinville e Itajaí. Os antigos colonos, agora empresários, instalaram suas indústrias também em capitais regionais e são os principais empresários modernos no sul. Esse desenvolvimento permitiu a integração na força de trabalho não só de gringos, mas de matutos e gaúchos. Esse salto da economia granjeira para a indústria artesanal e depois fabril se deu pelo acesso mais fácil a técnicas estrangeiras e contatos fora do Brasil, que possibilitavam a importação de máquinas e assistência a seus parques.

QUESTIONÁRIO PARA REFLEXÃO:

1) Como se forjou inicialmente a estrutura social no novo Brasil? Qual foi a participação de cada raça envolvida nesse processo? Descreva como se deu a constituição dessa sociedade plasmada por três povos tão distintos.

2) Explique a formação das cinco áreas culturais propostas por Darcy, relacionando-as entre si e descrevendo em detalhes a organização socioeconômica de cada uma e a forma como essas se entrelaçam.

3) Comente a forma de relacionamento estabelecido entre as classes dominantes e as subalternas em cada uma das formações do Brasil.

4) Explique como se desenvolveu a economia de cada área cultural e como se deu a formação das massas de trabalho e dos senhorados dominantes.

5) Comente o papel dos missionários na formação do povo brasileiro e das economias locais. Relate como o seu papel diferiu de região para região.

6) Explique a comparação feita por Darcy do Brasil aos consulados romanos.

7) Descreva como se deu a integração e qual foi o papel de cada uma das raças matrizes do nosso povo.

8) Discorra sobre o sistema de cotas para negros nas universidades públicas com base na formação do povo brasileiro.