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CAPÍTULO III

O COLONIZADOR PORTUGUÊS: ANTECEDENTES E PREDISPOSIÇÕES.

Sem aguçar-se nunca no aristocratismo do castelhano, no que o português se antecipou aos europeus foi no burguesismo. Mas esse burguesismo precoce sofreria no Brasil refração séria em face das condições físicas da terra e das de cultura dos nativos; e o povo que, segundo Herculano, mal conhecera o feudalismo, retrocedeu no século XVI à era feudal, revivendo-lhe os métodos aristocráticos na colonização da América.

A colonização do Brasil se processou aristocraticamente – mais do que a de qualquer outra parte da América.

Há muito que descontar nas pretensões de grandeza do português. Desde fins do século XVI ele vive parasitariamente de um passado cujo esplendor exagera. Supondo-se diminuído ou negado pela crítica estrangeira, artificializou-se num português-para-inglês-ver.

Foi o que sucedeu, estancadas as fontes asiáticas de opulência. A envenenar-se da mania de grandeza. A gente miúda gosta que lhe dêem o tratamento de senhor, manha esta comum a toda a Espanha.

É um povo que vive a fazer de conta que é poderoso e importante.

Mas antes do ódio ao espanhol, outro, talvez mais profundo e criador, atuou sobre o caráter português, predispondo-o ao nacionalismo e até ao imperialismo: o ódio ao mouro. Principalmente aos hereges – o inimigo contra quem se uniram energias dispersas e até antagônicas. A unificação moral e política realizou-se em grande parte pela solidariedade dos diferentes grupos contra a heresia, ora encarnada pelo francês, ora pelo inglês ou holandês: às vezes simplesmente pelo bugre.

As igrejas portuguesas tornaram-se até escandalosas na proteção a criminosos. Anteciparam-se nesses abusos aos engenhos patriarcais do Brasil.

Mas a igreja que age na formação brasileira, articulando-a, não é a catedral com o seu bispo. É a capela do engenho. Não chega a haver clericalismo no Brasil. Esboçou-se a dos padres da Companhia para esvair-se logo, vencido pelo oligarquismo e pelo nepotismo dos grandes senhores de terras e escravos.

Ao seu ver devia o capelão manter-se “familiar de Deus e não de outro homem”; morar sozinho, fora da casa-grande; e ter por criada escrava velha. Norma que parece ter sido seguida raramente pelos vigários e capelães dos tempos coloniais.

Mas os antecedentes portugueses contradizem essa suposta xenofobia; nega-a a história do Direito lusitano – nesse ponto dos mais liberais da Europa. O Direito Português iniciou-se, não sufocando e abafando as minorias étnicas dentro do Reino – os mouros e os judeus – suas tradições e costumes, mas reconhecendo-lhes a faculdade de se regerem por seu direito próprio e até permitindo-lhes magistrados à parte como mais tarde no Brasil colonial, com relação aos ingleses protestantes.

Na falta de grandes fronteiras naturais ou físicas, defendendo-se de agressões e absorções, tiveram os portugueses de entesar-se em muralhas vivas, de carne, contra o imperialismo muçulmano e mais tarde contra o de Castela; mas nesse próprio esforço de suprir com pura resistência ou tensão humana a que nenhuma defesa geográfica – a falta de grande rio ou montanha – valeram-se do concurso de estrangeiros.

A precoce ascendência das classes marítimas e comerciais na economia e na política portuguesa resultou igualmente da extraordinária variedade de contatos marítimos e de estímulos comerciais. Desde os começos da vida portuguesa que se esboçou o antagonismo entre a classe comercial das cidades marítimas e a aristocracia territorial do centro. Aguçado esse antagonismo econômico e de classe, acentuada a divergência entre os interesses rurais e os marítimos, a política dos reis, no desejo de libertar-se de tudo o que fosse pressão aristocrática sobre o poder real, inclinou-se para a burguesia mercantil e para o povo das cidades.

A política de segregação no Brasil só a inspirou, no século XVII, e principalmente no XVIII, o ciúme do ouro; o que houve antes, com aparência de xenofobia obedeceu à polícia de defesa, como que sanitária, da colônia contra infecções heréticas.

A nenhum inglês nem flamengo o fato, em si, da nacionalidade ou da raça, impediu que fosse admitido na sociedade colonial portuguesa da América no século XVI. O que era preciso é que fosse católico-romano ou aqui se desinfetasse com água benta da heresia pestífera. Que se batizasse. Que professasse a fé católica, apostólica romana.

Os que dividem Portugal em dois, um louro, que seria o aristocrático, outro moreno ou negróide, que seria o plebeu, ignoram o verdadeiro sentido da formação portuguesa. O Estado que conquista e reconquista, de fluxo e refluxo, não deixou que se estabelecesse em Portugal nenhuma hegemonia, a não ser de momento. Nenhum exclusivismo – a não ser oficial ou superficial – de raça ou de cultura. Portugal é por excelência o país europeu do louro transitório o do meio-louro. Nas regiões mais penetradas de sangue nórdico, muita criança nasce loura e cor-de-rosa como um Menino Jesus flamengo para tornar-se depois de grande, morena e de cabelo escuro, ou então – o que é mais característico – revela-se a dualidade, o equilíbrio de antagonismos, naqueles minhotos de que nos fala Alberto Sampaio: homens de barba loura e cabelo escuro. Homens morenos de cabelo louro. Esses mestiços com duas cores de pelo é que formaram, ao nosso ver, a maioria dos portugueses colonizadores do Brasil, nos séculos XVI e XVII; e não nenhuma elite loura ou nórdica branca pura: nem gente toda morena e de cabelo preto.

Com a conversão dos godos arianos à ortodoxia católica, a Igreja, pela mão dos seus bispos, ganhou nas Espanhas prestígio superior ao dos reis, juízes e barões. O prestígio canônico que nas suas leis ficou autorizada a jurisdição dos bispos em causas civis desde que o autor ou réu optasse pelo julgamento episcopal. Desde que o autor ou réu preferisse queixar-se ao bispo. Durhn salienta a vigilância contínua que exerciam os bispos sobre a administração da justiça e sobre os juizes. Sobre os próprios reis, pode acrescentar-se. Um que, em Portugal, tentou governar à revelia dos bispos – Sancho II – teve o reinado cortado ao meio; e salva a cabeça por muito favor.

A colonização latifundiária e semi-feudal mais tarde aplicada ao Brasil teve seu começo em Portugal, nessa colonização semi-eclesiástica.

Em Portugal, as ordens religiosas desempenharam importante função criadora não só na reorganização econômica do território reconquistado aos mouros como na organização política das populações heterogêneas. Essas relações de tolerância política permaneceram até que os segregados tornaram-se detentores das grandes fortunas peninsulares. Foi quando a maioria se apercebeu de que sua tolerância estava sendo abusada. Pelo menos pelos judeus.

O tribunal do Santo Ofício se organizou, reunindo à função de examinar as consciências o poder de examinar a frio e metodicamente os bens acumulados por mãos de hereges. Os judeus haviam se tornado antipáticos menos pela sua abominação religiosa  do que pela falta completa de delicadeza e sentimentos, tratando-se de questões de dinheiro com os cristãos.

A escravidão a que foram submetidos os mouros e até moçárabes, após a vitória cristã, foi o meio pelo qual se exerceu sobre o português decisiva influência não só particular do mouro, do maometano, do africano, mas geral, do escravo. Influência que se predispões como nenhuma outra para a colonização agrária, escravocrata e polígama – patriarcal, enfim – da América tropical.

Com a exceção do pequeno número de intransigentes que se concentraram em Astúrias, centro da independência cristã, grande parte das populações cristãs submeteu-se ao domínio político dos mouros. E com eles desenvolveu relações íntimas, conservando porém relativa pureza de fé.

Foram essas populações – os moçárabes – gente impregnada da cultura e mesclada do sangue do invasor, que se constituíram no fundo e no nervo da nacionalidade portuguesa.

Na história do povo português o fato que ao nosso ver, se deve tomar na maior consideração é o social e econômico da precoce ascendência da burguesia, da qual cedo se fizeram aliados os reis contra os nobres. Destes, o prestígio logo empalideceu sob os burgueses. E quase toda a seiva da aristocracia territorial, absorveu-a a onipotência das ordens religiosas latifundiárias ou a astúcia dos capitalismos judeus. Este fato explica não ter a aristocracia territorial em Portugal se ouriçado dos mesmo duros conceitos que nos países de formação feudal, nem contra os burgueses em geral, nem contra os judeus e mouros em particular. Debilitados sob a pressão dos latifúndios eclesiásticos, não poucos aristocratas, dos de origem nórdica, foram buscar na classe média, impregnada de sangue mouro e hebreu, moça rica com quem se casar. Daí resultou em Portugal uma nobreza quase tão mesclada de raça quanto a burguesia ou a plebe. Porque a mobilidade de famílias e indivíduos de uma classe para outra foi constante.

O grosso da população hispano-romano-goda, excluída somente e redutível minoria refugiada em Astúrias, deixou-se impregnar nos seus gostos mais íntimos da influência árabe ou moura. O sistema econômico adotado no Brasil foi o mesmo inaugurado pelos aventureiros nórdicos em Portugal após a reconquista cristã, com a diferença do prestígio eclesiástico não ter aqui absorvido o do particular, o da família, o do senhor feudal. Mas a técnica industrial foi a dos mouros. O engenho de roda e de água, principalmente.

Deve ter sido profunda essa infiltração de sangue infiel, considerando-se não só as íntimas relações entre conquistadores e conquistados durante a invasão africana, como as que se seguiram, entre cristãos e cativos mouro; e entre hispano-romanos e moçárabes. Estes pela sua superioridade técnica impuseram-se à ascendência na escala social e econômica. Ascendência favorecida pelo precoce desenvolvimento da burguesia em Portugal e conseqüente êxodo dos trabalhadores do campo para as cidades. Dentro desse desenvolvimento valorizam-se extraordinariamente as artes industriais e os ofícios de utilidade antes urbana do que rural. Artes e ofícios dominados pela inteligência dos mouros.

A lei de sesmarias de Dom Fernando, promulgada em 1375, tentou enfrentar os dois problemas. O do latifúndio e o do êxodo de trabalhadores do campo para as cidades.

Cultivadores livres, fácil lhes foi, nas novas circustâncias, o triunfo econômico. Fácil sua ascensão na escala social.

Os dois casos são típicos: um, da penetração pela violência exercida pelo invasor polígamo sobre as mulheres do povo vencido; outro, da atração da mulher sarracena, especialmente quando nobre, sobre os homens da população desbaratada.

Ser simplesmente filho d’algo em Portugal não valeu tanto como ser freire. Nos princípios do século XIX Martim Francisco conheceu no interior da capitania de SP homens de procedência nobre exercendo ofícios mecânicos como se fossem plebeus. Prejudicados, portanto, em sua qualidade de nobres, pois as leis do reino derrogavam em tais casos os foros de nobreza.

A nobreza nunca conseguiu formar uma aristocracia fechada.

O que vem reforçar a nossa convicção de ter sido a sociedade portuguesa móvel e flutuante como nenhuma outra, constituindo-se e desenvolvendo-se por uma intensa circulação tanto vertical quanto horizontal de elementos os mais diversos na procedência.

Para o Brasil é provável que tenham vindo, entre os primeiros povoadores, numerosos indivíduos de origem moura e moçárabes, junto com cristãos-novos e portugueses velhos. A colonização do Brasil se fez muito à portuguesa. Isto é: heterogeneamente quanto a procedências étnicas e sociais. Nela não terão predominado nem morenos nem louros, nem os dourados fidalgos de Frei Gaspar nem a escória do Reino.

Os descendentes de moçárabes e de mouros cristianizados já não viriam diretos da servidão da gleba, mas do serviço de poderosos e das ocupações urbanas a que muitos se acolheram para escapar às leis de Dom Fernando. Nas cidades e nos povoados, muitos teriam chegado ao século XVI já engrandecidos, econômica e socialmente, pelo comércio de peles de coelho e pelo exercício da arte não só de sapateiro ou de alfaiate, como de ferreiro e peleteiro.

Suas aptidões técnicas tornavam-nos decerto elementos de grande valor nas expedições colonizadoras de fidalgos arruinados e soldados aventureiros que outra coisa não sabiam senão manejar a espada, agora quase inútil. “Desta escassez de perita mão-de-obra”, “derivou a importância que os mestres, ou homens de ofícios, vieram a ter nos povoados, e seu influxo nas deliberações conselheais”. E tendo, agora, de atender a diversificações e requintes de atividade industrial, e esta livre, nos novos centros urbanos. Daí a força em que se transformaram, ao lado dos comerciantes das cidades marítimas, os técnicos, os obreiros, os artistas.

No culto ao menino Jesus, à Virgem, aos Santos, reponta sempre no Cristianismo português a nota idílica e até sensual. O amor ou o desejo humano.

Impossível conceber-se um cristianismo português, ou luso-brasileiro, sem essa intimidade entre o devoto e o santo.

Vê-se que, com relação aos judeus, como com relação aos mouros, foi grande a mobilidade em sentido vertical, confundindo-se no casamento origens étnicas diversas.

Constituíram-se os judeus em Portugal em grande força e sutil influência pelo comércio, pela agiotagem, pelo exercício de altos cargos técnicos na administração, pelas ligações de sangue com a velha nobreza guerreira e territorial, pela superioridade de sua cultura intelectual e científica.

A marinha mercante portuguesa desenvolveu-se em grande parte graças a impostos especiais pagos pelos judeus por todo navio construído e lançado no mar. Na prosperidade dos judeus baseou-se o imperialismo português para expandir-se.

Compreende-se que os cristãos-novos, vindos da usura, do comércio de escravos e da agiotagem, encontrassem nos títulos universitários de bacharel, de mestre e de doutor a nota de prestígio social que correspondesse às suas tendências e ideais sefardínicos. Que encontrassem na advocacia, na medicina e no ensino superior a maneira ideal de se aristocratizarem.

Concorreram os judeus em Portugal e em partes da Espanha, para o horror à atividade manual e para o regime do trabalho escravo.

Um ponto nos surge claro e evidente: a ação criadora, e de modo nenhum parasitária, das grandes corporações religiosas na formação econômica de Portugal. Eles foram como que os verdadeiros antecessores dos grandes proprietários brasileiros. Na formação agrária do tempo dos afonsinos foram eles o elemento mais criador e mais ativo.

A decadência da agricultura devia atribuir-se aos senhores inertes, ausentes de suas terras, entregues ao luxo das capitais.

O Portugal que chegara a exportar trigo para a Inglaterra tornou-se na sua fase de mercantilismo, o importador de tudo para a sua mesa – menos sal, vinho e azeite.

Ainda assim pode-se concluir que a gente portuguesa atravessou nos seus começos, antes de se transformar em potência marítima, um período de alimentação equilibrada que talvez explique muito da sua eficiência e das suas superiores qualidades de arrojo e de iniciativa até o século XVI.

As causas desse empobrecimento parecem-nos mais profundas e complexas. Ele reflete a sutuação de miséria geral que criou para as Espanhas o abandono da agricultura, sacrificada pelas aventuras marítimas e comerciais; depois, a monocultura, estimulada em Portugal pela Inglaterra através do Tratado de Methuen.

Mas esse exagerado consumo de peixe seco, com deficiência do de carne fresca e de leite, acentuou-se com o declínio da agricultura em Portugal.

Consciente ou inconscientemente agiram no interesse de equilíbrio entre os limitados meios de subsistência e os apetites e necessidades da população. De maneira que a crítica, não é o clero ou a igreja que a merece. O mau vinha de raízes mais fundas. Do declínio da agricultura causado pelo desenvolvimento anormalíssimo do comércio marítimo. Do empobrecimento da terra depois de abandonada pelos mouros. Do parasitismo judeu.

Se há povo algum dado à preguiça, sem ser o português então não sei eu onde ele exista…Esta gente tudo prefere suportar a aprender uma profissão qualquer. Tão grande indolência à custa da escravidão: todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Ao excesso de escravos Clenardo filiou a horrível carestia da vida em Portugal.

Desde quando a economia portuguesa deixou-se empolgar pela fúria parasitária de explorar e transportar riqueza, em vez de produzi-la, não é fácil de se dizer com precisão. Dois portugais antagônicos coexistiram por algum tempo, baralhando-se e confundindo-se na fervura das guerras e revoluções, antes de vencer o Portugal burguês e comercial. Mas os grandes antagonismos que se defrontaram foram os econômicos. O interesse agrário e o comercial.

Portugal, mesmo dono das Índias e do Brasil, tornara-se com a sua improdutividade de nação simplesmente comercial, mero explorador ou transmissor de riqueza.

Mas as condições geográficas não determinam de modo absoluto o desenvolvimento de um povo. A própria oceanidade do território português em oposição à continentalidade da Espanha não constitui senão fator insignificante de diferenciação. E o erudito historiador lembra que “há povos marítimos durante séculos desinteressados do mar, como a Inglaterra e a França”. O mar não teria determinado sozinho a independência nem o comercialismo português.

Neste a romanização intensa não apagou os traços essenciais hispânicos nem a reconquista cristã os profundos traços berberes e mouros.

O meio e as circunstâncias exigiram o escravo.

O índio, precisamente pela sua inferioridade de suas condições de cultura – a nômade, apenas tocada pelas primeiras e vagas tendências para a estabilização agrícola – é que falhou no trabalho sedentário. O africano executou-o com decidida vantagem sobre o índio principalmente por vir de condições de cultura superiores. Cultura já francamente agrícola. Não foi questão de altivez nem de passividade moral.

Mas essas doações pequenas teriam dado resultado em país, como o Brasil, de clima áspero para o europeu e grandes extensões de terra? E de onde viria toda a gente que Varnhagen supôs capaz da fundação de lavouras em meio tão diverso do europeu?

Tenhamos a honestidade de reconhecer que só a colonização latifundiária e escravocrata teria sido capaz de resistir aos obstáculos enormes que se levantaram à civilização do Brasil pelo europeu.

Tudo deixou-se, porém, à iniciativa particular. Os gastos de instalação. Os encargos de defesa militar da colônia. Mas também os privilégios de mando e de jurisdição sobre terras enormes. Da extensão delas fez-se um chamariz, despertando-se nos homens de pouco capital. A atitude da Coroa vê-se claramente qual foi: povoar sem ônus os ermos da América.

Numa feitoria, o capital humano era um; numa colônia agrícola tinha que ser muito maior, mesmo contando-se com a ação multiplicadora da poligamia e da miscigenação. E Portugal, desde seus mais remotos tempos históricos, foi um país em crise de gente. As condições disgênicas de região de trânsito – pestes, epidemias, guerras.

Refletiu-as nas leis portuguesas o problema de escassez de gente ao qual parece às vezes ter-se sacrificado a própria ortodoxia católica. Uma grande tolerância para com toda espécie de união de que resultasse o aumento de gente.

Os grandes santos nacionais tornaram-se aqueles a quem a imaginação do povo achou de atribuir milagrosa intervenção em aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, em proteger a maternidade.

As sobrevivências pagãs no cristianismo português desempenharam assim papel importante na política imperialista. As sobrevivências pagãs e as tendências para a poligamia desenvolvidas ao contato quente e voluptuoso com os mouros.

Outro aspecto da obsessão que se tornou em Portugal o problema do amor físico surpreende-se no fato de não haver, talvez, nenhum país onde a anedota fescenina ou obscena tenha maiores apreciadores. Nem em nenhuma língua os palavrões ostentam tamanha opulência.

A escravidão tomou aspecto acentuadamente mórbido ao tornar-se a monarquia mercantil e imperialista. A vida do escravo era nessa época verdadeiramente horrível em Portugal. E isto devido à necessidade de corrigir-se a todo custo o desequilíbrio demográfico e econômico causado pelas conquistas e aventuras de ultramar. Sob novos estímulos, os senhores foram os primeiros a favorecer a dissolução “para aumentar o número das crias como quem promove o acréscimo de um rebanho”. As necessidades de braços, tanto no reino, desfalcado pela emigração, como nas colônias agrícolas, tornavam proveitosíssimo o comércio de gente.

Sofreram os colonizadores, não exclusiva ou diretamente da América, mas das colônias em geral, dos contatos com povos exóticos e raças atrasadas, das conquistas e das relações ultramarinas, decidida influência no sentido da dissolução moral. O ônus moral do imperialismo.

Perturbaram a moral cristã: o constante estado de guerras causando na península o fluxo e o refluxo de populações; as alternativas de hegemonia; a extrema mobilidade social; a instabilidade econômica, os contatos cosmopolitas por via marítima; a convivência com os maometamos polígamos.

Montesquieu e Treitschke atribuíram ao clima tropical a sensualidade, a poligamia e a escravidão. A primeira devido ao fato de as meninas parecerem tornar-se mais cedo mulheres nos trópicos do que nos países de clima frio ou temperado. A própria escravidão julga-a Treitschke “o complemente do harém” e, por conseguinte, da sensualidade precoce.

A questão da degenerescência de europeus que se têm conservado relativamente puros no Brasil é dificílima de apurar diante das condições de instabilidade social característica de nossa formação agrária. Da dependência em que vivemos, primeiro do açúcar; depois do café; e sempre do escravo negro.

Entre nós, Joaquim Nabuco, ocupando-se da sociedade escravocrata do seu tempo, notou a tendência para a fortuna passar das mãos dos que afundaram para a dos credores.

Essa débâcle devida, principalmente, à instabilidade da riqueza agrária baseada num só produto, e este sujeito, como o açúcar ou o café, a grandes flutuações nos mercados consumidores; e explorado pelo braço escravo.

O aristocrata brasileiro do litoral de PE e do Recôncavo entrou imediatamente no gozo de vantagens que na Europa só as Cortes requintadas conheceram no século XVI.

Vida opulenta, e até espaventosa, a daqueles colonos portugueses que, dispondo de capitais para se estabelecerem com engenhos, conseguiram prosperar no Brasil, logo nos primeiros tempos, à custa do açúcar e do negro.

Já nesse primeiro século de escravidão podia dizer-se, como no último diria Silveira Martins – “o Brasil é o café, e o café é o negro”.

CAPÍTULO IV

O ESCRAVO NEGRO NA VIDA SEXUAL E DE FAMÍLIA DO BRASILEIRO

Nada mais absurdo do que negar-se ao negro sudanês, por exemplo, importado em número considerável para o Brasil, cultura superior à do indígena mais adiantado. Por todos esses traços de cultura material e moral revelaram-se os escravos negros, dos estoques mais adiantados, em condições de concorrer melhor que os índios à formação econômica e social do Brasil. Às vezes melhor que os portugueses.

Pode-se juntar, a essa superioridade técnica e de cultura dos negros, sua predisposição como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto de sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical. Gosto e energia que Bates foi o primeiro a contrastar com o fácil desalento do índio e do caboclo sob o sol forte do norte do Brasil.

O indígena na América, caracteristicamente introvertido, e, portanto, de difícil adaptação. O negro, o tipo do extrovertido. O tipo do homem fácil, plástico, adaptável.

O critério histórico-cultural mostra-nos ter havido da parte dos ameríndios incapacidade antes social e técnica que psíquica e biológica. O fato que avulta é o do nomadismo de vida econômica atuando poderosamente sobre os ameríndios; incapacitando-os para o trabalho agrícola regular. Ora, a esse trabalho e ao da criação de gado e utilização de sua carne e leite, já se tinham afeito várias sociedades africanas, donde nos vieram escravos em grandes massas.

Escravos fugidos que propagariam entre os indígenas, antes de qualquer missionário branco, a língua portuguesa e a religião católica. Aquilombados na Serra dos Pareci, os negros fugidos cruzaram com mulheres roubadas aos indígenas.

No caso dos negros, comparados com os indígenas do Brasil, pode-se talvez atribuir parte de sua superioridade de eficiência econômica e eugênica ao regime alimentar mais equilibrado e rico que o dos outros, povos ainda nômades, sem agricultura regular nem criação de gado.

Não se negam diferenças mentais entre brancos e negros. Mas até que ponto essas diferenças representam aptidões inatas ou especializações devidas ao ambiente ou às circunstâncias econômicas de cultura é problema dificílimo de apurar. Sorokin inclina-se a admitir a superioridade do fator hereditariedade sobre o fator ambiente aproximando-se assim do biologismo. Ninguém investe com maior vigor contra um Huntingto e o determinismo geográfico. Esquece, porém, ao nosso ver, que os dois fatores em muitos pontos se cruzam, sendo difícil de separar a hereditariedade do meio. Principalmente se admitirmos a possibilidade de se transmitires influências adquiridas em novo meio físico ou sob a ação bioquímica.

Lowie considera o fenômeno das diferenças mentais entre grupos humanos mais do ponto de vista da história cultural e do ambiente de cada um do que da hereditariedade ou do meio geográfico puro. E, ainda, da Alemanha e da sua brilhante superioridade musical. Superioridade de raça? A sociedade alemã vem desde algum tempo estimulando sistematicamente a cultura musical, ao contrário da sociedade inglesa que a tem negligenciado. Importa determinarmos a área de cultura de procedência dos escravos, evitando-se o erro de vermos no africano uma só e indistinta figura de “peça de Guiné” ou de “preto da Costa”.

Revela-nos sobre o movimento malê da Bahia em 1835 aspectos que quase identificam essa suposta revolta de escravos como um desabafo ou erupção de cultura adianta, oprimida por outra, menos nobre. Salienta o fato de quase todos os revoltosos saberem ler e escrever em caracteres desconhecidos. Caracteres que “se assemelham ao árabe”, acrescenta o bacharel, pasmado, naturalmente, de tanto manuscrito redigido por escravo.

A formação brasileira foi beneficiada pelo melhor da cultura negra da África, absorvendo elementos por assim dizer de elite que faltaram na mesma proporção ao Sul dos Estados Unidos.

Porque não foi menor o número de sudaneses; estes é que predominaram na formação baiana; pelo menos a certa altura.

Ora, essa política não foi permitir que se juntasse numa capitania número preponderante da mesma nação ou estoque. Do que facilmente podem resultar perniciosas conseqüências.

Nina Rodrigues identificou entre os negros do Brasil que ele conheceu ainda no tempo da escravidão os chamados pretos de raça branca ou Fulas. Gente de cor cobrea avermelhada e cabelos ondeados quase lisos. Os negros desse estoque considerados, por alguns, superiores aos demais do ponto de vista antropológico, devido à mistura de sangue hamítico e árabe vieram principalmente para as capitanias, e mais tarde províncias, do Norte. Daqui, devem alguns ter emigrado para Minas e SP. Predominantemente não-negróide, considera Haddon a esse povo africano de que dá como verdadeiro nome Pulbe.

Os Mandigo, de que o Brasil recebeu várias levas, acusam por sua vez sangue árabe e tuaregue.

Não há, porém, evidência nenhuma de emigração africana para a América inglesa levando consigo fula-fulos – pelo menos na mesma proporção que para a América portuguesa; nem representantes tão numerosos da cultura maometana.

Parece que para as colônias inglesas o critério de importação de escravos da África foi quase exclusivamente o agrícola. O de energia bruta, animal, preferindo-se, portanto, o negro resistente, forte e barato. Para o Brasil a importação de africanos fez-se atendendo-se a outras necessidades e interesses. À falta de mulheres brancas; às necessidades de técnicos em trabalhos de metal, ao surgirem as minas. Duas poderosas forças de seleção.

Oliveira Viana salienta que em MG observam-se hoje nos negros “delicadeza de traços e relativa beleza”, ao contrário das “cataduras simiescas abundantíssimas na região ocidental da Baixada Fluminense”. Deve-se notar que a primeira das regiões atraiu negros afeitos ao trabalho de metais, por conseguinte de cultura mais elevada, enquanto na segunda bastavam aos plantadores de cana-de-açúcar ou de café simples pretalhões vigorosos capazes de dar conta do amanho da terra.

Ilustres famílias daquele Estado terão tido o seu começo nessa união de brancos com negras minas, mas aqui elevadas à condição de “donas-de-casa”. Outras terão permanecido escravas ao mesmo tempo que amantes dos senhores brancos.

Nas capitanias do interior o mulatismo tornara-se um “mal necessário”.

Os homens “não gostavam de casar para toda a vida”, mas de unir-se ou de amasiar-se.

Os escravos vindos das áreas de cultura negra mais adiantada foram um elemento ativo, criador, e quase que se pode acrescentar nobre na colonização do Brasil, degradados apenas pela sua condição de escravos. Longe de terem sido apenas animais de tração e operários de enxada, a serviço da agricultura, desempenharam uma função civilizadora. Foram a mão direita da formação agrária brasileira, os índios, e sob certo ponto de vista, os portugueses, a mão esquerda.

Deixam entrever superioridade técnica do negro sobre o indígena e até sobre o branco: o trabalho de metais e a criação de gado. Poderia acrescentar-se um terceiro: a culinária, que no Brasil enriqueceu-se e refinou-se com a contribuição africana.

A colonização africana do Brasil se realizou principalmente com elementos bantos e sudaneses. Gente de áreas agrícolas e pastoris. Bem alimentada a leite, carne e vegetais. Os sudaneses da área ocidental, senhores de valiosos elementos de cultura material e moral próprios, uns e outros adquiridos e assimilados dos maometanos.

Os sudaneses teriam sido uns como aristocratas das senzalas.

Forçosamente o catolicismo no Brasil haveria de impregnar-se dessa influência maometana como se impregnou da animista e fetichista, dos indígenas e dos negros menos cultos. E é possível que certa predisposição de negros e mestiços para o Protestantismo, inimigo da missa, dos santos, dos rosários com a cruz, se explique pela persistência de remotos preconceitos anti católicos, de origem maometanas.

O catolicismo das casas-grandes aqui se enriqueceu de influência muçulmana contra as quais tão impotente foi o padre-capelão quanto o padre-mestre contra as corrupções do português pelos dialetos indígenas e africanos.

Bilden pretende explicar pela influência da escravidão todos os traços de formação econômica e social do Brasil. Ao lado da monocultura, foi a força que mais afetou a nossa plástica social. Parece às vezes influência de raça o que é influência pura e simples do escravo: do sistema social da escravidão. Da capacidade imensa desse sistema para rebaixar moralmente senhores e escravos.

Goldenweiser saliente quanto é absurdo julgar-se o negro, sua capacidade de trabalho e sua inteligência, através do esforço por ele desenvolvido nas plantações da América sob o regime da escravidão. O negro deve ser julgado pela atividade industrial por ele desenvolvida no ambiente de sua própria cultura, com interesse e entusiasmo pelo trabalho.

Do mesmo modo, parece-nos absurdo julgar a moral do negro no Brasil pela sua influência deletéria como escravo. Impossível a separação do negro, introduzido no Brasil, de sua condição de escravo.

Dentro de tal ambiente, no contato de forças tão dissolventes, seria absurdo esperar do escravo outro comportamento senão o imoral, de que tanto o acusam.

Dizem-se geralmente que a negra corrompeu a vida sexual da sociedade brasileira, iniciando precocemente no amor físico os filhos-família. Mas essa corrupção não foi pela negra que se realizou, mas pela escrava. Onde não se realizou através da africana, realizou-se através da escrava índia.

É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua nem do índio mas do sistema social e econômico em que funcionaram passiva e mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual.

O que se queria era que os ventres das mulheres gerassem. Que as negras produzissem moleques.

Devia o doutor Bernardino ter salientado que essa animalidade nos negros, essa falta de freio aos instintos, essa desbragada prostituição dentro de casa, animavam-na os senhores brancos. No interesse da procriação à grande uns; para satisfazerem caprichos sensuais, outros. Não era o negro, portanto, o libertino: mas o escravo a serviço do interesse econômico e da ociosidade voluptuosa dos senhores. Não era a “raça inferior” a fonte de corrupção, mas o abuso de uma raça por outra. Abuso que implicava em conformar-se a servil com os apetites da todo-poderosa. E esses apetites estimulados pelo ócio – riqueza adquirida sem trabalho”; pela “ociosidade” ou pela “preguiça”, diria Vilhena; por conseguinte pela própria estrutura econômica do regime escravocrata.

O negro foi patogênico, mas a serviço do branco; como parte irresponsável de um sistema articulado por outros.

Vários vieram degredados para o Brasil: cometeu a torpeza dos tocamentos desonestos com algumas quarenta pessoas pouco mais ou menos, abraçando, beyjando.

Por “abraçar e beijar” foram degredados de Portugal para o Brasil numerosos indivíduos; e a esse elemento branco e não à colonização negra deve-se atribuir muito da lubricidade brasileira.

A freqüência de feitiçaria e da magia sexual entre nós é outro traço que passa por ser de origem exclusivamente africana.

Sabe-se aliás que em Portugal a bruxaria chegou a envolver a vida de pessoas as mais cultas e ilustres.

O amor foi grande motivo em torno do qual girou a bruxaria em Portugal. A feitiçaria de direita origem africana aqui desenvolveu-se em lastro europeu. Sobre abusões e crenças medievais.

Foi a perícia no preparo de feitiços sexuais e afrodisíacos que deu tanto prestígio a escravos macumbeiros junto a senhores brancos já velhos e gastos.

As histórias portuguesas sofreram no Brasil consideráveis modificações na boca das negras velhas ou amas-de-leite. Foram as negras que se tornaram entre nós as grandes contadoras de histórias.

A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles.

No ambiente relasso da escravidão brasileira, as línguas africanas, sem motivos para subsistirem à parte, em oposição à dos brancos, dissolveram-se nela, enriquecendo-a de expressivos modos de dizer; de toda uma série de palavras deliciosas de pitoresco; agrestes e novas no seu sabor.

Mas nenhuma influência foi maior que a do negro.

Logo que a criança deixa o berço, dão-lhe um escravo do seu sexo e de sua idade, pouco mais ou menos, por camarada, ou antes, para seus brinquedos.

Sobre a criança do sexo feminino, principalmente, se aguçava o sadismo, pela maior fixidez e monotonia nas relações da senhora com a escrava. Nascem, criam-se e continuam a viver rodeadas de escravos, sem experimentarem a mais ligeira contrariedade, concebendo exaltada opinião de sua superioridade sobre as outras criaturas humanas, e nunca imaginando que possam estar em erro. Além disso, aborrecendo-se facilmente. Falando alto. Gritando de vez em quando. Atribuem a fala estridente e desagradável das brasileiras ao hábito de falarem sempre aos gritos, dando ordens às escravas.

Quanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores no tratamento dos escravos é feito geralmente observado nas sociedades escravocratas.

O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher.

O isolamento árabe em que viviam as antigas sinhá-donas, principalmente nas casas-grandes de engenho, tendo por companhia quase que exclusivamente escravas passivas; sua submissão muçulmana diante dos maridos, a quem se dirigiam sempre com medo, tratando-os de “Senhor”, talvez constituíssem estímulos poderosos ao sadismo das sinhás, descarregado sobre as mucamas e as mulecas em rompantes histéricos.

Objetar-se-á que o sexo é todo-poderoso quando desembestado; e não o negamos de modo algum. A dificuldade que reconhecemos é mais a física: a das grossas paredes.

O que os casamentos entre parentes, tão comuns no Brasil do tempo da escravidão, nunca impediram, foi que lutas tremendas separassem primos e até irmãos, genros e sogros, tios e sobrinhos, extremando-os em inimigos de morte; que grandes famílias se empenhassem em verdadeiras guerras por questões de heranças ou de terras, às vezes por motivos de honra ou de partidarismo político.

Ainda hoje, nas velhas zonas rurais, o folclore guarda a reminiscência dos casamentos precoces para a mulher; e a idéia de que a virgindade só tem gosto quando colhida verde.

As senhoras ficavam com o ar de velhas muito depressa.

As mulheres, ainda moças, perdiam os dentes; e pelo costume de estarem sempre sentadas, no meio das mucamas e negras que lhes faziam as menores cousas, andavam “como se tivessem cadeias nas pernas”.

Um fato triste é que muitas novas de quinze anos morriam logo depois de casadas. Meninas. Muito menino brasileiro do tempo da escravidão foi criado inteiramente pelas mucamas. Raro o que não foi amamentado por negra. Que não aprendeu a falar mais com a escrava do que com o pai e a mãe. Que não cresceu entre muleques. Brincando com muleques. Aprendendo safadeza com eles e com as negras da copa.

Mas aceita, de modo geral, como deletária a influência da escravidão doméstica sobre a moral e o caráter do brasileiro da casa-grande, devemos atender às circunstâncias especialíssimas que entre nós modificaram ou atenuaram os males do sistema. Desde logo salientamos a doçura nas relações de senhores com escravos domésticos, talvez maior no Brasil do que em qualquer outra parte da América.

Quanto às mães-pretas, referem as tradições o lugar verdadeiramente de honra que ficavam ocupando no seio das famílias patriarcais. Alforriadas, arredondadavam-se quase sempre em pretalhonas enormes. Negras a quem se faziam todas as vontades: os meninos tomavam-lhe a bênção; os escravos tratavam-nas de senhoras; os boleeiros andavam com elas de carro. E dia de festa, quem as visse anchas e enganjentas entre os brancos de casa, havia de supô-las senhoras bem-nascidas; nunca ex-escravas vindas da senzala.

No Brasil sempre se fez mais questão da condição religiosa do escravo: “Os africanos importados de Angola”, informa Koster, são batizados em massa antes de saírem de sua terra, e chegando ao Brasil ensinam-lhes os dogmas religiosos e os deveres do culto que vão seguir. O negro sem batismo, vê-se com pesar considerado um ser inferior e embora ignorando o valor que os brancos ligam àquela cerimônia, sabe que deve lavar a mancha que lhe exprobram e mostra-se impaciente por tornar-se igual aos outros. Os africanos, chegados há muito tempo, estando já imbuídos de sentimentos católicos, parecem esquecer que outrora estiveram nas mesmas condições que os recém-chegados.

Mas retificar a idéia de que através da ama-de-leite o menino da casa-grande só fizesse receber da senzala influências ruins; absorvendo com o primeiro alimento os germe de todas as doenças e superstições africanas. Os germes de doenças, recebeu-os muitas vezes; e outras os transmitiu.

A política de assimilação consistiu principalmente em dar aos negros a oportunidade de conservarem, à sombra dos costumes europeus e dos ritos e doutrinas católicas, formas e acessórios da cultura e da mítica africana.

Na ordem de sua influência, as forças que dentro do sistema escravocrata atuaram no Brasil sobre o africano recém-chegado foram: a igreja; a senzala; a casa-grande propriamente dita. O método de desafricanização do negro “novo”, aqui seguido, foi o de misturá-lo com a massa de “ladinos”, ou veteranos; de modo que as senzalas foram uma escola prática de abrasileiramento.

A verdadeira iniciação do “negro novo” na língua, na religião, na moral, nos costumes dos brancos, ou antes, dos negros “ladinos”, fez-se na senzala e no eito, os “novos” imitando os veteranos.

Outras forças podem-se particularizar como tendo atuado sobre os negros no sentido do seu abrasileiramento. O meio físico. A qualidade e o regime da alimentação. A natureza e o sistema de trabalho.

A escolha da escrava negra para ama de menino sugere-nos outro aspecto interessantíssimo das relações entre senhores e escravos no Brasil: o aspecto higiênico. De Portugal transmitira-se ao Brasil o costume das mães ricas não amamentarem os filhos, confiando-os ao peito de saloias ou escravas.

Pois essa multiplicação de gente se fazia à causa do sacrifício das mulheres, verdadeiras mártires em que o esforço de gerar, consumindo primeiro a mocidade. Logo consumia a vida.

A esse fato, e não a nenhuma imposição da moda, deve-se atribuir a importância, em nossa organização doméstica, da escrava ama-de-leite, chamada da senzala à casa-grande para ajudar franzinas mães de quinze anos a criarem os filhos.

Uma medicina que pela voz de seus doutores mais ortodoxos receita aos doentes tamanhas imundícies dificilmente pode firmar pretensões de superior à arte de curar dos africanos e ameríndios. No Brasil colonial parece-nos justo concluir terem médicos, comadres, curandeiros e escravos sangradores contribuído quase por igual para a grande mortalidade, principalmente infantil e das mães.

Foi talvez a esfera em que mais dolorosa e dificilmente se processou a adaptação dos europeus ao meio tropical americano – a da higiene infantil. Noções que, nocivas à criança em clima temperado, em clima quente significaram muitas vezes a morte.

Nieuhof salientou a grande mortalidade infantil nos primeiros séculos de colonização: teve, porém, o bom senso de atribuí-la menos ao clima ou à escrava africana que à alimentação imprópria.

Em 1847, o Barão de Lavradio, concluindo pela predominância das seguintes causas: o mau tratamento do cordão umbilical; vestuário impróprio; pouco cuidado no princípio das moléstias das escravas e das crianças de mais idade; alimentação desproporcional, insuficiente ou imprópria; desprezo no princípio das moléstias da primeira infância, apresentando-se ao médico crianças moribundas de gastroenterites, hepatites e tubérculos mesentéricos.

As causas da mortalidade infantil no Brasil do tempo da escravidão – causas principalmente sociais – fixa-as com admirável nitidez de senso crítico José Maria Teixeira, atribuindo-as principalmente ao sistema econômico da escravidão, isto é, aos costumes sociais dele decorrentes: falta de educação física e moral e intelectual das mães; desproporção na idade dos cônjuges; freqüência de nascimentos ilícitos. O regime impróprio da alimentação; o aleitamento por escravas nem sempre em condições higiênicas de criar; a sífilis dos pais ou das amas. Foi evidentemente a ação dessas influências que muitos confundiram com a de clima.

O menino do tempo da escravidão parece que descontava os sofrimentos da primeira infância – doenças, castigos por mijar na cama, purgante uma vez por mês – tornando-se dos cinco aos dez anos verdadeiro menino-diabo. Seus jogos e brincadeiras acusam nele, como já observamos, tendências acremente, sadistas.

Noutros vícios escorregava a meninice dos filhos do senhor de engenho; nos quais, um tanto por efeito do clima e muito em conseqüência das condições de vida criadas pelo sistema escravocrata, antecipou-se sempre a atividade sexual, através de práticas sadistas e bestiais. As primeiras vítimas eram os moleques e animais domésticos; mais tarde é que vinha o grande atoleiro de carne: a negra ou a mulata. Nele é que se perdeu, como em areia gulosa, muita adolescência insaciável.

Nenhuma casa-grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O que sempre se apreciou foi o menino que cedo estivesse metido com raparigas. Raparigueiro, como ainda hoje se diz. Femeeiro. Deflorador de mocinhas. E que não tardasse em emprenhar negras, aumentando o rebanho e o capital paternos.

O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com a sua docilidade de escrava; abrindo as pernas ao primeiro desejo do senhor-moço. Desejo, não: ordem.

Superexcitados sexuais foram antes estes senhores que as suas negras ou mulatas passivas.

Amolegado por tantos mimos e resguardos da mãe e das negras, era natural que muito menino crescesse amarelo: a mesma palidez das irmãs e da mãe enclausuradas nas casas-grandes.

Vilhena ficou admirado do número de molequinhos – negros e mulatos – criados dentro de casa “com mimo extremoso”.

Tanto o excesso de mimo de mulher na criação dos meninos e até dos mulatinhos, como o extremo oposto constituíram vícios de educação, talvez inseparáveis do regime de economia escravocrata, dentro do qual se formou o Brasil. Vícios de educação que explicam melhor do que o clima, e incomparavelmente melhor que os duvidosos efeitos da miscigenação sobre o sistema do mestiço, a precoce iniciação do menino brasileiro na vida erótica.

Gustavo Barroso, em estudo sobre as populações sertanejas no Nordeste, diz serem comuns, no sertão, rapazes de mais de vinte anos ainda virgens. Sente-se aí o resultado da influência direta da escravidão sobre estas duas zonas; e apenas indireta e remota sobre o sertão.

Fosse o clima a causa principal da sensualidade brasileira e teria agido sobre os sertanejos ao mesmo tempo que sobre os brejeiros e as populações do litoral.

O mesmo interesse econômico dos senhores em aumentar o rebanho de escravos que corrompeu a família patriarcal no Brasil e em Portugal corrompeu-a no sul dos EUA.

A verdade, porém, é que nós é que fomos os sadistas; o elemento ativo na corrupção da vida em família; e moleques e mulatas o elemento passivo. Exprimiu-se nessas relações o espírito do sistema econômico que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos.

CAPÍTULO V

O ESCRAVO NEGRO NA VIDA SEXUAL E DE FAMÍLIA DO BRASILEIRO (CONTINUAÇÃO)

Meninos-diabos eles só eram até os dez anos. Daí em diante tornavam-se rapazes. Seu trajo, o de homens feitos. Seus vícios, os de homens. Sua preocupação, sifilizarem-se o mais breve possível.

Os colégios dos jesuítas no primeiros dois séculos, depois os seminários e colégios de padre, foram os grandes focos de irradiação de cultura no Brasil colonial.

Só negros e moleques parecem ter sido barrados das primeiras escolas jesuíticas.

Também as leis portuguesas proibiam os indivíduos com sangue de mouro ou negro de ser admitidos ao sacerdócio. Talvez o tenha sido até o século XVIII. Observadores estrangeiros dos mais merecedores de fé deixam bem clara a existência – no século XIX, pelo menos – de padres de sangue negro.

Raros os governadores portugueses no Brasil que tiveram, já não diremos contra os índios, mas contra os negros, a atitude áspera e intolerante do 8º vice-rei, Marques de Lavradio; o qual em portaria de 6 de agosto de 1771 rebaixou a um índio do posto de capitão-mor por ter casado com uma negra e assim “haver manchado o seu sangue e se mostrado indigno do cargo.” Mas, atitudes, todas essas, esporádicas; fora da tendência genuinamente portuguesa e brasileira, que foi sempre no sentido de favorecer o mais possível a ascensão social do negro.

Dentro de casa, nas horas de modorra, é que homens, mulheres e meninos desforravam-se dos excessos europeus de vestuário. Os meninos andando nus ou de sunga, nenê. Os grandes, de chinelo sem meia e pés descalços; os senhores de engenho, de chambre de xita por cima das ceroulas.

A falta de adaptação do trajo brasileiro ao clima prolongou-se, porém, ao século XIX. Houve não só banda de música de negros, mas circo de cavalinhos em que os escravos faziam de palhaços e acrobatas. Muitos acrobatas de circo, sangradores, dentistas, barbeiros e até mestre de meninos – tudo isto foram os escravos no Brasil.

Imagine-se a saudade com que os meninos de engenho ao estudar nos internatos, neste caso, hospedando-se em casa dos comissários de açúcar ou café. Os comissários foram muitas vezes uns segundos pais dos meninos de engenho.

Nos antigos colégios, se houve por um lado, em alguns casos, lassidão – fazendo-se vista grossa a excessos, turbulências e perversidades dos meninos – por outro lado abusou-se criminosamente da fraqueza infantil. Houve verdadeira volúpia em humilhar a criança; em dar bolo em menino. Reflexo da tendência geral para o sadismo criado no Brasil pela escravidão e pelo abuso do negro.

Os barões e viscondes do império, para tomarem ar dos europeus, não só deram para forrar os tetos das casas-grandes – até então de telha-vã – como para adotar regras de bom tom francesas e inglesas na criação dos filhos e adotá-las com exageros e excessos.

As meninas criadas em ambiente rigorosamente patriarcal, estas viveram sob a mais dura tirania dos pais – depois substituída pela tirania dos maridos.

Mas em geral, nessas histórias de filhas ou esposas assassinadas pelos patriarcas, andou sempre enredo, ou de frade ou de escrava. Principalmente de escrava.

Frésier e Froger tiveram quase a mesma impressão que Coreal das mulheres baianas: muito enclausuradas e só saindo de casa para irem à igreja; mas “quase todas libertinas” e sempre engendrando meios ou achando jeito de iludir a vigilância dos maridos ou dos pais.

Introduzidas as mulheres africanas no Brasil dentro dessas condições irregulares de vida sexual, a seu favor não se levantou nunca, como a favor das mulheres índias, a voz poderosa dos padres da Companhia.

No século XVII, já não eram as relações dos portugueses com as pretas, as de pura animalidade dos primeiros tempos. Muita africana conseguira impor-se ao respeito do branco.

Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo, cochilando.

Dampier chegou a escrever que os colonos no Brasil, do mesmo modo que os espanhóis e os portugueses, pouca importância ligavam a mobiliário ou a quadros; só faziam questão de grandes casas e de muitos escravos, festas de igrejas, mulheres, molecas.

Em nada lhe pareceu mais digno no brasileiro colonial que o fato de ter sempre em sua casa lugar destinado ao culto divino.

Ao sentirem aproximar-se a morte, pensavam os senhores nos seus bens e escravos em relação com os filhos legítimos seus descendentes; os testamentos acusam a preocupação econômica de perpetuidade patriarcal através dos descendentes legítimos. Mas acusam – às vezes, em antagonismos com esses espírito de perpetuidade e de legitimidade – um vivo sentimento cristão de ternura pelos bastardos e pelas negras.

Raro o senhor de engenho que morreu sem deixar alforriados no testamento, negros e mulatas de sua fábrica. É verdade que “o alforriado” é muita vez um bastardo.

Foi costume sepultarem-se os senhores e pessoas da família quase dentro de casa: em capelas que eram verdadeiras puxadas da habitação patriarcal. Os mortos ficavam na companhia dos vivos: até que os higienistas, já no segundo Império, começaram perguntar: “até quando persistirá a triste prerrogativa dos mortos envenenarem a vida dos vivos?”

Muitos negros foram enterrados na beira da praia; mas em sepulturas rasas.

Le Gentil de la Barbinais escreveu que se não fossem os santos e as amásias os colonos, no Brasil, seriam muito ricos. Mas, todo dinheiro era pouco para fazerem figura nas festas de igreja.

O grande problema da colonização portuguesa do Brasil – o de gente – fez que entre nós se atenuassem escrúpulos contra irregularidades de moral ou conduta sexual. Talvez em nenhum país católico tenham até hoje os filhos ilegítimos, particularmente os de padre, recebido tratamento tão doce; ou crescido em circunstâncias tão favoráveis.

No século XVI, com exceção dos jesuítas – donzelões intransigentes – padres e frades de ordens mais relassas em grande número se amancebaram com índias e negras.

Mas os eclesiásticos libertinos não se pode afirmar que tenham sido o maior número; houve sacerdotes que impressionaram protestantes ingleses pelo seu saber e por suas preocupações elevadas; pela sua bondade e instrução. Outros tiveram comadres; mas discretamente, quase sem pecado. Vivendo vida como de casado; criando e educando com esmero os afilhados ou sobrinhos. Sem perderem o respeito geral.

Ellis Jr imagina resultados ainda “mais funestos” da seleção religiosa exercida pelo catolicismo sobre a família brasileira: “também afastou da reprodução os elementos de maior valor cerebral, diminuindo assim a força do intelecto da população, visto como era costume, entre as famílias paulistas, dedicarem à carreira sacerdotal o filho que maiores pendores manifestasse pelas cousas intelectuais.” Não nos parece que todo esse superior potencial eugênico tenha sido abafado e esterilizado pela “seleção religiosa”. Raros, entre nós, os eclesiásticos que se conservaram estéreis.

Luis dos Santos Vilhena, o erudito professor régio de língua grega nos tempos coloniais, enxergava sério inconveniente no patriarcalismo torto dos clérigos. Ligando-se muitos, não com moças brancas ou brancaranas, cuja descendência pudesse ser reabsorvida facilmente na família antiga e legítima, mas com negras ou mulatas chapadas, resultava daí a dispersão dos bens por mãos de mulatos. De qualquer modo, na freqüência das uniões irregulares de homens abastados – negociantes, eclesiásticos, proprietários rurais – com negras e mulatas, devemos enxergar um dos motivos da rápida e fácil dispersão da riqueza nos tempos coloniais, com prejuízo, não há dúvida para a organização da economia patriarcal e para o Estado capitalista, mas com decididas vantagens para o desenvolvimento da sociedade brasileira em linhas democráticas.

Acresce que a atividade patriarcal dos padres, embora exercida, muitas vezes, em condições morais desfavoráveis, trouxe à formação do Brasil a contribuição de um elemento social e eugenicamente superior.

Salientou este fato de grande significação para o estudo da formação brasileira: a ampla oportunidade de escolherem os senhores, nas sociedades escravocratas, as escravas mais belas e mais sãs para suas amantes. Oportunidade que no Brasil já tivera o colonizador português com relação às índias.

Sob a pressão desses preconceitos desenvolvem-se em muito mestiço evidente complexo de inferioridade que o mesmo no Brasil, país tão favorável ao mulato, se observa em manifestações diversas.

Os negros e as pretas chamados de ganho serviram para tudo no Brasil: trazendo de tarde os proventos para o senhor.

Mas o grosso da prostituição formaram-no as negras, exploradas pelos brancos. Foram os corpos das negras – às vezes meninas de 10 anos – que constituíram na arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro, o bloco formidável que defendeu dos ataques e afoitezas dos don juans a virtude das senhoras brancas.

À pureza das senhoras brasileiras do tempo da escravidão, que muita dessa castidade e dessa pureza manteve-se à custa da prostituição da escrava negra.

No caso dos escravos constituídos cristãmente em família, à sombra das casas-grandes e dos velhos engenhos, terá havido, na adoção dos nomes fidalgos, menos vaidade tola que natural influência do patriarcalismo.

É que a partir da Independência os livros franceses de receita e bom-tom começaram seu trabalho de sapa da verdadeira cozinha brasileira; começou o prestigio das negras africanas de forno e fogão a sofrer consideravelmente da influência européia.

Poderia ter acrescentado que os escravos, preparando para a mesa dos senhores brancos carnes e peixes sobrecarregados de pimenta e de temperos alimentaram-se melhor nas suas senzalas, conservando no Brasil a saudável predileção africana pelos vegetais. No regime alimentar dos escravos negros os vegetais tiveram parte saliente, foram de uso diário.

A risada do negro é que quebrou toda essa “apagada e vil tristeza” em que se foi abafando a vida nas casas-grandes.

Um comentário em “Resumo / Fichamento: CASA GRANDE & SENZALA – Gilberto Freyre (parte 2)”

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